Ainda sobre a ameaça muçulmana

Novembro 21, 2009

Recentemente rolou um texto na internet onde um pastor supostamente enfrenta um líder muçulmano que supostamente estaria vindo para o Brasil, para supostamente participar de um encontro com outros líderes muçulmanos, para supostamente tratar da conversão da América do Sul ao Islamismo. A razão de usar a palavra “supostamente” tantas vezes, é porque não acredito no que foi relatado. Principalmente porque o tal pastor aparecia como o “herói” que enfrentou o “muçulmano do mal” no aeroporto… achei o texto excessivamente fantasioso e muito pouco verossímil. Hoje, lendo A Bacia das Almas, encontrei um texto do Paulo Brabo exatamente falando sobre esse assunto:

“Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando – aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira de uma produção norte-americana – é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.

Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham a máscara da acusação e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente do mal; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.

Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque semear o medo é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância – e, como bônus – controlar as massas.

Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.

Não havia ainda o Youtube, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. Der Ewige Jude (”O judeu eterno”, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que O mundo está mudando demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).

Der Ewige Jude alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; O mundo está mudando profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.

O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de O mundo está mudando os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados – se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados. O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é “nossa cultura”. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado “para nossas crianças” os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.

É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.

O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de “milenares”, e não por causa do peso de “igrejas”.

Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares – como descobri nesta passagem pelo norte da Itália – foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, em) templos romanos que estavam ali muito antes delas.

Para resumir: não vejo como uma eventual Europa “muçulmana” poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos – país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de “cristão”. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.

O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor mas não fazemos o que ele diz.

Fora nossa própria hipocrisia, nada há que temer.

Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa,  a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.”

Ainda sobre a ameaça muçulmana – Paulo Brabo

Bom, acho que não preciso acrescentar mais nada. Melhor, vou acrescentar mais isso: deixem as religiões dos outros em paz, parem de demonizar as outras religiões, parem de generalizar e imputar a todos os muçulmanos o que é característica da minoria (assim como vocês não gostam quando outras pessoas generalizam a respeito de evangélicos; como por exemplo, quando dizem que todos os pastores só estão interessados em dinheiro e que todo crente é burro). Parem de tentar causar medo nas pessoas, cuidem antes de moralizar suas próprias igrejas, coisas que vocês não têm conseguido, e parem de comprar todas as brigas que os EUA mandam vocês comprarem.


Religião e ciência coexistem na teoria evolucionista

Novembro 21, 2009

por Zhengzheng Pan

O estereótipo cristão tem por muito tempo, como uma de suas palavras-chave, o ser anti-ciência (teoria evolucionista em particular) ou estúpido. É óbvio porque a batalha entre religião e ciência retratada na cultura pop e na crença comum parece plausível; a história dos seis dias de Gênesis contra a teoria física dos 14 bilhões de anos, levanta uma bandeira vermelha imediatamente. E enquanto os cientistas têm seus experimentos replicáveis, métodos mensuráveis e resultados observáveis, teólogos passam longe desse tipo de fatos científicos e evidências. Entretanto, há muitos fatos sólidos e testáveis sobre ciência e religião/Cristianismo, que você pode não saber.

Francis Collins, diretor do National Institute of Health, é um médico e geneticista prestigiado. Ele é mais conhecido pela liderança do Projeto Genoma Humano e descobertas sobre doenças genéticas.  Descrito pela Endocrine Society como “um dos cientistas mais talentosos da atualidade”, Francis Collins é também cristão, um cristão por opção e um cristão que leva sua fé a sério. Na verdade, ele é um cristão que fornece evidências para a teoria evolucionista.

Não vou dar um palpite aleatório ou escolher alguns números no Google para mostrar quantos cristãos não vêem Darwin como inimigo, porque não foi essa a razão pela qual escrevi esse artigo. Francis Collins disse em uma entrevista: “eu atualmente não creio que haja qualquer oposição entre o que acredito como cristão e o que sei e tenho aprendido como cientista.” Mas muitos não são assim. Um premiado professor de Química que é também um cristão sincero, disse num encontro que ele se sentia como se estivsesse vivendo uma “vida dupla”. É por isso que estou escrevendo esse artigo. Eu jamais neguei a existência de barreiras entre religião e ciência, nem quero ver isso como se fosse um campo de batalha.

