More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns

Prefácio do autor

As causas da violência são variadas e complexas, assim como a violência motivada pela religião. Violência em nome de ideologias religiosas não é algo novo, mas seu potencial destrutivo tem crescido exponencialmente, ao mesmo tempo em que as tecnologias bélicas se tornam mais eficientes. Centenas de livros sobre o assunto religião e violência têm sido publicados nas décadas recentes, com aumento depois do 11 de setembro. As perspectivas oferecidas por esses trabalhos nos ajudam a entender o papel que textos religiosos, política, economia, uso dos recursos naturais, história, nacionalismo, etnocentrismo, fatores sociais, psicologia humana, e imagens do divino possuem na justificação da violência. Apesar dessas perspectivas serem importantes e úteis em proporcionar argumentos para o diálogo, fazem pouco para aliviar a frustração pessoal que muitos de nós sentem em face desse problema crescente. A maior parte da literatura falha em uma ou duas categorias: nas tentativas de explicar o fenômeno, ou nas tentativas de identificar sinais de alerta antes que a violência aconteça.

A primeira abordagem, teorizar para explicar, é importante, mas pode parecer muito abstrata para falar com pessoas fora da academia. A segunda abordagem é igualmente importante e certamente muito útil para órgãos responsáveis pela segurança pública. Este livro é diferente nisso, enquanto há uma discussão a respeito dos motivos, ocorrendo em toda parte, meu objetivo é oferecer um arcabouço teórico que se aproxime mais da aplicação prática do que os trabalhos atualmente disponíveis. Sou formada em teologia com especialização em psicologia da religião, e meu trabalho é de certa forma, transdisciplinar.  Por transitar entre esses dois mundos, talvez esteja em melhor posição que muitos dos teóricos para explorar os meios pelos quais crenças religiosas e mecanismos psicológicos interagem.

O objetivo principal do livro é lançar luz sobre as interações entre nossas imagens de Deus, nosso ego individual e o self coletivo, e trazer à luz o grau em que cada um de nós compartilha a responsabilidade pela transformação do cenário religioso. Porque a posição que eu assumo nesse trabalho, é a de que cada um de nós tem um grau de responsabilidade pessoal pela violência que é cometida em nome da religião, é importante esclarecer alguns termos básicos.

Mesmo em alguns dos melhores textos sobre o assunto hoje, é comum ver “violência” e “terrorismo” usados como sinônimos, e as distinções raramente são feitas entre categorias de violência. A violência é definida aqui como “exercício de força física para causar injúria, ou causar dano a pessoas ou propriedades; ação ou conduta caracterizada por isso; tratamento ou comportamento que tende a causar injúria corporal ou interferir à força com a liberdade pessoal” (Oxford English Dictionary, 2nd ed.). O terrorismo é definido como “uma violência cujo alvo são as populações civis… comunidades, e instituições do estado com o objetivo de atrair o máximo de atenção pública, visando causar mudanças políticas ou alterações de poder em favor da causa dos seus perpretadores.”  Nesse ponto de vista, nem toda violência é terrorismo, e todo terrorismo é violência.

Desde que nem toda violência religiosa é terrorismo, muitos importantes trabalhos teóricos, por se concentrar em atos terroristas, podem não se encaixar. O terrorismo é um fenômeno complicado afetado por muitas variáveis. Toma diferentes formas e ocorre por meios políticos, nacionais e econômicos. É executado para atingir muitos objetivos diferentes e executado por pessoas religiosas e não religiosas. Importante para definir o terrorismo é o fato de que os grupos terroristas são mais fracos do que seus inimigos percebidos. Também importante é sua prontidão em matar não-combatentes para atingir seus objetivos. É bom notar porque a violência religiosa é muitas vezes perpretada não pelo fraco, mas por aqueles que estão no poder. Os exemplos incluem a Inquisição da Igreja Católica Romana, e a guerra formal declarada por autoridades religiosas como os papas, na história cristã, e Maomé no Islã. A psicologia terrorista pode ter muito em comum com violência de gangues, enquanto a violência religiosa sancionada pelos poderosos podem operar por mecanismos distintos, observados por psicoanálises.

