Mate os comentadores!

A massa de interpretadores bíblicos de hoje danificaram, mais do que ajudaram, o nosso entendimento da Bíblia. Ao ler os estudiosos, tornou-se necessário fazer como alguém numa peça de teatro onde uma profusão de espectadores e holofotes impedem o que seria a nossa apreciação normal da peça em si, e em vez disso somos confrontados com pequenos incidentes. Para ver a peça, a pessoa tem que ignorá-los, se possível, ou entrar por um caminho que ainda não foi bloqueado. O comentador se tornou, de fato, o intrometido mais perigoso possível.

Se você deseja entender a Bíblia, então esteja certo de lê-la sem um comentário. Pense em dois amantes. A amante escreve uma carta ao seu amado. A pessoa amada se preocupa com o que os outros pensam? Ele não vai ler a carta sozinho? Em outras palavras, passaria pela cabeça dele a qualquer momento a idéia de ler a carta usando um comentário?! Se a carta da amante fosse numa língua que ele não entendesse – bem, então ele aprenderia a língua – mas ele certamente não leria a carta com a ajuda de comentários. Eles são inúteis. O amor pela sua amada e sua prontidão em cumprir com os seus desejos o tornaria mais do que capaz de entender a carta. É a mesma coisa com as Escrituras. Com a ajuda de Deus nós podemos entender a Bíblia direito. Todo comentário distrai, e aquele que se senta com dez comentários abertos e lê as Escrituras – bem, provavelmente ele está escrevendo o décimo primeiro. Certamente ele não está lidando com as Escrituras.

Suponha agora que essa carta da amante tem o atributo único: que todo ser humano é esse amante – e então? Nós deveriamos agora sentar e fazer uma conferência uns com os outros? Não, cada um de nós deveria ler essa carta sozinho como um indivíduo, como um indivíduo único que recebeu essa carta de Deus. Ao lê-la, nós vamos nos preocupar primeiramente conosco e com nosso relacionamento com Ele. Nós não vamos nos focalizar, na carta da amada, que talvez esta passagem, por exemplo, pode ser interpretada dessa forma, e aquela passagem de outra forma – oh, não, a coisa importante para nós será agir da forma mais breve possível.

Não é algo impressionante ser o amado? E isso não nos dá algo que nenhum comentador tem? Pense nisso. Nós não somos, cada um de nós, os melhores interpretadores das nossas próprias palavras? E então próximo ao amante, e em relação a Deus, o crente verdadeiro? Para que não esqueçamos, as Escrituras não são nada mais que sinais de trânsito: Cristo, o amante, é o Caminho. Mate os comentadores!

É claro que os comentadores não são os únicos errados. Deus quer forçar cada um de nós novamente na direção do essencial, de volta para o início infantil. Mas estar nu diante de Deus dessa forma, isso nós não queremos de jeito nenhum. Todos nós preferimos os comentários. Assim, a cada geração que passa, nós nos tornamos cada vez mais sem espírito.

O que nós realmente precisamos, então, é de uma reforma que deixe até mesmo a Bíblia de lado. Sim, isso tem tanta validade agora quanto teve o rompimento de Lutero com o Papa. A ênfase atual em retornar à Bíblia criou, infelizmente, uma religiosidade por meio de aprendizado e charlatanismo literário – uma perfeita diversão. Tragicamente esse tipo de conhecimento espirrou gradualmente para as massas, de forma que ninguém consegue mais ler a Bíblia simplesmente. Todo o nosso aprendizado bíblico tornou-se nada mais do que uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando chega ao ponto da existência, da obediência, há sempre algo mais do qual nós temos que cuidar primeiro. Nós vivemos sob a ilusão de que nós precisamos primeiro ter a interpretação correta ou a fé na forma perfeita antes de poder começar a agir – isto é, nós nunca passamos a fazer o que a palavra diz.

