A bíblia não pode responder perguntas científicas

Novembro 15, 2009

por C. Drew Smith

Por mais de um século têm ocorrido debates sobre a habilidade da bíblia nos falar a respeito do mundo, particularmente sobre o mundo natural, e sobre como os seres que habitam esse mundo natural vieram a existir. Estes debates tem dado continuidade aos argumentos entre ciência e bíblia que começaram com a revolução científica no século XVII, quando Galileu desafiou a leitura literal da bíblia mostrando que o sol, e não a terra, estava no centro do universo, e que o universo funciona de acordo com leis matemáticas. Entretanto, em nossa cultura politicamente engajada, o conflito entre a bíblia e a ciência anda mais aquecido do que nunca.

A questão, pelo que vejo, parece ser mesmo sobre se a bíblia pode responder as perguntas da ciência, e se a ciência pode realmente provar a bíblia. Obviamente, o centro do conflito atual é o  debate entre a teoria científica da evolução e a crença religiosa da criação. O desafio da ciência à fé se tornou tão ameaçador que levou alguns a escolher uma leitura literal de Gênesis 1 e 2, na forma de uma pseudo-ciência conhecida como teoria do Design Inteligente;  mas praticamente esta teoria é apenas uma forma renovada de criacionismo. O problema com esse ponto de vista, está na nossa incompreensão dos primeiros capítulos do Gênesis como base para provar a idéia de que o mundo natural foi literalmente criado do nada em sete dias.

Admito, não sou um cientista, então não posso falar sobre teorias científicas com muita autoridade, e certamente não é este o objetivo desse artigo. Entretanto, como um investigador bíblico, historiador e teólogo, posso dizer o que penso ser o problema dos pontos de vista interpretativo e teológico.

Primeiro de tudo, devemos entender que as narrativas de Gênesis foram escritas por humanos antigos, os quais, sem acesso à ciência moderna, tentaram explicar seu mundo e as origens do mundo natural  de um ponto de vista religioso. Gênesis, então, é a história hebraica do início e origens do mundo e da humanidade, como eles entendiam de um ponto de vista teológico, porém não científico. Assim como outros povos da antiguidade, os Hebreus justificaram sua religião e sua visão de mundo por meio da sua história da criação, detalhada, sobre como o mundo surgiu por um ato de Deus.

No caso dos Hebreus, a narrativa de Gênesis foi uma tentativa de definir o Deus no qual acreditavam como o único Deus do universo, o qual é transcendente, e o qual, em sua infinita sabedoria e poder, criou o mundo físico, incluindo a humanidade, que foi representada de forma literária pelos personagens Adão e Eva. Assim, os primeiros capítulos do Gênesis são narrativas teológicas que expressam como os Hebreu viam o seu Deus como supremo, acima de outros deuses, um tema que continua a ser tratado em toda a bíblia hebraica. Mas as narrativas de Gênesis não são cálculos científicos ou explanações sobre fenômenos naturais, e não podem suportar esse tipo de interpretação literal. Fazer isso é perder o foco.

Será que esse ponto de vista dissipa qualquer noção de Deus? A resposta a essa pergunta é simplesmente não. Apesar de considerar a evolução como a resposta para as origens do mundo natural, não descartar a idéia de um ser divino, a ciência não pode nem provar nem refutar a existência de Deus. Por outro lado, nem a bíblia pode provar que Deus existe. A bíblia pode somente descrever como os antigos Judeus e Cristãos entendiam Deus. A crença em Deus vem somente através da fé.

A evolução é uma ameaça à autoridade da bíblia? A resposta é, de novo, não. A bíblia é literatura teológica, escrita por pessoas da antiguidade, que escreveram a partir da perspectiva de sua fé religiosa e de como eles entendiam o mundo, a humanidade e a divindade. A estória da criação em Gênesis é uma explanação teológica do mundo a partir de uma perspectiva monoteísta hebraica, e não uma explicação científica.

O que isso significa para pessoas de fé, vivendo em um mundo de conhecimento científico? Significa que não devemos abordar a bíblia como um documento científico; as escrituras não podem responder nossas perguntas científicas. Pelo contrário, devemos ver a bíblia como um texto religioso que molda nossa maneira de viver no mundo, e devemos interpretá-la teologicamente, investigando o que ela diz a respeito de Deus como realidade última, e como podemos viver sendo imagem de Deus em nosso mundo.

The Bible cannot answer scientific questions – Wilderness Preacher


O tipo de Estado que muitos crentes gostariam de ter…

Novembro 15, 2009

Fico bastante triste ao ler textos escritos por alguns evangélicos, os quais deixam transparecer que se sentiriam felizes em ver instaurada uma teocracia crente no Brasil, em detrimento do Estado democrático e laico.

Isso é perceptível na forma como alguns se referem à sua religião como se fosse a única a ter direito de receber proteção e liberdade de culto e a única com direito à inspirar as leis do país.  Qualquer oposição ou punição contra atos discriminatórios realizados por evangélicos, é vista como ataque e perseguição de um Estado anti-cristão governado por conspiradores ateístas ou satanistas.  No meu ponto de vista, creio que os cristãos deviam ser os primeiros a se posicionar contra qualquer tipo de discriminação ou injustiça, mesmo que isso implique em ir contra seus pares religiosos, quando estes forem os culpados ou responsáveis. Ou será que temos que compactuar com atitudes preconceituosas e injustas cometidas por religiosos, só por compartilharmos da mesma fé? É certo existir essa parcialidade e corporativismo quando se tratam de nossos irmãos de fé? Eu não acho.

Outro exemplo é quando a justiça investiga líderes religiosos e logo alguns evangélicos começam a reclamar de perseguição, como se esses líderes estivessem acima da lei apenas por serem evangélicos. Justamente por serem líderes é que deviam dar exemplo de respeito à legislação (inclusive fiscal e tributária) do país.  Se um líder religioso comete crimes, tem que pagar por eles como qualquer cidadão pagaria. E se fosse cristão de fato, se submeteria livremente à investigação e à punição pela lei do Estado caso comprovada a violação da lei, admitindo seus erros, e não incitando os membros de suas denominações a atacarem o Estado em represália, bradando aquela famosa frase, obviamente retirada do seu contexto original: “NÃO TOQUE NO UNGIDO DO SENHOR!”. Lembrem-se de que Jesus desprezou esse tipo de demonstração de poder político, que vemos muito no meio evangélico hoje. Fiéis transformados em massa de manobra política e também financeira, e tudo em “nome de Deus”.

