Um cristão pode ser favorável à pena de morte?

Essa pergunta surgiu depois de uma discussão com um presbiteriano calvinista, ao ser inquirido sobre a execução do médico Miguel Servet e outras atrocidades cometidas por protestantes:

“As Igrejas Protestantes também praticaram uma espécie de “Inquisição”. No Calvinismo a “Inquisição” era chamada de “Consistório” – um grupo de pregadores que era incumbido de “fiscalizar” se as pessoas estavam ou não cumprindo tudo o que era determinado por Calvino. Caso alguém fosse denunciado, seria julgado. Após as torturas, a vítima poderia ser condenada à morte – como foi o caso do médico humanista Miguel Servet, que descobriu a circulação pulmonar do sangue. Defensor de uma concepção própria da Santíssima Trindade, o médico foi julgado em Genebra por um tribunal eclesiástico comandado por Calvino e, no dia 27 de outubro de 1553, teve uma coroa de juncos, cheios de enxofre, colocados na cabeça e foi queimado vivo na fogueira. Proporcionalmente – não em números absolutos – Calvino, em Genebra, matou mais gente do que a própria Revolução Francesa. Em 1527, soldados protestantes do Imperador Carlos V invadiram e saquearam Roma. Isso sem contar o massacre de Passy, e as atrocidades que eles cometeram na Inglaterra, nos Reinados de Henrique VIII e de Isabel, a rainha “virgem” com 11 amantes, no tempo de Comwell. Mesmo na Revolução Francesa, os protestantes apoiaram leis contra a Igreja Católica, que acabaram por levar centenas de milhares de católicos à morte na guilhotina, por fuzilamento e outros meios terríveis. A “Inquisição Protestante” chegou até mesmo ao continente americano, na Nova Inglaterra, em Salém, Massachusets, no ano de 1692 – onde aconteceu uma das maiores barbaridades já registradas pela História – o assassinato das “bruxas” de Salém, que cerca de três séculos depois deu origem a um filme.”

http://www.correiodopapagaio.com.br/v10/montanoticias.php?cp_id=250

Questionou-se a posição de Calvino como cristão, propondo uma reforma na igreja, e ao mesmo tempo ser favorável à pena de morte. Isso não é uma contradição? Sendo favorável à pena de morte, e instaurando uma espécie de “inquisição” própria, Calvino não estava se igualando à igreja católica, a qual ele tanto condenava, e cometendo os mesmos erros?

A resposta do presbiteriano incluiu um texto de autoria da Igreja Presbiteriana do Brasil, o qual transcrevo abaixo:

Como a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil ) insiste, e deve insistir, na fidelidade à Escritura Sagrada, oficialmente a IPB acata como bíblica a pena de morte. É preciso deixar de usar o Decálogo (“Não matarás”) contra a pena de morte, porque os Dez Mandamentos visam as relações interpessoais. O indivíduo, como tal, é proibido terminantemente de matar, mas o Estado não. Quando a Bíblia autoriza o Estado a matar os malfeitores e criminosos, ela não condiciona: “Se o Estado não for corrupto…”. Os líderes e autoridades corruptos terão que prestar contas a Deus. No Antigo Testamento Deus autorizou a destruição de nações (que tinham ultrapassado todos os limites da tolerância em sua maldade e corrupção). Quando o Estado relaxou nisso, até profetas foram autorizados a grandes matanças. Ver 1 Rs 18.40 (ler o contexto) e 19.16,17 (note: Eliseu). Quanto ao Novo Testamento, ver, por exemplo, Rm 13.1-4; 1 Pe 2.13,14 e Ap 13.10.

Quando a pessoa age pessoalmente, como pessoa física: “Não matarás”; quando exerce posição de autoridade, é “ministro de Deus” para punir os malfeitores.

O rei ou presidente ou juiz ou tribunal ou a legislação que não pune o malfeitor, não pune o criminoso, se faz réu do juízo perfeito e imanobrável do Deus eterno e sempiterno.

Duas palavras finais: O materialista tem todos os motivos carnais do mundo para ir contra a pena de morte, principalmente porque a única vida que ele reconhece é esta.

Jesus Cristo mostra que o juízo divino é muito mais rigoroso do que o esfarrapado juízo humano. Quem chamar a seu irmão “Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22).

