A ciência torna obsoleta a crença em Deus?

Agosto 18, 2009

Kenneth Miller responde: NÃO!

“Para ser ameaçado pela ciência, Deus teria de ser um substituto para a ignorância humana. Esse é o Deus dos criacionistas, do movimento do Design Inteligente, daqueles que buscam Deus na escuridão”, afirma – Miller inclusive publicou, há alguns anos, um artigo em que pretende comprovar o erro do conceito de complexidade irredutível, uma das bases do Design Inteligente. Mas o mesmo argumento que o biólogo usa para rechaçar o criacionismo e o DI serve também para rebater os que pretendem negar Deus por meio da ciência.

O centro da tese de Miller é que devemos buscar Deus não por meio daquilo que não sabemos, ou não conseguimos explicar, mas justamente pelo que conhecemos. “Se Deus é real, precisamos encontrá-Lo em algum outro lugar – na luz brilhante do conhecimento humano, espiritual e científico. E que luz!”, exclama. Miller diz que, graças à ciência, sabemos que estamos inseridos em um universo borbulhante de potencial criativo. E faz sentido perguntar o porquê de o universo ser assim. “Para a pessoa de fé, Deus é a resposta a essa questão”, diz.

Miller dedicará boa parte do seu texto a desmontar as teses de ateus como Richard Dawkins e Daniel Dennett (o biólogo não menciona nomes, mas a quem mais ele poderia se referir ao falar de “brilhantes”?), para quem a religião e Deus não passam de muletas para gente fraca, que não suporta “as terríveis realidades reveladas pela ciência”. Uma constatação necessária, diz Miller, é que o cientista também vive de fé. “Fé no fato de que o mundo é inteligível, e que há uma lógica na realidade que a mente humana pode explorar e compreender”, descreve o biólogo. E o cientista, além de acreditar nisso, crê também que vale a pena o esforço para compreender essa lógica.

Dito isto, Miller segue para o que eu considero um dos melhores trechos do ensaio, ao explicar o grande erro dos ateus: “assumir que Deus é natural, e assim dentro da esfera do que a ciência pode pesquisar e testar. Ao fazer de Deus uma parte comum do mundo natural, e ao falhar em encontrá-Lo lá, eles concluem que Deus não existe. Mas Deus não é, nem pode ser parte da natureza; ele é a razão de a natureza existir, o motivo pelo qual as coisas são. Ele é a resposta para a existência, e não parte da existência em si.”

E Miller continua lembrando que, para quem rejeita Deus, as leis da natureza existem apenas, digamos, “porque sim”. O ateu abre mão de se perguntar os motivos da existência de um universo tão organizado, e cai na ingenuidade de achar que a vida é autoexplicativa. Quando comentei os ensaios de Victor Stenger e Michael Shermer, mostrei como certas posições ateístas acabam exigindo mais fé do que as crenças de um deísta. Até mesmo a afirmação de que Deus não existe implica em ter alguma fé (no caso, fé na inexistência de Deus). E, a julgar pelas mensagens dos ônibus londrinos, não parece uma fé tão sólida. Ou a publicidade diria apenas “There is no God”, em vez de “There’s probably no God”, concordam?

A consequência desse abrir mão é que o teísta se torna uma pessoa mais curiosa que um ateu, “porque ele busca uma explicação que é mais profunda do que aquilo que a ciência pode dar, uma explicação que inclui a ciência, mas vai além ao procurar a razão última pela qual a lógica da ciência funciona tão bem. A hipótese de Deus não vem de uma rejeição à ciência, mas de uma curiosidade penetrante que se pergunta por que a ciência é possível, e por que as leis da natureza estão aí para serem descobertas por nós”, diz Miller.

O ponto central da argumentação de Miller está exposto acima, mas ele não para por aí. Para quem aponta as diferentes visões de Deus, de acordo com as diferentes religiões, o biólogo explica que algo semelhante ocorre com a ciência, já que há teorias que se contradizem. Se a ciência, mesmo com erros, desonestidades e fraudes, não deve ser jogada fora, por que fazer isso com a religião, sujeita às mesmas limitações humanas?

A ciência torna obsoleta a crença em Deus?


Entre Globo e Record, qual a pior?

Agosto 14, 2009

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores, que satisfação estar de novo com vocês, aqui nesse ambiente desenfumaçado dos últimos dias.