Eu, como naturalmente democrata e humanista que sou, acharia o cúmulo do absurdo viver sob um governo onde houvesse uma religião de Estado, tipo o Irã. É inconcebível esse tipo de pensamento num país como o nosso, multi-cultural e multi-religioso. O governo deve existir para todos os cidadãos, e não só para determinadas castas que se consideram privilegiadas ou até mesmo “escolhidas” por Deus.

Vamos deixar de lado a filosofia dos porcos do “Animal Farm” de George Orwell, onde o que antes era igualdade entre todos os animais, se transformou em “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.”

Preze a sua liberdade de culto, pensamento e expressão, mas preze a liberdade de culto, pensamento e expressão dos outros também. Preze e defenda seus direitos civis, mas tenha o mesmo respeito pelos direitos civis dos outros, mesmo que não concordem com a sua opinião ou crenças. E não esqueça que onde existem direitos, existem também deveres, e que seus direitos terminam onde começam os direitos dos outros. Estamos num país relativamente livre, e devemos ser gratos por isso. Porque existem países onde há pena de morte para ateus, para cristãos, para homossexuais, onde pessoas são apedrejadas até a morte por motivos estúpidos, e já passamos pela vergonhosa época onde os negros precisavam construir igrejas só para eles, por não poderem entrar nas igrejas dos brancos. E hoje muitas igrejas tratam os homossexuais como os negros foram tratados no passado.  Com certeza você não gostaria de viver em algum desses países que punem a divergência de opinião ou crença ou orientação sexual com a morte, certo? Principalmente se o candidato à pena de morte, for você.

Outro exemplo disso é a forma como algumas denominações pregam que seus membros têm “direito” à prosperidade, à riqueza, e tornar isso como sinal obrigatório para considerar alguém como “abençoado”. Como pode, um filho do Rei ser pobre, né? Você tem direito a ser rico, porque é filho de Deus, mesmo que isso implique em não se importar que outros passem necessidade. Mesmo que isso implique em utilizar meios nem sempre lícitos para atingir essa prosperidade. E buscar o Reino de Deus e sua justiça, quem se importa, né? Quem se importa se Jesus disse que a riqueza do cristão não é desse mundo, né? E quem se importa com o que disse Tiago em sua epístola, que a verdadeira religião é atender órfãos e viúvas em suas necessidades? Justiça social? Só se for para nós, os filhos do Rei. Para os “outros”, não. Afinal, se Deus é dono do ouro e da prata, e nós, filhos dEle, então temos que ser donos do ouro e da prata também. Mas onde é mesmo que estava o tesouro de Jesus?

Estranho esse cristianismo atual, onde em vez de justiça, prega-se a parcialidade (se a farinha é pouca, nosso pirão primeiro, como diz o ditado). Estranho esse cristianismo, onde se busca primeiro ficar milionário e próspero, e não o Reino. Estranho esse cristianismo, onde quem defende os marginalizados, fala sobre justiça social e denuncia os poderosos (inclusive os religiosos que se consideram pertencentes a uma casta especial acima dos demais), e não quer fazer acepção de pessoas, é apedrejado. Estranho esse cristianismo onde as pessoas procuram as igrejas pra buscar todo tipo de coisa, menos Deus.

Percebo com tristeza que falta a alguns evangélicos: integridade, autenticidade, amor pela justiça, amor pelo próximo, honestidade, inclusive intelectual. Mas falta principalmente, seguir Jesus. Seguir Jesus não tem muito a ver com desejar uma ditadura gospel e privar outras pessoas, que não compartilhem da mesma fé, de seus direitos civis, ou pregar uma “guerra santa” contra elas, não tem nada a ver com desejar poder político e financeiro para poder impor melhor nossas opiniões, não tem nada a ver com hipocrisia ou parcialidade quando se trata de julgar “irmãos de fé”.


Fundamentalismos…

Novembro 15, 2009

Trechos de um texto de Leonardo Boff, intitulado “Sobre crenças e intolerância”, publicado no Jornal do Brasil, em 20 de outubro de 2001:

O nicho do fundamentalismo se encontra no protestantismo americano, surgido nos meados do século 19 e formalizado, posteriormente, numa pequena coleção de livros que vinha sob o título Fundamentals: a testimony of the Truth (1909-1915). Trata-se de uma tendência de fiéis, pregadores e teólogos que tomavam as palavras da Bíblia ao pé da letra (o fundamento de tudo para a fé protestante é a Bíblia). Se Deus consignou sua revelação no Livro Sagrado, então tudo, cada palavra e cada sentença, devem ser verdadeiras e imutáveis. Em nome do literalismo, esses fiéis opunham-se às interpretações da assim chamada teologia liberal. Esta usava e usa os métodos histórico-críticos e hermenêuticos para interpretar textos escritos há 2-3 mil anos. Supõe-se que a história e as palavras não ficaram congeladas. Precisam ser interpretadas para resgatar-lhes o sentido original. Esse procedimento para os fundamentalistas é ofensivo a Deus. Por razões semelhantes, eles se opõem aos conhecimentos contemporâneos da história, das ciências, da geografia e especialmente da biologia que possam questionar a verdade bíblica.

Para o fundamentalista, a criação se realizou mesmo em sete dias. O cristianismo detém o monopólio da verdade revelada. Jesus é o único caminho para a salvação. Fora dele há somente perdição. Daí o caráter militante e missionário de todo fundamentalista. Face aos demais caminhos espirituais ele é intolerante, pois eles significam simplesmente errância. Na moral é especialmente rigoroso, particularmente no que concerne à sexualidade e à família. É contra os homossexuais, o movimento feminista e os movimentos libertários em geral. Na economia é conservador e na política sempre exalta a ordem e a segurança a qualquer custo.

O fundamentalismo protestante ganhou relevância social a partir dos anos 50 com as Eletronic Church. Pregadores nacionalmente famosos usam o rádio e a televisão em cadeia para suas pregações e campanhas conservadoras. Sob Ronald Reagan, significaram um fator político determinante. Combatem abertamente o Conselho Mundial de Igrejas em Genebra (que reúne mais de duas centenas de denominações cristãs) e todo tipo de ecumenismo, tidos como coisa do diabo.[...]

[...]Intolerância - Não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista. Sendo assim, imediatamente surge um problema de graves conseqüências: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro e o desprezo, a agressividade e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem guerras religiosas, violentíssimas, com incontáveis vítimas.

Não há nenhuma religião mais guerreira que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser povo escolhido e portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro. Essa fé deve ser difundida em todo o mundo, em geral numa articulação com o poder colonialista e imperial, como historicamente ocorreu na América Latina, África e Ásia.

O fundamentalismo, como atitude e tendência, se encontra em setores de todas as religiões e caminhos espirituais. Hoje em dia, o fundamentalismo judeu se centra na construção do Estado de Israel segundo o tamanho que lhe atribui à Bíblia hebraica. O fundamentalismo islâmico quer fazer do Alcorão a única forma de vida, de moral, de política e de organização do Estado entre os islâmicos e em todo o mundo. Todos os que se opõem a essa visão de mundo são obstáculos à instauração ”da cidade de Deus” e conseqüentemente são infiéis e merecem ser perseguidos e eventualmente eliminados.[...]

[...]Cegos – Não se há de sorrir nem de chorar. Mas de procurar entender. Todos os fundamentalismos, não obstante o variado matiz, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-íris, em que a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra indissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de ”Deus”, enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.

Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista. Por detrás do fundamentalismo político vigora uma experiência dolorosa de humilhação e de prolongado sofrimento. E procura-se infligir a mesma coisa ao outro, o que é manifestamente contraditório. Trazer o fundamentalista à realidade concreta, cheia de contradições, claro-escuros e nuances pode introduzir nele a dúvida e a insegurança. Estas possuem uma função terapêutica. Podem abrir uma brecha para a luz no muro das convicções cerradas e excludentes. Dialogar até a exaustão, negociar até o limite intransponível da razoabilidade, pode levar o fundamentalista a reconhecer o outro, seu direito de existir e a contribuição que poderá dar para uma convergência mínima na diversidade.[...]

Quando se fala em fundamentalismo, a primeira coisa que vem à cabeça da maioria das pessoas, são os islâmicos. Mas eles não são os únicos. E nenhum, absolutamente nenhum tipo de fundamentalismo é bom. Fundamentalismo, se achar dono da verdade absoluta e querer impor essa “verdade” mesmo que seja à força, tentar controlar meios de comunicação e governos para impor melhor sua opinião, é abominável.

No cristianismo, o fundamentalismo pretende manter à força e por meio de incentivar os membros das igrejas à ignorância, o poder que vem perdendo, num mundo pós-moderno e que já não aceita muitos de seus discursos.

Eu particularmente não gosto de fundamentalistas, seja de que tipo for, não gosto de extremistas, não gosto de pessoas que se consideram donas da verdade religiosa absoluta. Esse tipo de pessoa transforma o mundo numa zona de guerra, não só guerra de fato, como guerra verbal, ideológica, religiosa. Fundamentalismo não deixa as pessoas pensarem por si mesmas e não admite ser questionado, porque tudo que eles consideram verdade já está definido e não está sujeito a diálogo. Ou você aceita o que eles dizem ser verdade, ou você não é levado em conta. Fundamentalismo impede as pessoas de fazerem uso do pensamento crítico, e muitas vezes usa o terror para conseguir isso. Usa o medo.

E como cristã, não acredito em nenhuma verdade religiosa que precise ser mantida à força, impingida pelo medo, mantida pela ignorância. Não creio em verdades que se sentem ameaçadas pelo conhecimento científico e histórico, e que portanto o combatem e negam.

Acredito no diálogo, no equilíbrio entre fé e razão, no equilíbrio entre espiritualidade e realidade.


Cristianismo e senso comum: a bíblia

Novembro 12, 2009

Bibliapor Gibson da Costa

“Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho.” (Salmos 119:105)

O que é a Bíblia? Qual o seu uso apropriado? Qual sua autoridade para nós, e por quê? Como podemos abordá-la fielmente?

Para começar com algumas declarações com as quais todos concordariam: a Bíblia é uma coleção de dezenas de livros, escritos por muitos autores diferentes em um período de mais de mil anos. Esta coleção de livros passou por um longo, e muitas vezes complexo, processo de seleção (e em muitos casos, edição) antes que chegasse à sua forma presente. Ela contém uma variedade de materiais, incluindo algumas das tradições, histórias, costumes, leis, narrativas, ensinamentos, salmos, e profetas de um pequeno povo do Oriente Médio chamado de Hebreus ou Judeus. Também inclui alguns dos primeiros escritos dos seguidores de Jesus de Nazaré. Estes incluem narrativas de seu ministério e ensinos, reflexões a respeito de quem ele foi, e reflexões a respeito das crenças e práticas apropriadas para seus seguidores.

Esta coleção de escritos também serve como base para a religião cristã.

Fonte de Nossas Verdades Religiosas

Este é nosso ponto de partida: a Bíblia como fonte de nossas verdades religiosas. Isto não é o mesmo que dizer que seja a única fonte, mas os cristãos sempre reconheceram a autoridade da Bíblia para nossas crenças e práticas religiosas, mesmo que possamos nem sempre agir de acordo com ela. Buscamos na Bíblia discernimentos a respeito da natureza de Deus, da natureza de nossa relação com Deus e com o mundo e de uns com os outros, e do tipo de vida que seja apropriada para com estes. Procuramos nela valores e atitudes básicas. Estas são todas as preocupações próprias da religião.

