Um cristão pode julgar?

julho 8, 2008

Um cristão pode julgar? Abaixo um texto de autoria do Dr Martyn Lloyd-Jones, tratando desse assunto. Um cristão não só pode, como deve julgar, principalmente no que diz respeito às doutrinas que andam sendo pregadas por aí, por pessoas inescrupulosas, desonestas, e que só visam enriquecer vendendo o nome de Jesus. Jesus nunca disse para as pessoas se conformarem com os falsos profetas como “sinais dos tempos” (que é o que acontece hoje, onde normalmente não se reage contra os lobos vestidos de ovelha – ou lobos vestidos em pele de pastor), mas para termos cautela a respeito deles, para não acabarmos enganados por eles. Afinal, eles são tão convincentes que até os justos acabam caindo no erro.

“Em Mateus 7 nós somos confrontados com uma declaração que, com freqüência, tem provocado intensa confusão. Deve-se admitir que está em pauta um assunto que facilmente pode ser mal compreendido quanto a dois aspectos opostos e extremos, e isso quase invariavelmente em casos verdadeiros. A pergunta que se faz necessária é a seguinte: Que quis dizer, precisamente, o Senhor Jesus, ao afirmar: “Não julgueis…”? Seria: “Não façam qualquer julgamento”? A melhor maneira de se dar resposta para esta indagação não consiste em folhear um dicionário. Meramente pesquisar sobre o significado do vocábulo “julgar” não nos pode satisfazer quanto a esse ponto. Essa é uma palavra que se reveste de muitas significações. Não se pode decidir a dúvida nesses moldes. Porém, é vitalmente importante que saibamos exatamente o que o Senhor Jesus quis dizer. Talvez nunca uma correta interpretação dessa injunção foi mais importante do que na época presente. Diferentes períodos da História da Igreja têm requerido diferentes ênfases e se me fosse perguntado qual é a necessidade hoje, a minha resposta seria que é a consideração criteriosa desta afirmação específica. Assim sucede porque a atmosfera inteira da vida moderna, especialmente nos círculos religioso, é de natureza tal que se tornou vital uma correta interpretação dessa asserção de Jesus. Estamos vivendo em uma época em que as definições não estão sendo levadas a sério, em uma época em que os homens têm aversão pelo raciocínio e odeiam a teologia, a doutrina e o dogma. Estamos vivendo em uma época caracterizada pela apreciação ao lazer e à transigência – “paga-se qualquer preço por uma vida sem conflitos”, conforme alguns dizem. Estamos em uma época de conciliações. Esse termo não é mais tão popular quanto já foi, no terreno da política internacional, mas a mentalidade que nele se deleita continua viva. Vivemos em uma época que não aprecia homens decididos, porquanto, segundo se costuma dizer, eles sempre causam dificuldades. Nossa época tem aversão por indivíduos que sabem no que acreditam, e que realmente acreditam em algo. Mas tais indivíduos são repelidos como pessoas difíceis, com as quais é “impossível a convivência”.
Tem havido épocas, dentro da História da Igreja, quando os homens foram elogiados por defenderem as suas idéias a todo custo. Mas isso já não acontece hoje em dia. Atualmente, homens assim são considerados difíceis, indivíduos que impõem aos outros a própria vontade, que não cooperam com seus companheiros e assim por diante. O tipo de homem que atualmente é elogiado é aquele que poderia ser descrito como “meio termo” ou “eqüidistante”, que jamais se coloca em qualquer extremo de uma posição. Pelo contrário, é um homem agradável a todos, que não cria dificuldades para ninguém, e nem é causador de problemas por causa de seus pontos de vista. Dizem-nos que a vida diária já é suficientemente difícil e complicada sem que precisemos assumir posição firme no tocante a qualquer doutrina em particular. Com certeza essa é a mentalidade de hoje, não constituindo exagero afirmarmos que essa é a mentalidade controladora. Em certo sentido, essa é uma atitude perfeitamente natural, porquanto já experimentamos inúmeras dificuldades, problemas e desastres. Por semelhante modo, é atitude bastante natural que as pessoas evitem os indivíduos dotados de pontos de vista firmes, que sabem o que estão defendendo, porque todos preferem viver de maneira descontraída e pacífica.
Em uma época como a nossa, reveste-se da máxima importância que sejamos capazes de interpretar corretamente essa declaração acerca do ato de julgar, porquanto há muitos que asseveram que as palavras “não julgueis” precisam ser compreendidas simples e literalmente como elas estão, como se indicasse que o crente verdadeiro jamais expressa uma opinião sobre outra pessoa. Esses homens afirmam que não se deve exercer juízo algum porquanto deveríamos ser suaves, indulgentes, e tolerantes, permitindo quase qualquer coisa em troca da paz e da concórdia e, especialmente, da unidade. Essa não é a hora certa para juízos, dizem eles; o de que precisamos agora é de unidade e companheirismo. Todos deveríamos ser um.
Levanta-se, pois, a pergunta: é possível esta interpretação? Em primeiro lugar, sugiro que esta interpretação é impossível. Todavia, se nos alicerçarmos sobre os próprios ensinamentos bíblicos veremos que tal interpretação não tem razão de ser. Consideremos o próprio contexto dessa afirmação, e certamente veremos que esta interpretação das palavras “não julgueis” é inteiramente descabida. “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés, e, voltando-se vos dilacerem”. Como poderia eu pôr em prática essa recomendação do Senhor se me fosse vedado exercer juízo? Como eu poderia identificar o individuo do título descritivo se eu não pudesse fazer juízo nenhum a seu respeito? Em outras palavras, a injunção que se segue imediatamente após essa declaração sobre o não julgar, de imediato me pede que exerça juízo e discriminação. Mas também poderíamos tomar um contexto mais remoto tal como: “Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores”? Como poderíamos entender esta injunção? Como poderei acautelar-me dos falsos profetas se não puder pensar, se eu tiver tanto receio de fazer juízo crítico que jamais possa fazer uma avaliação dos ensinamentos de alguém? Esses falsos profetas, além disso, se nos apresentam vestidos em peles de ovelhas, o que equivale a dizer que são extremamente melífluos e empregam a terminologia cristã. Parecem pessoas inofensivas, honestas, e invariavelmente, mostram-se muito “gentis”. Entretanto, não nos devemos deixar enganar pelas suas atitudes estudadas, acautelemo-nos diante de gente dessa ordem. Nosso Senhor também diz: “Pelos seus frutos os conhecereis”..
Porém, se eu não puder usar qualquer critério, e nem exercer minha capacidade de discriminação, como poderei testar a autenticidade desses frutos e determinar entre o que é certo e o que é errado? Por conseguinte, sem necessidade de elaborarmos o nosso argumento, afirmamos a interpretação não pode ser verdadeira quando sugere que as palavras de Jesus: “não julgueis”, recomendam que sejamos pessoas caracterizadas por uma atitude frouxa e indulgente, diante de qualquer indivíduo que use o nome de “cristão”. Tal interpretação é inteiramente impossível.
Temos nesse trecho bíblico o problema dos falsos profetas, para o qual o Senhor Jesus chamou a nossa atenção. Espera-se de nós que possamos detectá-los e evitá-los, porém, isso é impossível sem o conhecimento da doutrina, e sem o exercício desse conhecimento em juízo.”

Dr Martyn Llloyd-Jones