Quando o Cristianismo não faz sentido

por Nelson Costa Junior

Palavras mudam. Percepções da realidade, e até de Deus mudam. Explicações distorcem a verdade com o passar do tempo. Anulando o conceito dogmático de Jesus Cristo,  esse Jesus ainda poderá constituir uma experiência de divindade para nós? Ainda poderá ser uma porta pela qual chegamos à expressão do sagrado? Ainda posso ser cristão no século XXI?

Quando permito-me explorar esse Jesus, desvinculado de uma estrutura dogmática de cristianismo, vejo emergir uma percepção inteiramente nova. O que vejo é um retrato mais fiel desse Jesus, apontando para algo que se denomina “reino” de Deus, onde novas possibilidades exigem nossa consideração. Veja-o retratado como aquele que constantemente desmontava as barreiras que separam as pessoas umas das outras. Vejo-o convidando seus seguidores a juntar-se a ele para caminharem sem terror para além daqueles limites de segurança que sempre proíbem, bloqueiam ou negam nosso acesso  a uma humanidade mais profunda. Sobretudo, vejo-o como um eliminador de fronteiras, que me permite visualizar a possibilidade de minha própria humanidade atravessar minhas barreiras humanas para alcançar a divindade que sua vida revela, que de fato eu, cristão digo que ele possui.

Vejo Jesus como aquele que chama a todos que o cercam para caminhar além de seus temores tribais. No tempo de Jesus, o povo judeu organizava a vida para ter o mínimo contato social possível com os gentios. A barreira era enorme. Esse status “separado” era assumido por ordem de Deus. Entretanto, Jesus é retratado como uma pessoa que convidava os outros a deixarem de lado seus medos tribais e xenófobos e darem um passo além dessa fronteira.

Parece lhes dizer que uma nova humanidade habita do outro lado desses temores. O cristianismo, em suas origens, foi clara e intencionalmente designado a ser radical, a ser transformador, a quebrar as barreiras dos sistemas religiosos, a ser construído sobre  uma mensagem evangelística identificada com Jesus e proclamada através do próprio ser da vida dele. Na experiência de Cristo, judeus e gentios não podiam mais ficar uns contra os outros. Nem poderia qualquer outra fronteira tribal continuar a limitar a humanidade de quem quer que fosse.

Fronteiras tribais são poderosas divisões da vida humana. Elas dão origem aos mais desumanos comportamentos da humanidade. Entretanto, no retrato bíblico de Jesus, o vemos relativizando essas linhas divisórias e convidando as pessoas a entrar na experiência da humanidade não tribal. Creio que esse é um passo importante para transpormos nosso sistema de seguranças, refletindo um chamado para que nos tornemos algo que nós, seres humanos jamais fomos. É um convite para entrarmos numa nova existência, uma humanidade sem barreiras, uma humanidade sem reivindicações defensivas por causa de temores tribais, uma humanidade transformadora, tão plena e tão livre que a presença de Deus se forma perceptível dentro dela.

A Bíblia também relativa Jesus como aquele que vai além das barreiras do preconceito humano. O preconceito amarra a vida humana de tal forma que diminui nossa própria humanidade. Quanto mais preconceitos temos, menos humanos somos. Portanto, o preconceito é uma técnica de sobrevivência, exigida pelo nosso egocentrismo, e isso não é humano – é bestial – mas Jesus é mostrado nos evangelhos como alguém que relativiza essa paixão negativa.

Estes textos revelam um Jesus que virou de cabeça para baixo os valores de sua época, pintando um retrato de uma nova humanidade e convidando as pessoas para experimentá-la: uma humanidade que surge além das fronteiras do nosso preconceito. Nesses escritos, Jesus é mostrado como a presença de Deus, que chama seus seguidores a se tornarem mais plenamente humanos e a abrirem as fendas escuras da alma, onde estão os preconceitos.

Cada um de nós carrega um preconceito característico no coração. Para alguns, ele pode estar ligado à cor da pele que difere da nossa; para outros, à forma de adorar a Deus que achamos estranha; ou ainda à orientação sexual que seja diferente da nossa ou pelo menos da maioria. Para sermos discípulos de Jesus, somos forçados a atender a seu chamado para abandonar todos nossos estereótipos fatais baseados em diferenças extremas e caminhar para além de nossos temores distorcidos, entrando numa nova humanidade livre de preconceitos.

O retrato da vida de Jesus nos Evangelhos parece também chamar aqueles que seriam seus discípulos a deixar de lado toda a distinção de gênero e sexo. Ele nos desafia a ver a humanidade em primeiro lugar e depois observar as diferenças – como masculino e feminino gay e hetero, branco e de cor – tornarem-se apenas categorias nas quais a humanidade se divide. Essas divisões não refletem fragmentação e pecado, como sempre se sugeriu, mas a incrível riqueza do significado da plenitude humana. Ele é um Deus presente, que relativiza todas as barreiras que bloqueiam nossa plenitude e, por conseqüência, nossas habilidades de sermos portadores de Deus para os outros.

O retrato bíblico de Jesus até convida e dá poderes a seus seguidores para caminharmos além de nossas diferenças religiosas: diferenças nas quais temos consistentemente investido como a supremacia de Deus. Além dessas diferenças, somos desafiados a deixar de pensar nas pessoas como ritualisticamente puras ou impuras, batizadas ou não batizadas, certas ou erradas, ortodoxas os liberais, cristão, judaica, muçulmano, budista o hindu. A vida de Jesus é revelada estendendo-se sempre aqueles que seu próprio sistema religioso rejeitava.

