Apocalipse: um guia para os jovens

julho 11, 2011

por Michael Spencer

Os jovens querem saber sobre o Apocalipse.

Uma das melhores coisas sobre trabalhar com jovens na igreja ou em uma escola cristã, como fiz por 28 anos, é responder perguntas sobre a bíblia. Há, entretanto, uma coisa que aprendi sobre as perguntas dos jovens a respeito da bíblia. A maioria delas são sobre o livro mais difícil, o livro do apocalipse. E essas questões são muito difíceis de responder.

Os mais jovens ficam curiosos a respeito do livro do Apocalipse por muitas razões. Se o leram, estão certamente curiosos a respeito do que foi lido. É um livro cheio de coisas misteriosas que não estão explicadas. O Apocalipse é também assunto de livros e filmes, como aquela série popular “Deixados para trás” e os filmes “The Omega Code”. Pregadores na TV e nas igrejas têm muito a dizer sobre o livro do Apocalipse, e muito do que dizem a respeito dos significados deste livro, parece certo. Naturalmente, os mais jovens ficam curiosos a respeito deste livro, quando ouvem falar que é um livro de previsões do futuro.

O livro do Apocalipse tem uma reputação diferente de qualquer outro livro da bíblia. É raro que eu tenha algum aluno que faça perguntas sobre o livro de Romanos ou o de Atos. Estes livros são considerados chatos, e se um estudante os lê a história e as ideias parecem ser todas de “muito tempo atrás”.  O Apocalipse, por outro lado, parece ser a respeito de um futuro imediato. Parece estar falando sobre “coisas que em breve acontecerão”. Qualquer pessoa normal fica curiosa a respeito do futuro, e o livro do Apocalipse parece atiçar a coceira da curiosidade.

O que nós sabemos sobre o livro do Apocalipse?

Talvez, a parte mais frustrante de tais questões é que, na maioria das vezes, é praticamente impossível explicar tudo que uma pessoa precisa saber sobre o livro do Apocalipse, com umas poucas frases. É um livro muito difícil! De fato, quando o Novo Testamento teve seus livros colocados todos juntos, muitos líderes cristãos sentiam que o livro não deveria estar na bíblia, porque seria muito confuso. Continua um livro confuso, mas certamente permaneceu na bíblia. Simplesmente temos que pagar o preço e estudar mais.

Há centenas de livros escritos sobre o livro do Apocalipse. A maior parte deles estão além da capacidade do jovem estudante mediano, de ler e entender. Parte do que estou escrevendo neste ensaio, é para encorajar esses jovens a querer aprender mais, e de forma perseverante, procurar e ler os livros mais fáceis, que possam ajudá-los a entender o livro do Apocalipse.

A dificuldade em entender o livro do Apocalipse não vem do que sabemos a respeito deste livro. A maioria dos estudiosos concorda na maioria das coisas básicas a respeito dele.

Foi escrito no final do primeiro século depois de Cristo, talvez em torno de 95 dC. O autor, João, e muitos cristãos acreditam que era o apóstolo João, um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus e o autor do evangelho segundo João. Há outros líderes cristãos acreditam que foi escrito por um João do primeiro século, mas o escritor do livro não nos conta muita coisa a respeito de si mesmo. Na verdade, ele deixa claro que é mais um “secretário” do que qualquer outra coisa, escrevendo o que viu e ouviu.

O livro foi escrito para sete igrejas que existiam no que era chamado de Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia. Estas igrejas eram todas diferentes umas das outras em tamanho, mas todas elas precisavam de encorajamento. Os capítulos dois e três do Apocalipse possuem mensagens específicas de Jesus para cada uma destas sete igrejas, e estes capítulos estão entre os mais fáceis de ler e entender.

Destas mensagens, sabemos que as igrejas que leram este livro pela primeira vez, estavam passando por tempos difíceis. Algumas estavam sendo perseguidas e tendo seus membros executados. Havia falsos mestres em outras igrejas. Algumas delas eram ricas e se tornaram frias em seu compromisso com Jesus. Outras eram igrejas pobres e sofredoras, e eram usualmente aconselhadas a permanecer fieis no sofrimento.