Alguns temem que a ciência seja ofensiva a Deus. A bíblia diz “ame a Deus com toda a sua mente.” Se fomos abençoados com um cerébro que pode pensar, racionalizar, questionar e explorar, é um dom dado por Deus. Por que não usar? Um artesão não vai achar ofensivo usar seu talento manual para fabricar uma prateleira. Então por que é ofensivo usar a mente para conduzir pesquisa científica? Somos gente, e não fantoches – isso não é demais?Além disso, ciência não é somente equações matemáticas, tubos, DNA e coisas como essas. Quando um artesão fabrica uma prateleira, há ciência nisso. Experimentamos a ciência de tantas maneiras que podemos nem sempre estar cientes disso.

As primeiras universidades no Leste Europeu foram abertas sob a direção da igreja católica. Nicolau Copérnico, Sir Francis Bacon e Johannes Kleper foram alguns dos cientistas pioneiros que desenvolveram a base da moderna astronomia, filosofia e do método científico em geral. Eles eram todos cristãos. Galileu Galilei, amplamente conhecido por seu conflito com a igreja católica, defendeu a bíblia  enquanto ensinava suas aparentemente contraditórias conclusões. Atualmente na Europa, Estados Unidos e em todo o mundo, há muitas universidades administradas por várias igrejas e os pesquisadores dessas universidades estão continuamente contribuindo com a comunidade científica. Há vários brilhantes cientistas ateus na comunidade também. O ponto é que o relacionamento entre ciência e religião, cristã ou não, não tem que ser, ou pode não ser como a maioria percebe.

Voltando à questão da odiava evolução contra o criacionismo: quando escrevo um software um faço um bolo, sigo passos para realizar isso. Os segmentos de códigos são reunidos e realizam o grande projeto que eu pretendia quando comecei. A farinha e os ovos formam uma massa que em seguida se transforma num bolo. Este é o processo que escolhi seguir para fazer o bolo. Então, se Deus decidiu usar o processo evolucionário como o mecanismo para alcançar o que pretendia, quem vai dizer “Não”?

Religion and science coexist in evolutionary theory – Zhengzheng Pan


Babelismo

Novembro 18, 2009

por Elienai Cabral Junior via Bacia das Almas

NÃO DEMORA MUITO para que qualquer um descubra a pior das angústias humanas: nossa vida também é morte. Tudo o que amamos, planejamos e construímos é insustentável. Nossas melhores idéias duram tão pouco que a frustração é inevitável. Sonhamos com mundos novos, adrenalizamos a vida idealizando o futuro. Mas conhecemos com desencanto a fatídica fragilização de nossos ideais no desenrolar dos dias, na inclusão de outras pessoas, nas descobertas de novas necessidades e problemas, no adiamento de algumas soluções, nos empenhos inócuos, na convivência com muitas carências e tantos deslizes indesejados. Pouco a pouco, um projeto que nasce vigoroso e carregado de uma sensação de eternidade, por mais belo e consistente, enfraquece e perde gravidade.

Sei que a nostalgia é um sentimento também de auto-engano, pois tudo o que está longe, como o passado, parece melhor do que realmente é ou foi. Mas a nostalgia também é um índice dessa angústia pela insustentável finitude que nos constitui.

Sentir nostalgia pelo ponto de partida de qualquer empreendimento é evidência de enfraquecimento, de que não tem mais o mesmo poder de persuasão e encanto. Nostalgia é vertigem pela impotência ante o efêmero. Nossos mecanismos de renovação nada mais são que o sintoma de anemia da idéia inicial. No ambiente da igreja, nossos “anseios por avivamento” confirmam nossa fraqueza. Adélia Prado trata o assunto em sua poesia “Chorinho Doce”:

Eu já tive e perdi
Uma casa,
Um jardim, uma soleira,
O portal,
O jardim mais a casa,
O caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
Tudo de outro dono,
Tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas.
O coração amolecido como um figo na calda.

