Unidade? Com quem?

maio 18, 2010

É comum pessoas não gostarem, quando outras criticam coisas com as quais não concordam em determinadas denominações que se dizem cristãs. Fala-se muito em não julgar, não separar o joio do trigo e outras coisas mais.

Mas espera aí…

Pode haver unidade entre coisas que não são iguais?

Se você mistura água e óleo num copo, são duas substâncias diferentes, com naturezas diferentes. Elas podem até ficar juntas dentro do copo, mas nunca se dissolvem uma na outra. Você pode claramente distinguir entre uma e outra. Pode separar uma da outra, com muita facilidade.

Se você coloca mais água num copo que já tem água, é tudo água, você não vai mais conseguir separar a água que já estava no copo, da água que foi colocada depois. Se a água que estava no copo estava mais limpa que a água que foi adicionada, a sujeira se dissolve e toda a água fica igualmente suja. Você pode separar a sujeira da água, e pode separar o óleo da água, mas não pode separar água de água.

Logo, unidade real mesmo, só pode existir quando as substâncias envolvidas têm a mesma natureza.

Não é possível, no meu ponto de vista, haver unidade entre defensores da prosperidade, os vendedores de milagres, e o evangelho de Cristo, como o que foi vivido por Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Não é a mesma substância.

É possível haver unidade entre pessoas que, dentro ou fora das instituições, são discípulos de Jesus. Tais pessoas se reconhecem mutuamente, ou pelo menos, deveriam se reconhecer. E essa unidade existe, ainda que muitas vezes, de forma invisível, de uma forma que apenas Deus pode ver. Mas não acho que seja possível haver essa mesma unidade, entre quem tenta viver de acordo com o evangelho, e quem vive de acordo com “teologias” totalmente estranhas aos ensinamentos deixados por Jesus, apesar de usarem e citarem seu nome, de forma abundante.

É possível que haja discípulos sinceros, em instituições que pregam esse Jesus distorcido, que vendem milagres, prosperidade e outras coisas mais, como se vendem mercadorias numa feira? Sim. Mas não creio que conseguirão permanecer em tais locais, onde o que se prega não é o que tais pessoas vivem enquanto discípulos de Jesus. A experiência delas como discípulos, não bate com o que é pregado pela “teologia” de tais instituições. Ficar numa instituição como essa, com a esperança de corrigir os caminhos da mesma, já provou ser uma ilusão. Sair ferido de uma tentativa dessas, é o resultado óbvio.

Escrever frases de efeito usando o nome de Jesus em placas, outdoors e paredes de igreja, tem muito pouco a ver com seguir Jesus.

No próprio Novo Testamento, existe clara distinção entre a multidão, pela qual Jesus tinha compaixão, mas que também sabia que só o procurava por causa do pão que haviam comido e pelos milagres que presenciaram; e os discípulos, os quais eram ensinados em separado; e duvido muito que Jesus falava a eles, nessas “aulas particulares”, sobre prosperidade, sobre a vida vitoriosa e os bens materiais, roupas de luxo, altos salários, e moradias confortáveis que Deus daria a eles,  se fossem fiéis no dízimo e ofertassem com abundância; isso sem contar a hospedagem em hotéis de luxo que eles teriam, durante suas viagens missionárias. O que Pedro pensaria de Jesus, se, depois de ter ouvido falar em tais coisas [prosperidade, bens materiais em abundância, vida confortável, ser recebidos em hotéis de luxo, receber altos cachês, etc], o que se apresentou a ele, foi o suplício de morrer também numa cruz? No mínimo, ia chamar Jesus de mentiroso.

E justamente por não acreditar que tal unidade entre o verdadeiro evangelho de Jesus e essas “teologias estranhas” possa, ou deva ser buscada, é que não uso o espaço aqui do blog, exclusivamente para ficar criticando tais pessoas que vendem prosperidade e milagres; a não ser é claro, quando alguém confunde o que eles pregam, com o que está verdadeiramente escrito no evangelho, coisa que é comum acontecer entre não cristãos. Aí, é preciso sim esclarecer que uma coisa é uma coisa, e outra coisa, é outra coisa.

De forma alguma se trata de juízo de valor, onde quem não segue tais “teologias estranhas” é melhor, menos pecador ou mais salvo do que quem segue. Se trata apenas de separar a Verdade, das mentiras que se dizem em nome da Verdade. Pessoas que têm fé em Jesus e, ao mesmo tempo, acreditam em coisas como a teologia da prosperidade, apesar de estarem, no  meu ponto de vista, iludidas, são irmãos em Cristo também. Mas não se pode dizer o mesmo, de quem prega esse tipo de teologia, e vende ilusões para as pessoas, a respeito de uma vida que nada tem a ver com a vida real do cristão. Tais pregadores, sabem muito bem o que estão fazendo, e as pessoas são apenas meios de conseguir o que desejam: lucro. Nem devo viver em função de atacar esses vendilhões, porque sei que o único capaz de levá-los a corrigir o caminho errado por onde entraram, é Deus. Simplesmente deixo-os de lado, não dou atenção a eles, mesmo porque nem teríamos assunto, e eu não suportaria suas falas cheias de jargões e frases de efeito.