Mas, como a realidade é algo que muda o tempo inteiro, enquanto bares e restaurantes se tornaram ambientes bem mais amigáveis aos seres humanos respiradores de oxigênio, o ambiente eletrônico da televisão anda tão esquentado que derreteu até o bombril da antena aqui de casa. Globo e Record se inspiraram no glorioso Senado Nacional e partiram pro chute na canela. Bom para todos nós. Quando os grandes e enormes brigam, parte do muito que eles sabem e a gente não, vem à tona.

Pra começo de conversa, devemos lembrar que essas duas redes de comunicações têm em comum apenas isso: serem duas redes de comunicação. No resto, Globo e Record são animais muito diferentes, mesmo que dotados de dentes grandes e mesmas intenções de predadores.

A Globo é como uma novela da Globo, que nos conta historinhas para boi dormir. Nenhuma novela da Globo quer mudar o mundo ou nos tornar pessoas melhores. Ela nos convida a comprar xampu, iogurte e automóvel, mais nada. Assim é a Globo.

Ela também é a expoente de uma era de grandes veículos que faziam e desfaziam o mundo em que vivíamos. A lógica de uma Globo é a de qualquer grande empresa ligada aos interesses do grande capital, e naturalmente as intenções desse povo nunca foram ajudar o mundo a ser um lugar mais legal, igualitário e modelado pela fraternidade socialista. A Globo é consequência do golpe militar, e não é exatamente surpreendente perceber que nasceu pra ser uma aliada natural e defensora de uma certa ordem. Mas ela também faz televisão de excelente qualidade, coisas do Guel Arraes, do Jorge Furtado, entre outras. Ela faz quando quer, só não quer mais porque parece que não precisa.

A Record é uma grande igreja do bispo Macedo com fachada de rede de comunicações. E a igreja do bispo Macedo não é moleza. Os tais templos dele têm cara de cartório e alma de cobrador de impostos. Entrou ali, pimba, você está achado por eles e perdido pra sempre. Eu lembro de ter escutado o bispo Macedo uma vez apenas, em um táxi de um convertido e salvo pela igreja do bispo.

Não sei se vocês já escutaram, mas é assustador o tal bispo. Assustador pelo tom da voz, de vampiro de filme do Polansky, assustador pela total falta de escrúpulos na hora de dizer a que veio e o que espera da gente. A igreja do bispo Macedo é que nem novela da Globo, só que sem a novela – débito ou crédito, estimado crente?

Uma rede de comunicações de uma igreja dessas faz o que, afinal das contas? Mesmo que ela faça jornalismo com bons profissionais, o que eles tiveram que fazer ontem e anteontem diante das câmeras foi dar a mensagem do chefe. E, diferentemente da Globo, o chefe da Record é o bispo!

Eu tenho saudades do SBT e da Tele Sena. Pelo menos ali ficava na cara que o que o Silvio Santos tinha era uma rede de televisão inteira devotada a vender Tele Sena. Assim, com as coisas claras e simplinhas, tudo, mas tudo mesmo fica mais fácil.

A Globo queria a nossa mente e o nosso corpo, hoje se satisfaz com uma parte razoável do nosso bolso, e ainda faz o Criança Esperança pra mostrar que é legal. A Globo é como a igreja Católica, que faz o que faz, mas com um jeito pra lá de respeitável.

A Record quer o que? Ela quer enfiar o exu caveira na gente e cobrar pra tirar, em suaves prestações mensais, pelos próximos 30 anos.

A Globo é conseqüência e representante de um modelo de sociedade que parece que se esgota. A Record é parte de um império tão sibilino quanto raso, se espalha por todo canto, mas, espero, não faz mais do que manchar o carpete.

A diferença, e talvez seja essa a causa da briga das duas, é que a Globo é uma empresa. Se ela precisa de dinheiro, tem que ir ali adiante, trabalhar, vender, faturar, pagar seus impostos, gerar lucro e então poder tocar no din din. A Record, não. Escasseou o caixa, aluga-se o Maracanã, faz-se uma celebração para Jesus Cristinho na versão do bispo, junta-se duzentos mil coitados, passa-se o saco, todo mundo contribui ou vai ver só, leva-se os sacos de dinheiro pros templos, pronto. Cash flow pra ninguém botar defeito, fora todo mundo com alguma decência no coração.

