A teologia como ela é… e como podia ser…

por Arthur Peacocke

A teologia precisa ser verdadeira, livre e crítica; e para tratar e interpretar as realidades de tudo que constitui o mundo, especialmente os seres humanos e sua vida interior. Pode a teologia entrar na briga do intercâmbio intelectual contemporâneo, e se manter de pé e sobreviver por conta própria? Para conseguir isso, precisa se tornar uma exploração aberta na qual nada é isento de revisão. O modelo de “ponte” entre ciência e teologia precisa cair, e ser substituído por uma exploração conjunta de uma realidade comum, alguns aspectos da qual provarão, no final, ser os derradeiros –  e apontar para o divino. Deixe-nos agora observar como a teologia é praticada atualmente.

A TEOLOGIA COMO ELA É

O que encontramos? Uma variedade de procedimentos teológicos que não preenchem o critério anteriormente citado:

1. Dependência de um livro oficial: “A bíblia diz”. Mesmo aqueles que não são dados ao literalismo bíblico e ao fundamentalismo, ainda possuem o hábito de tratar o conteúdo da Bíblia (agora com mais de 2 mil anos de idade), como um tipo de oráculo, como se citações de autoridades do passado pudessem resolver questões da nossa época (como um biólogo recorrendo a Aristóteles, ou um médico a Avicenna, ou um químico, a Geber!). Cristãos comuns, receio, muitas vezes pensam que os ministros devem acreditar nisso, e são pagos para isso. No entanto, a biblioteca de livros que chamamos de Bíblia, foi constituída por um processo de revisão crítica e dialógica, repudiando e estendendo o trabalho e experiências das gerações anteriores – mesmo durante o período de composição do Novo Testamento.

2. Dependência de uma comunidade oficial: “A Igreja diz”, “o Padre (pastor) disse”, “o credo diz”, “o Magistério diz”. Aqui, a comunidade religiosa ouve e fala apenas para si mesma.  De acordo com suas interpretações, as doutrinas da igreja cristã têm a função de estabelecer a base para o discurso daquela comunidade, que elucida a gramática do seu próprio discurso interno, sem expor-se a qualquer julgamento ou razoamento externo.  Na melhor das hipóteses, pode ser fides quaerens intellectum, fé em busca de entendimento, mas mesmo isso prescinde de justificação racional da fides, a “fé”. Insisto que a única teologia defensável é aquela que consiste em compreender a fé buscando, intellectus quaerens fidem,na qual a “compreensão” deve incluir os mundos natural e humano, os quais a ciência tem revelado (não me refiro a excluir experiências estéticas e outras experiências da humanidade a partir deste entendimento). Não pode haver dentro das comunidades de fé, esse tipo de submissão a um dogmatismo revelado ou fundamentalismo doutrinal. Lembro das minhas experiências no Conselho Mundial de Igrejas, onde se  tinha por certo, que o que é o Evangelho era aceito e entendido universalmente – quando de fato não era.  A Palavra, se dizia, foi dada por Deus para a comunidade dos cristãos e tem de ser exposta – mas a sua autenticidade como Palavra de Deus nunca foi questionada. Assim, por mais que a fides seja explicada e enriquecida dentro da comunidade, falha em equipar a si mesma com os significados pelos quais poderia convencer aqueles que estão de fora, a levar tais afirmações a sério. Renunciou e repudiou ao que chamo de a lingua franca do discurso humano, dada por Deus – o uso do critério do razonamento. Como podem os cristãos, e outras comunidades religiosas, convencer outros de que o que proclamam, é um tipo de verdade pública, comparável em irrefutabilidade àquela que o mundo reconhece na ciência, e utiliza em suas aplicações?

3. Dependência de uma verdade a priori: Em algumas formas de teologia filosófica, as “verdades” internas abraçadas pela comunidade cristã são encaradas como, basicamente, verdades  a priori, às quais se chegou por raciocínio. Esse tipo de fundacionalismo é raro hoje, por causa do amplo condicionamento cultural daquilo que pode ser visto a priori.  Obviamente, esse tipo de teologia vai encontrar muita dificuldade  para chegar a um acordo com um mundo cujas realidades são descobertas pelas ciências.

A TEOLOGIA COMO PODERIA SER

Se a teologia cristã (e todas elas) quiser seguir os padrões intelectuais da nossa época, por exemplo, não dependendo de autoridades, ou não apelando para noções a priori, deve levar em conta o seguinte:

S = as realidades do mundo e da humanidade descobertas pelas ciências;

CRE  =  a herança judaica e cristã comunal, chamada de Experiência Clássica de Revelação;

WR = as percepções e tradições das outras religiões do mundo.

Daí, os dados da teologia são: S + CRE + WR.

Aqui, temos que infelizmente colocar WR de lado, mas note-se que há um segundo ponto crítico para a teologia cristã em relação às ciências, são os caminhos que as outras religiões têm seguido em relação ao ponto de vista científico, e o que pode ser aprendido com elas.

Mas, para nossos propósitos atuais, vamos considerar apenas S + CRE.

Se colocamos esses dois juntos, somos confrontados com um terceiro ponto fundamental, ou seja, uma revisão radical das noções passadas, se torna imperativa.

Temos CRE = T, onde T representa a teologia cristã.

Mas agora, temos S + CRE =  RT, onde RT representa uma teologia radicalmente revisada, a qual não convive confortavelmente com a teologia T, promulgada por muitas igrejas, e pregada na maioria dos púlpitos (eventualmente, é claro, precisamos de S + CRE + WR = GT, onde GT representa uma Teologia Global).[…]

[…]Qualquer teologia que não incorpora os novos conhecimentos científicos, está moribunda e condenada.

 

O texto acima foi retirado do livro Paths from Science towards God – the end of all our exploring – Arthur Peacocke

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