Gravatte, o salteador

por Victor Hugo, no  primeiro volume de Os Miseráveis

Vem a propósito aqui um facto que não devemos omitir, por ser um dos que melhor dão a conhecer o carácter do virtuoso bispo de Digne.

Depois de destroçada a quadrilha de Gaspar Bés, terrível bandido que infestara as gargantas de Olialles, refugiara-se na montanha com mais alguns salteadores que conseguiram escapar à justiça, um dos seus lugares-tenentes, chamado Gravatte. Conservando-se algum tempo oculto no condado de Nice, Gravatte entrou no Piemonte e, quando menos era esperado, reapareceu em França, do lado de Bercelonette, sendo visto primeiro em Jausiers e depois em Tuiles. Oculto nas cavernas de Joug-de-1’Aigle, fazia frequentes incursões nos lugares e aldeias dos arredores, descendo pelos barrancos de Ubaye e do Ubayette.

Uma noite, chegou mesmo a entrar em Embrun, onde penetrou na catedral, roubando todos os objectos que se encontravam na sacristia. Os seus repetidos assaltos traziam a terra em contínuo e terrível sobressalto. Destacou-se um corpo de gendarmeria para o perseguir, mas foi trabalho baldado. Escapava-se sempre e até algumas vezes resistia às forças mandadas em sua perseguição.

No meio deste terror, chegou o bispo, que andava a fazer as suas visitas pelo distrito de Chastelar. O maire foi ao seu encontro e pretendeu convencê-lo de quanto seria prudente voltar para trás, pois Gravatte ocupava a montanha até para além do Arche. Tornava-se perigoso atravessá-la, mesmo com uma escolta, porque seria expor inutilmente a vida de três ou quatro pobres soldados.

-Por isso mesmo tenciono ir sem escolta,  disse o bispo.

– Pois Monsenhor intenta semelhante coisa?! exclamou o maire.

-De tal modo que recuso a companhia dos soldados e daqui a uma hora pôr-me-ei a caminho.

-Pois teima em partir?

-Porque não?

-Sozinho?

-Sim.

-Isso é uma temeridade, senhor bispo.

-Há três anos,  replicou o bispo,  que não visito o pequeno e humilde lugarejo da montanha, cujos habitantes e bons pastores, são todos meus amigos. A sua riqueza   é   uma  cabra  de  cada  rebanho de  trinta  que guardam; a sua indústria, é fazer bonitos cordões de lã de diversas cores e o seu divertimento, tocar árias montanhesas em flautins de seis buracos. Precisam de ouvir a palavra de Deus de tempos a tempos. Que haviam de dizer de um bispo medroso? Que diriam se eu lá não fosse?

– Mas, Monsenhor, e os salteadores?

-É verdade, tem razão. Se os encontrasse… Olhe que também devem ter necessidade de ouvir  falar em Deus!

-É uma grande quadrilha!  Um rebanho de lobos!

-Pois talvez seja desse rebanho, senhor maire, que Jesus queira que eu seja pastor. Quem sabe os desígnios da Providência?

-Podem roubá-lo,  senhor bispo.

-Não tenho nada.

-Podem assassiná-lo!

-Ora! com que fim fariam eles mal a um pobre sacerdote que vai a passar, ocupado unicamente em rezar as suas orações?

-Valha-me  Deus!  Que  sucederá  se os  encontrar?

-Pedir-lhes-ei esmola para os meus pobres.

-Em nome do céu, Monsenhor, não exponha a sua vida!

-Pois é esse o seu temor, senhor maire! atalhou o bispo.  Eu não ando no mundo para guardar a minha vida, mas sim para guardar as almas!

Ninguém o pôde fazer mudar de resolução. Apesar de todas as súplicas, partiu acompanhado apenas por um rapaz que se prestou a servir-lhe de guia.

A sua obstinada resistência deu muito que falar, deixando os ânimos sobressaltados em extremo. Desta vez não quis que a irmã nem Magloire o acompanhassem. Atravessou a montanha montado numa mula e chegou são e salvo até aos pastores seus amigos, sem ter tido o menor encontro desagradável. Demorou-se quinze dias no meio deles, pregando, ensinando, moralizando, administrando os sacramentos.

Quando estava prestes a retirar-se, resolveu cantar pontificalmente um Te-Deum e comunicou a sua intenção ao cura. Mas surgiram graves dificuldades, pois não havia as insígnias episcopais que era mister. A modesta igreja paroquial apenas podia pôr à disposição do bispo alguns deteriorados paramentos de damasco, guarnecidos de galões falsos.

Isso  não   será  obstáculo,   senhor  cura,  disse  o bispo.  Anuncie  na  missa  o  nosso   Te-Deum, que  o mais sempre se há-de arranjar.