Mas uma outra palavra também descreve o modo como nos debatemos existencialmente com a insustentabilidade de nossas construções: instituição. Institucionalização é o processo humano de perpetuação de valores tendo em vista a irresistível contigencialidade da vida. As pessoas mudam. Tudo o que nos cerca muda. O futuro é futuro porque somos temporais, mas também porque somos imprevisíveis. Se fôssemos imutáveis, seres de estabilidade absoluta, além de não sermos humanos nem livres, seríamos seres sem futuro, arremessados a um “eterno agora” entediante. Descortinando com coragem e angústia, o Pregador (Eclesiastes) admite:

 

“Considere o que Deus fez: Quem pode endireitar o que ele fez torto? Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra alguma coisa sobre o seu futuro.” (Ec 7.13-14)

 

“Porquanto há uma hora certa e também uma maneira certa de agir para cada situação. O sofrimento de um homem, no entanto, pesa muito sobre ele, visto que ninguém conhece o futuro. Quem lhe poderá dizer o que vai acontecer? Ninguém tem o poder de dominar o próprio espírito; tampouco tem poder sobre o dia da sua morte e de escapar dos efeitos da guerra; nem mesmo a maldade livra aqueles que a praticam.” (Ec 8.6-8)

Instituir é estabelecer valores acima de nossa inconstância. Instituir é programar o futuro antes que o que aprendemos a amar transforme-se em passado. A forma pactual de se prevenir da nossa instabilidade é normatizar o comportamento de todos. Na institucionalização, diminuímos e enfraquecemos a importância da subjetividade de pessoas livres e a influência das circunstâncias para solidificarmos organismos, materiais ou imateriais, representativos de nossos valores. Aprendemos a amar o Reino de Deus, mas inventamos igrejas para perpetuar nosso amor. Ficamos apaixonados pelo que podemos fazer em defesa de crianças pobres, mas criamos institutos para preservar nossa paixão. Amamos uma pessoa, sonhamos em formar uma família, mas instituímos um casamento para fazer durar nosso amor.

A imprevisibilidade do comportamento humano é característica de sua finitude. Nós, as coisas que amamos, os eventos que promovemos, todas as nossas construções são finitas. Nós e tudo o que parte de nós morrem. A partir deste fato, convivemos com a vertigem da irresistível contingência de viver. A instituição é um pacto entre mortais em busca de ultrapassar sepulturas. A instituição é a nossa impotente luta contra a morte.

Precisamos falar de morte. Ela é a presença dura de nossa finitude: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará”. (Gn 3.19) Há um pouco de morte em cada experiência de término ou de limite, em cada derrota, frustração, fadiga, desânimo, doença. No envelhecimento descobrimos um pouco da morte, em cada ruga, em cada nova impossibilidade, em cada memória empalidecida. Mas há as experiências-limite com a morte, aquelas que dela nos avisam com mais força. E aqui há um indicativo precioso, a experiência de rejuvenescimento que se segue a essas experiências-limite. Um acidente automobilístico, uma enfermidade avassaladora, a morte de alguém muito próximo, curiosamente, nos faz melhores. Quem experimenta um pouco da morte melhora, seus valores esquecidos são rememorados, seus afetos embrutecidos são ressensibilizados. Olha com mais cuidado para a vida. Enxerga com mais ternura a outra pessoa. Tolera mais. Apressa-se em superar mesquinharias. A vida é catalisada pela morte. A morte nos aflige, mas nos redime.

