Se a bíblia fosse escrita hoje…

Se a bíblia fosse escrita hoje, por exemplo, uma continuação do livro de Atos, será que conseguiriam fazer a verdade falar mais alto do que preocupação com a imagem? Será que conseguiriam sair da propaganda e do marketing, para enxergar e relatar as coisas sem dourar a pílula para lado nenhum?

Será que os líderes teriam coragem, ou gostariam de ver publicadas, como se fossem livros da bíblia, as “epístolas” que escrevem uns para os outros? Não passariam vergonha? Será que teriam coragem de expor as mesquinharias com as quais ocupam seu tempo, para aparecerem ao lado das epístolas de Pedro, Tiago, João, Paulo?

Será que os erros de homens como Davi, Salomão e Pedro, as brigas, as dúvidas, os fracassos, que são descritos na bíblia para quem quiser ler, apareceriam nessa continuação? Ou só “vitórias”, coisas “tremendas”, “explosão de milagres”, “chuva de bençãos”, “manifestações de poder”,  e “moveres sobrenaturais”?

Será que os fatos seriam descritos fielmente, sem poupar erro algum, de líder nenhum? Sem puxar a sardinha para o lado dos ídolos gospel, sem se preocupar em preservar a reputação de vendedores de prosperidade, dos milagreiros de plantão, dos que inventam mentiras para parecerem mais espirituais do que os outros, dos tele-evangelistas que só faltam vender a mãe na televisão? E as maracutaias, os conchavos por baixo dos panos, as puxadas de tapete, a inveja que um pregador famoso tem do outro, os bastidores dos eventos, a indústria de músicas e DVDs de péssimo gosto, cachês milionários, as negociatas em época de eleições, tanto para cargos dentro das igrejas, quanto para cargos públicos etc?

Com essa ênfase na imagem, onde é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um líder de qualquer coisa que envolva a instituição chamada igreja, admitir quando comete erros (e mais difícil ainda do que admitir, corrigir), acho difícil. Acho que nem Deus conseguiria fazer com que deixassem de lado essa necessidade doentia de ter imagens imaculadas de pessoas que nunca erram, e serem idolatrados como deuses, acima do resto da humanidade, para ficar com a verdade, expor e tratar os erros com sinceridade. Foi errando, enxergando e se corrigindo que os doze discípulos de Jesus aprenderam, e não escondendo, ignorando, e fazendo de conta que eram X-Men e não homens de carne e osso, e os erros não existiam, enquanto empurravam com a barriga até o próximo escândalo.

Eu não entendo essa falta de naturalidade para lidar com os próprios erros que vejo entre muitos cristãos. Seria falta de humildade? Preocupação em passar ao mundo, uma imagem de perfeição, que só seria verdade na eternidade? Eu às vezes fico chocada com essa necessidade, que vejo entre muitos, de parecer mais perfeitos do que realmente são. E falar isso, não tem nada a ver com dizer que não se deve buscar ser melhor, e sim, que isso é bem diferente de parecer ser o que não se é. Porque se os cristãos fossem, realmente, como dizem que são nas propagandas de igreja, o mundo não estaria vendo o contrário, todos os dias, em todos os meios de comunicação. Se as pessoas dentro da igreja não se enxergam, quem está fora, enxerga muito bem. A propaganda é pra enganar quem? Ou é para se auto-enganar, enquanto faz de conta que é discípulo exemplar de Jesus?

O que evangélicos/crentes/cristãos/afins geralmente fazem, quando um líder faz ou diz uma bobagem e recebe críticas, é apelar para “não julgue”, “não toque no ungido”, “ninguém joga pedra em árvore que não dá fruto”, ou dizem que é “perseguição” ou que os líderes estão sendo vítimas de “conspirações” (quando são, isso sim, vítimas da própria concupiscência, e nada mais). Nem passa pela cabeça deles, cogitar qualquer possibilidade de o seu líder idolatrado, estar errado de verdade, ou ser capaz de errar, como qualquer ser humano. E muito menos ainda, passa pela cabeça das pessoas em posição de liderança, admitir diante do seu “séquito”, que fizeram ou disseram mesmo uma besteira. Vão negar até a morte, e incitar o “séquito” de crentes a atacar quem estiver criticando. Enquanto isso, os erros continuam e só aumentam, junto com a vaidade e o ego da liderança, que adora ter o povo nas suas mãos e beijando seus pés.

Esse tipo de coisas: o artificialismo, falta de naturalidade para lidar com erros e problemas comuns das pessoas; hipocrisia desembestada; tentativas de impressionar; desonestidade; propagandas que não condizem com a realidade; pessoas que se consideram acima das demais e acima de qualquer repreensão ou crítica, porque são os “pregadores/pastores/bispos/apóstolos oficiais; falta de senso crítico, de uma pessoa simplesmente olhar o que se faz dentro da própria igreja e dizer: “cara, isso é ridículo, vamos parar”, sem ser apedrejada ou afastada por causa disso; fora o excesso de barulho, que me incomoda profundamente, são algumas coisas que fazem com que não tenha vontade alguma de participar delas.

Do lado de fora, como já devo ter falado em alguma outra postagem anterior, tenho encontrado ar mais respirável.

Uma resposta para Se a bíblia fosse escrita hoje…

  1. mario disse:

    gostei muito, ótimo encontrar alguém que pensa assim,hoje em dia isso é raro. Continue firme Naquele que te chamou.

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