Qual o significado real de amar nossos inimigos?

por C. Drew Smith

Talvez um dos mais preocupantes e ignorados mandamentos de Jesus é a ordem de amar nossos inimigos. Falado num mesmo contexto do reconhecimento de Jesus de que somos chamados a amar nosso próximo, isto é, aqueles que são fáceis de amar, Jesus afirma que amar nossos inimigos deve ter a mesma autoridade em nossas vidas para sermos seus discípulos fiéis.

Com efeito, no contexto de Mateus 5:43-44, Jesus inverte o comando original, “Ouviste o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás teu inimigo”, para contrastar com o que ele pregava como nova regra de Deus, “Mas eu digo que amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem.”

Estas palavras devem ter sido chocantes para os seus ouvintes originais, assim como são chocantes para qualquer de nós que as ouve hoje. Talvez eles tenham tentado explicar esse comando em separado, ou simplesmente ignorado tudo, assim como nós fazemos em meios intelectuais e práticos. Afinal de contas, esse talvez seja o mandamento mais difícil de praticar.

Mas temos que fazer a pergunta de forma mais prática, “Como vamos amar nossos inimigos?” Em outras palavras, como vamos expressar na prática, de forma realista, o amor transformador e redentor de Deus para aqueles que nos têm ofendido? Se Jesus ordenou aos seus discípulos  que amassem seus inimigos, então este amor precisa ser autenticado por meio de ações tangíveis. Mas por meio de que ações podemos expressar esse tipo de amor?

Há muitas boas ações que poderíamos ver como ações de amor, mas existem algumas mensagens fundamentais que estão no cerne da mensagem do evangelho, de que Deus ama o mundo. De fato, enquanto muitos atos de bondade podem ser discutidos, me parece que Jesus modelou para nós três ações e reações principais em relação àqueles que eram seus inimigos.

Primeiro, nós precisamos responder ao mal que é feito a nós por nossos inimigos, com ações não violentas. Quando Jesus foi preso no jardim, no auge do conflito entre ele e seus inimigos, respondeu sem violência e falou aos seus discípulos para fazerem o mesmo. Enquanto aqueles que o prenderam portavam espadas e varapaus, Jesus reagiu à sua agressão com tranquilidade. Então, uma reação a algo de mal feito a nós por nossos inimigos, que seja tanto expressão autêntica quanto transformadora do amor de Cristo, é sempre não-violenta.

Isso não nos impede de buscar justiça, mas nos diz para buscar a verdadeira justiça, que quebra o ciclo de ódio e violência. Além disso, a ordem de Jesus de darmos a outra face não é um comando para sermos fracos diante do mal praticado contra nós. Ao invés disso, por meio da expressão do nosso rosto, demonstramos uma força que sintetiza as ações de Cristo e abre a possibilidade para o amor autêntico, e paz duradoura entre nós e nossos inimigos.

Em segundo lugar, amando nossos inimigos devemos expressar um perdão incondicional aos erros que cometeram contra nós. O perdão de Deus a nós não é baseado em nossas próprias ações de confissão e arrependimento.  O perdão de Deus é incondicional e se estende àqueles que tenham cometido os mais graves pecados. Assim, se é para revelarmos o caráter de Deus aos outros, então devemos estender a eles o mesmo tipo de perdão que Deus, de forma tão graciosa, estendeu a nós.

Porém, o perdão não é simplesmente passar batido por um erro que foi cometido. Aqueles que cometem erros contra outros e contra a sociedade, devem ser levados à justiça. Há delitos e crimes que não podem ser desculpados. Entretanto, a justiça que buscamos não é uma condição para o perdão, nós somos chamados a oferecê-lo. Não somos chamados a perdoar depois que alguém cumpre a pena pelo seu erro. Somos chamados a perdoar independente da pena.

Em terceiro lugar, com a força que Cristo nos dá para amar nossos inimigos, nos movemos na direção de acolher e abraçar nossos inimigos. Podemos observar a experiência de Jesus com Judas, aquele que iria traí-lo, para ver essa atitude. Jesus permaneceu em comunhão na mesma mesa com Judas até o fim; um ato que serviu como expressão de hospitalidade e intimidade. Servindo como anfitrião, Jesus não só dividiu a refeição com Judas, como também lavou seus pés.

Esteja certo, estes são passos desafiantes para nós darmos. Mas amar nossos inimigos é parte do evangelho do discipulado. Se só temos voz para um insincero e distante amor pelos inimigos, numa tentativa de convencer a nós mesmos de que estamos bem com Deus, então falhamos em amar nossos inimigos e falhamos em viver o evangelho.

A fé no evangelho de Jesus Cristo não é um assentimento mental a uma lista de proposições sobre quem Jesus era. A fé autêntica só pode se expressar carregando a cruz e seguindo Jesus. Discipulado é um chamado para morrermos para nós mesmos, incluindo nossa necessidade de vingança contra nossos inimigos. Discipulado é um chamado para promulgar o amor redentor e transformador de Deus para todas as pessoas, por meio da não-violência, do perdão, e abraçando aqueles que vemos como inimigos.

What does it really mean to love our enemies? – C. Drew Smith

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One Response to Qual o significado real de amar nossos inimigos?

  1. “Nós que em outro tempo nos matávamos agora recusamos fazer guerra contra nossos inimigos.” Justino Mártir (160 d.C.)
    Os primeiros cristãos não participavam na guerra pelo fato de que a igreja primitiva seguia os mandamentos de Cristo de jeito literal.
    http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/GUERRA.html

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