Uma janela para o Divino

por Ilia Delio

[…]De forma semelhante, o teólogo John Haught enfrenta a questão de Deus e evolução, e alguém pode encontrar no livro de Haught, uma resposta à pergunta de Teilhard. Diferente de Teilhard, que assumia uma nova síntese de Deus no mundo, Haugth assume um diálogo “entre Charles Darwin e a teologia cristã, na questão sobre o que a evolução significa para o nosso entendimento de Deus e aquilo que consideramos criação de Deus.”

Seu último livro continua uma série de livros baseados na “ideia perigosa” de Darwin. Haught afirma que “Darwin jogou uma bomba religiosamente explosiva na cultura Victoriana de seus contemporâneos, e os cristãos, desde então, incluindo alguns, mas não todos os teólogos, têm lutado para desarmá-la ou tirar dela a sua periculosidade”. Não podemos mais nos livrar da evolução, assim como não podemos nos livrar do Universo. A principal obra de Darwin, On the Origin of the Species by Means of Natural Selection, “causou uma revolução intelectual e cultural, mais sensacional que qualquer outra desde Galileu.” O problema, entretanto, é que muitas pessoas religiosas se recusam a aceitar esse novo entendimento sobre a vida no universo, e muitos cientistas vêem a evolução como uma explicação auto-suficiente sobre a vida. Assim, os fundamentalistas religiosos permanecem entrincheirados em uma leitura literal da Bíblia e uma cosmologia ultrapassada, e os materialistas científicos julgam a religião como pueril.

Em 11 capítulos, marcados por aliterações da letra D (Darwin, Design, Diversity, Descent, Drama, Direction, Depth, Death, Duty, Devotion, Deity), Haught assume o desafio do cienticismo, a desmistificação da religião e uma nova interpretação teológica à luz da evolução. Seu curto volume é porém denso. Por um lado ele confronta a criptoteologia dos cientistas materialistas, e por outro lado, elabora um novo entendimento a respeito de Deus em um mundo que evolui. Desafia a crítica “um ou outro” de ateístas populares como Richard Dawkins e Daniel Dennett, mostrando a superficialidade das leituras que fazem da Escritura e o entendimento primitivo que eles apresentam a respeito de Deus.

Haught indica que má teologia, assim como a má ciência, simplesmente nos leva a maus resultados. O reducionismo religioso, assim como o reducionismo científico, falham, de acordo com Haught, na visão do todo. Pela redução de Deus a um designer literal colorido com um toque de dualismo (Deus bom/Deus mau), os ateístas científicos proclamam argumentos dogmáticos sobre a incompatibilidade entre religião e ciência. Ele sugere que há um sentimento religioso, mesmo no maior dos ateus, que não podem admitir Deus porque se recusam a se mover do seu entendimento primitivo a respeito de Deus.

Assim como Haught conduz a discussão a partir da rigidez equivocada do materialismo científico para a teologia, articula um novo entendimento de Deus, trazido pela evolução. Em seu ponto de vista, a ideia da evolução de Darwin, libertou o Deus de promessas e esperança, o Deus do futuro, que é o Deus de Jesus Cristo. A evolução não descarta Deus, mas abre novas perspectivas ao mistério divino. “O Deus da evolução doa a si mesmo com humildade, e evita a manipulação imediata das coisas.”  Deus está à vontade nessa criação inacabada, permitindo às coisas criadas ter um papel, avançando para o futuro. Haught enfatiza que o drama é inerente nessa criação em evolução; é uma história inacabada de beleza, bondade e amor. Somente dentro do contexto do drama e da história, ele indica, podemos ver sentido nas tragédias e no sofrimento. “Se Deus não tivesse deixado o universo aberto à novidade e ao drama desde o início, não teria havido nenhum sofrimento, mas também não haveria aumentado em beleza ou valor.” A realidade da tragédia e sacrifício na natureza é uma parte essencial no movimento evolucionário de avanço no drama da vida no sentido de maior unidade e beleza.

No último capítulo, Haught discute sobre o Deus da evolução à luz de Teilhard de Chardin, e com razão. Nenhum outro pensador moderno fez mais para unir evolução e o Deus cristão do que Teilhard. Nos seus dias, a teologia de Teilhard não foi bem compreendida e foi pouco aceita nos meios teológicos acadêmicos. Permanece um pensador marginal da mesma forma que a evolução permanece como  uma teoria marginal para a teologia cristã. E esse é o clamor persistente de Haught: que a teologia acorde para a evolução. “O que é teologicamente necessário”, escreve, “é uma releitura profunda dos ensinamentos cristãos sobre Deus, Cristo, criação, encarnação, redenção e escatologia, de acordo com a longa evolução da vida e de acordo com a cosmologia contemporânea de um universo em expansão.”   Isso não é, de acordo com Haught, uma constatação; isso é uma revelação. Ele nos convida a encontrar de novo o Deus de amor incompreensível, o Deus do futuro que nos atrai para novos níveis de vida, novas possibilidades, e novas formas de ver o mundo. John Haught não é simplesmente um dos melhores teólogos da atualidade; ele, como Teilhard, é um profeta.

Qualquer pensador sério encontrará nesse livro um grande banquete de pensamentos, de profundidade de visão e de um Deus   ao qual pertence a evolução.

A window to the Divine – America Magazine – Ilia Delio

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