Seja uma humilde estalagem…

“Ah! Como me repugna impor a outro meus próprios pensamentos! Quero me regozijar com cada pensamento que me vem, com cada retorno secreto que ocorre em mim, onde as ideias dos outros passam a ter valor em detrimento das minhas! Mas, de tempos em tempos, sobrevém uma festa maior ainda, quando é expandir o próprio bem espiritual, semelhante ao confessor sentado num canto, ansioso por ver chegar alguém que tenha necessidade de consolo, que fala da miséria de seus pensamentos, a fim de lhe encher de novo o coração e as mãos e aliviar sua alma inquieta! Não somente o confessor não quer ter glória com isso: ele gostaria até de se furtar ao reconhecimento, pois, é  indiscreto e sem pudor diante da solidão e do silêncio. Mas viver sem nome ou exposto a leve troça, muito obscuramente para despertar a inveja ou a inimizade, armado de um cérebro sem febre, de um punhado de conhecimentos e de uma bolsa cheia de experiências, ser para o espírito uma espécie de médico dos pobres e ajudar um e outro quando sua cabeça está perturbada por opiniões, sem que perceba com certeza a quem ajudou! Não procurar ter razão diante dele e celebrar uma vitória, mas falar-lhe de maneira que, após uma pequena indicação perceptível ou uma objeção, ele encontre por si mesmo o que é verdadeiro e que se vá orgulhosamente por causa disso! Ser como uma humilde estalagem que não recusa ninguém que precise, mas que depois é logo esquecida e ridicularizada! Não ter vantagem em nada, nem melhor alimentação, nem ar mais puro, nem espírito mais alegre – mas sempre oferecer, restituir, comunicar, tornar-se mais pobre! Saber ser pequeno para ser acessível a muita gente e não humilhar ninguém! Tomar sobre si muitas injustiças e ter rastejado como vermes por toda espécie de erros, para poder penetrar, em caminhos secretos, em muitas almas escondidas! Sempre numa mesma espécie de amor e sempre num mesmo egoísmo e numa mesma alegria de si! Possuir autoridade, mas manter-se ao mesmo tempo oculto, renunciador! Manter-se constantemente estendido ao sol da amenidade e da graça, mas saber que o acesso do sublime está ao alcance da mão! – Aí está o que seria uma vida! Aí está uma razão para viver muito tempo!”

Friedrich W. Nietzsche

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