Procuraram-se paramentos em todas as igrejas dos arredores e reunidas as magnificências das humildes paróquias, mal chegavam para revestir convenientemente um chantre da catedral.

Achavam-se as coisas nestes apuros, quando à porta da residência paroquial chegaram dois cavaleiros desconhecidos que, depois de fazerem entrega de uma grande caixa de que eram portadores, tornaram a partir imediatamente. Aberta a caixa, viu-se que continha uma dalmática carregada de oiro, uma mitra guarnecida de diamantes, uma cruz arquiepiscopal, um báculo magnífico, todos os paramentos pontificais roubados um mês antes da sacristia de Nossa Senhora de Embrun. No fundo da caixa estava um papel em que se liam estas palavras:

Oferta de Gravatte a Monsenhor Bemvindo.

-Eu bem dizia que tudo se havia de arranjar!, exclamou o bispo. Em seguida acrescentou, sorrindo:

-A quem se contentava com a sobrepeliz de um simples cura, envia Deus um manto de arcebispo!

-Deus… ou o diabo! murmurou o pároco, abanando a cabeça com um sorriso de incredulidade.

O bispo fitou atentamente o pároco e replicou em tom austero:

-Foi Deus.

Quando voltou a Chastelar, de todos os lados, vinha gente à beira da estrada para o ver passar. Chegado à residência paroquial de Chastelar, encontrou a irmã e Magloire que o esperavam ali e, apenas as viu, exclamou:

-Então, eu não tinha razão? Vai um pobre sacerdote visitar os infelizes montanheses com as mãos vazias e volta de lá com elas cheias! Quando fui, levava apenas a minha confiança em Deus, e agora volto trazendo o tesouro de uma catedral!

À noite, antes de se deitar, disse ainda:

Não tenhamos receio de ladrões e de assassinos. São muito pequenos os perigos exteriores. Devemos ter receio é de nós próprios! Os preconceitos e os vícios é que são os verdadeiros ladrões e os verdadeiros assassinos! Os maiores perigos são os que se acham dentro de nós mesmos. Que importa que a nossa cabeça ou a nossa bolsa esteja ameaçada? Não devemos temer senão o que nos ameaça a alma!  Depois, voltando-se para a irmã, acrescentou:  Minha irmã, o sacerdote não deve precaver-se contra o próximo. Aquilo que ele pratica é permitido por Deus. Limitemo-nos a implorar a bondade divina, quando nos julguemos ameaçados por qualquer perigo. Imploremo-la, não por nós, mas para que os nossos irmãos não caiam em tentação por nossa causa.

Óbvio que o tal bispo é uma personagem de ficção de Victor Hugo. Afinal, quando você pensa na palavra “bispo”, não é a figura desse bispo, personagem de Os miseráveis (o qual recebia salário mas a maior parte dele era distribuído aos necessitados, que pregava e exercia as funções de bispo com a mesma simplicidade com a qual arregaçava as mangas para cultivar o jardim ele mesmo, que transformou a casa paroquial em hospital porque o hospital era pequeno demais para abrigar todos os doentes com conforto, que visitava os pobres andando a pé e etc), que você lembra.

A palavra “bispo” nos lembra líderes cheios de empáfia e soberba, que pedem ofertas para comprar canais de tv e rádio, mansões no exterior, fazendas, carros blindados e jatinhos, e se eleger em pleitos eleitorais, e não para ajudar os necessitados. Se a igreja que se diz cristã, se dispusesse a ser relevante socialmente no Brasil, com a aviltante quantia de 1 bilhão de reais que arrecada por mês, livre de impostos, ela faria toda a diferença.

Esse tipo de personagem só existe mesmo na ficção, a realidade é bem outra.

Não estou dizendo que o cristão deve se expor a bandidos e arriscar sua vida como fez o bispo da história (e os tempos são bem outros, hoje em dia a vida não vale mais coisa alguma para ninguém, tira-se a vida de pessoas como quem apaga um cigarro), mas que um cristão não deve usar isso como justificativa para ficar escondido dentro da igreja, se protegendo de tudo  e de todos, porque as pessoas que mais precisam de Deus, estão do lado de fora. Se tentássemos usar de mais simplicidade e colocássemos mais amor no nosso cristianismo, as coisas seriam bem diferentes.

Mas insistimos em cair no mesmo erro religioso de sempre, aquele erro que consiste em buscar ostentação e enriquecimento para nossos líderes, para o sistema religioso do qual fazemos parte, e para nós mesmos, antes de buscar o Reino de Deus e a sua justiça. Nós não estamos de fato preocupados com o próximo, mas apenas conosco mesmos. E ainda somos capazes de agir como os amigos de Jó, que o acusaram pelas desgraças que se abateram na sua vida, em vez de tentar consolar e ajudar.

Muito estranho esse nosso “cristianismo”…

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