A morte carrega um princípio de redenção, portanto. No texto de Gênesis, Deus instaura o fim, estabelece o encerramento da existência humana, com o objetivo, imagino, de impedir que escolhas e ações humanas, se infinitas, tornassem-se prisões, destinos irrevogáveis. “Então disse o SENHOR Deus: ‘Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre’”. (Gn 3.22) Permitam-me os irmãos fundamentalistas, fazer uma leitura literal de Gênesis, mormente os seus primeiros 11 capítulos, é empobrecer a revelação de Deus, além de ingenuidade tola. O Deus da palavra criativa nunca abriu mão da poesia e do simbólico, talvez a única expressão que o revele com graciosidade. Estamos lendo um mito. Deus usou os mitos de uma civilização para impregnar-nos de valores e princípios sublimes. Dentro desse mito revelador, ou insinuante, da criação, arrisco-me a dizer que Deus introduziu a morte na existência humana para impedir-nos de perpetuar o mal. Somos finitos pela misericórdia de Deus. Morremos por socorro divino.

A instituição carrega uma contradição em seu interior. Através dela olhamos com realismo para nossos limites e instabilidades, protegemo-nos de nossa própria maldade. Cuidamos de nossos ideais com responsabilidade. Ampliamos o alcance de nossas conquistas. Isto, a princípio, é belo e bom. Mas, em oposição a este movimento, a instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos. Ao invés de abraços celebrativos, estatutos. Ao invés de ouvidos, o cumprimento cabal de regras. Ao invés da leveza dos sonhos, o peso das obrigações que se multiplicam sem fim. Ao invés de amarmos o ideal, amamos as posições de poder. Ao invés de lutarmos com paixão por um sonho, lutamos com maquiavelismo pelo reconhecimento da razão. Por medo da morte, substituímos a vida pela instituição. Vinicius de Morais percebeu o nossa (não) relação com a morte na poesia A Morte:

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

Toda institucionalização é também uma mistificação idolátrica. Damos tamanha importância às nossas instituições que elas terminam divinizadas. Substituímos, assim, os sonhos e anseios que nos moveram a criá-las por elas mesmas. Jesus faz esta denúncia quando responde às críticas dos religiosos por movimentar-se no sábado, curando ou permitindo que seus discípulos comessem: “E então lhes disse: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”. (Mc 2.27-28)

Se a instituição é o invento organizacional da pessoa humana que, ao reagir à sua finitude, acaba por desumanizar-se, institucionalizando a si mesma e às outras pessoas, a confusão, o desencontro, o desgaste, a crise e conseqüente deconstrução de nossas instituições não poderiam ser o invento redentivo de Deus? O Deus que criou a morte para livrar-nos da perpetuação do mal, também não teria garantido a repercussão da morte, gerando confusão e crise em nossas construções para livrar-nos da institucionalização da vida? Creio que sim.

É aqui que o capítulo 11 de Gênesis colabora com nossa reflexão. Acredito que a narrativa da Construção da Torre de Babel, em sua linguagem mítica, descreve a dinâmica da institucionalização e a reação divina a ela. A unidade fictícia descrita inicialmente é a ocasião para a orquestração de um plano: construir algo tão elevado que garantiria que seus nomes não seriam dispersos sobre a terra. Deus discerne o movimento maligno por trás da construção e promove confusão. Na confusão o projeto é esvaziado, a ficção é descoberta. No desencontro entre subjetividades, intensificado pela ampliação da liberdade e individualidade das pessoas, Deus livrou-os de perpetuarem o mal em sua instituição-construção. A pessoa humana instituiu, Deus babelizou. A pessoa humana organizou para perpetuar-se cruelmente, Deus confundiu para pulverizar graciosamente a perversidade.

Continue lendo aqui: Babelismo – Bacia das Almas


As sagradas entrelinhas

Novembro 18, 2009

por Elienai Cabral Junior

A pretensão piedosa de muitos cristãos de se apoiarem peremptoriamente no que dizem as Escrituras é no mínimo ingênua. Partem do pressuposto impensado de que há uma compreensão absoluta do que está escrito. Que por sua vez funda-se na idéia de que a verdade seja algo pronto, do lado de lá do pensamento, grafado no texto bíblico, apenas à espera que pessoas dela tomem posse.

