Consciência inconveniente e a multidão

Por que é que as pessoas preferem ter a palavra dirigida a si em grupos em vez de individualmente? É porque a consciência é uma das maiores inconveniências da vida, uma faca que corta muito fundo? Nós preferimos ser “parte de um grupo”, “formar um partido”, pois se nós somos parte de um grupo isso significa “adeus, consciência!” Nós não podemos ser dois ou três, um “Irmãos Silva & Cia.” em torno de uma consciência. Não, não! A única coisa que o grupo assegura é a abolição da consciência.

A mesma coisa acontece com a agitação. Uma pessoa pode muito bem comer uma alface antes que ela forme um “coração”, porém a delicadeza desse “coração” e o seu adorável núcleo são bem diferentes das folhas. Da mesma forma, no mundo do espírito, a agitação, a tentativa de competir com outros, correndo para lá e para cá, torna quase impossível para um indivíduo formar um coração, tornar-se um indivíduo responsável e vivo. Toda e qualquer vida que está preocupada em ser como outros é uma vida desperdiçada, uma vida perdida.

Uma pomba, uma mosca ou um inseto venenoso são objetos da preocupação de Deus. Não são vidas desperdiçadas ou perdidas. Mas massas de imitadores, uma multidão de copiadores são vidas desperdiçadas. Deus foi misericordioso conosco, demonstrando sua graça ao ponto de estar disposto a se envolver, Ele mesmo, com cada pessoa. Se nós preferimos ser como todos os outros, isso resulta numa alta traição contra Deus. Nós que simplesmente seguimos os outros somos culpados, e nosso castigo é ser ignorado por Deus.

Ao formar um partido, ao derreter-se dentro de algum grupo, nós não só evitamos nossa consciência mas também o martírio. É por isso que o medo dos outros domina esse mundo. Ninguém se atreve a ser um genuíno “eu mesmo”; todo mundo está escondido em algum tipo de “comunhão”. Órgãos sensíveis são blindados e não estão em contato imediato com outros objetos, e da mesma forma nós, pessoas ordinárias, temos medo de chegar num contato pessoal e imediato com o eterno. Em vez disso, nós confiamos em tradições e na voz dos outros. Nós nos contentamos em ser um espécie ou uma cópia, vivendo uma vida blindada contra a responsabilidade individual diante da Verdade.

A verdadeira individualidade é medida assim: por quanto tempo ou até que ponto alguém agüenta estar sozinho sem a compreensão dos outros. A pessoa que suporta estar sozinha está do outro lado do mundo em relação ao “socializável”. Ele está a quilômetros de distância do agradador de pessoas, aquele que se dá bem com todo mundo – aquele que não tem arestas afiadas. Deus nunca usa tais pessoas. O verdadeiro indivíduo, qualquer um que vai estar diretamente envolvido com Deus, não vai e não pode evitar a mordida humana. Ele será completamente incompreendido. Deus não é amigo de reuniões humanas aconchegantes.

Sim, no mundo puramente humano a regra é a seguinte: busque a ajuda e a opinião dos outros. Jesus diz: cuidado com os homens! A maioria das pessoas não têm somente medo de ter uma opinião errada, elas têm medo de manter uma opinião solitária. No mundo físico a água apaga o fogo. Assim também é no mundo espiritual. Os “muitos”, a massa de pessoas, apaga o fogo interior – cuidado com os homens!

De acordo com o Novo Testamento, ser um cristão significa ser sal. Cristianismo faz essa pergunta a cada indivíduo: você está disposto a ser sal? Você está disposto a ser sacrificado, em vez de fazer parte da multidão que busca tirar algum lucro do sacrifício de outros? Aqui, novamente, está a distinção: ser sal ou derreter-se dentro da massa; deixar outros serem sacrificados por nós em nome da Verdade ou permitir a si mesmo ser sacrificado – entre essas duas opções existe uma eterna diferença qualitativa.

O profundo erro da raça humana é que não há mais indivíduos. Nós nos tornamos divididos em dois. Quando um livro se torna velho e gasto, a cola se solta e as folhas caem. De forma similar, no nosso tempo nós estamos nos desintegrando. Nosso entendimento e nossa imaginação não montam um caráter. Nós somos molengas sem espinhas que apenas paqueram com o que é mais alto. Como nós poderíamos possivelmente evitar a tontura que surge com o medo de pessoas, no meio desse redemoinho de milhões, onde tudo é formado por multidões e movimentos? Quanta fé é necessária para crer que a vida de uma pessoa é notada por Deus e que isso é suficiente!

Querer se esconder na multidão, ser uma pequena fração de um grupo em vez de ser um indivíduo, é o escape mais corrupto de todos. Sem dúvida, isso torna a vida mais fácil, mas isso acontece tornando-a sem raciocínio. Ainda assim a questão é aquela da responsabilidade de cada único indivíduo – que cada um de nós é ele mesmo, autêntico e que responde por si. É “fugir da raia” quando se faz barulho junto com um grupinho por uma assim chamada convicção. Nós precisamos, diante de Deus, fazer a cabeça em relação a nossas convicções, e então vivê-las independentemente dos outros. A eternidade vai separar cada pessoa como sendo individualmente responsável – tanto aquele que está sempre ocupado, que pensava estar seguro em algum grupo ou alguma corporação, como aquele miserável mais pobre, que pensava não ser notado.

Cada pessoa deve prestar contas a Deus. Nenhuma terceira pessoa se atreve a se aventurar em se intrometer nessa prestação de contas. Deus no céu não fala conosco como se fala com uma congregação; ele fala com cada um individualmente. É por isso que a evasão mais ruinosa de todas é se esconder numa manada, na tentativa de esconder-se da fala particular de Deus. Adão tentou isso quando a sua consciência culpada o fez imaginar que ele poderia se esconder entre as árvores. Da mesma forma, é mais fácil e mais conveniente, e também mais covarde, esconder-se no meio da multidão na esperança de que Deus não vai reconhecê-lo dentre os outros. Mas na eternidade cada um vai prestar conta individualmente. A eternidade vai examinar cada pessoa por tudo o que ela escolheu e fez como um indivíduo diante de Deus.

Será horrível no dia do julgamento, quando todas as almas voltarem à vida, para colocarem-se de pé completamente sozinhas, sós e desconhecidas por todas, e ainda assim cândida e exaustivamente conhecidas por Ele que conhece todos. Ninguém pode se orgulhar em ser mais do que um indivíduo. Nem ninguém pode pensar de forma deprimente que ele não é um indivíduo. Não, cada um pode e deve prestar contas a Deus. Cada um tem a tarefa de se tornar um indivíduo.

Kierkegaard diz! – É comprido  mas leia!!!!!

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