Semeador

“Tendo Jesus saído de casa, naquele dia, estava assentado junto ao mar; E ajuntou-se muita gente ao pé dele, de sorte que, entrando num barco, se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia. E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. (Mateus 13: 1-9)”

O semeador, certamente não desejava que as sementes que pretendia semear, caíssem na beira do caminho, para serem comidas pelas aves, nem em pedregais, nem entre espinhos. O semeador já sabe,que se as sementes caírem em outros lugares que não sejam a terra adequada, estarão perdidas.

A semente cair fora do lugar, é um acidente de percurso na caminhada do semeador. Nenhum agricultor, em sã consciência, vai atirar sementes de propósito na beira do caminho, ou no meio de pedregais, ou no meio de espinhos. Porque sabe que as plantas não vão sobreviver. Pode acontecer também, que sementes caiam nesses lugares quando o semeador, na verdade, pretendia que caíssem na terra boa. Afinal, ele não está usando uma máquina semeadora de última geração, com GPS, dessas que depositam a quantidade exata de sementes no lugar exato. Ele estava usando suas próprias mãos, atirando a semente a lanço.

Ou talvez ele seja um cientista, e não tenha acreditado no que diz o povo, sobre a perda de tempo, a tolice que seria semear na beira do caminho, nos pedregais e no meio de espinhos. Ele quis ver se era assim mesmo, e atirou a semente, deliberadamente, em tais lugares. Mas não era uma plantação de verdade, era um experimento, tinha o objetivo de verificar uma hipótese.

Tem muita gente por aí, esquecendo que semear, ao modo de Jesus, é uma operação artesanal. Não se usam máquinas de semeadura e colheita em massa. E Jesus só desperdiçaria sementes, atirando-as na beira do caminho, nos pedregais, no meio dos espinhos, como um cientista, para provar que não basta a semente ser boa, a terra tem que estar preparada também.

Assim como no Reino, não se usam máquinas de semeadura em massa, porque o objetivo principal não são os números, semear no Reino é um ato de fé. Você sabe que a semente é boa, preparou a terra, mas nunca tem certeza de qual será o resultado. Quanto mais carinho e cuidado você tiver na preparação do leito para as sementes, e quanto mais certeza você tiver quanto à qualidade da semente, a chance de uma boa colheita aumenta, mas não existe certeza.

Você pode optar por manter tudo sob controle, quantidades exatas de água, aplicada em dias e horários determinados, distribuição de adubos e agrotóxicos, proteção contra a chuva forte ou o sol forte na germinação, um verdadeiro agricultor profissional, que sempre consegue altas produtividades em qualquer tipo de solo, usando todos os meios artificiais disponíveis. Força a germinação, aplica hormônios, e todo tipo de produtos para forçar o crescimento e a colheita precoce, seja na terra boa, nos pedregais, no meio dos espinhos, na beira do caminho. Depois da colheita, você deixa de cuidar da planta, entrega-a à própria sorte, interrompe a aplicação de água e fertilizante nos pedregais, interrompe o controle dos espinhos, tira a proteção contra o sol e a chuva. A planta pode morrer, que você não vai se importar, porque já conseguiu o que queria, a colheita. Mas no Reino as coisas não são assim. No Reino a fé é obrigatória, também para quem semeia. Esperar é obrigatório. Confiar no crescimento dado por Deus, é obrigatório. No Reino, existe tempo para as coisas acontecerem. Porque Deus deseja que aquela semente, se torne uma nova pessoa, e não apenas mais uma planta, que não fede nem cheira, mas apenas faz o que a obrigam a fazer, entupida de hormônios, adubos e agrotóxicos para que não haja outra alternativa, a não ser crescer. Crescimento saudável? Tire as “bengalas”, as “muletas” que estão sustentando essas plantas, para ver se elas não acabam morrendo. Certeza que sim.

Se você é um agricultor profissional, talvez seja apropriado trabalhar dessa forma. Mas se você semeia para o Reino, mude seus conceitos. No Reino, a pressa, mais do que nunca, é inimiga da perfeição. Gera plantas deformadas, sem alma, verdadeiros robôs vegetais. Isso nunca foi tão verdade quanto no atual momento em que vivemos no mundo evangélico, principalmente no Brasil.

Acham que gastar tempo com o trabalho artesanal, lento, demorado, minucioso, delicado, de preparar a terra, preparar a semente, semear, regar, esperar, cuidar, ter fé na capacidade de Deus de dar o crescimento, confiar que Aquele que faz a semente germinar também é capaz de fazê-la frutificar, na época certa, é perder tempo. Os frutos gerados por essa sede por números, por essa pressa em lotar salões de igreja, sem se preocupar em gerar pessoas melhores, bons frutos, estão aí, pra quem quiser ver. Há aqueles que deliberadamente estão desperdiçando sementes, atirando na beira do caminho, nos pedregais, nos espinhos, e assistem as sementes se perderem, sem se importar. Talvez por raiva do Pai, que imaginam estar obrigando-os a trabalhar na roça. E há aqueles que não estão mesmo semeando para o Reino, e sim, para encher seus próprios armazéns e silos, com o que puderem colher. Por isso, usam máquinas e toda tecnologia possível, e aceleram a colheita de toda forma que puderem.

E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus. (Lucas 12: 16-21)

Derrubam suas igrejas/silos onde já não cabem as suas ambições, e alugam grandes salões, salões cada vez maiores, que comportem o maior número de pessoas, visando colher dízimos e ofertas cada vez maiores. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

A imagem que ilustra a postagem, é uma pintura de Vincent Van Gogh, chamada O Semeador.

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One Response to Semeador

  1. Andrea disse:

    Reblogged this on Nada de novo sob o sole comentado:

    Estou de férias, mexendo com sementes, lembrei dessa postagem. E nada mudou depois disso, então ela continua atual.

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