The Inquisition: a history – Michael C. Thomsett

Introdução: Uma história de 400 anos – em quatro etapas (trechos)

Qualquer tentativa de escrever uma história, envolve uma série de julgamentos e decisões. A maior decisão é determinar o tom e ênfase apropriados. Como pode uma história ser compilada sem qualquer preconceito? Não pode, especialmente quando lida com um tópico tão controverso como a Inquisição. Não há dúvida, em absoluto, de que a Igreja e seus representantes chegaram a extremos  no tratamento dos suspeitos sob a Inquisição, algumas vezes com grande prazer e sadismo. Mas isso não condena toda a instituição da Igreja.

Apesar de séculos de abuso contra descrentes suspeitos, hereges, bruxas e eventualmente judeus e muçulmanos, para não mencionar cientistas e artistas, ainda resta a instituição da Igreja Católica Romana, que tem uma história com muitas variações e cores. Junto com muitos papas e inquisidores cruéis, há missionários e santos inspirados, cujas vidas foram devotadas à causa do Cristianismo e da salvação das almas. Este trabalho continua até hoje, e com seu sempre presente paradoxo, também a instituição da Inquisição, agora com um nome mais gentil, e com autoridade fortemente supervisionada, mas ainda em existência até hoje.

O desafio em escrever uma história dessa instituição complexa, com seus bons e maus feitos em conjunto, com uma série de papas inspirados e outros muito maus e corruptos, é tentar relatar os fatos como são. Todo mundo tem preconceitos, e nenhum historiador pode esperar que os seus preconceitos não venham à tona. Na tentativa de relatar com honestidade informações factuais sobre eventos e pensamentos no contexto da época, é possível evitar somente os extremos do preconceito. No caso da Inquisição, há dois extremos desse tipo que devem ser evitados.

O primeiro extremo é aquele dos fiéis sem questionamentos, que se tornam os apologistas da Igreja e até mesmo dos atos dos inquisidores, nas antigas câmaras de tortura em toda a Europa.  Os apologistas tendem a argumentar que os abusos não eram generalizados como muitos acreditam, ou que a tortura raramente resultava em morte para o acusado, ou que outros tipos de punição que se aplicavam na mesma época eram piores que os usados pela Inquisição. Os apologistas baseiam tais argumentos numa crença de que a igreja tem sempre existido para fazer a obra de Deus, e que colocar a Inquisição sob uma visão negativa é contrário a esse propósito. Para esse tipo de crente, pode ser muito difícil aceitar que a instituição da igreja foi por vezes, durante seus 2000 anos de história, dirigida por muitos maus jogadores.

No extremo oposto, está o indivíduo que é completamente anti-igreja e especificamente anti-católico. A tendência para esse tipo de indivíduo é encontrar os piores exemplos dos extremos, e expor somente os piores atores na história da Inquisição, colocando a igreja inteira sob a mesma égide de maldade e abuso. O efeito de ambos é obscurecer a história e aumentar a dificuldade de documentação. Por essa razão, contar a história envolve um ato de equilíbrio, um esforço para permanecer em algum lugar entre esses extremos, procurar por fatos que não só contem a história honestamente, mas também forneçam explicações a respeito dos bastidores, que possam lançar luz não só no que aconteceu, mas também porque aconteceu.[…]

[…]Como foi que a Igreja evoluiu de representante da filosofia pacífica de Cristo nesse tipo de poder autoritário global? Como forma de responder às heresias, a progressão da igreja, da não violência a queimar pessoas em estacas, pode ser traçada no tempo, quando a igreja alinhou a si mesma com o poder do Império Romano, para se tornar a Igreja Católica Romana. O ponto de vista de que a heresia e outros crimes contra Deus ou a igreja mereciam pena de morte, surgiu em torno do final do quarto século. Antes, a excomunhão era considerada uma punição adequada para crimes não temporais. Optato de Milevi foi o primeiro a citar exemplos do Antigo Testamento para justificar uma sentença de morte.[…]

 

[…]A “guerra justa” dos cristãos, baseada parcialmente em ensinamentos judaicos, agora fundida com o poder de Roma, e uma nova ideia de uma “Roma Santa” – abençoada pelo Cristianismo – uniu as crenças da Igreja com as políticas do Estado a respeito da pena capital. Descrentes e hereges eram vistos com o mesmo desprezo daqueles que cometeram crimes contra o Estado; a Igreja e o Estado tornaram-se uma coisa só e a mesma coisa, institucionalizada e permanente. Apesar do pensamento anterior e racional de Agostinho contra punições físicas, a Igreja desenvolveu um novo princípio, baseado nas políticas do Estado Romano, declarando a missão de uma guerra santa  (bellum sacrum) e de uma guerra justa (bellum justum). Deste ponto em diante, a guerra mesma tornou-se uma forma aceitável de fé cristã. Então, a Inquisição foi o fruto da união de Igreja e Estado, numa entidade única do Sacro Império Romano. Dado o poder inerente a essa união, é fácil entender como a Inquisição cresceu e se expandiu.[…]

The Inquisition: a history – Michael C. Thomsett

Apesar de o livro tratar da parte católica da Inquisição, vale lembrar que houve também as versões protestantes, que não foram menos cruéis.  O que explica a Inquisição, é a soberba humana de se achar no direito de punir o que considera “crimes contra Deus”, como se algum ser humano tivesse direito ou autoridade para “tomar as dores” do próprio Deus, e sair castigando, torturando e matando outras pessoas por causa disso. Em grande parte dos casos, não houve crime algum, muito menos contra Deus. Muita gente inocente foi torturada e morta, e muitos usaram a Inquisição como meio de se livrar de desafetos e inimigos. Outros, foram torturados e mortos apenas por pensarem diferente, por ousarem pensar por si mesmos, e expressarem livremente sua discordância com relação aos “dogmas” da instituição.

O que é verdade não precisa ser defendido por meio de força e violência. Se dizer cristão e, ao mesmo tempo, favorável a guerras “santas”, tortura e pena de morte, quer dizer que tem alguma coisa errada com esse cristão. Simples assim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: