O meu cristianismo

por Gibson da Costa
Já me perguntaram, muitas vezes, o por quê de eu ainda ser cristão. Muitas das pessoas que continuamente me fazem essa pergunta enxergam o cristianismo como aquela tradição religiosa autoritária e opressiva, que já foi responsável por tantos males no mundo, e que se opõe às descobertas que a ciência tem feito, se tornando, assim, um obstáculo ao desenvolvimento da humanidade (ou, pelo menos àquela parte da humanidade que o segue).

Como já é sabido por todos aqueles que me conhecem, eu me encontro numa posição ideológica contrária ao pensamento daqueles cristãos chamados de “fundamentalistas” (me refiro aqui ao sentido teológico dado a esse termo, ou seja, àquele movimento nascido em inícios do século XX nos Estados Unidos, como resposta às afirmações da ciência a respeito das origens da vida, e que parece ter um grande impacto no pensamento protestante brasileiro) e também) e também da maioria dos “conservadores”; mas também é sabido que ideologicamente me encontro bem distante daqueles que se opõem a toda forma de religião.

Eu vejo a vida espiritual como sendo uma necessidade humana. Alimentar o “espírito” (ou seja, o interior do ser) é tão essencial quanto alimentar o corpo. O ateísmo ou o pseudo-humanismo de alguns prega que a religião seja a causa dos problemas no mundo. Eu, como muitos outros, entretanto, creio que não seja a religião a causa desses males; a causa desses males está em nossa falta de compreensão de nossa religião, na falta de autenticidade e hospitalidade (em seu sentido mais amplo) na maneira como praticamos nossa religião.

Para citar um exemplo claro disso, sempre me sinto irritado quando alguém insinua que o islã seja uma religião que pregue o terrorismo e a violência – porque sei que isso não é verdade. Alguns dizem, então, que muita violência é praticada em nome do islã. Os “islamitas” (aqueles envolvidos com movimentos que usam o nome do islã para cometerem atos de violência) matam, sequestram, e cometem todo tipo de violência em nome da religião islâmica. Os críticos não conseguem entender que esses radicais se prendem a uma visão muito estreita de um ponto e que acabam por violar toda a sua tradição religiosa como consequência. Eles não são porta-vozes do islã.

Sempre penso em minha própria religião como sendo uma grande jornada, um eterno êxodo. Nesse sentido, já percorri as rotas mais sombrias do caminho que passam pelos campos mais perfumados, e que posteriormente me lançam em lugares solitários e sombrios, para que novamente possa alcançar mais luz e perfume. Vejo essa como sendo a perpétua jornada do viajante que busca aquele Mais, que chamo de Deus. O cristianismo é minha jornada nessa busca pelo Mais.

Mas, afinal de contas, por quê o cristianismo? Por quê alguém como eu continuaria a percorrer o caminho do cristianismo e se comprometeria em ensiná-lo a outras pessoas?

Eu seria incapaz de oferecer uma resposta única a essa pergunta. Tenho certeza que outras pessoas que seguem outros caminhos espirituais também seriam incapazes de resumir suas motivações a apenas um ponto.

Talvez possa começar dizendo que o caminho que sigo é um caminho simples. Meu cristianismo é um cristianismo não acorrentado a definições pré-estabelecidas; é um cristianismo não preso a explicações do passado que meu senso comum seja incapaz de aceitar, e que acabam virando um obstáculo à minha jornada. Creio que não sejam as explicações do sagrado que sejam eternas, mas sim nossa experiência do sagrado – e essa experiência do sagrado sempre ganhará explicações individuais diferentes, em todos os tempos e em todos os lugares.

Me vejo como um seguidor de um rabino judeu que viveu na Palestina no primeiro século de nossa era. Esse mestre espiritual era Jesus de Nazaré, chamado por seus seguidores de “o Cristo”.

Não. Se você pensa que eu perco meu tempo discutindo as explicações que os seguidores posteriores desse homem deram a respeito de sua natureza, de quem seria seu pai, como se deu seu nascimento, ou se ele sempre existiu em algum lugar do universo antes de sair do ventre de sua mãe… Não. Essas coisas não me interessam. Para mim, Jesus foi um homem normal, como eu mesmo, nascido da mesma maneira que todos os outros humanos – e é por esta mesma razão que ele consegue ser relevante em minha vida espiritual.