Quem experimentou a graça gratuita de Deus, não vai em seguida tratar de vendê-la ao vizinho, e auferir altos lucros, vendendo algo que recebeu gratuitamente. Graça vendida não é graça, é prestação de serviços; graça comprada não é graça, é suborno.

Eu particularmente, não tenho muito assunto a conversar, com pessoas que acreditam que cristão tem que ser rico, não pode ficar doente, não pode sofrer, não pode ter problemas e etc, e que acham que Deus é seu mordomo particular, e que podem exigir qualquer coisa dEle. Na maior parte das vezes, ouço calada, pois sei por experiência própria, que não adianta muito discutir com essas pessoas. Não suporto esse ufanismo [quando Jesus disse que quem quisesse ser o maior no Reino, devia ser o servo de todos, e não pretender ser servido por todos], e confesso que não tenho muita paciência com esse tipo de discurso, desconectado da realidade e dos ensinamentos de Jesus. Ouço calada e triste, e ainda tenho que controlar a ira que esses pregadores de ilusões, me causam.

Unidade? Difícil… não estamos falando da mesma coisa…


More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns

maio 18, 2010

Prefácio do autor

As causas da violência são variadas e complexas, assim como a violência motivada pela religião. Violência em nome de ideologias religiosas não é algo novo, mas seu potencial destrutivo tem crescido exponencialmente, ao mesmo tempo em que as tecnologias bélicas se tornam mais eficientes. Centenas de livros sobre o assunto religião e violência têm sido publicados nas décadas recentes, com aumento depois do 11 de setembro. As perspectivas oferecidas por esses trabalhos nos ajudam a entender o papel que textos religiosos, política, economia, uso dos recursos naturais, história, nacionalismo, etnocentrismo, fatores sociais, psicologia humana, e imagens do divino possuem na justificação da violência. Apesar dessas perspectivas serem importantes e úteis em proporcionar argumentos para o diálogo, fazem pouco para aliviar a frustração pessoal que muitos de nós sentem em face desse problema crescente. A maior parte da literatura falha em uma ou duas categorias: nas tentativas de explicar o fenômeno, ou nas tentativas de identificar sinais de alerta antes que a violência aconteça.

A primeira abordagem, teorizar para explicar, é importante, mas pode parecer muito abstrata para falar com pessoas fora da academia. A segunda abordagem é igualmente importante e certamente muito útil para órgãos responsáveis pela segurança pública. Este livro é diferente nisso, enquanto há uma discussão a respeito dos motivos, ocorrendo em toda parte, meu objetivo é oferecer um arcabouço teórico que se aproxime mais da aplicação prática do que os trabalhos atualmente disponíveis. Sou formada em teologia com especialização em psicologia da religião, e meu trabalho é de certa forma, transdisciplinar.  Por transitar entre esses dois mundos, talvez esteja em melhor posição que muitos dos teóricos para explorar os meios pelos quais crenças religiosas e mecanismos psicológicos interagem.

O objetivo principal do livro é lançar luz sobre as interações entre nossas imagens de Deus, nosso ego individual e o self coletivo, e trazer à luz o grau em que cada um de nós compartilha a responsabilidade pela transformação do cenário religioso. Porque a posição que eu assumo nesse trabalho, é a de que cada um de nós tem um grau de responsabilidade pessoal pela violência que é cometida em nome da religião, é importante esclarecer alguns termos básicos.

Mesmo em alguns dos melhores textos sobre o assunto hoje, é comum ver “violência” e “terrorismo” usados como sinônimos, e as distinções raramente são feitas entre categorias de violência. A violência é definida aqui como “exercício de força física para causar injúria, ou causar dano a pessoas ou propriedades; ação ou conduta caracterizada por isso; tratamento ou comportamento que tende a causar injúria corporal ou interferir à força com a liberdade pessoal” (Oxford English Dictionary, 2nd ed.). O terrorismo é definido como “uma violência cujo alvo são as populações civis… comunidades, e instituições do estado com o objetivo de atrair o máximo de atenção pública, visando causar mudanças políticas ou alterações de poder em favor da causa dos seus perpretadores.”  Nesse ponto de vista, nem toda violência é terrorismo, e todo terrorismo é violência.

Desde que nem toda violência religiosa é terrorismo, muitos importantes trabalhos teóricos, por se concentrar em atos terroristas, podem não se encaixar. O terrorismo é um fenômeno complicado afetado por muitas variáveis. Toma diferentes formas e ocorre por meios políticos, nacionais e econômicos. É executado para atingir muitos objetivos diferentes e executado por pessoas religiosas e não religiosas. Importante para definir o terrorismo é o fato de que os grupos terroristas são mais fracos do que seus inimigos percebidos. Também importante é sua prontidão em matar não-combatentes para atingir seus objetivos. É bom notar porque a violência religiosa é muitas vezes perpretada não pelo fraco, mas por aqueles que estão no poder. Os exemplos incluem a Inquisição da Igreja Católica Romana, e a guerra formal declarada por autoridades religiosas como os papas, na história cristã, e Maomé no Islã. A psicologia terrorista pode ter muito em comum com violência de gangues, enquanto a violência religiosa sancionada pelos poderosos podem operar por mecanismos distintos, observados por psicoanálises.

