Ortodoxia parcial

“O egoísmo e a parcialidade são características desumanas e torpes, mesmo nas coisas deste mundo, mas nas doutrinas religiosas são ainda de natureza mais torpe. Na realidade, este foi o maior mal que a divisão da igreja causou; surgiu em cada congregação uma ortodoxia parcial, egoísta, que consiste em defender corajosamente tudo que ela possui e condenar tudo que não lhe pertence. E, assim, cada campeão é treinado na defesa da sua verdade, do seu conhecimento e de sua própria igreja, e tem o maior mérito, a maior honra, é o que gosta de tudo, defende tudo entre os seus iguais e nada perdoa aos que pertencem a outras congregações. Ora, como pode a verdade e a bondade e a união e a religião serem mais feridas do que por defensores desse tipo? Se se perguntar por que o grande bispo de Meaux escreveu tantos livros eruditos contra todos os itens da Reforma, cumpre responder que foi porque ele nasceu na França, sendo educado no seio da Santa Madre Igreja. Tivesse ele nascido na Inglaterra, e tivesse Oxford ou Cambridge sido sua Alma Mater, teria rivalizado com o grande bispo Stillingfleet, e teria escrito grande número de alentados volumes contra a Igreja de Roma, como este o fez. Todavia, aventuro-me a dizer que se cada igreja pudesse apresentar um único homem que tivesse a piedade de um apóstolo e o amor imparcial dos primeiros cristãos de Jerusalém, um papista ou protestante dessa espécie não gastaria meia página de papel para redigir seus artigos sobre união, nem passaria meia hora para tentar fazê-lo adotar a mesma religião. Se, portanto, tivéssemos de afirmar que as igrejas estão divididas, alienadas e inimigas umas das outras por se achar o conhecimento, a lógica, a história e o criticismo nas mãos da parcialidade, teríamos de dizer o que cada igreja particular também prova ser verdade. Perguntai: por que até o melhor dentre os católicos é tão tímido ao afirmar a validade dos sacramentos de nossa igreja; isso se deve ao fato de temer erradicar seu ódio da Reforma. Perguntei por que nenhum protestante toca na necessidade do celibato ou nos seus benefícios com relação àqueles que estão afastados dos negócios mundanos a fim de pregar o evangelho; é porque isso pareceria minimizar o erro romano de não permitir o casamento de seu clero. Perguntai por que os mais valiosos e piedosos dentre o clero da igreja oficial receiam asseverar a suficiência da Luz Divina, a necessidade de buscar somente a direção e a inspiração do Espírito Santo; é porque os quacres que se desligaram da igreja fizeram dessa doutrina sua pedra de toque. Se amamos a verdade como tal, se a buscamos pelo amor que temos a ela, se amamos o nosso próximo como a nós mesmos, se nada desejamos da nossa religião exceto a aceitação divina, se igualmente desejamos a salvação de todos os homens, se tememos o erro unicamente por sua natureza maléfica, para nós e nossos semelhantes, então devemos rejeitar tais antagonismos.

Há, portanto, um espírito católico, uma comunhão dos santos no amor de Deus e em toda a bondade, e isto ninguém pode aprender com a chamada ortodoxia das igrejas particulares, mas só pode ser alcançado por uma total rejeição a todos os pontos de vista mundanos, por um puro amor a Deus, e por tão elevada unção que liberte a mente de todo egoísmo e a faça amar a verdade e a bondade, tanto quanto a todo ser humano, seja ele cristão, judeu ou gentio. Aquele que obtiver este divino espírito católico neste desordenado e dividido estado de coisas, e viver numa dividida parte da igreja, sem partilhar de suas divisões, tem de ter estas três verdades profundamente fixas na mente: primeiro, esse amor universal, que dá toda a energia do coração a Deus, e nos faz amar cada homem como amamos a nós mesmos, é o mais nobre, o mais divino, o estado sublime da alma, e é a máxima perfeição que a mais perfeita das religiões pode despertar em nós; nenhuma religião faz a qualquer homem qualquer bem enquanto não produzir nele esta perfeição do amor. Esta verdade nos mostra que a genuína ortodoxia não pode ser encontrada em toda a parte, e sim num puro e desinteressado amor a Deus e ao nosso próximo. Segundo, no atual e dividido estado da igreja, a verdade está despedaçada e dividida; portanto, só poderá ser um bom católico quem tiver mais verdade e menos erro do que os encerrados numa parte dividida. Esta verdade nos permitirá viver numa parte dividida sem sermos atingidos pela divisão, e nos mantém em autêntica liberdade, aptos a sermos instruídos e beneficiados por todo bem que ouvimos ou vemos em qualquer outra parte da igreja… Em terceiro lugar, devemos ter sempre em mente esta grande verdade: a glória da Divina Justiça não distingue partidos ou pessoas, mas permanece igualmente voltada para aquilo que é certo e errado, tanto no judeu como no gentio. Aquele, portanto, que gosta do que Deus gosta e condena o que Deus condena, não deve ter olhos de papista nem de protestante; não deve menosprezar uma verdade só porque Santo Inácio de Loyola ou John Bunyan zelosamente a acatavam, nem ter qualquer aversão a qualquer erro porque o Dr Trapp ou George Fox o denunciaram.”

William Law, citado por Aldous Huxley em A filosofia perene

O recado é esse: não seja protestante nem católico, seja apenas cristão.

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