Neste trabalho, assumo a posição de que, se estamos interessados nas origens da violência cometida em nome de nossos deuses, precisamos entender a psicologia do ator individual, que é onde a violência começa. Obviamente, indivíduos agem mais destrutivamente em grupos, por isso psicologia social e dinâmica de grupos são importantes, mas não podemos perder de vista o fato de que grupos são feitos de indivíduos. Embora a política, a secularização, condições econômicas, lideranças carismáticas, e muitos outros fatores exerçam influência, o que importa é o que passa nas mentes dos indivíduos. Como veremos, a experiência subjetiva da injustiça ou depravação contam mais que as condições da realidade objetiva.  Fatores externos são necessários, mas claramente não são condições suficientes para a ocorrência da violência religiosa. Perpretadores de violência o fazem porque a forma como percebem suas situações, que, curiosamente, muitas vezes, são objetivamente aquelas do cidadão de classe média que possuem os recursos necessários para mudar seus próprios futuros. Muitas das mais populares teorias sociológicas, políticas e econômicas se baseiam nesse fato.

Encontrei na abordagem psicoanalítica dos arquétipos, desenvolvida por Car G. Jung, a mais promissora. A psicologia de Jung é robusta não só porque é, como veremos, totalmente compatível com os conhecimentos correntes em ciência cognitiva, psicologia e pensamento evolutivo. Está ressurgindo por essas e outras razões. A psicologia dos arquétipos tem se provado ser heuristicamente poderosa. Apesar de haver uma tendência entre muitos psicólogos do século XX para minimizar o trabalho de Jung, a psicologia Jungiana tem tido seguidores entre os analistas para os quais o seu trabalho enriquece outros sistemas e abordagens terapêuticas.  Os clérigos cristãos têm encontrado na psicologia Jungiana e de arquétipos, uma abundante fonte de ideias para melhorar a vida dos seus paroquianos. Muitos leigos inteligentes descobriram na psicologia arquetípica, ferramentas para transformação pessoal. Textos de psicólogos como James Hillman e Thomas Moore, entre outros, tem sido bastante lidos. As teorias de Jung falam com todo um segmento de profissionais e pessoas leigas, talvez mais do que qualquer outro sistema psicoanalítico. Seu trabalho faz sentido com a experiência das pessoas. Então um objetivo desse trabalho, é proporcionar ferramentas conceituais para trabalhar contra a perversão das ideologias religiosas, e fazer uso de conceitos que comprovadamente se comunicam com não especialistas, é a abordagem mais razoável. Tomada como uma lente interpretativa, a psicologia arquetípica pode nos ajudar a construir formas poderosas de tratar o sério problema da violência religiosa.[…]

O prefácio continua, mas para não me estender muito aqui, vou resumir os assuntos dos capítulos do livro, sobre os quais a autora discorre no restante do texto. No primeiro capítulo, ela começa com uma pergunta: a religião pode causar violência? Nesse capítulo, além de uma breve introdução sobre as origens da religião, ela fala sobre como se usa a religião para fugir da responsabilidade pessoal sobre comportamentos e decisões. No segundo capítulo, ela trata de citar grandes eventos de violência religiosa e examina a função exercida pelas escrituras sagradas nesses casos de violência. Cita casos não tão conhecidos como os da história do cristianismo e do islamismo, para demonstrar que violência religiosa nem sempre se baseia em textos sagrados e que portanto, a culpa não seria das escrituras sagradas, e sim do uso que se faz delas. No terceiro capítulo, cujo título em português seria “Buscando as origens da violência religiosa”, a autora se concentra nas teorias sobre o assunto. Com ênfase numa das mais comuns, de que o monoteísmo, por suas características particulares, tem mais potencial de levar pessoas a atos de violência, do que as demais formas de teísmo. No quarto capítulo, as explicações psicológicas mais importantes para os comportamentos religiosos violentos, são examinadas. O quinto capítulo é dedicado à psicologia da religião com ênfase nos princípios de Jung, os quais, segundo a autora, oferecem muitos subsídios para entender a questão com mais profundidade. No sexto capítulo, ela explora premissas filosóficas e teológicas da psicologia arquetípica. Oferece correções sobre falhas comuns no entendimento das teorias de Jung sobre a religião. No último capítulo, ela conclui dizendo que a “imoralidade” dos nossos deuses só pode ser transformada, quando nós mesmos nos tornamos mais morais do que nossos próprios deuses. Uma vez que grupos de pessoas, como os grupos religiosos, são moldados por padrões emocionais acumulados, e pensamentos de pessoas desconhecidas, o problema do grupo é a acumulação de maldades individuais. Como acontece em toda experiência humana coletiva, o mesmo sistema que possui as sementes da violência, contém também as sementes da paz.

Qual semente vai germinar, se é a da violência ou a da paz, é uma escolha dos indivíduos envolvidos nos grupos.

More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns

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