Neste trabalho, assumo a posição de que, se estamos interessados nas origens da violência cometida em nome de nossos deuses, precisamos entender a psicologia do ator individual, que é onde a violência começa. Obviamente, indivíduos agem mais destrutivamente em grupos, por isso psicologia social e dinâmica de grupos são importantes, mas não podemos perder de vista o fato de que grupos são feitos de indivíduos. Embora a política, a secularização, condições econômicas, lideranças carismáticas, e muitos outros fatores exerçam influência, o que importa é o que passa nas mentes dos indivíduos. Como veremos, a experiência subjetiva da injustiça ou depravação contam mais que as condições da realidade objetiva.  Fatores externos são necessários, mas claramente não são condições suficientes para a ocorrência da violência religiosa. Perpretadores de violência o fazem porque a forma como percebem suas situações, que, curiosamente, muitas vezes, são objetivamente aquelas do cidadão de classe média que possuem os recursos necessários para mudar seus próprios futuros. Muitas das mais populares teorias sociológicas, políticas e econômicas se baseiam nesse fato.

Encontrei na abordagem psicoanalítica dos arquétipos, desenvolvida por Car G. Jung, a mais promissora. A psicologia de Jung é robusta não só porque é, como veremos, totalmente compatível com os conhecimentos correntes em ciência cognitiva, psicologia e pensamento evolutivo. Está ressurgindo por essas e outras razões. A psicologia dos arquétipos tem se provado ser heuristicamente poderosa. Apesar de haver uma tendência entre muitos psicólogos do século XX para minimizar o trabalho de Jung, a psicologia Jungiana tem tido seguidores entre os analistas para os quais o seu trabalho enriquece outros sistemas e abordagens terapêuticas.  Os clérigos cristãos têm encontrado na psicologia Jungiana e de arquétipos, uma abundante fonte de ideias para melhorar a vida dos seus paroquianos. Muitos leigos inteligentes descobriram na psicologia arquetípica, ferramentas para transformação pessoal. Textos de psicólogos como James Hillman e Thomas Moore, entre outros, tem sido bastante lidos. As teorias de Jung falam com todo um segmento de profissionais e pessoas leigas, talvez mais do que qualquer outro sistema psicoanalítico. Seu trabalho faz sentido com a experiência das pessoas. Então um objetivo desse trabalho, é proporcionar ferramentas conceituais para trabalhar contra a perversão das ideologias religiosas, e fazer uso de conceitos que comprovadamente se comunicam com não especialistas, é a abordagem mais razoável. Tomada como uma lente interpretativa, a psicologia arquetípica pode nos ajudar a construir formas poderosas de tratar o sério problema da violência religiosa.[…]

O prefácio continua, mas para não me estender muito aqui, vou resumir os assuntos dos capítulos do livro, sobre os quais a autora discorre no restante do texto. No primeiro capítulo, ela começa com uma pergunta: a religião pode causar violência? Nesse capítulo, além de uma breve introdução sobre as origens da religião, ela fala sobre como se usa a religião para fugir da responsabilidade pessoal sobre comportamentos e decisões. No segundo capítulo, ela trata de citar grandes eventos de violência religiosa e examina a função exercida pelas escrituras sagradas nesses casos de violência. Cita casos não tão conhecidos como os da história do cristianismo e do islamismo, para demonstrar que violência religiosa nem sempre se baseia em textos sagrados e que portanto, a culpa não seria das escrituras sagradas, e sim do uso que se faz delas. No terceiro capítulo, cujo título em português seria “Buscando as origens da violência religiosa”, a autora se concentra nas teorias sobre o assunto. Com ênfase numa das mais comuns, de que o monoteísmo, por suas características particulares, tem mais potencial de levar pessoas a atos de violência, do que as demais formas de teísmo. No quarto capítulo, as explicações psicológicas mais importantes para os comportamentos religiosos violentos, são examinadas. O quinto capítulo é dedicado à psicologia da religião com ênfase nos princípios de Jung, os quais, segundo a autora, oferecem muitos subsídios para entender a questão com mais profundidade. No sexto capítulo, ela explora premissas filosóficas e teológicas da psicologia arquetípica. Oferece correções sobre falhas comuns no entendimento das teorias de Jung sobre a religião. No último capítulo, ela conclui dizendo que a “imoralidade” dos nossos deuses só pode ser transformada, quando nós mesmos nos tornamos mais morais do que nossos próprios deuses. Uma vez que grupos de pessoas, como os grupos religiosos, são moldados por padrões emocionais acumulados, e pensamentos de pessoas desconhecidas, o problema do grupo é a acumulação de maldades individuais. Como acontece em toda experiência humana coletiva, o mesmo sistema que possui as sementes da violência, contém também as sementes da paz.

Qual semente vai germinar, se é a da violência ou a da paz, é uma escolha dos indivíduos envolvidos nos grupos.

More Moral than God: Taking Responsibility for Religious Violence – Charlene P. E. Burns