Se por um lado eu rejeito as explicações filosófico-religiosas que exaltaram Jesus ao nível divino e que criaram a imagem de um Cristo etéreo e não humano, por outro lado eu abraço as tradições que lhe atribuem palavras e ações que não podemos saber serem factuais ou não (levando em consideração o fato de eu não acreditar que os relatos dos Evangelhos sejam relatos históricos – no sentido que geralmente damos à palavra “história” -, mas que se tratam de testemunhos religiosos).

Àqueles que pensam ser tolice acreditar que Jesus de Nazaré tenha sido um personagem factual (ou seja, que realmente tenha existido no tempo e espaço), respondo: Não faz diferença! Mesmo se Jesus de Nazaré tivesse sido apenas uma criação dos primeiros “cristãos”, o personagem criado e exibido nos Evangelhos ensina uma mensagem poderosa e que tem tido profundo impacto na vida de incontáveis pessoas no decorrer de dois milênios. Tem tido profundo impacto em minha própria vida desde minha infância.

Um dos livros que compõem o Novo Testamento, o Evangelho de Marcos, narra um encontro entre Jesus e um líder religioso de seu tempo (Marcos 12:28-34). Esse líder pergunta-lhe qual seria o mais importante dever de um judeu. Jesus responde: “O primeiro mandamento é este… ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois”.

AMOR é a palavra que Jesus utiliza para resumir a essência de seu ensinamento. Uma entrega total de si mesmo ao amor a Deus e ao próximo, criando um laço entre o indivíduo e aqueles que o cercam a uma Realidade desconhecida aos olhos mas perceptível ao coração. Essa é a mensagem de Jesus.

Em outro episódio emblemático, Jesus é descrito como tendo ensinado o seguinte a seus seguidores (Mateus 5:3-12):

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus…”

Que diferença entre esse Jesus dos Evangelhos e aquele outro Jesus dos pregadores de rádio e televisão! É essa imagem do Jesus descrito nos Evangelhos que me faz um de seus seguidores.

Alguém poderia me perguntar se não me sinto desconfortável em ouvir as palavras de uma coleção de livros (a Bíblia) que já foi usada como desculpa para a prática dos atos mais vergonhosos, como a escravidão, a violência contra outras comunidades de fé, guerras, exploração econômica, o sexismo, etc.

Bem, eu acredito que todos nós, incluindo aqueles que dizem acreditar ser a Bíblia literalmente “a palavra de Deus”, fazemos leituras seletivas dos “textos sagrados”, retendo aquilo que pensamos ser bom e descartando aquilo que não nos convém.

Eu, como um cristão liberal, certamente faço isso. Renuncio as visões tribalistas, violentas e, para mim, sem sentido, enquanto abraço de mente e coração abertos aqueles ensinamentos que me fazem sentir mais próximo da Realidade Divina.

Abro meus ouvidos para as vozes de Miqueias, Isaías, Jesus, Tiago, e Paulo, que nos ensinam a amar, servir, alimentar, vestir, e abrigar nosso próximo. Essa é minha maneira seletiva de ouvir a Bíblia.

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)

… acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente…” (Isaías 58:6-10)

“…Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar… todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram…” (Mateus 25:31-46)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição…” (Tiago 1:27)

… no amor fraterno, sejam carinhosos uns com os outros… sejam solidários… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade. Abençoem os que perseguem vocês e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros… Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens… Vivam em paz com todos… se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:10-21)

Essas passagens da Bíblia indicam o cristianismo que considero minha jornada, o caminho que me leva ao Divino. Não é muito uma crença dogmática, mas uma fé que toma forma em um modo de vida. Outras pessoas talvez prefiram os credos, as declarações de fé, a crença na perfeição e infalibilidade de todas as palavras da Bíblia. Eu, entretanto, escolho um caminho mais simples e, para mim, mais objetivo. Escolho acreditar que exista um Mais além de tudo isso que meus olhos podem ver. Não tenho interesse algum em definir esse Mais, mas escolho chamá-lo de Deus ou Pai/Mãe. Jesus é, para mim, a porta para essa Realidade – mas reconheço que outras pessoas encontrem sua porta para esse Mais em outros lugares, e a porta que encontram pode ser tão verdadeira para elas como a minha é para mim.

Minha religião, isto é, meu cristianismo, é a compaixão, o amor, a misericórdia, a hospitalidade, a paz entre eu e os outros – absolutamente TODOS os outros.

Tenho muito a aprender, a praticar, a transformar para que possa tornar minha vida um reflexo dessa fé, uma expressão dessa religião, mas, como disse antes, minha religião é uma jornada, meu cristianismo é um contínuo êxodo.

O meu cristianismo – Gibson da Costa

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