The case for God – Karen Armstrong

por Sholto Byrnes

[…] O Deus sobre o qual Armstrong está falando é aquele cuja existência não pode ser provada de nenhuma forma para a satisfação racional, nem pelos argumentos ontológicos de Anselmo ou Descartes, nem pela ciência, como Newton imaginava. De fato, até mesmo falar da sua “existência” já é, em si, problemático. O ponto do qual Karen Armstrong parte desde o início, é de que a linguagem, limitada à compreensão humana, não é capaz de se expressar completamente a respeito de Deus. Todas as declarações sobre Ele são, portanto, na melhor das hipóteses, analógicas – quando dizemos que “Ele é perfeitamente bom”, trata-se apenas da sombra de uma bondade que é impossível para nós compreender – e qualquer sugestão de literalismo, implica em cair num antropomorfismo brutal e idólatra.[…]

[…]Voltando aos gregos, Armstrong fala sobre como mythos, uma história que encapsula uma dimensão atemporal, eterna, foi deslocado pelo logos, racionalizado, pensamento científico. Porque vemos o passado através do prisma do presente, falhamos em reconhecer que a supremacia do logos sobre mythos é uma aberração, e que por milhares de anos, ambos conviveram felizes; Calvino era feliz em ver a escritura e a ciência acomodadas uma a outra. Em tempos mais recentes, entretanto, temos negado a força desse “poder acima do nosso entendimento”, como Euripides o expressou, nos rendendo ao “intelecto intrometido”, lamentado por Wordsworth, que “mata para dissecar”.

O que temos perdido no processo é a paz e a alegria do “desconhecido”, de contemplar o que não podemos conceituar de forma adequada.  Confrontados por um mistério – “alguma coisa na qual me encontro preso, e cuja essência não é inteiramente vista por mim” –  nós imediatamente tentamos reduzir isso a um problema, “alguma coisa que encontrei barrando minha passagem”. No entanto, muitos dos maiores cientistas e filósofos, os “deuses” dos novos fundamentalistas do racionalismo científico, de David Hume a Albert Einstein, nunca foram tão reducionistas assim. O conhecimento de que “o que é impenetrável para nós, realmente existe, e manifesta-se a nós como a máxima sabedoria ou a mais radiante beleza, que nossas fracas faculdades podem compreender em suas formas primitivas… está no centro de toda religiosidade verdadeira”, escreveu Einstein.  Nesse sentido apenas, ele disse, “Pertenço às fileiras dos homens religiosos devotados.”[…]

[…]Tudo o mais, inclusive as muitas coisas terríveis que são feitas em nome da religião ao longo dos séculos, é distorção, idolatria e falha de interpretação. Se você aceita isso, e Karen Armstrong constrói um bom argumento, histórico e teológico, de que é isso que acontece, então qual de nós gostaria de admitir isso: que temos vivido uma vida tão pobre, que não tem nenhuma noção sobre a maravilha e transcendência que ela deseja que conheçamos?[…]

The case for God: What religion means – Karen Armstron – review by Sholto Byrnes

Trecho do livro:

“Historicamente, o ateísmo raramente tem sido uma negação do sagrado per se, mas quase sempre, é a rejeição de uma concepção particular da divindade.  No início de sua história, tanto cristãos quanto muçulmanos eram chamados de “ateístas” pelos seus contemporâneos pagãos, não porque negavam a a realidade de Deus, mas porque suas concepções de divindade eram muito diferentes e vistas como blasfêmias. O ateísmo é obrigatoriamente dependente de forma parasita, da forma de teísmo que deseja eliminar e começa a se transformar em sua imagem reversa. O ateísmo ocidental clássico foi desenvolvido durante o século XIX e início do século XX, por Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud, cujas ideologias foram essencialmente uma resposta ditada pela percepção teológica de Deus que havia se desenvolvido na Europa e Estados Unidos na era moderna. O ateísmo mais recente, de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harrus, é bastante diferente, porque está baseado exclusivamente no Deus dos fundamentalistas, e todos os três insistem em dizer que o fundamentalismo constitui a essência e o coração de todas as religiões. Essa premissa enfraqueceu suas críticas, porque o fundamentalismo é de fato, uma forma desafiante e pouco ortodoxa de fé, que na verdade deturpa a tradição que está tentando defender. Mas os “novos ateus” encontram grande público, não só na Europa secularizada, mas também nos convencionalmente religiosos Estados Unidos.  A popularidade de seus livros, sugere que muitas pessoas estão perplexas ou até mesmo irritadas com o conceito de Deus que herdaram.

É uma pena que Dawkins, Hitchens e Harris se expressem de forma tão desequilibrada, porque muitas das suas críticas são válidas. Pessoas religiosas têm de fato cometido atrocidades e crimes, e a teologia fundamentalista que os novos ateístas atacam, é “inábil”, como os budistas costumam dizer. Mas eles recusam, a princípio, a dialogar com teológos que representam mais a tradição corrente. Como resultado, suas análises são decepcionantes e superficiais, porque são baseadas nesse tipo de péssima teologia. De fato, os novos ateus não são radicais o suficiente. Teólogos judeus, cristãos e muçulmanos, têm insistido por séculos em dizer que Deus não existe, e que não há nada fora daqui; ao fazer essas afirmações, o objetivo deles não é negar a realidade de Deus, mas preservar a transcendência de Deus. Em nossa sociedade falante e cheia de opiniões, entretanto, nós parecemos ter perdido de vista esta importante tradição que soluciona a maior parte dos problemas religiosos atuais.

Não tenho a intenção de atacar as crenças sinceras de ninguém. Muitos milhares de pessoas acham que o simbolismo que envolve Deus funciona bem com elas; com o apoio dos rituais e a disciplina de viver em uma comunidade vibrante, dá a elas noção do significado transcendente. Todas as formas de expressão da fé do mundo, insistem que a verdadeira espiritualidade precisa ser expressa de forma consistente na prática da compaixão, na habilidade de sentir-se unido ao outro. Se uma ideia convencional sobre Deus, inspira empatia e respeito por todas as demais, ela está cumprindo sua função. Mas o Deus moderno é apenas um em muitas teologias que foram desenvolvidas nos últimos três mil anos de história do monoteísmo. Porque “Deus” é infinito, ninguém pode dizer que tem a última palavra. Estou convencida de que muitas pessoas estão confusas a respeito da natureza das verdades religiosas, perplexidade que é exacerbada pelo caráter belicoso de muitas das discussões religiosas atuais. Meu objetivo neste livro, é simplesmente trazer algo estimulante para a mesa de debates.”

Karen Armstrong

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: