O holocausto da alma

por Paulo Brabo, condensando um texto de Peter Harrisson

[Antes da Era Moderna] a interpretação da Escritura estava ligada à interpretação dos objetos naturais. No terceiro século Orígenes (185-254) lançara, com base em Paulo (Romanos 1.20), a noção de que os objetos criados carregam significados simbólicos profundos. As múltiplas referências que a Bíblia faz a “leões”, por exemplo, exigiam o conhecimento dos múltiplos significados dessas criaturas; o leão podia representar Cristo, mas também o diabo. Embora o sentido literal das palavras fosse fixo, o sentido alegórico dos objetos não era. Agostinho (354-430) refinou esse sistema; segundo ele, as palavras referiam-se inequivocamente a objetos (sentido literal), mas os objetos em si podiam referir-se a outros objetos (sentido alegórico).

A multiplicidade de sentidos dos textos bíblicos não se relaciona portanto à ambigüidade das palavras, mas à capacidade dos próprios objetos de agirem como símbolos com referentes múltiplos. Determinar o sentido literal da escritura exigia identificar uma palavra com um objeto particular; determinar o sentido alegórico exigia uma análise dos significados dos próprios objetos. A alegoria medieval era portanto alimentada por uma teoria da natureza. “Todas as criaturas”, dizia Alan de Lille (1202), “são livros, imagens e espelhos”.

Nos séculos XV e XVI a Reforma Protestante passou a rejeitar os modos medievais de interpretação da Bíblia e, conseqüentemente, a concepção simbólica da natureza. Com os novos interesses históricos e antropológicos dos humanistas do Renascimento surgiu uma ênfase renovada no sentido literal da escritura. Os reformadores investiram a Escritura com autoridade sem precendentes, por isso careciam de um sistema de interpretração que produzisse resultados sem ambigüidade.

Além disso, a rejeição protestante da autoridade da tradição eclesiástica implicava que o texto da escritura devia livrar-se das leituras alegóricas dos Pais e Doutores da igreja. Tanto Martinho Lutero quanto João Calvino insistiam que a Bíblia tem um sentido único e inflexível, que corresponde normalmente (mas não invariavelmente) ao sentido literal ou histórico.

O triunfo do sentido literal sobre outros níveis de significado gerou a abordagem textual que tipifica a modernidade, na qual um texto tem um único texto identificado com as intenções de seu autor. Além disso, como a alegoria havia imprimido uma leitura particular aos objetos naturais, os modernos deixaram de ler significados múltiplos nos objetos – ocasionando mudanças dramáticas no modo pelo qual a ordem natural era vista.

A ênfase na primazia do sentido literal da escritura teve a conseqüência não planejada de interromper uma cadeia de referência potencialmente infinita, na qual palavras referem-se a objetos e objetos referem-se a outros objetos. A mentalidade literalista dos humanistas e reformadores imprimiu assim um significado fixo ao texto da escritura, mas ao mesmo tempo negou a possibilidade de se atribuírem significados a objetos naturais. Literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não. Isso tornou possível que novas leituras científicas da natureza substituíssem as leituras emblemáticas e simbólicas da Idade Média.

Nessa concepção da natureza os objetos são despidos de quaisquer propriedades intrínsecas e tornam-se entidades geométricas. São ordenados através de relações matemáticas, não significados transcendentais. As categorias matemáticas impostas sobre Galileu e John Ray aos objetos físicos e coisas vivas pode assim ser entendida como uma tentativa de reconfigurar o mundo natural que havia sido privado de ordem e significado pelo abandono da leitura alegórica.

Em suma, comumente se supõe que nos séculos XVI e XVII as pessoas começaram a olhar o mundo de um modo diferente, pelo que não podiam mais acreditar no que liam na Bíblia. Mais acurado seria dizer que no século XVII as pessoas começaram a ler a Bíblia de um modo diferente, pelo que viram-se forçadas a abandonar suas concepções tradicionais do mundo natural. Resumindo, a emergência da ciência moderna está intimamente relacionada ao novo modo literal de se ler o texto sagrado.

O abandono do sentido simbólico do mundo natural e a ênfase moderna na centralidade da palavra literal foi reforçada por outros elementos da religião reformada. Não negou-se poderes de significado apenas aos objetos naturais, mas também a todos os artefatos humanos que haviam sido projetados para exercer uma função simbólica: imagens pintadas em tela e gesso, construídas de vitral ou azulejo, ou esculpidas em madeiras e pedra foram sacrificadas no altar da iconoclastia. “A Reforma”, diz Eamon Duffy, “representou a defraudação de observâncias familiares e amadas, a destruição de um vasto e ressonante mundo de símbolos”.

As novas práticas litúrgicas também elevavam a palavra literal em detrimento do símbolo. O contexto inteiro da adoração protestante – visual, espacial, auditivo – era radicalmente diferente do que havia existido antes. Nas igrejas reformadas o foco da adoração deslocara-se da missa e seus objetos simbólicos para a leitura e a exposição da Bíblia. A doutrina da transubstanciação, da qual depende muito do significado da missa, foi condenada como exemplo típico da idolatria na qual objetos comuns [em contraposição a palavras] são blasfemamente adorados como Deus.

Ao final do século XVI o mundo dos símbolos começava a desmoronar, e sua anteriormente poderosa visão de ordem cósmica, dos significados profundos do reino material, começou irrevogavelmente a declinar. Ao promover a cultura da palavra literal, a Reforma Protestante efetuou uma dramática redução da esfera do sagrado, despindo forçosamente objetos naturais e artificiais dos papéis que haviam exercido como portadores de significado. A ideologia protestante e as práticas materiais que propagou desempenharam um papel chave na transição profunda pela qual, nas palavras de Lawrence Stone, “a Europa deslocou-se de uma cultura de imagens para uma cultura de palavras”.

As origens do mundo moderno estão, dessa forma, intimamente relacionados a revoluções na esfera da religião: o rito sagrado que havia residido no coração da cultura medieval foi substituído por um texto sagrado, palavras literais tomaram o lugar de objetos simbólicos, e o desempenhar de rituais sacramentais foram tomando o segundo lugar, substituídos pela recitação de crenças proposicionais.

Com essas mudanças veio a desintegração da prática de interpretação unificada que havia atribuído significados múltiplos tanto ao mundo natural quanto ao texto sagrado. Passou-se a reservar significado e inteligibilidade apenas a palavras e textos. O mundo natural, que havia sido um domínio transparente que unia palavras a verdades eternas, perdeu seus significados e tornou-se impermeável às práticas de interpretação que anteriormente o elucidavam; ficou para a emergente ciência natural a tarefa de reinvestir de inteligibilidade a ordem criada.

Dessa forma uma das características dominantes da modernidade, o triunfo da palavra escrita e a identificação de seu significado único com a intenção do seu autor, deu origem a outra: a compreensão sistemática e reducionista do mundo incorporada nas hoje consagradas práticas da ciência natural.

O processo de esvaziamento de significado do mundo natural abriu espaço não apenas para a explicação científica, mas também para a exploração material. A partir do momento em que, por causa das novas práticas de interpretação, a natureza deixou de agir como espelho de verdades transcendentais e livro de lições morais, seu valor foi reduzido à sua utilidade material. O que é algumas vezes percebido como a neutralidade moral das ciências, ou mais pejorativamente como sua falência moral, é uma das conseqüências do fato de a natureza não ser mais lida em conjunto com as escrituras, e que portanto os multiformes significados das criaturas tornaram-se agora obscuros. O silêncio da natureza é condição necessária para o abuso na exploração de seus recursos.

Num mundo natural que perdeu sua autoridade como repositório de verdades teológicas, a Escritura sofreu também uma irrecuperável perda de status devido à mudança para a primazia do sentido literal. Fixar o significado da Escritura a fim de reforçar sua autoridade produziu o efeito contrário. Existe, afinal de contas, uma diferença entre ler-se a Bíblia de modo literal e sustentar-se que as palavras da Bíblia sejam literalmente verdadeiras.

Dessa forma, o triunfo da abordagem literal abriu pela primeira vez na história da interpretação bíblica a possibilidade real de que passagens da Bíblia pudessem ser falsas. O sistema alegórico de Orígenes, por exemplo, virtualmente garantia a verdade de cada palavra da escritura. Aquilo que não fosse literalmente verdade – e aqui Orígenes incluía a descrição da criação em Gênesis – era verdadeiro num nível mais elevado. Não é de se surpreender que o desmantelar dos ricos mecanismos de interpretação medieval, com suas múltiplas camadas de significado, tenha exposto pela primeira vez a escritura aos assaltos da história e da ciência. A insistência dos protestantes para que fosse atribuído um significado determinado às passagens da escritura colocou em andamento o processo que acabaria minando a autoridade bíblica que eles tão entusiasticamente propunham.

Em conseqüência, a interpretação da Bíblia passou a ser uma ciência, um processo legitimado pela sua conformidade aos princípios da pesquisa histórica. A determinação do sentido literal do texto bíblico, tarefa que havia agora assumido vital importância dentro da tradição cristã, foi assim delegada aos que possuíam o conhecimento técnico relevante, sendo importante demais para ser confiado àqueles com um interesse direto nela.

Em resumo, a interpretação moderna da escritura, precisamente como a interpretação moderna da natureza, deixou de ser atividade religiosa. O ambiente do pós-modernismo provê uma oportunidade bem-vinda para que se avaliem as heranças hermenêuticas do passado, a fim de se considerar o que é valioso ou não. Talvez seja hora de se recuperar a Bíblia como documento religioso e revisitar as estratégias interpretativas da Idade Média, período durante o qual a Bíblia falava com muitas vozes.

Leia o texto completo aqui:

O holocausto da alma – Bacia das Almas

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