A lei de Moisés e o Novo Testamento

por Giordano Montenegro Brasilino

O propósito deste artigo é demonstrar qual o papel da Lei de Moisés e provar que o cristão não precisa guardá-la. Isto não significa dizer que não hajam mandamentos corretos na Lei de Moisés. Significa apenas que nem todos os mandamentos da Lei de Moisés são atuais. Todos os mandamentos da Lei ficaram para trás, mas alguns mandamentos que os cristãos seguem também se encontram na Lei de Moisés. Uma vez que base deste artigo é soteriológica, e não heresiológica, não se fará crítica direcionada a nenhuma instituição ou denominação cristã.

O artigo fará uso, sempre que necessário e possível, da teologia paulina, por meio de suas epístolas. Em nenhum momento se fará distinção entre epístolas paulinas e deutero-paulinas, porquanto em ambos os casos se mostra a perspectiva dos gentios. Far-se-á também uso da epístola aos Hebreus e dos Evangelhos, em oportuno. Importa, pois, que o leitor confira todas as referências e citações, e não apenas ao português, mas também ao grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento, uma vez que em sua língua original, as passagens bíblicas são muito mais claras quanto ao seu valor hermenêutico.

Este artigo também parte do pressuposto de que o ônus da prova cabe a quem afirma, e não a quem nega. Ainda assim será dedicada uma parte final a responder aos argumentos mais comuns contrários à perspectiva definida pelo autor.

Parte I – A Existência e Função da Lei de Moisés

A Lei de Moisés, como nós hoje a concebemos, é descrita nos livros bíblicos de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A primeira parte da bíblia em que um mandamento da Lei é entregue ao povo de Israel está no capítulo 12 de Êxodo: a primeira Páscoa. Existe, porém, um mandamento em Gênesis que, embora seja anterior à Lei, foi absorvido pela lei: a circuncisão (Gênesis 17:10-14; cf Levítico 12:3).

Conforme descreve o apóstolo Paulo (Gálatas 3:19-25), a Lei foi entregue ao povo de Israel com o propósito de ensinar a este povo como deveria se portar diante de Deus, ou seja, como deveria andar em santidade. A Lei de Moisés é parte de um “contrato” (Concerto ou Testamento) de Deus para com o povo de Israel. Aquele que cumprir os mandamentos viverá por eles (Levítico 18:5), ou seja: está com a ficha limpa. Nenhum judeu poderia ir além da Lei de Moisés, mesmo nos pontos em que ela é silenciosa (Deuteronômio 4:2; 29:29). Além disso, aquele que não cumprir toda a Lei de Moisés está debaixo de maldição (Deuteronômio 27:26; cf. Gálatas 3:10).

A Lei mostrava ao povo o pecado, para que o povo se afastasse dele. Porém aí há um problema: a natureza humana é perversa, e ela usa do mandamento escrito para condenar o ser humano (Romanos 7:7-9). Ao mesmo tempo que a Lei mostra o que é pecado e que se deve fugir dele (ainda que ela não capacite para tanto), ela condena o ser humano, porque não existe qualquer modo de se defender contra a Lei. Aquele que contra ela peca está silenciado diante de Deus e é plenamente condenável (Romanos 3:19), porque não cumpriu com o acordo. Aquele que peca contra a Lei é digno de morte (Deuteronômio 17:2-7; Hebreus 11:28). Portanto, a Lei é uma faca de dois gumes; como diz o apóstolo Paulo: “com entendimento sirvo à Lei de Deus, mas com a carne sirvo a Lei do pecado” (Romanos 7:25).

Conforme mostra o livro de Levítico, a Lei de Moisés dava um escape para o pecador: ele poderia sacrificar um animal no Templo de Jerusalém (e exclusivamente lá; Deuteronômio 12) e estar limpo diante da Lei. Veja, porém, que a culpa é apagada apenas diante da Lei. Um homicida ainda é um homicida diante de Deus, mesmo que esteja limpo diante da Lei. Estar limpo diante da Lei significa que ele não é réu de morte, ou seja, não pode ser condenado através da Lei. Viverá pela Lei. Uma passagem que ilustra isso é Números 16.

Por mais atemporal que Deus seja, ele respeita o contrato que fez com seu povo, e não continua a matança. Trata-se de uma passagem antropomórfica escrita pelos sacerdotes para defender sua autoridade, mas na realidade independe: a lição é de que a Lei de Moisés defende ao que a segue e acusa ao que a transgride.

