Religião e evolução podem conviver lado a lado

por Michael Shermer

Na última terça-feira (24/11) foi o aniversário de 150 anos da publicação de “A origem das espécies”, de Charles Darwin, ocorrida em 24 de novembro de 1859. Todas as 1250 cópias da primeira impressão foram procuradas, por leitores ávidos por ver se o naturalista inglês estava sendo desonesto com sua teoria radical de evolução, “por meio da seleção natural, ou a preservação das raças mais favorecidas na luta pela vida” no título completo do livro.

Quão importante é esse livro? Thomas Huxley (“o buldogue de Darwin”), proclamou que “A origem das espécies” é “o instrumento mais potente para estender o domínio do conhecimento que chegou às mãos dos homens desde “Principia” de Newton”, e lamentou consigo mesmo: “Como fui idiota em não ter pensado nisso.”

O biólogo de Harvard Ernst Mayr, indiscutivelmente o maior teórico da evolução desde Darwin, afirmou:  ” Seria difícil refutar a afirmação de que a evolução proposta por Darwin foi a maior revolução intelectual na história da humanidade.”  O paleontólogo e historiador da ciência, de Harvard, Stephen Jay Gould chamou a teoria da evolução de uma das doze idéias mais importantes em toda a história do conhecimento ocidental.

Por que, então, tantos norte-americanos não aceitam a teoria da evolução? Uma pesquisa feita pelo Gallup em 2001 encontrou que 45% dos norte-americanos concordam com a afirmação “Deus criou os seres humanos em sua forma atual ao mesmo tempo, aproximadamente 10 mil anos atrás”, enquanto 37% preferiu uma crença mista que “O ser humano se desenvolveu durante milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas, mas Deus guiou o processo”, e apenas 12% aceita a teoria científica padrão que “Os seres humanos se desenvolveram durante milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas e Deus não teve participação no processo.”

Estas porcentagens mudaram muito pouco nos anos subsequentes, apesar da maioria dos cientistas preferirem que as perguntas fossem feitas sem referência a Deus, já que a ciência da biologia evolucionária permanece tenha Deus governado o processo ou não, ou mesmo que haja ou não haja Deus.

Há pelo menos seis razões que levam as pessoas a resistirem em aceitar a teoria da evolução.

1. O modelo de Batalha entre Ciência e Religião. A crença de que existe uma guerra entre ciência e religião onde só um está certo e o outro, está errado, e que precisamos escolher um, em detrimento do outro.

2. A crença de que a evolução é uma ameaça a dogmas religiosos específicos. Muitas pessoas tentam usar a ciência para provar certos dogmas religiosos, mas quando a teoria não parece provar isso, a ciência é rejeitada. Por exemplo, a tentativa de provar que a história da criação em Gênesis é exatamente refletida no registro fóssil tem levado muitos criacionistas a concluir que a Terra foi criada nos últimos 10 mil anos, o que está em contraste gritante com as evidências geológicas de um planeta com 4,6 bilhões de anos de idade.

3. Incompreensão sobre a teoria evolucionista. Um problema significativo é que a maioria das pessoas conhece muito pouco sobre a teoria. Na pesquisa Gallup de 2001, um quarto das pessoas entrevistadas responderam que não sabiam dizer se aceitavam a evolução ou não, e só 34% consideraram a si próprias como “bem informadas” sobre a teoria.  Pelo fato de a evolução causar controvérsia, os professores de ciências das escolas públicas normalmente fogem totalmente do assunto, em vez de enfrentar o desconforto causado em alunos e pais.

4. O medo de que a evolução degrade a humanidade. Depois que Copérnico derrubou o pedestal da centralidade cósmica da Terra, Darwin deu o golpe de misericórdia nos mostrando como “meros animais”, sujeitos às mesmas leis naturais e forças históricas assim como todos os animais.

5. O equacionamento da evolução com o nihilismo ético. Este sentimento foi expresso pelo comentarista social neoconservador Irving Kristol em 1991: “Se há um fato indiscutível sobre a condição humana é que a comunidade não sobrevive se for persuadida de que – ou se suspeitar – que seus membros estão levando vidas sem sentido num universo sem sentido.”

6. O medo de que a teoria evolucionista implique em que temos uma natureza humana fixa. As primeiras cinco razões para a resistência à teoria evolucionista ocorrem quase exclusivamente em políticos conservadores. Esta última razão se origina nos liberais que temem que a teoria evolucionista aplicada ao ser humano implique que teorias políticas e doutrinas econômicas vão falhar porque a constituição da humanidade é mais forte que as constituições dos Estados.

Todos esses medos são infundados. Se alguém é teísta, não faz diferença quando foi que Deus fez o universo – se foi há 10.000 anos ou há 10 bilhões de anos. A diferença de seis zeros não faz sentido em um ser onipotente e onisciente, e a glória da criação divina merece elogios, independente de quando ela aconteceu.

Da mesma forma, se não importa como Deus criou a vida, se foi por meio de uma palavra milagrosa ou por meio das forças naturais do universo. A grandiosidade do trabalho de Deus nos leva ao temor, independente do processo que Ele tenha usado.

Quanto aos significados e à moral, é aqui que nossa humanidade decorre de nossa biologia. Nós evoluímos como primatas sociais com tendência a sermos cooperativos e altruístas dentro do nosso próprio grupo, mas competitivos e belicosos em relação a outros grupos. O propósito da civilização é nos ajudar a anular o lado negro dos nossos corações e acentuar os melhores anjos da nossa natureza.

Os crentes devem abraçar a ciência, especialmente a teoria evolutiva, pelo que ela fez para revelar a magnificência da divindade, em uma profundidade nunca sonhada por nossos ancestrais. Nós temos aprendido muito nos últimos 4.000 anos, e esse conhecimento nunca deve ser temido ou negado. Em vez disso, a ciência deve ser saudada por todos que apreciam a compreensão humana e a sabedoria.

Religion, evolution can live side by side – Michael Shermer

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One Response to Religião e evolução podem conviver lado a lado

  1. REMBRANDT DONIZETTE CASTRO disse:

    Eu concordo plenamente.A Evolução, seleção natural, idades da Terra e do Universo não desmentem a existência de Deus. Tudo isto foi e é observado num mundo já constituído. Precisa-se responder a perguntas mais profundas, que busquem as origens, desenvolvendo linhas de pensamento. EX : Certamente existia algo antes do Big Bang, pois é ilógico pensar que do nada surgiu algo; o Homem é a ´única espécie a dominar a terra pela inteligência. Se os processos foram naturais, esperar-se-ia pelo menos outra espécie, dentre os milhares, igual ao Homem. Como se formou o DNA, as proteínas? De acordo com um artigo do PHD em química, Charles McCombs, é impossível, por processos naturais, o surgimento das proteínas e do DNA. Só menciono este artigo, pois sou leigo e não sei se o mesmo pode vir a ser contestado.. tenho uma teoria do motivo pelo qual Deus escreveu o Genesis em linguagem simples: Ele queria dar relevância a questões humanas, não científicas; Ele quis que o Homem explorasse o mundo em que vive;uma aula de ciência seria linguagem pesada para a época.

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