Abro mão dos milagres

por Suênio Alves

Durante muito tempo na minha vida cristã acreditei que como filho de Deus tinha por isto a proteção e a intervenção diária de Deus quando aceitava-o como meu Senhor e Salvador. Acreditava que quando saísse de carro numa viagem, bastava fazer uma oração e com certeza a viagem seria tranquila.Foi quando comecei a perceber que os cristãos também morriam em acidentes, mesmo depois de ter orado, e digamos, com fé.
Comecei a entender então que o acaso acontece com justos e injusto. Como foi escrito em Eclesiates 9:

“Tudo sucede igualmente a todos: o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento…

Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso.

Pois o homem não sabe a sua hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira e como os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam também os filhos dos homens no tempo da calamidade, quando cai de repente sobre eles” (v. 2,11-12)

A partir daí não consegui conceber em minha mente um Deus que intervém quando quer simplesmente por um designio misterioso. O que não se explica sobre Deus então jogo pra “gaveta” do mistério.

Concordo que nosso pensamento é limitado e até quando digo Deus é amor, só consigo compreender isto até onde eu compreendo o amor. E quando concluo que Deus é amor, preciso entender que Deus está “para além” do meu conceito de amor, ou seja, Deus é amor para além do amor. Mas aquilo que compreendo sobre o amor, aquilo que pra mim é a totalidade do meu conhecimento sobre o amor, este é o meu Deus de amor, e só preciso saber que ele está pra além disto. Este conceito de “Deus para Além de Deus” foi levantado por Paul Tilich.

Dentro deste conceito sobre a intervenção e o milagre de Deus, procurei entender isto até onde a palavra intervenção e milagre representa para mim. Pois sei que quando eu defini-la aqui, ela estará limitada a minha compreensão, mas sei que a intervenção e os milagres de Deus vão estar pra além das minhas definições.

Procurei entender então porque as vezes Deus cura alguém e não cura outro. Para mim quando Jesus efetuou algum milagre foi para um propósito do Reino de Deus e não o milagre em si. E por isto não se pode discutir o milagre pois ele é apenas um meio para se apresentar algo. Acredito que ele fez isto para mostrar que o Reino de Deus é algo libertador da condição humana a qual estamos vivendo hoje. Sempre que ele fez um milagre ele dava uma palavra pra além do milagre. Não consigo compreender mais o milagre apenas pelo milagre. Mas como disse, Deus está pra além da minhas definições.

Por isto abro mão dos milagres e das intervenções divinas. Não quero ter uma melhor sorte do que as pessoas que não “conhecem” a Deus. Não consigo mais conceber Deus me dando uma vida blindada por ele, e ao mesmo tempo as crianças da África estão morrendo aos milhares de fome e aids. Considero isto um egoismo da minha parte porque por um simples designio misterioso eu tenho a proteção divina e estas crianças, que como Cristo disse, são delas o reino dos Céus, não tem esta proteção divina.

O Pr. Ed René disse em seu blog no post: “Como seria minha vida se não acreditasse em Deus”:

Além disso, estar sob o cuidado de um superprotetor não é a razão porque acredito em Deus: de fato, abro mão de ser protegido – minha solidariedade com a raça humana não me permite esperar melhor sorte do que a das crianças abandonadas, dos enfermos crônicos, dos miseráveis e vitimados pelas atrocidades dos maus.

Ou Deus protege todo mundo, ou a proteção não serve como fundamento para a crença nele.

Você pode dizer: quem é você para achar que esta é a melhor forma de agir? não é questão de ser a melhor forma. Apenas não quero entrar no avião e ter a melhor sorte através de uma intervenção divina do que as 200 que morreram no dia 17 de julho. Não queria melhor sorte se eu estivesse na praia onde veio as ondas de um tsunami, só por causa da intervenção divina, e ao mesmo tempo ao meu lado outras morrem afogadas. Quero viver este acaso que veio por esta liberdade que Deus nos deu. Ainda que ela possa me matar.Abro mão dos milagres e das intervenções divinas quando elas forem apenas um fim em si mesma. Mas se ela tem a mesma proposta pela qual Jesus fez as intervenções quando esteve no nosso meio, então elas são bem vindas, pois creio que estes milagres nunca foram com a intenção de ser um fim em si mesmo, mas sim a proclamação do Reino de Deus.

Quero amar a Deus por nada e isto me será tudo.

Esta frase é do Ricardo Gondim e me diz muito. Neste nada, neste afastamento de Deus, para que tenha a liberdade que Ele considerou melhor, eu quero dar graças.Quando entrar num avião não quero a intervenção dele para que a viagem seja segura. Quero apenas Ele do meu lado como sempre esteve. E que seu amor me conforte quando estiver nas tribulações da liberdade que Ele nos deu. A única intervenção que eu não abro mão foi pela qual Ele se encarnou no nosso meio, e isto Ele fez e nos salvou, pois esta intervenção não é minha apenas, mas de toda humanidade, para que hoje vivamos, ainda que um pouco, o Reino de Deus, que um dia será total.

Link para o texto original: Abro mão dos milagres – Suênio Alves

Outro texto do mesmo autor que eu recomendo:

Não temos medo de não pensar. Temos medo de não amar

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