Parte II – A Lei abolida

Ao longo do Antigo Testamento (Livros Históricos e Proféticos) percebe-se detalhadamente o processo de apostasia pelo qual os judeus passaram. Uma vez que eles quebraram o pacto, a aliança, o contrato feito com Deus, não mais estariam debaixo das promessas de Deus. É por isso que foi feito através do profeta Jeremias uma promessa de um Novo Concerto, diferente daquele feito com o povo de Israel. Neste novo concerto, os mandamentos de Deus estariam escritos nos corações de seus justos. Deste modo, como mostra o profeta Jeremias (31:31-34), não foi Jesus, Paulo ou qualquer cristão que invalidou a Lei, mas foram os próprios judeus, recusando-se a mantê-la. Se desde o princípio tivessem sido fiéis a Deus, o primeiro concerto teria se perpetuado; a vinda do Messias Jesus seria apenas uma confirmação do antigo concerto.

Jesus veio salvar apenas aos judeus (Mateus 10:5,6; 15:24), mas mesmo durante o seu ministério, eles foram reprovados (Mateus 21:43). Nas palavras de João, Jesus “veio para o que era seu, e os seus não o receberam; mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” (João 1:11,12). Antes, porém, de sua morte, e ainda no princípio de seu ministério, Jesus Cristo profere um de seus maiores ensinamentos, o Sermão da Montanha, que pode ser encontrado nos capítulos 5 a 7 de Mateus. Neste Sermão, numa porção conhecida como Antíteses, Jesus Cristo lança alguns dos fundamentos éticos do Evangelho. Encontras-se em Mateus 5:21-48. Nas Antíteses, Jesus contrasta os ensinamentos do judaísmo de sua época com os ensinamentos que ele quer deixar para seus seguidores.

Diversos destes mandamentos são próprios da Torá. Um exemplo inegável é Mateus 5:38-42, em que Jesus, citando a lei de talião (Êxodo 21:24; Levítico 24:20; Deuteronômio 19:21), mostra que, em alguns pontos, deve-se fazer justamente o contrário do que a Torá ensina. Leia Romanos 4:15; 8:3; Hebreus 7:12,16.

A interpretação máxima da Lei é mostrada por Jesus ainda durante o Sermão da Montanha: o verdadeiro ensino da Lei e dos Profetas é fazer ao próximo aquilo que você gostaria que lhe fosse feito (Mateus 7:12). Os cristãos, portanto, precisam da Lei para aprender conceitos, não para seguir centenas de mandamentos (Mateus 23:23).

A partir da morte de Jesus, porém, algo diferente aconteceu. Conforme é ensinado em Efésios 2:13-16 e Colossenses 2:14-16, pela morte de Jesus a lei de Moisés foi cravada na cruz. Isto significa que, estando desfeito o antigo concerto, agora também os gentios podem ter acesso à salvação, e os judeus não mais precisam da Lei. Pela lei de Moisés, era preciso tornar-se judeu (circuncidar-se) para alcançar as promessas de Deus. Nós, porém, através de Cristo, no novo concerto, temos acesso a ainda melhores promessas (Hebreus 8:6). Tanto para judeus quanto para gentios, não mais é necessário guardar a Lei de Moisés: estamos LIVRES da Lei pelo corpo de Cristo assim como uma mulher está livre do marido pela morte (Romanos 7:1-4). No corpo de Cristo não existe qualquer distinção entre judeus e gentios (Romanos 10:12; Gálatas 3:28; Colossenses 3:11), mas esta igualidade só existe se não houver a Lei. Havendo a Lei, há distinção através da circuncisão.

Nós vemos em Romanos 3:19 que tudo que está escrito na Lei de Moisés está escrito para os que estão debaixo da Lei. E aprendemos o que significa “estar debaixo da Lei” quando lemos Gálatas 3:19-25. Estar debaixo da Lei significa ter a lei como professor.

Todos os judeus sem Cristo estão debaixo da Lei (1 Coríntios 9:20; e por isso condenados por Romanos 7:8), enquanto os gentios estão sem lei (1 Coríntios 9:21; e por isso condenados por Efésios 2:11,12). A partir do momento em que veio a fé (através de Jesus), ninguém mais está debaixo da Lei de Moisés. Portanto, o que a lei diz não vale para os que não estão debaixo da lei.

É importante notar que, conforme um cristão é batizado, ele “sepulta o velho homem” (Romanos 6:4; Colossenses 2:12; 1ª Pedro 3:21). Isto significa dizer que tudo aquilo que ele era antes é apagado (não através da água em si, mas através da fé). Se antes de ser batizado o cristão era judeu, depois de se batizar não é mais nem judeu nem gentio (Gálatas 3:28). É um membro do corpo de Cristo, e livre da Lei por isso (Romanos 7:1-4) e assim cumpre a justiça (Mateus 3:13-15). Um judeu cristão que viva entre os judeus, porém, pode continuar guardando a Lei de Moisés, desde que não vá contra o Evangelho e desde que não se ache superior aos gentios nem digno de honra por guardá-la (Atos 21:21; 1ª Coríntios 9:19-24).

