Como converter um cristão?

por Vera – a Estrangeira

Estou terminando a leitura de O que os evangélicos não falam, do Pr. Ricardo Gondim, e num dos artigos ele cita um paradoxo de Kierkegaard: de que é mais fácil um não cristão se tornar um cristão do que um “cristão” se converter. E não é que essa é uma triste verdade?

Estamos novamente num momento crítico do cristianismo, onde a teoria do “se não pode vencê-los, junte-se a eles” está em pleno vapor. Como não se pode simplesmente exterminar o cristianismo, a solução é se infiltrar nele e, de dentro, modificá-lo, conformá-lo com aquilo que se deseja realmente ensinar. Essa não é a primeira vez na história que isso acontece, o apóstolo (de verdade) Paulo já denunciava a ação de grupos gnósticos nos primeiros tempos da Igreja e depois, com a união da Igreja com o Estado, a coisa degringolou de vez pela adoção de rituais e dogmas que desvirtuaram o Evangelho puro e simples e o aproximaram aos antigos ritos pagãos. O movimento da Reforma trouxe a Igreja de volta ao foco em Cristo, porém os anos foram se passando e novamente as influências demoníacas externas se internalizaram no contexto das igrejas, deturpando o Evangelho e transformando o cristianismo em um mero simulacro de culto pagão.

Assim, quem é o cristão hoje em dia?

Com algumas exceções (pois infelizmente as igrejas que ainda prezam pela pureza do Evangelho são poucas e com poucos membros, se comparadas com a mega-grandiosidade das igrejas contaminadas por elementos do paganismo e gnosticismo), o cristão atual é aquele que confessa com sua boca que Jesus Cristo é o Senhor, que ora em Seu nome, mas que não O conhece plenamente. Embora na Bíblia haja várias passagens que nos advertem sobre a necessidade de se meditar sobre a Palavra dia e noite, o cristão atual mal abre sua Bíblia, normalmente fazendo-o apenas durante o culto dominical. Quando a lê busca as promessas, como as que constam nos livros dos Salmos e Provérbios. Lê outras promessas também, mas foge das exortações pois essas não se aplicam a ele, mas sim ao povo judeu.

O cristão atual nunca lê um capítulo completo: contenta-se em ler um versículo e a partir dele, conforme instruções de seus líderes (que também aprenderam assim), cria uma doutrina própria. Quando eu era católica ouvia dos padres que os protestantes liam a Bíblia e cada um a interpretava como queria, e achava isso um absurdo; hoje, porém, vejo que é exatamente assim: daí se formarem teologias tão discrepantes. Um caso que é hilário e trágico ao mesmo tempo, e que exemplifica bem isso, é o de um pastor que ficou famoso ao aparecer no programa Fantástico por ter traído sua esposa com uma fiel também casada, por ter interpretado erroneamente Oséias 3.1 (onde está adúltera, o cidadão leu adultera, e achou que Deus estava mandando-o adulterar). Esse caso, ao que parece, se restringiu a essa congregação, porém outros enganos se estendem em nível nacional.

O cristão atual tem medo de pensar por si próprio, pois isso demandaria a difícil tarefa de ter que meditar na Palavra e correr o risco de fazer escolhas, e por isso se deleita em ter quem pense por ele. Assim surgem as coberturas espirituais, os ungidos do Senhor que não podem ser tocados ou questionados, os líderes que convencem seu rebanho a votar em determinado candidato nas eleições, a aceitação de qualquer heresia. Afinal, se o Anjo da igreja falou, está falado.

O cristão atual tem um objetivo na vida: prosperar. Esse desejo ele tirou do mundo, do qual ainda faz parte embora pense não pertencer mais a ele. Assim, transfere para si os valores do mundo, que são a aparência acima de tudo, o ter em detrimento do ser, o ser bem-sucedido em todas as áreas como prova da vitória de Cristo na cruz. Porém Cristo não morreu para que tivéssemos conforto e segurança, mas para que pudéssemos ser salvos e ter a vida eterna, mas essa interpretação não condiz com o american way of life, que na verdade é o anseio de todos os povos, incluindo o tupiniquim. Não à toa importamos a teologia da prosperidade e muitos modismos, o que vem de fora é melhor do que o que temos, inclusive quando o assunto é Deus.

O cristão atual quer comandar, estar adiante, na frente, não ser servo. Quer ser cabeça e não cauda, quer as riquezas dos ímpios, quer o poder terreno, pois crê que o céu é aqui na Terra e enquanto se está vivo. Isso está totalmente na contramão dos ensinos de Jesus, de que importa mais ser servo do que senhor, de que se deve ser o menor. Ao contrário, versículos pinçados ao acaso dão conta ao cristão atual que, já que é mais do que vencedor, tem que demonstrar isso no dia-a-dia, vencendo a tudo e a todos, não importa o preço a pagar ou os tapetes a serem puxados.

O cristão atual tem uma fé fraca, e para fortalecê-la precisa contar com a ajuda de muletas espirituais. Sal grosso, água benta, sabonete ungido, campanha das 7 semanas, tudo é válido para aguçar-lhe a fé. Seu cristianismo precisa se sincretizar com o paganismo em suas várias formas, pois Cristo apenas não é suficiente. O cristão atual é um neopagão, adora a vários deuses sem se dar conta. Cada amuleto gospel é um ídolo de pedra.

O cristão atual diz não negar nunca a Cristo, mas já O nega a cada dia, quando busca os valores inversos aos Seus ensinos. Infelizmente a sutileza dos enganos fez do cristão atual mais um religioso dentre tantas religiões. O cristão atual é tão cego à realidade do Evangelho que considera heresia ensinos sobre desprendimento material, afinal foi-lhe incutido que pobreza é coisa do diabo. O servir é coisa de derrotados; o não se conformar com esse mundo é demagogia, pois vivemos nele. Mudar essa mentalidade demoniacamente construída é quase impossível, só pela obra do Espírito Santo.

Como converter um cristão ao verdadeiro cristianismo? Como fazê-lo buscar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e abrir mão das riquezas materiais, se muitas vezes é o desejo de riquezas que o leva aos templos, que prometem restituição financeira a quem segue as regras da denominação? Como convencê-lo de que deve morrer para esse mundo, quando o engano lhe diz que é nesse mundo que se experimenta um pedacinho do céu? Como mostrar-lhe que o Jesus que ele diz venerar não nasceu num palácio, optando por nascer em uma família humilde; que não adentrou em Jerusalém numa carruagem de fogo, mas num jumentinho? Como ensiná-lo a lição do lavapés, da renúncia aos valores materiais, do amor ao próximo como a nós mesmos, se o pseudocristianismo lhe diz que é assim mesmo, que Jesus venceu e que viemos para vencer, numa deturpação completa de Sua Palavra?

Realmente é muito mais fácil converter um não cristão que ainda não foi infectado pelo vírus do engano religioso, do que converter um “cristão”, pois a lavagem cerebral que esse recebeu torna o processo doloroso e trabalhoso demais. Reverter esse processo é um verdadeiro trabalho de libertação do Espírito Santo, em nome de Jesus.

Que permitamos que Ele complete Sua obra em nós, nos tornando, como os de Hebreus 11, indignos desse mundo:

“E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.” – Hb 11.32-38

Como converter um cristão? – Uma estrangeira no mundo

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