Kierkegaard: cristianismo e solidão

Por Frederico Schwerin Secco*

Para Kierkegaard, pensador dinamarquês do século XIX, a questão principal da existência era como tornar-se um verdadeiro cristão numa época em que o Cristianismo havia sofrido todo tipo de descaracterização e vulgarização. Para ele, num mundo em que já nascemos cristãos, a pergunta pela verdade do Cristianismo deve ser recolocada com a máxima urgência e seriedade com vistas a recuperar a verdade da mensagem de Cristo. A resposta a essa questão tão premente, entretanto, não poderia ser efetuada pelo estudo sistemático das questões religiosas. Kierkegaard postulava a necessidade de uma educação pelo sofrimento; a resposta à questão do tornar-se cristão deveria ser encontrada na própria tentativa de viver o Cristianismo a partir das exigências reveladas, ao invés de entendê-lo pela via fácil e cômoda da convivência paroquiana.

Daí a preocupação de Kierkegaard em toda a sua obra: o aprendizado do sentido da vida não se faz em conjunto, não se percorre em grupos; o caminho é realizado solitariamente. Encontramos, nesse momento, a categoria que iluminará e norteará todo o percurso do pensamento do autor dinamarquês, uma vez que explicitará os requisitos necessários para uma reflexão criteriosa e uma busca daquilo que ele considera como a tarefa de uma existência autêntica: “O Indivíduo: eis a categoria pela qual devem passar, sob o ponto de vista religioso, a época, a história, a humanidade”.

Tornar-se o Indivíduo será a exigência primordial daquele que se dispõe a enfrentar os desafios colocados pela vida em sua radicalidade. Nesse sentido, Indivíduo não é o que cada homem já é enquanto estrutura humana singular dada, mas uma noção que indica a intenção ou a disposição que cada homem possui, de lutar pela procura do sentido da sua existência singular. Essa disposição caracteriza-se por ser uma tomada de decisão em que o ser humano se afasta do geral para tornar-se aquele que caminha sozinho. À medida que esse movimento de buscar o sentido da existência dá-se como movimento de procura do sentido da própria existência, é importante ressaltar que, para Kierkegaard, essa estrutura de construção de sentido não se realiza individualísticamente ou por meio de um subjetivismo egoísta. Pois o homem não se afasta dos outros homens por um movimento de negação destes. A estrutura de busca de sentido e de realização do Indivíduo perante Deus exige uma concentração somente possibilitada pela solidão.

“Não são grandes aqueles barcos que se equipam e que se consegue, com muito custo, lançar às profundezas, não, trata-se de barcos muito pequenos, canoas destinadas a uma única pessoa; aproveita-se o instante, desenrolam-se as velas, sozinho, com a rapidez infinita dos pensamentos inquietos, passa-se ao longo do mar infinito, sozinhos sob o céu infinito. Esta vida é perigosa, mas estamos familiarizados com a idéia de perdê-la; pois o verdadeiro gozo consiste justamente em desaparecer no infinito, de modo que tudo o que restar disso será apenas a felicidade desse desaparecimento.” Kierkegaard.

* Frederico Schwerin Secco é doutor em Filosofia pela UFRJ e professor da UENF.

Fonte: Kierkegaard: cristianismo e solidão

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One Response to Kierkegaard: cristianismo e solidão

  1. Um dia, navegando no Amazonas, desejei que o barco não parasse nunca; que seguisse sempre em frente e me levasse naquele sem fim. Aquele momento foi de tal forma revelador, que mudou meu rumo na vida.
    Agora, no São Francisco, olhando as curvas com que as águas ficam nos encantando e convidando, tive o mesmo impulso. Queria ir, seguir pelo além, num daqueles barquinhos, levada por uma corrente que existe submersa, invisível, poderosa e irresistível.
    Pra mim o mito é construído dessa energia. Caminho sem volta.
    E agora vejo que Kierkegaard estava por lá, certamente.

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