Assassinos, ladrões, estupradores, seqüestradores, criminosos em geral, voltem-se para Deus e clamem por Seu perdão e pela redenção que há em Cristo Jesus, e unicamente nele! Amigos dos assassinos, voltem-se para Deus e Sua Palavra, e sejam obedientes ao que Ele ensina, manda e requer!”

http://www.ipb.org.br/tira_duvidas/mostra_duvidas.php3?id=220

O mandamento “não matarás”, não fala sobre exceções ou diferenciação entre pessoa física e o Estado (e o Estado é feito de pessoas, haveria de qualquer forma pessoas executando a pena de morte em nome do Estado). Ele fala simplesmente: “não matarás”. Qualquer adição que se faça, é doutrina particular da igreja, não corresponde à realidade do mandamento. O Estado pode punir os malfeitores de outras formas que não a pena capital. E trazer o conceito bíblico de Estado ao século XXI, e pior, a um Estado democrático de direito, onde os governantes são eleitos por todos os cidadãos aptos, independente de suas crenças; onde nem todos os cidadãos são cristãos, é um retrocesso sem tamanho. O Estado deve preservar direitos e deveres de todos os cidadãos, sejam cristãos ou não; portanto, justificar qualquer ação do Estado, usando a Bíblia, é inconstitucional, pois viola os direitos fundamentais do cidadão. Todos são iguais perante a lei do Estado, independente de serem cristãos ou não. Estado e religião não podem estar interligados. A IPB alegou que se o Estado for corrupto no uso da pena de morte, prestará contas a Deus. Mas seguindo essa mesma lógica, uma pessoa que comete um crime que seria castigado com a pena de morte, também não prestará contas a Deus, caso não se arrependa dos seus atos? Podemos nós, humanos falhos e cheios de preconceitos, aplicar a pena de morte a qualquer pessoa, sendo que o juízo perfeito, pelo menos se somos cristãos, pertence a Deus, e não a nós? Lembre-se que a pena de morte é irreversível.

Quanto ao uso de Romanos 13:1-4 para justificar a pena de morte aplicada pelo Estado, o texto tira a carta do seu contexto. Paulo era cidadão romano, e escreveu a carta aos cristãos romanos, para ser lida em voz alta, diante de todos. Ele não seria estúpido de instruir as pessoas a irem contra o governo romano, que nada tinha de democrático e nada tinha de cristão, e sabia que os judeus acusavam constantemente os cristãos de serem contrários ao império romano. Mais adiante na carta, ele fala sobre o pagamento de impostos, recomendando que os cristãos façam o pagamento de impostos escrupulosamente. O objetivo é não ter problemas com o governo romano, e não deixar margem para acusações. Extrapolar o contexto da carta para o século XXI, não dá. Ainda nessa mesma carta, Paulo cita as escrituras, falando que a vingança pertence a Deus, e não aos homens; e a pena de morte nada mais é do que uma vingança. A citação de Pedro, fala basicamente a mesma coisa, e com o mesmo objetivo básico da carta de Paulo. Vejamos por exemplo o que diz 1 Pedro 2:12: “Tende um procedimento exemplar no meio dos pagãos, para que precisamente naquilo em que vos caluniam como malfeitores, sejam esclarecidos por vossas boas obras, e glorifiquem a Deus no dia da sua vinda.”

A justiça dos homens não é perfeita e nunca será, mais um motivo para o Estado não adotar a pena de morte. Além de já estar provado que a pena capital não resolve o problema. Veja por exemplo:

http://br.geocities.com/hzetanoticias/penademorte/pm_01.htm

http://super.abril.com.br/superarquivo/2001/conteudo_214503.shtml

http://penademorte.enaoso.net/index.php?op=refe&ref=2006000007

http://www.conjur.com.br/static/text/52035,1

http://www.espacoacademico.com.br/051/51rattner.htm

E encerro essa postagem lembrando a cena de Jesus diante da mulher adúltera que seria apedrejada. Jesus deixou claro a todos, que nenhum deles podia se considerar justo o suficiente para aplicar a pena de morte àquela mulher. Somente Deus pode ser totalmente justo. “Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”, foi a frase dita por Jesus. Quem de nós, como cristãos, como supostos seguidores de Jesus, pode se considerar justo o suficiente, para aplicar a pena de morte a qualquer pessoa, por mais hediondo que tenha sido o crime cometido? O que Jesus faria? Será que Jesus, diante de uma cena de linchamento de um criminoso qualquer, se colocaria no meio da multidão e gritaria junto com ela: “Crucifica-o, crucifica-o”?

Misericórdia, compaixão e amor ao próximo, são compatíveis com a pena de morte?

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