Quando a “defesa da fé” se transforma em obsessão e vaidade…

Já falei na postagem anterior, que estou lendo Jürgen Moltmann. Pois bem. Num de seus artigos, ele relata como os dois irmãos, Alyosha e Ivan, personagens do livro “Os irmãos Karamazov” de Dostoievski, representavam o conflito que o próprio Dostoievski vivia, entre simplesmente se submeter como o crente Alyosha, ou se rebelar contra Deus, como o cético Ivan. Nesse texto, Moltmann argumenta que a teologia cristã não é feita só por aqueles que professam ter alguma crença. Segundo ele, teólogos são todos aqueles que creem e pensam sobre suas crenças. Para ele, ateus como Ivan, que lançam protestos e argumentos contra Deus, também estão fazendo teologia. Abaixo seguem trechos do texto de Moltmann:

Ateístas que têm alguma coisa contra Deus e contra a fé em Deus, geralmente sabem muito bem quem e o que eles estão rejeitando, e têm suas razões. O livro de Nietzsche, O Anticristo, tem muito a ensinar-nos sobre o verdadeiro cristianismo; e as críticas modernas à religião, como as feitas por Feuerbach, Marx e Freud, são ainda teológicas em sua anti-teologia.Além disso, existe o ateísmo de protesto, que luta com Deus como Jó fez, e que por causa do sofrimento das criaturas que clamam ao céu, negam que haja um Deus justo que governa o mundo em amor.  Este tipo de ateísmo é profundamente teológico, pois a questão da teodiceia – “Se existe um Deus bom, porque existe tanto mal?” – é também a questão fundamental de toda teologia cristã que leve a sério as palavras que Jesus dirigiu a Deus, quando estava morrendo na cruz:

“Meu Deus, por que me abandonaste?” Dostoievski apresenta de forma esplêndida essas duas faces da teologia, o lado daquele que crê e o lado do que duvida, em dois dos irmãos Karamazov, Alyosha e Ivan.  Um se submete, o outro se rebela. A história que Ivan conta para ilustrar o porquê da sua rebelião contra Deus é horrível. Um fazendeiro russo atiça seus cães contra um menino. Eles o matam, fazendo-o em pedaços diante dos olhos da mãe do menino. “Que tipo de harmonia é essa onde existem infernos como esse?”, acusa Ivan, e continua, “Existe alguém no mundo inteiro que possa perdoar algo assim, e que tem permissão para perdoar?

Moltmann argumenta que as dúvidas, quando aparecem, não devem ser sufocadas, e sim, admitidas. Que o Ivan que habita dentro de cada cristão, deve se expressar, para que possa ser superado. As dúvidas, reclamações, protestos, precisam ser expressos pela pessoa que os tem, porque isso se faz necessário para o crescimento na fé. E que a teologia só é verdadeira, quando leva em conta os questionamentos, indagações, protestos, dúvidas e etc dos “teólogos ateus”. Um teólogo cristão, de acordo com Moltmann, não deve apenas conhecer os devotos e religiosos. Ele deve conhecer os ateus, agnósticos, céticos também, pois está correlacionado com eles. Então, ele precisa saber o que a “bancada ateísta” da teologia está perguntando, quais são as suas acusações contra Deus,  questionamentos e dúvidas. Muitas vezes, as dúvidas e indagações dos ateus, são as mesmas dele, embora nem sempre saiba expressá-las de forma tão clara e incisiva como os ateístas costumam fazer. O próximo passo dele, seria tentar colocar mais um tijolo na construção da teologia, de forma a tentar responder aos questionamentos ateístas. Ou fazer ainda mais perguntas.

O problema de quando se tenta colocar mais tijolos nessa construção humana que é a teologia, é que corre-se o risco de que alguém, que antes era bem intencionado, acabe se transformando num obcecado por debater com ateístas. Ou num espertalhão, que faz de supostas obras de “apologia”, meios de ganhar a vida.

Há muitos cristãos por aí, que debatem com ateus por pura vaidade, sem nenhum outro propósito além de disputar o troféu de “mais inteligente”. Ficam obcecados com isso, gastam várias horas do seu dia batendo boca com ateus pela Internet. Algumas vezes, para alcançar seus objetivos, usam de golpes baixos, ofensas pessoais, ridicularização, tentativas de desqualificar seu oponente. O interesse deles, não é  saber o que o ateísta pensa, para tentar oferecer respostas satisfatórias (como o teólogo que quer fazer boa teologia, segundo Moltmann, teria que fazer), e sim, ser aclamado pelos seus iguais como “grande debatedor”, mesmo que tudo que ele saiba fazer num debate, é ataque pessoal e tentativa de desqualificação. Ou seja, não sabe o que é debater, e transforma o que devia ser troca de ideias, numa guerra verbal que não vai chegar em lugar nenhum.

Quanto ao outro tipo, o espertalhão, esse já quer é ficar bem longe dos ateístas. Prefere expor seus supostos “conhecimentos científicos” apenas diante de plateias de crentes, para os quais tenta, na sequência, vender seus livros apologéticos, apostilas, DVDs e outros materiais do gênero. Dificilmente ele vai querer ser sabatinado por uma plateia de ateístas. Não passa de alguém com uma imensa capacidade de “enrolatória” (trocadilho com “oratória”), um praticante de “embromation”. A parte triste, é que muitos dos que ouvem as palestras, ou leem os livros e artigos desses espertalhões, acabam fazendo a imensa bobagem de tentar debater com ateus, repetindo ingenuamente o que o tal “apologista” disse. E o resultado disso, é que são humilhados e ridicularizados pelos ateístas. Coisa que nunca acontece com o espertalhão, porque ele mesmo dificilmente se expõe diante de ateus.

A tentativa de construir teologia, ou defender a fé, pode transformar teólogos e apologistas em monstros obcecados e vaidosos… Por isso, é bom sondar os próprios propósitos, e os próprios métodos. Mesmo que a intenção seja boa, os fins não justificam os meios. Distorcer, mentir, ser desonesto, ofender, fazer ataques pessoais, não são bons métodos. Disputar com ateus para tentar descobrir quem é mais inteligente, ou desejar ser incensado pelos crentes como “grande debatedor”, não são bons propósitos.

Link para o texto de Jürgen Moltmann que citei na postagem:

Godless Theology – Jürgen Moltmann

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