Mas se buscamos na Bíblia verdades religiosas como essas, não significa que também busquemos nela respostas válidas no campo das ciências físicas, ou medicina, ou astronomia, ou geografia. Não buscamos nela respostas a respeito de reparos domésticos, ou tecnologia moderna, ou teoria econômica, ou das leis do Estado de Nova Iorque. E enquanto ela possa ser de ajuda a pessoas estudando história, ou arqueologia, ou sociologia, com respeito a um certo período em uma pequena região do Oriente Médio, ela é muito dificilmente o lugar onde procuraríamos um resumo do conhecimento atual nestas áreas.

Afirmamos que a Bíblia seja a fonte de nossas crenças religiosas. Não precisamos afirmar que ela tenha autoridade em todos os ramos do conhecimento humano.

Mas também a chamamos de a “Palavra de Deus”. O que isto significa? Não significa que a Bíblia deva ser perfeita? Não deve ela, então, estar livre de erros e ser infalível nos temas dos quais ela trata?

Ao chamar a Bíblia de Palavra de Deus, queremos dizer que Deus a escreveu com pena e tinta? Claro que não. Por “Palavra de Deus” nos referimos a verdades a respeito de Deus e de Deus que foram compreendidas e registradas pelos autores bíblicos.

Mas algumas pessoas querem dizer algo bem diferentes disto quando falam em “Palavra de Deus”. Há, na verdade, várias maneiras de delinear o que constitui a Palavra de Deus, e por que. Todas têm um lugar na tradição da Igreja, e todas podem apontar uma base na própria Escritura. Mas nem todas são adequadas para lidar com a diversidade mais ampla da Bíblia, e nem todas se encaixam com o nosso senso comum. Uma idéia tradicional que é muito popular hoje, e com a qual devemos lidar antes de prosseguirmos, é o literalismo ou inerrância bíblica.

Literalismo Bíblico (Inerrância)

O literalismo bíblico afirma que toda a Bíblia é a Palavra de Deus porque ela é divinamente inspirada. Cada escritor de cada livro na Bíblia foi divinamente inspirado e guiado no que ele escreveu, então todas as declarações a respeito de todo assunto em toda a Bíblia é literalmente verdade, sem erro.

Há quatro problemas sérios com o literalismo bíblico: (1) ele nega a centralidade de Cristo; (2) ele exige um conceito de inspiração divina que nega a humanidade do autor; (3) ele requer que acreditemos que a Bíblia não queira dizer o que diz; e (4) ele está em oposição à fé em Deus. Certamente os literalistas bíblicos não intencionam tudo isso. Mas é para aí que sua devoção mal-direcionada e seus esforços mal-orientados com segurança os leva.

1. Literalismo Bíblico versus A Centralidade de Cristo

O literalismo bíblico nega a centralidade de Jesus, o Cristo. Se somos cristãos, então certamente isso significa que a vida e os ensinos de Jesus, o Cristo, dêem-nos a compreensão mais verdadeira a respeito de Deus, e que esta compreensão seja o ponto de referência contra o qual medimos outras interpretações. Mas se tudo na Bíblia for verdade divinamente inspirada, então tudo é igualmente verdade. Declarações no Antigo Testamento a respeito de Deus ou sobre como tratarmos nosso próximo seriam tão verdadeiras e impositivas quanto aquelas nos Evangelhos.

Para tomar apenas um exemplo, devemos então estar dispostos a dizer que Deus realmente mandou Josué matar todos os homens, mulheres e crianças nas cidades de Jericó e Ai (Josué 6-8). É este o mesmo Deus pregado por Jesus, que nos deu o mandamento de amarmos nossos inimigos? Mesmo que se acredite que Deus falou com Josué, como poderia um cristão acreditar que Deus ordenaria uma carnificina indiscriminada? Não devemos dizer, pelo menos, que Josué ouviu erroneamente, que ele tenha tomado erroneamente o costume cultural de “guerra santa” como mandamento divino? Mas o literalista bíblico não pode fazer isso, e tem que insistir que as palavras de Josué e Elias, Eclesiastes e Jó, são tão verdadeiras quanto qualquer coisa que Jesus tenha dito, e portanto, presumivelmente tão importante quanto. Isso nega a centralidade de Cristo e remove a possibilidade de ele ser nosso ponto de referência.

Muitas pessoas lidam com este problema com a idéia de “revelação progressiva”. Esta é a crença de que nós temos na Bíblia uma revelação de Deus – por Deus – que se torna gradualmente mais completa. Assim, os livros mais antigos da Bíblia refletem a revelação menos completa e menos exata de Deus, com uma progressão para uma revelação muito mais completa nos grandes profetas, e culminando na revelação final e completa em Jesus Cristo.

Em geral, não parece haver um avanço na compreensão de Deus com o progredir da Bíblia. Mas isto não é uniforme; eu estaria mais propenso a tomar Provérbios ou Eclesiastes que Isaías. E mesmo que haja, de forma geral, uma compreensão melhorada a respeito de Deus, dizer que isto seja por causa de uma revelação divina progressiva e não por causa de nossa própria melhor compreensão com o passar dos anos é o mesmo que dizer que nossa ignorância prévia seja culpa de Deus por não nos revelar logo, parece muito pouco necessário por a culpa da ignorância humana na reserva divina, ou imaginar Deus racionando cuidadosamente crescentes doses de auto-revelação.

De qualquer maneira, “revelação progressiva” também significaria que compreensões mais antigas a respeito de Deus eram inadequadas até certo ponto. Isto nos deixa precisando de critérios pelos quais decidir o que no Antigo Testamento é realmente Palavra de Deus. Enquanto eu penso que isso seja apropriado e necessário, seria uma opção muito improvável para o literalista bíblico, para quem todas as partes da Bíblia são igualmente verdadeiras.

2. Literalismo Bíblico versus A Humanidade dos Autores

O Literalismo bíblico requer uma compreensão de inspiração divina que nega a humanidade dos autores e desafia o senso comum.