Ademais, não existe QUALQUER passagem na bíblia que afirme que um gentio precisa guardar a Lei de Moisés.

Leitura recomendada: Os treze primeiros capítulos de Romanos e toda a epístola aos Gálatas.

Parte III – Uma Só Lei

Uma tradição que tem se perpetuado no catolicismo, e ecumenicamente no protestantismo reformado, é a de dividir a Lei de Moisés em classes: “moral”, “cerimonial” e “jurídica” (ou civil). Embora o embrião da tradição se encontre entre os teólogos católicos do século V (Agostinho e Jerônimo), foi somente no século XIII que o teólogo escolástico Tomás de Aquino inventou a divisão como hoje é conhecida, mostrando-a ao mundo por meio de sua obra Suma Teológica.

Há de se notar, porém, que esta divisão jamais é encontrada nas escrituras bíblicas. Qualquer leitor da Bíblia que não tenha tido contato com esta doutrina católica previamente (como o autor deste artigo) não será capaz de identificá-la. Geralmente os defensores desta divisão buscam defender que certas práticas, como a do dízimo, são atuais para os cristãos gentios (não-judeus), por serem “morais” e não “cerimoniais” ou “civis”. Segundo os proponentes deste dogma, os cristãos precisam guardar os mandamentos tachados como morais. Nenhum autor da bíblia, porém, ensina tal loucura, nem há qualquer motivo para se pensar que entre os cristãos apostólicos esse ensinamento existia. Quando Tomás de Aquino inventou esta divisão, estava trazendo à luz uma nova doutrina, não endossando uma antiga.

Não existe qualquer motivo para se pensar que tal divisão seja verdadeira. Não é por os cristãos também não matarem que estarão guardando um mandamento da Lei. Apenas estão guardando um mandamento semelhante, que também faz parte do Novo Concerto.

Esta divisão mostra-se falsa, por exemplo, em que existem diversos mandamentos que simplesmente não podem seguir esta classificação pela razão comum. O exemplo clássico é a guarda do Sétimo Dia (Sábado), que não é moral, não é cerimonial (embora se sujeite a diversas cerimônias) e nem é civil. É apenas uma mecânica da Lei. Sobre este caso específico leia Romanos 14:4-6; Colossenses 2:14-16.

Os proponentes desta falsa divisão, especialmente católicos e Igrejas protestantes tradicionais, ensinam que o cerne da chamada “Lei Moral” (como se o resto da Lei fosse amoral e/ou imoral) está na Tábua dos Dez Mandamentos, que se encontra no capítulo 20 de Êxodo e 5 de Deuteronômio. Mostram ainda, como tentativa de evidenciar isto, que enquanto a Lei Moral estava dentro da Arca do Concerto, a Lei Cerimonial estava fora. Isto, porém, foge à verdade. Enquanto a tábua dos dez mandamentos estava dentro da Arca, TODA A LEI (incluindo os dez mandamentos) estava fora. Achar que o cerne da Lei Moral está na Tábua dos Dez Mandamentos é simplesmente uma suposição.

No mais, existem centenas de mandamentos fora dos Dez que também são tão morais quanto estes, como os que tratam de incesto, homossexualismo e pudor, e que simplesmente não podem ser deduzidos a partir daqueles Dez. Também não existe qualquer motivo para se pensar que os Dez Mandamentos sejam apenas um geral guia da Lei Moral. É mais uma suposição infundada, tradicionalista e dogmática. Para o Apóstolo Paulo, os Dez Mandamentos são o ministério da morte (2 Coríntios 3:7; compare a Êxodo 34).

Nas palavras de Jesus, fazer ao próximo o que você gostaria que fosse feito a você é o ensinamento da Lei e dos profetas (Mateus 7:12). Nas palavras do apóstolo Paulo, todos os mandamentos se resumem no amor ao próximo (Romanos 13:8-10; Gálatas 5:14; 6:2). Não se trata de um “faça isso e não faça aquilo“. O ensinamento que os cristãos devem tirar da Lei são de juízo, misericórdia e fé (Mateus 23:23).

Link para o artigo completo: http://cristianismopuro.blogspot.com/2008/04/lei-de-moiss-e-o-novo-testamento.html

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2 Responses to A lei de Moisés e o Novo Testamento

  1. marcelo disse:

    MUITO LEGAL O SEU BLOG E INSTRUTIVO

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