Jesus entendia, como todos nós mais cedo ou mais tarde entenderemos, que Deus não pode ser confinado nos limites de nosso sistemas religiosos. Quando reivindicamos a verdade máxima para nossa versão de Deus, nossa revelação, nossa Igreja, nessa fonte de autoridade, ou mesmo para nossos líderes, estamos de fato constituindo outro muro de proteção em volta de nossa insegurança. O Deus além dos  dogmas não pode ser limitado por credos humanos. O Deus que é a Base da existência não pode ser amarrado, nem mesmo por nossas reivindicações religiosas. Uma vez entendido isso, evidencia-se que ninguém deve denegrir as portas pelas quais outras pessoas passam na jornada em busca do santo Deus.

Jesus foi e é um presença de Deus através da qual entramos no reino do divino, um reino que transcende toda a fronteira religiosa. Esse Jesus parece possuir a vida tão plenamente que pode doá-la sem medo. A liberdade que marca esse homem é tão assustadora para aqueles que não estão livres – e não conseguem admitir que não estão livres – que eles se levantam na ira de destruir o doador da vida. A cruz representa essa destruição que ainda acontece por parte dos ateus e, principalmente, nas disputas religiosas. A cruz não representa um sacrifício necessário a uma divindade sanguinária; ela revela, sim, o retrato final do poder do amor presente na vida dessa vítima. E mesmo quando a ameaça da morte se tornou a realidade da morte, ainda assim o portador desse dom de vida descobriu que nada poderia destruir definitivamente a vida eu ele possuía.

Ao sucumbir aos poderes daqueles que não suportavam seu chamado para entrar na nova existência, para captar o novo e radical sentido de liberdade, Jesus ainda foi capaz de doar sua vida, seu retrato descrito no evangelho o revela como doador de vida aos outros até enquanto morria. A doação descrita na pessoa de Jesus resultou na explosão de uma humanidade nova radicalmente diferente, em que ele nos revela a fonte da vida e depois nos habilita a adentrá-la. Em seguida observamos que a presença do amor sem barreiras que encontramos na vida de Jesus nos transmite algo de expansivo e criativo: Esse tipo de amor – doação é visível somente numa experiência transcendente da vida humana, que pode ser alcançada conscientemente, escolhida livremente e apropriada plenamente.

O amor se manifesta na disposição humana de ser aventurar além das fronteiras da segurança, no risco de perder-se e até no desejo de explorar as fendas desconhecidas. O amor cria estabilidade, mas não estagnação. O amor nos chama a existir, expande nossa vida ao fluir através de nós. Se o amor for bloqueado ele morre. O amor tem de ser compartilhado, senão deixa de ser amor. O amor nos une em comunidades cada vez maiores. O amor nos liberta das definições pejorativas que resultam em exclusão. O amor transcende as barreiras, une e atrai. O amor intensifica a vida.

Portanto, quando surge na história um ser humano com uma habilidade de amar como nunca fora vista antes, quando essa vida nos chama a uma nova unidade humana e se recusa a ser amarrada pelas regras originadas de nosso temor e incompletude, então, inevitavelmente, olhamos para essa vida com admiração, talvez até com adoração. O amor é uma presença e um poder capaz de nos afastar dos terrores tribais e de nossos medos preconceituosos. O amor não tem povo escolhido, pois isso implicaria o fito de alguns deixarem de ser escolhidos. O amor não tem malícia, não busca vingança, não fica de guarda em nenhuma estrada.

Uma vida definida pelo amor não procurará se proteger nem se justificar. Estará satisfeita em ser simplesmente como é e em se doar sem restrições. O amor anuncia que nem a pessoa que você é nem os atos que tenha cometido podem levantar uma barreira que não possa ser superada pelo poder dessa presença invencível. Sou levado a sugerir que o amor e Deus não podem ser separados e que compartilhar o amor nada mais é do que compartilhar Deus. Permanecer no amor é permanecer em Deus.

Doar amor é doar Deus. Essa é uma parte do que significa Jesus livre dos dogmas, mas ainda centrado em Deus. É o amor que nos liberta para que possamos nos doar. A vida humana não necessita de um socorro divino. O que precisamos sim, é de vida, tão aberta, tão livre, tão plena e tão cheia de amor que, ao vivenciá-lo, somos envolvidos pela realidade do amor, somos abertos pata a fonte do amor e estamos na forte presença do amor. Essa vida então se torna nossa porta de entrada no infinito e inesgotável poder do amor. Chamo esse amor de “Deus” e o vejo como “Jesus”.

De repente me sinto chamado a uma nova forma de ser, uma humanidade sem fronteiras, e me torno pleno em sua presença. Afirmo que Deus estava em Cristo, que o Cristo revela a fonte do amor e depois nos chama para experimentá-lo. Não um Deus personificado, mas como fonte de personificação, o Deus definido como aquela presença em que “vivemos, nascemos e existimos”. Deus é a fonte da vida que é exaltada quando vivemos plenamente. Deus é a fonte do amor que é exaltada quando amamos em abundância. Deus é a base da existência que é exaltada quando temos a coragem de existir. Jesus é o Deus presente, uma porta de entrada, um canal aberto. A plenitude de sua vida revela a fonte da vida, a abundância do seu amor revela a fonte do amor, e a existência de sua vida a base de toda existência. É por isso que Jesus continua sendo singularmente o centro da minha vida. É também por isso que insisto em considerar-me cristão, mas sou um cristão que não vive mais dentro das amarras exclusivas de meu passado dogmatizador, o Deus que é a vida, amor e o próprio existir não pode ser engessado nos limites de uma tradição.

Quando o Cristianismo não faz sentido – parte 5 – Nelson Costa Junior

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