A igreja tem precisado há muito tempo de um profeta que, com temor e tremor, tivesse a coragem de proibir as pessoas de ler a Bíblia. Eu sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta. Vamos coletar todas as Bíblias e levá-las para uma área aberta, ou ao topo de uma montanha e então, enquanto ajoelhamos, deixemos alguém falar com Deus da seguinte forma: “Leve esse livro de volta. Nós cristãos, tais como somos, não somos capazes de nos envolver com tal coisa; ele só nos torna orgulhosos e infelizes. Nós não estamos prontos para ele.” Em outras palavras, eu sugiro que nós, como aqueles habitantes cujas manadas de porcos afundaram na água e morreram, peçamos para Cristo “abandonar a vizinhança” (Mateus 8:34). Isso seria pelo menos um papo honesto – algo muito diferente da erudição nauseante e hipócrita que prevalece tanto hoje.

A questao é bem simples. A Bíblia é muito simples de entender. Mas nós cristãos somos um bando de pilantras cheios de esquemas. Nós fazemos de conta que somos incapazes de entendê-la porque nós sabemos muito bem que, no minuto em que a entendemos, somos obrigados a agir de acordo. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo exceto comprometer-se a agir de acordo. “Meu Deus”, você vai dizer, “se eu fizer isso toda a minha vida estará arruinada! Como é que eu poderia continuar a vida no mundo?”

Aqui está o lugar real da erudição cristã. A erudição cristã é a invenção prodigiosa da igreja para defender-se contra a Bíblia, para garantir que nós continuamos a ser bons cristãos sem aproximar-se muito da Bíblia. Oh, erudição sem preço, o que nós faríamos sem você? Que coisa terrível é cair nas mãos do Deus vivo. Sim, é até mesmo terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Eu abro o Novo Testamento e leio: “Se você quer ser perfeito, então venda todos os seus bens, dê para os pobres e me siga.” Bom Deus, se nós fôssemos fazer isso de verdade, todos os capitalistas, os funcionários públicos e os empresários, a sociedade inteira, de fato, seria quase como mendigos! Nós afundaríamos se não fosse pela erudição cristã! Glória a todos os que trabalham para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajuda a refrear o Novo Testamento, esse livro confuso que – um, dois, três! – derrubaria todos nós se ele fosse solto (ou seja, se a erudição cristã não o refreasse).

Em vão a Bíblia comanda com autoridade. Em vão ela adverte e implora. Nós não a escutamos – isto é, nós escutamos a sua voz somente através da interferência da erudição cristã, através dos especialistas que foram propriamente treinados. Exatamente da mesma forma que um estrangeiro protesta pelos seus direitos em uma língua estrangeira e atreve-se apaixonadamente a dizer palavras corajosas diante de autoridades de Estado – mas veja, o intérprete que deveria traduzir não se atreve a fazer isso mas substitui a fala por outra coisa -, assim também a Bíblia soa adiante através da erudição cristã.

Nós declaramos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, para que nós possamos ouvir melhor a sua voz. Nenhum louco, nenhum prisioneiro do governo, jamais foi confinado dessa forma. No que se refere a eles, ninguém nega que eles estejam trancafiados, mas as precauções tomadas em relação ao Novo Testamento são ainda maiores. Nós a trancafiamos, mas argumentamos que estamos fazendo o oposto, que nós estamos engajados com esforço em ajudá-la a ganhar claridade e controle. Mas então, é claro, nenhum louco, nenhum prisioneiro do governo, seria tão perigoso para nós como o Novo Testamento seria se fosse libertado.

É verdade que nós, protestantes, fazemos grandes esforços para que toda pessoa possa ter a Bíblia – até mesmo na sua própria língua. Ah, mas que esforço nós fazemos para convencer a todos que ela só pode ser entendida através de erudição cristã! Essa é a nossa situação atual. O que eu tentei mostrar aqui pode ser colocado facilmente: eu gostaria de alertar as pessoas e admitir que eu acho o Novo Testamento muito fácil de entender, mas até agora eu achei tremendamente difícil agir literalmente de acordo com o que ele claramente diz. Talvez eu possa tomar outra direção e inventar um novo tipo de erudição, trazendo mais um comentário, mas eu estou muito mais satisfeito com o que eu fiz – ter feito uma confissão sobre mim mesmo.

Kierkegaard diz – Mate os comentadores!

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