O Deus bíblico é violento?

Mais um assunto que já me fez gastar muitas horas de reflexão. Por isso, vou compartilhar algumas reflexões de outras pessoas sobre esse tema. Será mesmo que Deus é violento como os autores bíblicos fazem com que pareça em determinados livros da Bíblia?

O Deus da Bíblia é violento? (por Ildo Perondi)

[…]Quando lemos alguns textos da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento, seguidamente nos encontramos diante de situações e cenas de violências, massacres, assassinatos, etc. que quase nos assustam. E, se lermos as interpretações, vamos ver que quase tudo isso foi feito em nome de Deus.
Será então que o nosso Deus é um Deus violento e que gosta de eliminar seus inimigos e os inimigos do povo de Deus? Como ficamos diante de textos que falam destas cenas graves de violência?

Textos que nos chocam:
Vou citar algumas passagens bíblicas que falam dessas situações:
– Êxodo 7-12: encontramos as dez pragas lançadas por Deus contra os egípcios. A última praga é o massacre de todos os primogênitos das famílias dos egípcios.
– Êxodo 14,23-31: vemos que as águas do mar afogaram os soldados do faraó;
– Êxodo 32,28: três mil homens foram mortos porque violaram a Aliança, adorando o bezerro de ouro.
– Na conquista da terra foram usadas táticas de guerra, cidades foram conquistadas com métodos diversos e no final “passando a fio de espada seus habitantes” (Josué 6,21; 8,24; 10,30-39; 11,11-14). Alguns reis e chefes destas cidades-estado foram enforcados em árvores (Josué 8,29;10,26).
– O Salmo 136 que é muito bonito e canta a história de Deus no meio do seu povo, nos diz também que Deus “feriu reis famosos; matou reis poderosos; Seon reis dos amorreus e Og rei de
Basã… porque eterno é seu amor!” (Sl 136,17-20).

Textos assim vamos encontrar também no Livro dos Juízes, nas conquistas de Saul, Davi e Salomão. E temos também alguns Salmos assim (chamados “Salmos imprecatórios”).

Que explicações podemos dar?
É importante afirmar que estes fatos aconteceram dentro de uma sociedade que viveu há uns três mil anos atrás. Era a mentalidade da época. Isso não significa que Deus esteja de acordo com tudo o que é atribuído a Ele.
É certo também que muitos destes textos são exagerados, são textos que contam histórias a partir dos vencedores e que foram transmitidos oralmente antes de serem escritos. Era um modo de ser contar as histórias da época, valorizando os antepassados. Usava-se uma “força de expressão” para chamar a atenção dos ouvintes.[…]

[…]Devemos aprender com a Bíblia que na história da humanidade vamos nos deparar com cenas de dor e sofrimento. Não seria correto atribuir tudo isso a Deus (mesmo que alguns textos bíblicos façam isso). Mais bonito e mais bíblico é buscar na Bíblia o verdadeiro Rosto de Deus: Ele é um Deus cheio de amor, que caminha com seu povo; que ama e sofre com seu povo; que está ao nosso lado… Ele é o Deus Criador e que ama a Vida, acima de tudo e que quer conduzir seu povo à Terra Prometida, pois Ele é o Deus que cumpre todas as Promessas (Js 21,45).[…]

Me deparei, dias atrás, com um livro onde constava uma explicação sobre o assunto. Trata-se de  Violência e Religião: cristianismo, islamismo e judaísmo: três religiões em confronto e diálogo – de Edson Damasceno, Maria Clara L. Bingemer, Marco Antônio Bonelli e Márcio Henrique da Silva Ribeiro, das Edições Loyola, 2001. O tema da violência e do papel de Deus nessas demonstrações de violência, é desenvolvido partindo-se de algumas premissas que vou colocar abaixo:

“1. Deus não aparece e não pode aparecer ao homem senão através do que o homem é na realidade. Muitas vezes, o ser humano, através das suas lentes, por meio das quais vê e pode ver a realidade, só pode enxergar um Deus violento. E só pode porque ele mesmo ainda não amadureceu para ser capaz de ver e perceber outra coisa. Mas, na verdade, a violência que o ser humano vê em Deus (eu diria que “atribui” a Deus talvez seja mais adequado), não passa da revelação de sua própria violência. O homem imerso e mergulhado no pecado da sua violência não pode não  enxergar um Deus que também age com violência, num certo estágio de sua fé. E a pedagogia sábia e amorosa de Deus vai acompanhar esse itinerário do ser humano, respeitando-o carinhosa e misteriosamente.

2. Essa maneira de ver Deus não é falsa, apesar de deformada. Deus se revela ao homem naquilo que é em verdade, mesmo quando sua revelação O mostra agindo violentamente. Deus não se furta ao olhar deformado (mas único possível) do homem, por amor. Aceita esse olhar deformado para transformá-lo e convertê-lo. Ou seja, Deus cria sua criatura com amor e liberdade. Por isso, respeita os caminhos e as opções que essa liberdade vai tomando. Não interfere ou força o ser humano a fazer o que não pode e compreender o que ainda não tem capacidade para assimilar. Vai acompanhando e revelando-se na medida em que o ser humano pode suportar, ao mesmo tempo que o prepara para dar outros passos e seguir adiante.