Talvez seja essa a causa da briga, como foi a causa da queda do Collor. Collor caiu, como talvez vocês saibam, porque uma vez no poder, com a tolerância do andar hiper de cima, começou a acumular dinheiro com uma voracidade alagoense e até então desconhecida. O andar de cima tremeu, Collor caiu.

Talvez o sistema esteja informando ao bispo que melhor ele moderar a taxa de acumulação de capital, ou o céu cai em cima dele. Talvez o bispo já se sinta poderoso o bastante para peitar a banca.

Eu apostaria a minha fortuna pessoal, estimada em dez reais e quarenta e dois centavos, em que é exatamente isso que está acontecendo. E o que está em jogo é limitar o poder do bispo, e por isso, e por motivos de alinhamento estratégico semelhantes aos que fizeram o Lula abraçar o Sarney, nessa, e nessa apenas e por agora, estou com a Globo. Já o estimado leitor, faça a sua escolha. Se o bispo ganha, e ele pode ganhar, logo, logo, não tem mais escolha.

Fonte: Entre a Globo e a Record, qual a pior? – Marcelo Carneiro da Cunha


Assédio espiritual

Julho 4, 2009

Entrevista concedida por Marília de Camargo César a Revista Epoca de 29/06/09, Edição nº 580.

ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

ÉPOCA – O que você considera abuso religioso?
Marília – Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele diz: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa”. Então, essa mulher pede um conselho e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, que tem melhor reputação.

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais (não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista), que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador. Mas o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes de sua vida, você precisa dele. Se você recebe uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar com aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa de sua vida. E ele está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

ÉPOCA – Você afirma que não é só culpa do pastor.
Marília – Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho. A grande crítica de Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo suas decisões de adulto, que são difíceis, para a figura do pai ou da mãe, substituí­dos pelo pastor e pela pastora. O pastor virou um oráculo. Assim é mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para culpar pelas decisões erradas.

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do diabo. Há pastores que afirmam que a terapia fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem de ser forte. E dizem isso apoiados em textos bíblicos. Afirmam que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que, com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele.

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.

“O pastor está gostando de mandar na vida dos outros
e receber presentes. Isso abre espaço para os abusos”

ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – Os abusos não acontecem da noite para o dia. No primeiro momento, o fiel idealiza a figura do líder como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida da pessoa. O fiel, por sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher ou porque arrumou um emprego. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para legitimar essas práticas.

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica…
Marília – É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. O pastor evangélico virou um papa, a figura mais criticada pelos protestantes, porque não erra. Não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. Mas é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma, e eu concordo com ela.

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – Eu não acho. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Uma boa dica é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que se discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado.

Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhas

O QUE FEZ
Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero

O QUE PUBLICOU
Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão)


Exploração sexual infantil e fome – problemas mundiais

Junho 3, 2009

Unicef denuncia exploração sexual infantil no mundo e fome de milhões de pessoas na Ásia

[...]“No total, 150 milhões de meninas e 73 milhões de meninos menores de 18 anos são vítimas de exploração sexual no mundo, segundo informe publicado nesta terça-feira pela seção alemã do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). O fundo também divulgou na índia, um relatório sobre o crescente numero de pessoas que passam fome no sul da Ásia.[..]

[...]Em outro relatório, divulgado em Nova Déli, na Índia, o Unicef informou que o número de pessoas que passam fome no sul da Ásia aumentou em 100 milhões nos últimos dois anos, um quadro agravado pela alta dos preços dos alimentos dos combustíveis e pelo desaquecimento econômico global.

Mais de 400 milhões de pessoas estão agora cronicamente famintas na região, de acordo com o Unicef, o mais alto nível em 40 anos. O relatório informa que o consumo de calorias permaneceu estagnado ou diminuiu em muitos países apesar do crescimento da renda per capita”.[...]

Sem comentários…


Suíça redime última “bruxa” morta na fogueira

Maio 11, 2009

VIRGÍNIA HEBRERO
da Efe, Genebra

A última mulher morta em uma fogueira na Suíça após ter sido acusada de “bruxaria” foi reabilitada moralmente neste sábado pelo Grande Conselho (Parlamento cantonal) de Freiburg, que limpou a memória da condenada por meio de uma declaração solene.