As pessoas que escreveram os diferentes livros da Bíblia eram seres humanos. Eles tinham preconceitos, eles compartilhavam da maioria das opiniões de seu lugar e tempo particulares, e eles cometeram erros. Ainda assim, pedem-nos que acreditemos que quando eles escreveram a respeito da captura de Ai ou da vida de Jesus eles repentinamente deixaram de ser afetados por aqueles preconceitos e pressuposições. Como é que uma pessoa que é tão humana quanto você ou eu poderia repentinamente se tornar livre de erros, quando escrevendo um livro que seria mais tarde incluído na Bíblia? (Lembre-se que esses livros não foram reconhecidos como Escritura até uma data posterior.)

A única forma que isso poderia ocorrer seria se algum poder infalível tomasse esses escritores, suprimisse sua humanidade, e os usasse como instrumentos de escrita da mesma forma como você e eu usamos uma caneta. Não posso ver como essa idéia de usar as pessoas pode se encaixar com a visão cristã de Deus. Nem se encaixa com nosso senso comum.

Ademais, parte da grande atração da Bíblia está precisamente na diversidade humana que ela exibe. Alguém precisa apenas abordá-la com uma mente aberta para ver que seus autores não eram meros robôs, mas seres humanos com seus próprios discernimentos, virtudes, costumes, fé, e – como todas as pessoas – suas próprias concepções errôneas e enganos. O valor, sabedoria e charme da Bíblia está em ver seu povo e seus autores lutando com sua fé, da mesma forma como você e eu fazemos. Dizer que o que essas pessoas escreveram é perfeito como está é removê-los dessa luta que compartilhamos como humanos.

É possível, claro, entender inspiração divina de forma tal que não nos torne robôs. Mas tal compreensão não pode servir de base para a inerrância bíblica.

3. Literalismo Bíblico versus A Bíblia

O literalismo bíblico requer que acreditemos que a Bíblia não queira dizer o que ela diz. Essa não apenas não é uma abordagem fiel, mas também significa que o literalismo bíblico nega a verdade literal da Bíblia que ela pretende defender.

Vejamos um exemplo disso: A primeira de muitas contradições na Bíblia está logo no começo, nos dois primeiros capítulos de Gênesis. Gênesis 1 conta-nos que as pessoas foram criadas por Deus depois de todas as plantas e de todos os outros animais. Gênesis 2 conta-nos que Adão foi criado antes de todas as plantas e animais. O que fazemos com isso?

Pessoalmente, eu não estou nem um pouco perturbado com isso. O tempo e o lugar da origem da espécie humana não é uma questão religiosa. Não é uma questão para a qual eu busque resposta na Bíblia. É uma questão para a ciência, para ser respondida por paleo-antropólogos, se e quando eles forem capazes de ter informações suficientes.

O que fazemos com essa diferença nas duas narrativas da criação é, primeiro, reconhecê-la, e segundo, explicamos que as duas estão lá porque cada uma foi parte de uma das duas ou três tradições sacras unidas por um editor para formar o livro de Gênesis. Cada uma delas era tradição sacra; nenhuma podia ser descartada. Ademais, cada uma faz declarações religiosas importantes – e diferentes. Esses são os aspectos das narrativas que têm autoridade para nós. O capítulo 1 conta-nos a respeito da bondade da criação (o mundo nem deve ser evitado, nem adorado) e de nossa relação com Deus. O capítulo 2 conta-nos a respeito de nossa necessidade mútua, a respeito de nossa mordomia para com a Terra, e que o conhecimento do bem e do mal é o que nos separa de outros animais e o que nos torna humanos.

Então, as contradições quanto à ordem da criação em Gênesis 1 e 2 não afetam os pontos religiosos. Mas o literalista bíblico não pode admitir essa contradição. Ele ou ela tem de insistir que as duas declarações – a de que as pessoas foram criadas depois de todas as plantas e animais, e a de que foram criadas antes – sejam verdadeiras. Isso, claro, é manifestamente impossível.

O literalista bíblico está, entretanto, disposto a admitir que haja aparentes contradições na Bíblia. Em muitos casos a contradição é, de fato, apenas aparente, e um estudo mais atencioso do contexto e sentido mostrará que esse é o caso. Mas em muitos outros casos não é tão facilmente resolvida. Destemido, o literalista assume o desafio de mostrar que que opostos podem concordar. Isso é feito recorrendo-se ao argumento da “compreensão mais elevada”, que funciona como segue: “Se você pensa que essas duas passagens se contradizem, então você não as entende realmente. Em nossa compreensão humana limitada elas parecem se contradizer. Mas na verdadeira compreensão, uma “compreensão mais elevada” que a nossa, que nossas mentes limitadas podem nunca alcançar, não há contradições nas Escrituras”.

Eu prontamente admito que minha própria compreensão não é perfeita. Entretanto, minha compreensão limitada é suficiente para saber que “depois” é o oposto de “antes”. Dizer que “depois das plantas” não seja o oposto de “antes das plantas” é dizer que “antes” e “depois” não signifiquem “antes” e “depois”. Dizer que a narrativa da criação na qual os humanos foram criados por último não contradiga a narrativa na qual Adão é criado antes das plantas e dos animais, é dizer que a Bíblia não quer dizer o que diz. Isso, claro, é negar que ela seja literalmente verdadeira. Assim, para defenderem sua visão, os “literalistas” têm na verdade que negar a verdade literal da Bíblia!

Confrontados com inegáveis contradições se tomarmos as palavras da Bíblia em seu sentido normal, muitos defensores do literalismo bíblico escolhem defender a inerrância da Bíblia abandonando seu sentido literal. Essa é uma forma abstrata de inerrância que mantém que a Bíblia seja verdadeira, não que ela diga o que ela diz, e faz uso desenfreado do argumento da “compreensão mais elevada”. No caso de aparentes contradições e erros, nos é garantido que a verdadeira interpretação dessas passagens, a “compreensão mais elevada”, os eliminará.

Há vários problemas com isso. O primeiro, como já notamos, é que isso envolve negar o sentido literal dessas passagens. Se duas passagens aparentemente contraditórias são verdadeiras na compreensão mais elevada, isso significa que pelo menos uma delas não queira dizer o que diz, o que significa que seja verdade (na “compreensão mais elevada”) precisamente porque é falsa (no sentido literal).

