Giordano Bruno – vítima da igreja

Giordano Bruno era um teólogo dominicano e filósofo italiano, condenado por heresia, e morto na fogueira pela Igreja Católica. Ficou preso por oito anos, tempo durante o qual foi duramente torturado, mas não se submeteu nem abjurou de suas teorias. Ao ouvir a sentença e antes de ser colocado na fogueira, disse: “Teme mais a Força em pronunciar a sentença, do que eu em escutá-la” Significando que a Força – a Igreja Católica, saberia do crime contra a humanidade que estaria cometendo criando um mártir do pensamento. Morreu na fogueira, com uma tábua cheia de pregos presa à língua, para não poder falar. Mais um episódio que retrata a fobia que a igreja sempre teve da ciência e da filosofia… com resultados trágicos e fatais…

http://pt.wikipedia.org/wiki/Giordano_Bruno

Abaixo, transcrevo o prêambulo do livro de Giordado Bruno, “Sobre o infinito, o universo e os mundos”, onde o autor discorre sobre as perseguições que vinha sofrendo, por se dedicar à atividade intelectual.

Epístola preambular, para o ilustríssimo senhor Michel de Castelnau

“Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse um arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos.  Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber por que isto acontece, digo-vos que o motivo é que tudo me desagrada, detesto o vulgo, a multidão não me contenta. Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata. Não há, por isso, magnanimidade que os liberte nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive.

Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, como se estivesse cansado. Nem, por indolência, cruzo os braços diante da obra que se me apresenta. Nem, qual desesperado, volto as costas ao inimigo que se me opõe. Nem, como desnorteado, desvio os olhos do divino objeto. No entanto, sinto-me geralmente apontado como um sofista, que mais se preocupa em parecer sutil do que em ser verídico. Um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que consolidar a antiga e verdadeira. Um trapaceiro, que persegue avidamente o resplendor da glória, projetando as trevas dos erros. Um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidades. Oxalá, Senhor, os santos numes afastem para bem longe de mim todos aqueles que injustamente me odeiam. Que sempre me seja propício o meu Deus. Oxalá me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo.  Oxalá os astros me tratem tal como a semente o faz ao campo e o campo à semente, de forma que apareça ao mundo algum fruto útil e glorioso do meu trabalho, por despertar o espírito e abrir o sentimento àqueles que estão privados de luz. Pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e, se erro, não creio errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo pelo simples amor da vitória em si mesma (porque considero inimigas de Deus, abjetas e sem motivo de honra todas as reputações e vitórias, quando não fundamentadas na verdade), mas por amor da verdadeira sabedoria e por dedicação à verdadeira contemplação eu me afadigo, me sacrifico, me atormento. Eis o que irão comprovar os argumentos demonstrativos, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo reto, informado por imagens não falsas, as quais, como verdadeiras embaixatrizes, desprendem-se das coisas da natureza e se tornam presentes àqueles que as procuram, patentes àqueles que as contemplam, claras para os que as assimilam, certas para todos aqueles que as compreendem. Eis, pois, que agora vos apresento a minha especulação acerca do infinito, do universo e dos mundos inumeráveis.”

Giordano Bruno

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