Disneylândia da fé

por capelão Mike

Deixe-me dizer já logo de cara – sempre gostei dos filmes e personagens Disney. Da minha infância, quando meus pais me levaram à Disneylândia, depois quando nadei no mar agitado junto com Pinocchio para escapar da baleia Monstro, aos dias quando nós e nossas meninas curtimos A pequena sereia e A bela e a fera juntos, até hoje, quando apresento meus netos para o que chamamos filmes “clássicos”, a Disney tem sido parte da minha experiência e da minha vida familiar.

Mas sei o que a Disney é e o que faz – Eles pegam histórias clássicas e fazem cartoons com elas.

A Disney não me induz a pensar que o que eles fazem é uma grande arte que contém ensinamentos profundos para a vida e experiência humanas. Aceito e curto eles pelos que são, não mais. Seus artistas e animadores são de primeira classe, e o que fazem, sabem fazer muito bem. Mas se você está falando sobre seus filmes, seus parques temáticos, ou seu merchandising generalizado, o fato é que a Disney é uma corporação da área de animação. Eles pegam estórias que são clássicas por causa dos seus temas universais, e simplificam de uma forma que tanto crianças quanto pais e mães podem apreciar juntos. Removem toda desordem, toda a complexidade, as nuances dessas estórias e fazem uma limpeza nelas para que se encaixem numa audiência de entretenimento moderna. São agradáveis, mas tão sutis quanto um soco no rosto; tão profundos quanto aquela poça d’água que se forma na minha garagem depois de uma chuva fina.

Infelizmente, muitos líderes cristãos americanos, parecem pensar que o método da Disney é o método que a igreja deve seguir. Eu poderia escrever um longo livro, sobre todos os exemplos disso por todo o nosso país, com as muitas formas pelas quais nós vendemos Jesus em livros, músicas, mídia, desde o excesso apelativo dos tele-evangelistas e da excelência corporativa das mega-igrejas, aos monumentos icônicos, como a Crystal Cathedral. Muito disso representa a mentalidade do “Reino Mágico”.

No mundo caricatural do evangelicanismo americano contemporâneo, é tudo maior, melhor, mais simples. Ajude o pessoal a acreditar que seus sonhos podem se tornar realidade. Crie “momentos” para as pessoas na congregação que elas nunca mais esqueçam, abençoem as famílias em locais seguros e higienizados. Remova a desordem e a realidade da vida diária. Em vez disso, coloque no lugar uma versão sentimental da vida e que toque o coração na tela, e faça as pessoas sentir isso. Abrace as possibilidades.

O evangelicanismo se tornou “Disney-lizado”.

Por exemplo, entre no mundo Mickey Mouse de Ken Ham e seu parque temático para a fé cristã.

O sempre vigilante correspondente do Internet Monk em Ohio, Jeff Dunn, reportou na edição de ontem do Saturday Ramblings, que Ken Ham e companhia estão na área novamente. O Creation Museum, perto de Cincinnati, decidiu se expandir e construir um parque temático com 800 acres, de estilo complexo, e com uma réplica da arca de Noé. O projeto terá um custo estimado de 125 milhões de dólares, e está planejado para ser inaugurado em 2014, perto de Williamstown, KY.

Alguns questionaram se é legalmente permissível para o estado de Kentucky fundar um parque temático religioso. Eu coloco outra questão: É apropriado para os cristãos “Disney-lizar” a fé desse jeito?[…]

[…]Como pode qualquer cristão racional apoiar um projeto como esse? Sei que alguns de vocês vão escrever e reclamar que estou sendo crítico demais, e por que Deus  não pode usar isso para levar outros a Cristo e ensinar pessoas sobre a bíblia? Por favor. Vou responder isso da forma mais clara, direta e contundente que puder – este projeto não tem nada a ver com o cristianismo bíblico.

Isso é uma caricatura da fé. Representa a “Disney-lização” da história bíblica. Quero dizer, seriamente, o povo cristão está gastando 125 milhões construindo essa imitação grotesca, e então, os crentes americanos sem discernimento vão gastar outros milhões e milhões, para ser doutrinados, impressionados pelo espetáculo e uma versão agradável e desinfetada da história bíblica. Ônibus cheios de jovens em busca de entretenimento serão “educados” numa interpretação “bíblica” do dilúvio que tem sua “gênesis” não na Torah, mas nas visões de Ellen G. White, cujos “conselhos inspirados pelo Senhor”, guiaram o movimento sectário adventista do século XIX.

Essas visões ganham vida numa verdadeira aparência Disney – apelo esmagador, sentimentalismo piegas, um fino verniz de credibilidade, e mais importante, a convicção absoluta da crença inabalável em detrimento de qualquer evidência contrária ou interpretações que sejam contraditórias. Este projeto é fundamentalismo em sua pior forma criativa. Não nos leva ao Jesus real, ao Jesus da bíblia. Nos leva a uma caricatura de Jesus, o Jesus Disney, a versão americana e desinfetada de Jesus, o Jesus que nos diverte, e mantém tudo seguro, para toda a família poder desfrutar. O Jesus que nos dão é o herói Jesus que viveu e morreu na tela em toda a sua glória, não o “homem de dores” que sofreu e morreu na cruz em vergonha. Este Jesus foi elaborado e trazido à vida para nós por fornecedores de tecnologia espiritual, não compartilhada conosco por apóstolos como Paulo fez – em meio a uma vida diária humilde de sofrimento e am0r, em nome de Jesus. Existe o “método de Jesus” e existe o “método Disney“, e o abismo entre eles é muito vasto.

Não sei você, mas quando se trata da fé, eu prefiro a coisa real, não uma caricatura Disney.

Vou falar de novo. Este projeto não tem nada a ver com o cristianismo baseado no Jesus bíblico. Isso é promoção de uma ideologia, pura e simplesmente. É um desejo mesquinho de ser estrela do fundamentalismo, exibindo uma abordagem da fé que não tem nada de sutil, nada de misterioso, nada de humano. Sem dúvidas, apenas certezas. O tipo de certezas que tem audácia suficiente para pedir para as pessoas 125 milhões de dólares para construir um parque de propaganda pretensiosa. Pelo menos Walt Disney teve caráter suficiente para aprender uma profissão, trabalhar, e construir um negócio para financiar seus sonhos.

Leia o texto inteiro aqui: The Disney-ization of Faith – Chaplain Mike – Internet Monk

Disse tudo que eu estava com vontade de dizer, depois de ler essa notícia absurda. 125 milhões de dólares num parque temático fundamentalista idiota, enquanto mais de um bilhão de pessoas não tem comida para colocar no prato. Que tipo de “cristianismo” é esse? Eu coloco essa Disneylândia da fé com direito à réplica da arca de Noé, no mesmo nível daquela réplica do templo de Salomão que o sr Edir Macedo pretende construir em São Paulo.

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