O segundo problema é que em muitos casos temos que admitir que nossas mentes limitadas não podem descobrir a “compreensão mais elevada” que resolve as contradições. Isso significa que estamos defendendo a verdade da Bíblia ao custo de ala não fazer nenhum sentido. Mas se não sabemos o que ela queira dizer, por que importaria se é verdadeira? Você sabe o que “xbvlg” significa? Faz então algum sentido estar preocupado a respeito de sua verdade? E não é aí que estamos se “antes” não for o oposto de “depois”?

O terceiro problema é que essa “compreensão mais elevada” dá às pessoas rédeas livres para reinterpretarem a Bíblia a fim de que ela signifique o que eles quiserem, contanto que possam argumentar que essa seja a verdadeira e “mais elevada” compreensão. Isso é precisamente usar a Bíblia para se encaixar às nossas próprias noções, retorcê-la para justificar nossas próprias idéias preconcebidas em vez de estarmos abertos à mensagem que ela traz. E é ainda uma outra forma de que essa defesa da “verdade” da Bíblia seja possível apenas sacrificando a integridade de seu sentido.

Muitas pessoas que se voltam para o literalismo/inerrância, reconhecem que esses problemas existem. Afinal, como se pode defender a Bíblia, insistindo que ela não diga o que diz? Algumas dessas pessoas evitam isso, postulando que a versão original de cada livro era divinamente inspirada e era literalmente verdadeira e inerrante. Quaisquer erros ou contradições se devem aos erros dos editores e escribas que transmitiram esse material.

Entretanto, cada versículo na Bíblia passou por muitos escribas, e em alguns casos editores, antes mesmo que nossas mais antigas cópias existentes fossem feitas. Portanto, é deixado para nós decidirmos sobre cada passagem em sua forma presente como se a inspiração divina não tivesse sido reivindicada. Isso nos faz perguntar por que alguém reivindicaria inspiração divina para uma versão original “imaculada” que eles admitem não existir mais.


4. Literalismo Bíblico versus Fé em Deus

Na análise final, o literalismo bíblico fica em oposição à fé em Deus e à adoração de Deus, pois substitui estas com a idolatria da Bíblia.

A verdadeira razão pela qual tantas pessoas insistem na infalibilidade divinamente inspirada da Bíblia é muito compreensível e muito humana: eles estão tentando preencher sua necessidade de segurança. Se você tem um livro perfeito em suas mãos ou ao lado de sua cama, isso certamente deve aliviar um pouco da ansiedade de lidar com este nosso mundo imperfeito e frequentemente confuso. Algumas pessoas adicionam a isso o conforto de ter todas as respostas logo ali naquele livro, o que faz-lhes evitar o desconforto agudo de terem de pensar sozinhas ou tomar suas próprias decisões morais. É muito mais seguro ter Deus em um livro perfeito do que ter de buscar Deus nas áreas sombrias e nas incertezas do mundo! Mas não é este nosso antigo desejo de possuir Deus, de capturar Deus em algum tipo de gaiola humana (ou estátua, ou livro) para garantir nossa segurança?

O literalista bíblico afirmará que ele ou ela confia em Deus mais do que eu. Na realidade o oposto é a verdade, pois eles estão dispostos a confiar em Deus apenas se esses milhões de palavras escritas num período de séculos de dois a três milênios atrás forem todas literalmente verdade, enquanto que minha fé em Deus não depende disso.

Seu argumento segue assim: “A Bíblia é a Palavra de Deus. Se Deus é confiável, então a Palavra de Deus deve estar livre de erros. A Bíblia, então, constitui o único guia perfeito em um mundo de incerteza e imperfeição. Por outro lado, se a Palavra de Deus não for confiável, não apenas não há guia certo neste mundo, mas também Deus não é confiável, e assim não é merecedor de nossa fé”.

Mas o que eles realmente estão dizendo é isso: “Declaro ser a Bíblia a Palavra de Deus, e com isso quero dizer que a Bíblia é literalmente verdadeira e sem erros. E se eu estiver errado, então não posso confiar em Deus”.

Claro, isto não faz nenhum sentido. Se fizermos uma afirmação particular a respeito da Bíblia, e estivermos errados, isto levanta dúvidas a respeito de nosso conhecimento, ou nossa confiabilidade neste campo. Nosso erro de forma alguma afeta a confiabilidade de Deus. Mas muito frequentemente insistimos em crer no que queremos a respeito de Deus, e tratamos qualquer ameaça a nosso sistema de crença como um desafio a Deus.

Na verdade, frequentemente precisamos ter nossas próprias crenças desafiadas precisamente para abrirmos nossas mentes e corações à real grandeza de Deus. Então, um desafio às nossas crenças pode ser um apoio a Deus, e não um ataque a Deus. Esta é uma possibilidade que devemos manter em mente se não quisermos nos tornar intolerantes, farisaicos, e fechados à possibilidade de crescimento em nossa compreensão.

Ainda assim, podemos com certeza compreender o anseio que motiva o literalista, o anseio por segurança e por um guia certo. Quem entre nós nunca sentiu esta profunda necessidade de algo eterno e imutável ao qual se segurar? Quem nunca desejou a resposta perfeita e indubitável?

Este anseio não é facilmente satisfeito, e perde seu verdadeiro objetivo se se baseia em qualquer coisa além de Deus. Se basear em qualquer outra coisa é falhar. Atribuir perfeição ou veracidade eterna a qualquer coisa neste universo finito, muito menos coisas feitas por humanos ou possuídas por humanos, é insensatez. Ademais, clamar este tipo de perfeição ou infalibilidade para algo é adorá-lo, é clamar divindade para ele. E adorar qualquer coisa além do único Deus é idolatria. Não importa quão grande seja nossa necessidade por este tipo de segurança, Deus é muito grande para ser possuído por nós.

