The lost history of Christianity – John Philip Jenkins

Trechos do Capítulo 1 – The End of Global Christianity

As religiões morrem. Ao longo do curso da história, algumas religiões desapareceram completamente, enquanto outras são reduzidas, de religiões mundiais a um punhado de aderentes. O maniqueísmo, uma religião que chegou a ter aderentes da França até a China, não existe mais de nenhuma forma organizada ou funcional; a mesma coisa com as religiões que dominavam o México e a América Central, meio milênio atrás. Em alguns casos, certas religiões podem sobreviver em algumas partes do mundo mas se tornam extintas em territórios que antes eram dominados por elas. Durante mil anos, a Índia era majoritariamente Budista, uma religião que agora tem status insignificante no país. A Pérsia já foi do Zoroastrismo; a maior parte da Espanha,já foi muçulmana. Não é difícil encontrar países ou até mesmo continentes, que foram o “berço” e terra de origem de uma religião particular, e onde esta religião está agora extinta, e tais desastres não se restringem a crenças “primitivas”. Os sistemas que pensamos ser de grandes religiões mundiais são tão vulneráveis à destruição como foram as religiões dos Astecas ou Maias e seus deuses particulares. O Cristianismo, também, foi em muitas ocasiões, destruído em regiões onde um dia, floresceu. Na maioria dos casos, a eliminação foi tão completa que obliterou qualquer memória de que os cristãos  já estiveram lá, então hoje qualquer presença cristã nesses lugares é vista como um tipo de espécie invasiva vinda do ocidente. No entanto, tal comentário acerca da destruição das igrejas vai contra a história do Cristianismo como ela aparece na consciência popular.

Geralmente, essa história é apresentada como uma lenda de constante expansão, do Oriente Médio até a Europa e finalmente no mundo todo. O Cristianismo parece ter se estendido de forma livre e inexorável, por isso raramente pensamos em grandes reveses ou contratempos. Quando ouvimos sobre desastres e perseguições, são geralmente mencionados como o prelúdio para grandes avanços posteriores, uma oportunidade para a resistência heroica à opressão. Os protestantes sabem como a sua fé sobreviveu a todas as perseguições e abate das guerras religiosas; os católicos lembram como as piores atrocidades inflingidas por regimes protestantes ou ateus não puderam silenciar sua crença. Observadores modernos testemunham a sobrevivência das igrejas sob o Comunismo, e o triunfo final simbolizado pelo papa João Paulo II. Como ensina o hino, a verdade permanecerá, apesar da masmorra, do fogo e da espada.

Qualquer pessoa que seja familiar com a história do Cristianismo, leu sobre a plantação, origem e desenvolvimento das igrejas, mas quantas delas conhecem relatos do declínio ou extinção de comunidades ou instituições cristãs?  A maioria dos cristãos considerariam esse conceito muito inquietante. Entretanto, esse tipo de eventos certamente aconteceu, e mais do que pode-se imaginar. Durante a Idade Média, deserções em massa e perseguições através da Ásia e do Oriente Médio, desenraizou o que então eram as mais numerosas comunidades cristãs do mundo, igrejas que possuíam uma conexão linear e cultural vibrante com os primeiros cristãos da Síria e Palestina. O Japão do século XVII eliminou completamente uma presença cristã, que fez o Cristianismo global ficar muito perto de se tornar uma força real no país, possivelmente até, conseguir uma conversão nacional. Repetidamente ao longo da sua história, a árvore da igreja tem sido podada e cortada, algumas vezes, com selvageria.

Estes episódios de remoção ou destruição em massa marcaram profundamente o caráter da fé cristã. Nos tempos atuais, estamos acostumados a pensar no Cristianismo como tradicionalmente embasado na Europa e na América do Norte, e só gradualmente aprendemos o conceito estranho da disseminação da religião a um estágio global envolvendo a África, Ásia e América Latina.  Tão enraizado está o Cristianismo na herança ocidental que parece revolucionário contemplar esse tipo de globalização, com todos os seus impactos potenciais na teologia, arte e liturgia. Uma religião que é geralmente relacionada com a Europa, de alguma maneira tem que se adaptar a esse mundo exterior, ajustando muitos pressupostos desenhados pela cultura europeia.  Alguns chegam a perguntar se este cristianismo global ou mundial, poderia permanecer totalmente autêntico, pois as normas europeias parecem representar um tipo de padrão áureo para o cristianismo.

Mas tais questões são irônicas quando visualizamos quão não natural é a ênfase Euro-americana, quando vista diante do contexto mais amplo da história cristã. A forma específica de Cristianismo com a qual estamos familiarizados é uma parte radical do que ao longo de um milênio foi a norma histórica: outro cristianismo global, mais antigo, já existiu. Na maior parte da sua história, o Cristianismo foi uma religião tricontinental, com representações poderosas na Europa, África e Ásia, e isso era verdade no século XIV.  O Cristianismo se tornou predominantemente europeu, não porque este continente tivesse alguma afinidade pela fé cristã, mas por essa razão: a Europa foi o continente onde o Cristianismo não foi destruído. Essa questão poderia ter se desenvolvido de forma bem diferente.

Na descrição da queda das igrejas não europeias, não estou oferecendo um lamento por uma hegemonia cristã mundial que nunca ocorreu, e muito menos pelo fracasso em resistir à religiões rivais, tais como o Islã. Devemos, sim, lamentar a destruição de uma cultura outrora florescente, assim como podemos lamentar o fim da Espanha muçulmana, da Índia budista, ou o mundo judaico da Europa Oriental. Com a possível exceção de algumas poucas religiões sangrentas ou violentas, a destruição de qualquer tradição religiosa significante, é uma perda irreparável para a experiência e cultura humanas. Além disso, a experiência cristã oferece lições que podem ser aplicadas, de forma geral, ao destino de outras religiões que sofreram perseguição ou eliminação.  Se uma crença tão vigorosa e difundida como foi o Cristianismo do Oriente Médio ou da Ásia, pôde cair em total esquecimento, nenhuma religião está livre de passar pelo mesmo. E os meios pelos quais essa queda surpreendente ocorreu, pode ser de grande interesse para qualquer um interessado em contemplar o futuro de qualquer crença ou denominação.

Acima de tudo, redescobrir esses mundos perdidos do cristianismo da África e Ásia, levanta sérias questões sobre a natureza da memória histórica. Como podemos ter esquecido uma história tão vasta? Em termos da história do Cristianismo, o qual geralmente associamos tão prontamente com o ocidente, muito do que pensamos que sabemos é impreciso, em termos de lugares e épocas nos quais as coisas aconteceram, e como as mudanças religiosas ocorreram. Além disso, muitos aspectos do Cristianismo que concebemos serem modernos, eram na verdade a regra do passado distante: a globalização, o encontro com outras religiões, e os dilemas de viver sob regimes hostis. Como podem os nossos mapas mentais sobre o passado, estarem tão radicalmente distorcidos?

The lost history of Christianity: The thousand-year golden age of the Church in the Middle-East, Africa and Asia – and how it died – John Philip Jenkins

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