Sobre confiança e bicicletas

É comum os crentes repetirem como um chavão a frase “Eu confio em Deus”. Mas para muitos deles, isso não passa mesmo de um chavão. Boa parte das pessoas não sabe o que realmente significa essa frase que repetem tanto. Aprenderam a repetir, e repetem como se fosse uma fórmula mágica.

É um processo. Como quando seu pai ensinou você a andar de bicicleta. Lembra?

Nas primeiras vezes, o seu pai se mantinha segurando a bicicleta na vertical, enquanto ensinava você onde colocar os pés e as mãos, a pedalar, usar os freios. Além disso, a bicicleta tinha pequenas rodas auxiliares, para dar mais segurança. E enquanto seu pai ia segurando a bicicleta, você gritava para ele não soltar. Mas todo pai sabe que precisa soltar o filho com a bicicleta, senão ele nunca vai aprender a andar sozinho. Aí o seu pai soltava a bicicleta e deixava você se virar. Depois de vários tombos, onde você provavelmente ficou machucado, esfolou os joelhos ou os cotovelos, e provavelmente ficou bravo com ele por ter deixado que isso acontecesse, você finalmente aprendeu a andar sem precisar da segurança das mãos do seu pai.

Mas não acabou aí. Havia as rodinhas auxiliares, que precisavam ser retiradas. Mas como estamos falando de um processo de aprendizagem, seu pai não tirou as duas de uma vez. Tirou primeiro a rodinha de um dos lados da bicicleta. E como no processo anterior, depois de alguns tombos (e provavelmente menos machucados, porque afinal você deve ter também aprendido a cair), você aprendeu a andar sem aquela rodinha e sem cair. E seu pai estava orgulhoso. E disse: vou tirar a outra rodinha.

Aí você sentiu medo. Pensou que sem aquela rodinha nunca ia conseguir manter a bicicleta na posição, que não ia poder usar aquela rodinha como apoio para segurar a bicicleta, e o tombo ia ser feio. Mas era preciso tirar aquela rodinha. Seu pai tirou, apesar de todos os seus protestos. Claro que voltou a segurar a bicicleta nas primeiras vezes, mas às vezes ele provavelmente tirou as mãos dela, e você nem percebeu que estava andando sozinho. Chegou a hora de soltar você, sozinho com a bicicleta, sem nenhuma rodinha auxiliar. E ele disse: Vai, filho! Você consegue!

Você se apavorou de novo. Medo de cair, medo de não conseguir, medo de entristecer seu pai, que estava ali, olhando para você e pronto para te socorrer caso você caísse. Claro que você caiu. E seu pai não desistiu. Vamos tentar de novo. Eu também caí muitas vezes antes de aprender, meu filho. E você tentou, tentou, caiu, e foi melhorando. Já não caía mais, apenas quase caía, e recuperava o equilíbrio antes de chegar a cair. Até que, finalmente, conseguiu andar sozinho, sem as rodinhas auxiliares e sem o seu pai lhe segurando. E para comemorar, seu pai levou você na sorveteria.

Depois de um tempo andando de bicicleta, você começa a se achar um expert no assunto, e passa a tirar as mãos do guidão, ou os pés dos pedais, e esquece das instruções sobre segurança. E depois de anos, você volta a cair. Ou por causa da sua irresponsabilidade, machuca outras pessoas que nada tinham a ver com isso.

Aprender a confiar em Deus, é como aprender a andar de bicicleta. Se Deus ficar segurando você o tempo todo, você não vai aprender. Então Ele te solta, mesmo sabendo de todos os tombos que você vai levar. Depois que você aprendeu a guiar a bicicleta, se esquece dos princípios básicos de segurança e guia perigosamente, você cai. Aí é porque confiou mais em você mesmo do que nEle. Achou que podia inventar outra forma de guiar, diferente daquela forma segura que seu pai ensinou.

O engraçado é que, depois de ter se arriscado a guiar perigosamente e cair, alguns colocam a culpa no Pai. “Você me deixou cair.” E o Pai responde: “Quando eu ficava o tempo todo te segurando, você não queria que eu soltasse. Depois que você aprendeu a andar, você não queria mais que eu segurasse. E nem eu queria ficar segurando, porque sei que se fizesse isso, estaria atrapalhando o processo. Então, venho apenas levantar você depois que você cai. É você quem escolhe a forma de guiar a bicicleta. A  forma segura, eu ensinei anos atrás. Eu só interfiro quando você se estatela no chão, e precisa de ajuda para levantar.” Nem sempre precisamos de ajuda para levantar. Ficamos esperando que alguém tenha pena de nós, e nos ajude, nos dê a mão, quando podemos levantar sozinhos, afinal, não foi um tombo sério. Só sujamos um pouco a roupa, e nos comportamos como se tivéssemos as duas pernas quebradas.

Quando seu Pai diz: “Deixa de mimimi e levanta daí, rapaz!” é porque Ele sabe que você nem se machucou, só está tentando chamar a atenção, e voltar a ser tratado como criança.

Se você inventa formas perigosas de andar de bicicleta, ou começa a se preocupar com o que os seus pés e mãos estão fazendo, em vez de prestar atenção no caminho, nos sinais de trânsito, nos carros e nos pedestres, ou você vai cair, vai bater, ou vai atropelar alguém. Experimente andar de bicicleta, e ao mesmo tempo ficar se preocupando em contar quantas pedaladas você dá, ou quantas vezes você respira, ou quantas vezes o seu coração bate. Você vai acabar caindo. Não é em você que tem que prestar atenção, e sim na estrada e no trânsito.

O segredo não é imaginar o tempo todo que Deus está te segurando para você não cair. Ele pode fazer isso no início, mas não vai fazer para sempre, porque Ele quer você adulto, e não criança. O segredo é confiar que, na hora do tombo, se o tombo for realmente sério, Ele, que parecia ter deixado você solto, aparece do nada para te socorrer. Mas Ele também sabe que tem certos tombos que você leva de propósito, e não por acidente. E talvez deixe você ficar resmungando, até resolver levantar e seguir em frente.

Não se pergunte se Deus está te segurando ou não, para você não cair da bicicleta, simplesmente ande e saiba que, se você levar um tombo sério, Ele vai estar por perto. Se não for sério, admita isso, levante e siga em frente, em vez de ficar choramingando. Tem muitas pessoas que amam andar livremente com suas bikes, mas depois culpam Deus pelos tombos.

O que as igrejas fazem hoje, é distribuir bicicletas aos montes, mas nunca ensinam as pessoas a guiar sozinhas, como adultas. Preferem mantê-las nessa relação de dependência, que não tem nada de saudável. E a qualquer tentativa de soltá-las sozinhas com suas bicicletas, elas reagem como crianças. Esperneiam, gritam, choram, empacam, brigam e agridem a pessoa que está tentando libertá-las da mão do pastor, que insiste em segurar a bicicleta, ou até acorrentou a bicicleta na parede, para a pessoa se manter ali dentro. “Eu te dei a bicicleta, mas você não pode sair daqui com ela.” E quando caem não querem mais levantar. São birrentas, manhosas, e cheias de “não me toque”. Algumas só sabem andar de bicicleta entre as quatro paredes da igreja. Se não enxergam essas paredes, ficam paralisadas de terror. Andar de bike na rua? Nem pensar! Temos que ficar aqui, separados do mundo, lá fora é muito perigoso. E continuam ali, mesmo vendo que a grande quantidade de bicicletas circulando dentro do prédio, esteja fazendo as pessoas se machucarem mais dentro da igreja, do que se machucariam se estivessem andando livres, na rua. Igual criança que resolve andar de bicicleta dentro de casa: não dá certo. Para evitar se machucarem mutuamente, acabam ficando paradas. E olham com cara feia, caso algum corajoso resolva fazer diferente. Se resolver sair pra andar de bicicleta onde tem mais espaço, aí é como se a pessoa tivesse morrido pra elas. Muitos têm bikes paramentadas, cheias de marchas, amortecimento especial, mas só andam com elas dentro da igreja.

Igreja se transformou em estacionamento… = P

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