Afirmar que a Bíblia seja perfeita e infalível é substituir Deus por ela, é se envolver em idolatria, e fechar-nos à verdadeira fé em Deus. Nosso chamado é buscar Deus, usando a Bíblia como um guia. Nosso chamado não é buscar a Bíblia ou adorar a Bíblia. Devemos buscar Deus nos mares abertos da vida diária, com todas as suas incertezas e confusão e áreas sombrias, confiantes de que a grandeza de Deus esteja presente em todas as situações da vida.


A Alternativa Fiel

Qual é a alternativa ao literalismo bíblico como uma maneira de abordar a Bíblia? Uma alternativa, claro, é ir para o extremo oposto e rejeitar o livro inteiro como indigno de nossa atenção. Para aqueles que preferem escolhas preto-e-brancas, é certamente mais fácil ou aceitar inquestionavelmente ou rejeitar a Bíblia completamente. Mas a área de abordagem razoável para pessoas pensativas e investigadoras está entre estes dois extremos.

Na verdade, a abordagem mais fiel à Bíblia é também nos atrelarmos ao nosso senso comum. É mais fiel, e mais honesto e mais provável de resultar em compreensão própria para aceitar a Bíblia pelo que ela é, em vez de reivindicar em favor dela aquilo que queremos.

O que então é a Bíblia? Uma resposta do senso comum seria que é uma coleção de livros escritos por pessoas que, como nós, eram pessoas de seu tempo, e que como nós eram capazes de compreensões errôneas e enganos além de grandes discernimentos. E eles estavam, como nós, lutando com o sentido de sua fé e com sua compreensão de Deus em meio a triunfos e derrotas, alegria e desespero, estabilidade e caos. Descobrimos que nossa própria fé é informada e inspirada por suas lutas e fidelidade. E já que uma de nossas intenções em abordar os ricos e diversos recursos desse livro é entendê-lo melhor, então desejaremos saber como esses escritos surgiram, e o que os autores originalmente queriam dizer, e como foram afetados pelas crenças e eventos de seus tempos. Para fazer isto, receberemos todas as ferramentas que estão disponíveis para nós para iluminar a Bíblia: estudos de arqueologia, história e costumes antigos, e outras religiões do Oriente Médio, assim como os vários tipos de “criticismos” bíblicos que podem nos informar sobre o passado, desenvolvimento, e sentido do próprio texto.

Isto ainda deixa a questão de autoridade bíblica sem resposta. Para os cristãos, a resposta a isto depende do papel e autoridade que atribuímos a Jesus de Nazaré. Na realidade, a questão básica não é a respeito da autoridade da Bíblia mas a respeito da autoridade de Jesus Cristo.

Então, a tarefa é desenvolver uma interpretação da centralidade de Jesus que esteja de acordo com nosso senso comum. Antes de fazermos isso, devemos primeiro considerar como Deus age ou não, e o que isso significa para os milagres e outras formas de intervenção divina. Então examinaremos as formulações tradicionais da centralidade de Jesus que estão enraizadas em um senso comum diferente. Somente então, tentaremos uma reconstrução apropriada tanto de nossa fé como de nossa razão que nos dará uma forma de explicar a centralidade de Jesus.

Neste ponto, nos voltamos à questão de um Deus que “estala os dedos” – Deus intervém no mundo em ocasiões específicas?

Cristianismo e senso comum (2) -Gibson da Costa


O meu cristianismo

Novembro 11, 2009
por Gibson da Costa
Já me perguntaram, muitas vezes, o por quê de eu ainda ser cristão. Muitas das pessoas que continuamente me fazem essa pergunta enxergam o cristianismo como aquela tradição religiosa autoritária e opressiva, que já foi responsável por tantos males no mundo, e que se opõe às descobertas que a ciência tem feito, se tornando, assim, um obstáculo ao desenvolvimento da humanidade (ou, pelo menos àquela parte da humanidade que o segue).

Como já é sabido por todos aqueles que me conhecem, eu me encontro numa posição ideológica contrária ao pensamento daqueles cristãos chamados de “fundamentalistas” (me refiro aqui ao sentido teológico dado a esse termo, ou seja, àquele movimento nascido em inícios do século XX nos Estados Unidos, como resposta às afirmações da ciência a respeito das origens da vida, e que parece ter um grande impacto no pensamento protestante brasileiro) e também) e também da maioria dos “conservadores”; mas também é sabido que ideologicamente me encontro bem distante daqueles que se opõem a toda forma de religião.

Eu vejo a vida espiritual como sendo uma necessidade humana. Alimentar o “espírito” (ou seja, o interior do ser) é tão essencial quanto alimentar o corpo. O ateísmo ou o pseudo-humanismo de alguns prega que a religião seja a causa dos problemas no mundo. Eu, como muitos outros, entretanto, creio que não seja a religião a causa desses males; a causa desses males está em nossa falta de compreensão de nossa religião, na falta de autenticidade e hospitalidade (em seu sentido mais amplo) na maneira como praticamos nossa religião.

Para citar um exemplo claro disso, sempre me sinto irritado quando alguém insinua que o islã seja uma religião que pregue o terrorismo e a violência – porque sei que isso não é verdade. Alguns dizem, então, que muita violência é praticada em nome do islã. Os “islamitas” (aqueles envolvidos com movimentos que usam o nome do islã para cometerem atos de violência) matam, sequestram, e cometem todo tipo de violência em nome da religião islâmica. Os críticos não conseguem entender que esses radicais se prendem a uma visão muito estreita de um ponto e que acabam por violar toda a sua tradição religiosa como consequência. Eles não são porta-vozes do islã.

Sempre penso em minha própria religião como sendo uma grande jornada, um eterno êxodo. Nesse sentido, já percorri as rotas mais sombrias do caminho que passam pelos campos mais perfumados, e que posteriormente me lançam em lugares solitários e sombrios, para que novamente possa alcançar mais luz e perfume. Vejo essa como sendo a perpétua jornada do viajante que busca aquele Mais, que chamo de Deus. O cristianismo é minha jornada nessa busca pelo Mais.

Mas, afinal de contas, por quê o cristianismo? Por quê alguém como eu continuaria a percorrer o caminho do cristianismo e se comprometeria em ensiná-lo a outras pessoas?

