Cristianismo: salvação ou perdição para a humanidade?

Trechos do livro “A herança messiânica”, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln:

[…]”Em seu caráter essencial, a mitologia do cristianismo é arquetípica. É nessa dimensão arquetípica que reside fundamentalmente a mais profunda validade do cristianismo. Quer se acredite ou não na divindade de Jesus, a sua história – e seus ensinamentos, tais como conta­dos nos Evangelhos e no Atos dos Apóstolos – é um manancial de implicações arquetípicas. Nesse nível o cristianismo tem muito a ensi­nar – sobre a natureza e o significado do sacrifício, sobre a relação da humanidade com seus deuses, sobre integridade pessoal, sobre a soli­dão do visionário, sobre a incompatibilidade de aspirações espirituais com o mundanismo, sobre decência, caridade, perdão, humanidade e inúmeros outros valores que representam ou refletem o que há de melhor no homem. Quando esses aspectos do cristianismo são enfa­tizados – como o são, para citar apenas um exemplo, por uma mu­lher como madre Teresa de Calcutá -, o próprio cristianismo se torna arquetípico, algo que visa e engloba toda a humanidade. Torna-­se uma genuína religião no sentido estrito da palavra, dando sentido ao caos da experiência, promovendo a compreensão, conduzindo o homem não só ao conhecimento mas a uma sabedoria muito real ­sabedoria sobre si mesmo, sobre os outros, sobre o mundo.

Por outro lado, é igualmente possível sublinhar os aspectos tribais do cristianismo – os elementos que reforçam no homem um impulso autocrático a impor aos outros seus próprios valores, que reforçam sua convicção elitista da própria superioridade, que reforçam um senso de hipocrisia, santimônia e auto-contentamento. Esta é a tendência do fundamentalismo dos Estados Unidos e das crenças congêneres em outros países. O fundamentalismo se funda não nas virtudes cristãs reconhecidas da caridade, do perdão e da compreensão, mas na guerra – num conflito épico imaginário entre as pretensas “forças de Deus” e as de Seu inimigo. A realidade é reduzida a uma simples questão de “nós” e “eles”. A crença se define em função do seu oposto, são seus aliados tudo e todos que não estão do outro lado. Qualquer coisa que pareça se opor a certos preceitos básicos – não de Jesus, em geral, mas da congregação e baseado na sua própria interpretação idiossincrática das Escrituras – é, ipso facto, amaldiçoada.

Por força desse processo, o cristianismo é de fato esvaziado de sua aplicabilidade universal. Torna-se, ao contrário, uma mera ratificação de algo muito mais limitado. Passa a ser, na verdade, sinônimo dos valores da classe média norte-americana; Deus é percebido como um protetor de, digamos, Peoria, Illinois, e um lugar como esse passa a ser visto como um projeto, por assim dizer, do Paraíso. A famosa parábola de Dostoievski sobre o Grande Inquisidor torna-se até mais apropriada do que há mais de cem anos, quando Os irmãos Karamazov foi escrito. Se Jesus voltasse, aparecesse nas ruas de Peoria e começas­se a pregar, seria imediatamente preso como não-americano e subversivo (entre outras coisas). Mesmo que o reconhecessem e o identificas­sem, seria fatalmente despachado para longe, amordaçado, contido. Não há dúvida de que, no mínimo, ele representaria um grave estorvo para o credo promulgado em seu nome. Como instituição social, cultural e política, esse credo não poderia correr o risco de ser compro­metido por sua presença, ou, o que seria mais provável, de ser publicamente repudiado por ele.

Mas ainda que o fundamentalismo de hoje tenha muita coisa que o próprio Jesus – seja o Jesus histórico, seja o Jesus da fé – acharia abominável, estarrecedor, claramente blasfemo e positivamente imoral segundo seus próprios preceitos, há de todo modo uma coisa que ele haveria de reconhecer e julgar familiar. Trata-se da expectativa messiânica, da histeria apocalíptica que lembra o Final dos Tempos em que ele viveu. É assim, de um modo quase pitorescamente simplista – um modo que tem 2 mil anos de idade e há muito foi superado pelos desenvolvimentos históricos -, que boa parte dos americanos de hoje procuram infundir sentido no mundo contemporâneo. O me­ro fato de poderem fazê-lo reflete a penúria de alternativas, de outros princípios para conferir coerência a uma realidade que parece estar saindo fora de controle.

Como observamos, a histeria apocalíptica pode desempenhar um papel funcional, proporcionando um mito norteador a uma época e algum tipo de sentido a uma realidade sob outros aspectos fragmenta­da. Não há dúvida de que fez isso no passado, com maior ou menor eficácia, segundo as circunstâncias. Mas não podemos tolerar que se torne o mito norteador da nossa própria época porque, como observa­mos antes, a humanidade hoje é perfeitamente capaz de criar seu próprio apocalipse, seu próprio Armagedon, e de lançar a culpa da tragé­dia sobre Deus. Se permitirmos que a histeria do fundamentalismo norte-americano se tome uma dessas profecias que promovem a própria realização, adotada ou perfilhada em níveis tão altos quanto os da Casa Branca, o resultado poderia ser, muito literalmente, o fim do mundo – na forma não de um esplêndido retomo de zadoquitas há muito falecidos a saltitar de mãos dadas pelos Campos Elísios, mas da lenta e asfixiante agonia de um inverno nuclear. O fato de nós, os autores, podermos escrever sobre essa possibilidade sem nos sentirmos excessivamente dramáticos indica até que ponto a humanidade, como um todo, passou a aceitar, e até a esperar, a eventualidade de um suicídio coletivo. Se esse for o único sentido que pode ser encon­trado na atualidade, a humanidade está de fato falida, e Deus – não importa na concepção de que crença – terá simplesmente perdido Seu tempo.“[…]

Qual Cristianismo você prefere? Aquele que é capaz de dar respostas e sentido para a vida e para a humanidade, na busca da paz, da virtude pessoal, do amor ao próximo; ou aquele que transforma os cristãos em membros de uma tribo que se considera “escolhida”, “especial”, acima dos outros seres humanos,  que pretende e anseia, com um prazer doentio, ver seus “inimigos”, os “ímpios” destruídos num “armagedon” provocado por eles, de propósito, “em nome de Deus”?

Salvação ou perdição? O Cristianismo que você segue, visa ajudar a humanidade, ou acabar com ela o mais rápido possível?

E não me venham com profecias… se as coisas estão do jeito que estão, é porque nós temos nos recusado a cumprir nosso papel de tornar nosso planeta um lugar mais JUSTO, e JUSTO PARA TODOS, e não só para os membros da nossa “tribo escolhida”. Nós provocamos o caos em todos os níveis com nossa negligência, e depois aceitamos os resultados (fome, epidemias, poluição, destruição, guerras), como sendo o suposto cumprimento de uma “profecia apocalíptica”. Nosso papel como cristãos é contribuir com o CAOS, ou ser SAL e LUZ para a humanidade?

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