Catherine Repond, conhecida como Catillon, foi executada em 1731 após ser condenada a morte por bruxaria.

Segundo vários historiadores, a vítima confessou o “crime” sob tortura. O assassinato foi tramado pelo poder oligárquico da época para calar uma mulher que sabia demais sobre personalidades da época, como o fato de que alguns deles promoviam falsificação de moedas.

A devolução da honra a Catillon foi promovida por dois deputados cantonais, Jean-Pierre Dorand, historiador, e Daniel de la Roche.

Por 69 votos a favor, 21 contra e 8 abstenções, os deputados cantonais adotaram a resolução, não vinculativa do ponto de vista legal, com a oposição dos partidos políticos de direita UDC e PLR, os quais consideraram que “é melhor se ocupar dos problemas de nosso tempo”.

Esta reabilitação moral abrange não só à última suposta “bruxa” e a outras acusadas pelo mesmo crime, mas também a todas as vítimas do Antigo Regime, como homossexuais, minorias religiosas, presos políticos e todos aqueles que confessaram crimes sob tortura.

A historiadora Josiane Ferrari-Clément, autora de um livro sobre Catillon, defende a tese que de que as personalidades locais queriam se desfazer de uma pessoa incômoda, que sabia tudo sobre o tráfico de moedas falsas.

Nascida em 1663, Catillon morava no povoado de Villarvolard, onde levava uma vida boêmia e vivia principalmente de esmolas. Relacionada com ambientes de má reputação –nos quais aparentemente entrou em contato com o grupo que falsificava moedas–, nada na vida de Catillon podia justificar, segundo a historiadora, que as testemunhas em seu julgamento por “bruxaria” a acusassem de todo tipo de mal, como azedar o leite, estragar queijos e fazer o gado adoecer.

O beato Nicolas de Montenach, juiz de Corbieres, a trancou em um calabouço em maio de 1731 e a acusou de ter se transformado em raposa. Seu argumento é de que tinha saído para caçar alguns meses antes e havia ferido uma raposa na pata e Catillon tinha um de seus pés em péssimo estado.

Apesar de a mulher explicar que tinha sido vítima de um tiro disparado por uma família a qual pediu abrigo em uma noite, o juiz não mudou de ideia: o ferimento se devia ao disparo contra a raposa.

Submetida a torturas, Catherine Repond confessou tudo o que seus carrascos queriam ouvir: que assistia a ritos de magia negra, que dançava com demônios, que tinha se entregado ao diabo em várias ocasiões, até que foi estrangulada e depois queimada em setembro de 1731, com 68 anos de idade.

Os arquivos citados pela historiadora narram que, durante os interrogatórios, Catillon sempre expôs fatos que não eram levados em consideração. Ela inclusive chegou a acusar um padre de tê-la estuprado.

Durante o processo, acusou um homem chamado Jacques Bouquet, um curandeiro que era o pai de dois filhos de sua irmã, de ter construído uma instalação para fundir o metal com o qual fazia moedas falsas.

A historiadora assegura que os juízes faziam de conta que não ouviam tudo isso porque tinham medo. Eles sabiam que Catillon tinha relações na alta sociedade de Freiburg.

Alguns creem inclusive que havia personalidades envolvidas nessa rede de falsificadores, que chegaria até a França, motivo pelo qual tudo era comprometedor.

Kathrin Utz Tremp, colaboradora científica dos Arquivos do Estado suíço, estudou as atas do processo de Catherine Repond, e afirma que durante seu processo, ela foi interrogada pelo menos 13 vezes, sendo torturada desde a terceira.

Catillon chegou a ser pendurada por uma corda e depois ter os pés amarrados a pesos de entre 25 e 50 quilos, o que era um método de tortura habitual na época.

“Nessas condições, eu também confessaria que sou uma bruxa, embora nem sequer acredite em bruxaria”, afirma a especialista.

Fonte: Suíça redime última “bruxa” morta na fogueira – Folha Online

Quantas pessoas foram torturadas e mortas por “bruxaria”? Quando na verdade o que estava por trás eram motivos políticos, econômicos, interesses financeiros. E com esse tipo de tortura, quem não confessaria, mesmo sem ter culpa? E pensar que igrejas cristãs também participaram desse absurdo.