3. O Deus da bíblia não é como o homem. Deus não se sente obrigado nem devedor de uma lógica em que o mal se paga com o mal e o bem com o bem. E vai repetir isso incessantemente a esse mesmo homem. Todas as vezes que o ser humano espera ou exige de Deus um comportamento previsível ou simétrico, será sistematicamente defraudado. Deus não entra no jogo humano, que não sabe compreender as coisas senão dentro de parâmetros humanos e portanto cabíveis dentro da lógica humana. Nesse sentido, igualmente, Deus não imita nem mimetiza o homem, deixando claro que é divino e não humano. Por isso, muitas vezes sua revelação pode passar pela cólera e pela ira, mas nelas não se detém, senão que vai adiante. Assim fazendo, rompe a tentação do homem de isolá-Lo num mimetismo redutor, e aproveita-se disso para ensinar o homem que Ele é Deus, o totalmente Outro, o diferente, e não Alguém que faz número com o homem ou a ele se assemelha.

4. Deus utiliza com o homem uma “pedagogia progressiva” de não-violência. Deus vai “educando” paulatinamente o homem para uma prática e uma atitude não-violenta, a fim de que o mesmo homem possa suportar e assimilar o que lhe vai sendo ensinado. Cada vez que um comportamento violento do homem acontece e tem consequências, como, por exemplo, a guerra, a conquista e o saque de uma cidade, a este mesmo homem é colocada uma nova exigência divina, que limita a sua violência. Já não será consentido nem mesmo aconselhado por Deus aos vencedores das batalhas, exterminar toda a população de uma cidade, assim como todos os indivíduos que nela se encontram. Mas ao permitir-lhe, por exemplo, exterminar não todos os viventes, mas somente os machos (Dt 20:13); ou então, dominar e destruir uma cidade que é maldita diante de Deus, mas sem se apropriar de seus tesouros (Js 6:18) etc, Deus está reduzindo o desejo violento do homem e obrigando-o a limitar suas próprias pulsões desenfreadas e predatórias, a fim de ser capaz de enxergar a vida para além dos instintos e da dominação.

5. A “intenção” de Deus é sempre chegar ao amor e ao perdão sem medidas. Tudo isso que afirmamos acima, nos leva a concluir que, mesmo “passando” pela violência, o Deus da bíblia na verdade quer chegar ao amor e à não-violência. Essa é a sua intenção última e definitiva, e a partir disto vai “desconcertando” e “desconstruindo” os conceitos e imagens que Israel tem a seu respeito. E isso a fim de que o mesmo Israel possa chegar a Ele, que é a única fonte da benção e da vida em plenitude.

6. Deus não elimina magicamente a violência para chegar ao amor, mas toma a violência sobre Si a fim de romper seu diabólico processo. As duras questões oriundas do convívio de Deus com a violência são o único caminho para poder chegar à afirmação neotestamentária de que Deus é amor. Não é a violência o primeiro elemento que aparece no horizonte humano, mas o amor e a mansidão, dados ao homem como missão com a eficácia da benção criadora de Gn 1. Na verdade, o Deus da Revelação Cristã vai seguir coerentemente esse caminho até a plenitude da sua Revelação que se dá no Novo Testamento, na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. É aí que o próprio Deus aparecerá envolvido plenamente e de cheio com a violência, mas no lugar da vítima, e não do carrasco.

7. A prática não-violenta de Deus, que abre caminho em meio e através da violência, inspira e ilumina qualquer desejo humano de não-violência. Uma vez que a violência se impõe com a força do pecado de não-mansidão, toda a mansidão sobre a qual não estiver a marca do conflito e da violência, é ilusória e mentirosamente romântica e idílica. Desejar uma construção da paz que eluda e desvie dos caminhos da violência e do conflito é mentir a si próprio e afastar-se da sua condição humana. É através da violência que o amor abre seu caminho, nunca fora dela. É este o caminho que ensinará como único possível ao ser humano, a quem vai ensinando a difícil arte da paz com paciência e amor.”

O que você acha disso? Em qual “estágio” do curso prático de não-violência aplicado por Deus você está? = P

Se é assim, somos péssimos alunos… faz 2 mil anos que a mesma lição vem sendo ensinada por Ele e parece que nós não aprendemos…

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2 Responses to O Deus bíblico é violento?

  1. Peter disse:

    “Deus não aparece e não pode aparecer ao homem senão através do que o homem é na realidade.”

    Me parece que isso seja a essência da discussão. E, como a Bíblia foi escrita por seres humanos, isso é mais que compreensível. O livro sagrado reflete toda essa grandeza e miséria do homo sapiens.

  2. Deus bíblico

    #Luciana Carrero

    Eu te criei moralista
    te ensinei a escravizar
    Te adestrei um nepotista
    com dom de discriminar

    Te dotei de egoísmo
    te entreguei o paraíso
    e te obriguei a me amar

    Te incutí tua má sorte
    te expulsei do paraíso
    Te condenei a uma morte
    te desgracei no meu juízo

    lucianacarrero@blogspot.com.br

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