A compreensão da verdade pensada assim elimina a mais humana das ações: a interpretação. Somos todos seres de interpretação. Uma vaca não interpreta, apenas reage. Uma pessoa não reage apenas, interpreta. Não há possibilidade de haver uma ação humana sem que também aconteça uma interpretação. Uma verdade nunca está do lado de lá pronta para ser possuída. Toda apreensão de idéias é um movimento impreciso e participativo de interpretação.

As páginas da Bíblia não são gavetas que guardam verdades, mas a coleção de narrativas e dissertações que nos convidam ao aprendizado. Nem seus leitores são desengavetadores inertes e neutros de conteúdos prontos. A Bíblia é um livro forjado com múltiplas interpretações. Desde sua escrita original, traduções e versões, o texto é marcado pela confluência de mentes que dela participaram. Juntamos a isso as teologias, tradições e culturas que têm na Bíblia ao menos uma referência de valor e temos um mundo indeterminado de olhares em suas páginas. Porque simplesmente é impossível à mente humana ler sem interpretar e interpretar sem entrar em conflito com outras e diversas interpretações.

Quem quer que afirme apoiar-se absolutamente no que dizem as Escrituras está na verdade dizendo que se apóia em uma tradição de pensamento e do que dela compreende.

O que chamamos de verdade bíblica é uma miragem. Porque não há possibilidade de existir um conteúdo de afirmações atemporal e universal. Por tudo o que já se disse acima. Ao entrar em contato com uma afirmação coloco em movimento todos os preconceitos, tradições, sentimentos, aspirações do meu tempo, questões da minha época, tudo o que em mim participa do modo como interpreto a vida e as pessoas à minha volta. A verdade é relativa a mim, e tudo o que em mim participa do que compreendo. A verdade é necessariamente provisória. Está sempre em construção.

O que chamo de verdadeiro não é um bloco maciço de idéias, mas um corpo inacabado e dinâmico de perspectivas. As verdades humanas nunca são absolutas, são sempre finitas e processuais. Qualquer outra candidata à verdade que se pretenda completa, universal e insuperável pelo tempo fala uma língua incompreensível à mente humana. Nada comunica. Não nos diz respeito. Nem dela podemos fazer referência. Se nos referimos a uma idéia, interpretamos.

Isso significa que sempre que alguém arroga para si a posse de uma verdade absoluta está de fato absolutizando uma versão, a que prefere os interesses de quem está acomodado ao que prevalece em seu mundo. A história não deixa dúvidas sobre os absurdos já cometidos em nome da posse inquestionável da verdade. Mas certamente o maior dos absurdos é a desumanização de todos que entram em contato com tal pretensão. Na medida em que uma idéia é absolutizada, as pessoas são pulverizadas. Quem sai em defesa da posse da verdade perde o outro de si mesmo, ou seja, a sua própria consciência e suas reivindicações por novas respostas. Perde também o outro além de si, ou seja, tudo e todos ao seu redor que divergem em busca do diálogo.

Quem quiser encontrar a Palavra de Deus e não perder a si mesmo e aos outros sob a prepotência de posse absoluta da verdade precisará ir além do que está escrito. Precisará abrir-se para fundir horizontes. De quem escreveu, da tradição e os de seu tempo. Precisará de modéstia para as alteridades envolvidas no texto. Precisará de compromisso com o seu mundo e suas dores. Precisará de imaginação e delicadeza.

Porque a Palavra de Deus não é a Bíblia, mas as suas entrelinhas.

As sagradas entrelinhas – Elienai Cabral Junior


Buscar a verdade demanda questionarmos nossa fé…

Novembro 17, 2009

por C. Drew Smith

Qualquer um que me conheça bem, sabe que sou um investigador quando se trata de fazer perguntas sobre a bíblia, teologia e a prática da fé. Para mim, nenhuma questão fica de fora. Sou alguém que não está completamente satisfeito com a idéia comum de que porque a bíblia diz, está falado. Sou extremamente aberto a novas formas de pensar sobre a bíblia e a teologia, pois em minha mente a afirmação de Jesus de que a verdade pode fazer você livre é o ponto central dessa busca. Entretanto, há razões específicas pelas quais encorajo outras pessoas a fazer essas perguntas desafiantes.

