Lendo a natureza e a bíblia

por Daniel M. Harrel

Recentemente ministrei um seminário sobre fé e ciência em um grande festival cristão de música em Illinois. Apesar de a recepção ter sido agradável (combinando com a hospitalidade do meio-oeste), houve aqueles para os quais qualquer apoio ao pensamento evolutivo, corresponde à heresia da mais alta ordem.  Um cavalheiro insistiu de forma pugilística durante toda a semana, dizendo que os geólogos e biólogos estavam errados e equivocados. E enquanto eu escutava seu discurso, me surpreendeu saber que o problema real não era se humanos e símios são primos próximos, ou que a vontade de Deus parece não existir quando se trata de mutações genéticas, ou que a vida orgânica requer uma enorme quantidade de morte e decadência para ocorrer. Não, a sua real preocupação era a autoridade da bíblia. Se o mundo não foi criado por Deus em seis dias (como diz a bíblia), e se as pessoas não foram feitas à imagem de Deus (como diz a bíblia), de acordo com propósitos divinos (como diz a bíblia), então por que ele deve crer que Jesus morreu por nossos pecados (como diz a bíblia)? Se a evolução está correta, então a bíblia está errada – sobre tudo.

Mas e se, invés da bíblia, for a nossa leitura da bíblia que estiver errada? E se as realidades da natureza significam que precisamos repensar a forma como entendemos a bíblia? Eu sei que apenas porque uma teoria particular faz sentido a respeito de como alguma coisa tenha acontecido, isso não necessariamente significa que realmente aconteceu daquela forma. Mas se a evolução proporciona uma descrição precisa da vida na terra, como podemos repensar o que a bíblia diz? Repensar o que pensamos sobre a bíblia não é reescrever a bíblia, não é capitular diante dos detratores do cristianismo. Em vez disso, repensar e retrabalhar nossa teologia à luz da precisão dos dados científicos em uma teologia mais confiável e resiliente. Ser um cristão sério é procurar a verdade, e encontrá-la como revelada por Deus, tanto na bíblia quanto na natureza. Se Deus é o criador dos céus e da terra, como nós cremos, então os céus e a terra, como a ciência os descreve, têm alguma coisa a dizer sobre Deus. A seleção natural não implica necessariamente numa seleção ateísta. Para ser testemunhas confiáveis da criação, não pode nos ajudar, mas nos fazer testemunhas mais confiáveis do criador.

Como empreendimentos humanos interpretativos, ciência (que interpreta a natureza) e teologia (que interpreta a bíblia), são inevitavelmente limitados e sujeitos a erro. Humildade é requerida de ambos. E então, quando a interpretação está correta, nos podemos esperar que ciência e teologia vão concordar que tanto a natureza quanto a bíblia são de Deus.  A ciência, de forma convincente, mostrar que a Terra tem 4,5 bilhões de anos, significa que “dia” em Gênesis significa mais do que um período de vinte e quatro horas. Que centenas de pessoas testemunharam a ressurreição de Jesus e bilhões tem tido suas vidas mudadas pelo Cristo ressuscitado, significa que a morte não é o fim da vida. Talvez o que pareça desordenado seja realmente a vontade de Deus. E se Deus pretendeu pelo processo livre da evolução operar de forma a resultar em pessoas com livre vontade que se pareçam com Deus?[…]

[…] Depois de cada um dos meus seminários, é comum a discussão continuar em pequenos círculos de pessoas. Em um desses círculos, um jovem descreveu de forma triste a perda da sua fé, como resultado das aulas de biologia.  Sua teologia não estava preparada para encarar o ataque das evidências científicas. Quando pressionado a escolher, ele optou pela ciência. Comprou meu livro, na esperança de encontrar a convergência entre ciência e fé, que tornasse possível a ele, crer novamente. Mas ele admitiu que tinha sérias dúvidas quanto à possibilidade disso acontecer.

Como ministro em uma igreja evangélica em Boston, eu estava acostumado com estudantes universitários vindo até mim, depois de serem martelados em suas aulas de biologia, para ter uma garantia de que Deus realmente existia. É fácil dar a eles essa garantia. O que é difícil, é fazê-los pensar de forma diferente a respeito de Deus. Na Bíblia inteira,  vemos pessoas indo contra um Deus que não atende suas expectativas. De Moisés no Monte Sinai aos discípulos de Jesus, de Paulo na estrada de Damasco e João em Patmos – Deus revelou a Si mesmo, consistentemente, de formas que mesmo pessoas cheias de fé, achariam difícil de acreditar.  Mas é assim que deve ser. Fé não é fantasia. Fundamenta-se na realidade das coisas, como elas são, e não da maneira que nós queremos que as coisas sejam.

Reading Nature and reading Scripture – Daniel M. Harrel

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