Eu seria incapaz de oferecer uma resposta única a essa pergunta. Tenho certeza que outras pessoas que seguem outros caminhos espirituais também seriam incapazes de resumir suas motivações a apenas um ponto.

Talvez possa começar dizendo que o caminho que sigo é um caminho simples. Meu cristianismo é um cristianismo não acorrentado a definições pré-estabelecidas; é um cristianismo não preso a explicações do passado que meu senso comum seja incapaz de aceitar, e que acabam virando um obstáculo à minha jornada. Creio que não sejam as explicações do sagrado que sejam eternas, mas sim nossa experiência do sagrado – e essa experiência do sagrado sempre ganhará explicações individuais diferentes, em todos os tempos e em todos os lugares.

Me vejo como um seguidor de um rabino judeu que viveu na Palestina no primeiro século de nossa era. Esse mestre espiritual era Jesus de Nazaré, chamado por seus seguidores de “o Cristo”.

Não. Se você pensa que eu perco meu tempo discutindo as explicações que os seguidores posteriores desse homem deram a respeito de sua natureza, de quem seria seu pai, como se deu seu nascimento, ou se ele sempre existiu em algum lugar do universo antes de sair do ventre de sua mãe… Não. Essas coisas não me interessam. Para mim, Jesus foi um homem normal, como eu mesmo, nascido da mesma maneira que todos os outros humanos – e é por esta mesma razão que ele consegue ser relevante em minha vida espiritual.

Se por um lado eu rejeito as explicações filosófico-religiosas que exaltaram Jesus ao nível divino e que criaram a imagem de um Cristo etéreo e não humano, por outro lado eu abraço as tradições que lhe atribuem palavras e ações que não podemos saber serem factuais ou não (levando em consideração o fato de eu não acreditar que os relatos dos Evangelhos sejam relatos históricos – no sentido que geralmente damos à palavra “história” -, mas que se tratam de testemunhos religiosos).

Àqueles que pensam ser tolice acreditar que Jesus de Nazaré tenha sido um personagem factual (ou seja, que realmente tenha existido no tempo e espaço), respondo: Não faz diferença! Mesmo se Jesus de Nazaré tivesse sido apenas uma criação dos primeiros “cristãos”, o personagem criado e exibido nos Evangelhos ensina uma mensagem poderosa e que tem tido profundo impacto na vida de incontáveis pessoas no decorrer de dois milênios. Tem tido profundo impacto em minha própria vida desde minha infância.

Um dos livros que compõem o Novo Testamento, o Evangelho de Marcos, narra um encontro entre Jesus e um líder religioso de seu tempo (Marcos 12:28-34). Esse líder pergunta-lhe qual seria o mais importante dever de um judeu. Jesus responde: “O primeiro mandamento é este… ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois”.

AMOR é a palavra que Jesus utiliza para resumir a essência de seu ensinamento. Uma entrega total de si mesmo ao amor a Deus e ao próximo, criando um laço entre o indivíduo e aqueles que o cercam a uma Realidade desconhecida aos olhos mas perceptível ao coração. Essa é a mensagem de Jesus.

Em outro episódio emblemático, Jesus é descrito como tendo ensinado o seguinte a seus seguidores (Mateus 5:3-12):

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino do céu. Felizes os aflitos, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus…”

Que diferença entre esse Jesus dos Evangelhos e aquele outro Jesus dos pregadores de rádio e televisão! É essa imagem do Jesus descrito nos Evangelhos que me faz um de seus seguidores.

Alguém poderia me perguntar se não me sinto desconfortável em ouvir as palavras de uma coleção de livros (a Bíblia) que já foi usada como desculpa para a prática dos atos mais vergonhosos, como a escravidão, a violência contra outras comunidades de fé, guerras, exploração econômica, o sexismo, etc.

Bem, eu acredito que todos nós, incluindo aqueles que dizem acreditar ser a Bíblia literalmente “a palavra de Deus”, fazemos leituras seletivas dos “textos sagrados”, retendo aquilo que pensamos ser bom e descartando aquilo que não nos convém.

Eu, como um cristão liberal, certamente faço isso. Renuncio as visões tribalistas, violentas e, para mim, sem sentido, enquanto abraço de mente e coração abertos aqueles ensinamentos que me fazem sentir mais próximo da Realidade Divina.

Abro meus ouvidos para as vozes de Miqueias, Isaías, Jesus, Tiago, e Paulo, que nos ensinam a amar, servir, alimentar, vestir, e abrigar nosso próximo. Essa é minha maneira seletiva de ouvir a Bíblia.

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)

… acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente…” (Isaías 58:6-10)

“…Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar… todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram…” (Mateus 25:31-46)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição…” (Tiago 1:27)

… no amor fraterno, sejam carinhosos uns com os outros… sejam solidários… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade. Abençoem os que perseguem vocês e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros… Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens… Vivam em paz com todos… se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:10-21)

Essas passagens da Bíblia indicam o cristianismo que considero minha jornada, o caminho que me leva ao Divino. Não é muito uma crença dogmática, mas uma fé que toma forma em um modo de vida. Outras pessoas talvez prefiram os credos, as declarações de fé, a crença na perfeição e infalibilidade de todas as palavras da Bíblia. Eu, entretanto, escolho um caminho mais simples e, para mim, mais objetivo. Escolho acreditar que exista um Mais além de tudo isso que meus olhos podem ver. Não tenho interesse algum em definir esse Mais, mas escolho chamá-lo de Deus ou Pai/Mãe. Jesus é, para mim, a porta para essa Realidade – mas reconheço que outras pessoas encontrem sua porta para esse Mais em outros lugares, e a porta que encontram pode ser tão verdadeira para elas como a minha é para mim.

Minha religião, isto é, meu cristianismo, é a compaixão, o amor, a misericórdia, a hospitalidade, a paz entre eu e os outros – absolutamente TODOS os outros.

Tenho muito a aprender, a praticar, a transformar para que possa tornar minha vida um reflexo dessa fé, uma expressão dessa religião, mas, como disse antes, minha religião é uma jornada, meu cristianismo é um contínuo êxodo.

O meu cristianismo – Gibson da Costa