Uma razão para a minha determinação em levantar perguntas críticas sobre a fé, e para encorajar outros a fazer o mesmo, é porque cresci numa tradição fundamentalista, na qual questionamentos sobre a bíblia e a fé não eram bem vistas. Isso era particularmente verdade quando alguém tentava fazer perguntas sobre as inconsistências encontradas na bíblia, ou quando alguém tentava desesperadamente harmonizar sua fé em Deus com uma realidade de sofrimento. Quando adolescente, me disseram que essas questões não eram importantes, e que era até mesmo perigoso perguntar; só conhecer Jesus e crer nele era necessário. Fiquei satisfeito com essa resposta até que comecei a descobrir os obstáculos intelectuais que alguém encontra quando se aproxima da bíblia procurando respostas claras.  Foi aí então que voltei a fazer aquelas perguntas sérias, as quais provocaram outras perguntas, e que eventualmente me levaram à evolução, e a mudanças de fato revolucionárias na forma como vejo a bíblia e a fé cristã.

Uma segunda razão para minha abordagem crítica da bíblia e da fé, é que percebi uma fraqueza lamentável na forma como muitas igrejas vêem a bíblia. Igrejas de pensamento mais liberal tinham praticamente abandonado a bíblia como fonte de fé e vida.  Enquanto podem lê-la na adoração, muitos deles enxergam pouco ou nenhum valor em olhar criticamente para a bíblia como base para a teologia e a prática. Não cheguei a esse ponto na minha jornada cristã. Do outro lado  do extremo, muitas tradições mais conservadoras têm enfatizado a hipotética inerrância da bíblia, abraçando um ponto de vista sobre a bíblia que ignora completamente as discrepâncias, e, mais importante, a longa e complicada história da transmissão e tradução da bíblia. Para esses cristãos, se a bíblia diz, então é verdade. Saí dessa posição, a qual eu tinha quando era mais novo. Mas nem a posição mais liberal nem a posição mais conservadora são defensáveis em minha mente.

Um terceiro motivo para meu olhar crítico para a bíblia e a fé, logicamente segue o segundo, que uma educação insuficiente sobre a nossa fé, e sobre a bíblia na qual nossa fé está baseada, tem levado não só à ignorância bíblica, onde muitas pessoas não conhecem a bíblia, mas mais trágico, leva a ignorância quando se trata de interpretação bíblica e pensamento teológico. A maioria dos grupos de estudo bíblico não considera as complexidades e enigmas inerentes à leitura de textos antigos. Ao contrário, eles focalizam sobre nós, como indivíduos podemos melhorar nossas vidas, e as discussões normalmente giram em torno do que a bíblia tem a dizer sobre aquele momento da minha vida. Apesar disso ser importante para os fiéis, é secundário no aprofundamento do texto bíblico. Não fazer isso só vai nos levar a assumir o que a bíblia diz, ou a fazer com que diga o queremos sem uma reflexão cuidadosa e atenção para o próprio texto.

Ao longo das próximas semanas, vou levantar algumas questões sobre a fé cristã, e principalmente sobre a bíblia. Obviamente que vou escrever da minha própria perspectiva e a partir da minha própria experiência em pensar sobre esses assuntos. Muitos de vocês vão discordar de mim em parte ou em tudo. Aceito esse diálogo, porque apreciar diversas opiniões, desde que sejam suportadas com argumentos racionais baseados nas evidências. Tenho dedicado muitas horas, dias e anos considerando estas questões e buscando respostas baseadas nas evidências disponíveis. Não pretenderei dar a última palavra sobre esses assuntos, e posso mudar de idéia, mas quero persuadir meus leitores a pensar mais seriamente e criticamente sobre sua fé, independente de estarem do mesmo lado na barricada teológica, e então meu ministério nessa área será efetivo. Afinal, estou convencido de que Jesus estava certo quando disse, “a verdade fará vocês livres.”

Seeking the truth demands questioning our faith – Wilderness Preacher