O livro do Apocalipse foi escrito durante a época do Império Romano. Os romanos dominavam a maior parte do mundo conhecido no primeiro século, e os imperadores romanos eram muito poderosos. Na verdade, muitos destes imperadores exigiam ser adorados como se fossem deuses. Em muitas cidades que queriam mostrar que eram grandes “fãs” do imperador, templos eram construídos e todo “bom cidadão” romano tinha que fazer uma oferta de incenso e afirmar “César é o Senhor” ou “O imperador é Deus”.

Esta “profissão de fidelidade” ao imperador não era problema para a maior parte das pessoas, mas para os primeiros cristãos, era uma escolha difícil.  Eles acreditavam que Jesus era Senhor e Deus, e seria errado ir a um templo e “adorar” o imperador romano.Muitos cristãos se recusavam a fazer isso, e como resultado, eram vítimas de perseguições de vários tipos. Na época em que o livro do Apocalipse foi escrito, o imperador romano era Domiciano, e ele era muito rigoroso a respeito da adoração nos seus templos. As cidades construíam templos para ele, tinham estátuas enormes para o povo adorar, e eram até mesmo empregados “pastores” para impor a adoração de Domiciano.

Esse tipo de situação é muito difícil para um cristão americano entender. Nós nunca vivemos sob o poder de um imperador ou império. Sempre governamos a nós mesmos e temos liberdade religiosa. Os cristãos algumas vezes são perseguidos ou proibidos de fazer algumas coisas, mas poucos cristãos americanos sabem o que é ser aprisionado ou morto por serem cristãos.

Mas imagine: Como era ser cristão na China comunista? Na ex-União Soviética? Em lugares como o Sudão ou em países islâmicos hostis, como a Arábia Saudita? Nesses lugares, era (e é) comum para milhares de cristãos sofrer e morrer porque não “adoram” os “deuses” destas nações, e sim, Jesus.

Estes cristão que estão sofrendo, provavelmente entendem o livro de Apocalipse muito melhor do que nós, porque eles entendem o que é sofrer, e ter que viver com a escolha de obedecer ou morrer.

O livro do Apocalipse é uma mensagem especial para os cristãos do primeiro século. É uma mensagem que afirma “Jesus é o Senhor!” O imperador Domiciano não é o Senhor! Deus está no controle de tudo que está acontecendo. O futuro será de acordo com os planos de Deus, e preencherá os propósitos dEle. Não importa quão ruins as coisas fiquem ao longo do caminho, os cristãos devem permanecer fieis, estar dispostos a sofrer, e esperar que Deus leve todas as coisas a termo no Seu Reino.

Entender que o livro do Apocalipse é uma mensagem para os cristãos do primeiro século, não significa que não serve para nós hoje. O Apocalipse é uma mensagem para todos os cristãos em todos os tempos. Sua mensagem e sua história pertencem a todas as gerações e a todos os cristãos.

Por que é tão difícil de entender?

Tudo isso não é realmente muito difícil de entender. Qualquer estudante mediano pode facilmente aprender essa informação e passar num teste!  O que não é fácil a respeito do livro do Apocalipse, é a forma pela qual é escrito, especialmente do capítulo três em diante. O livro se torna muito estranho. Vamos falar a respeito da forma com a qual o livro foi escrito, e porque foi escrito desse jeito.

O livro do Apocalipse usa muitos símbolos e imagens para contar sua história. É como assistir um filme muito, muito estranho. Há monstros, anjos, eventos estranhos, personagens misteriosos, muitos números e enigmas. Está tudo realmente acontecendo desse jeito?

Por exemplo, no capítulo 12, há realmente um dragão querendo devorar uma criança? Ele tem de verdade sete cabeças? O bebê é realmente levado para o céu? Será que a mulher teve mesmo que se esconder no deserto por mais de mil dias? O dragão realmente vomitou um rio, e a terra realmente se abriu e o engoliu?

Esta é a forma típica pela qual o Apocalipse fala conosco, e se você diz a si mesmo “Isso não pode ser real. Isso parece ser algum tipo de simbologia ou código”, então você acertou.  Isso não é como um videotape a respeito das notícias do dia. É muito mais parecido com uma pintura, cheia de personagens e cores e números e eventos que possuem significados ocultos, que fazem sentido para algumas pessoas, mas não para outras.

O apocalipse é escrito em algum tipo de “código”, como aqueles das charges políticas. Se você está lendo uma charge política, e vê um elefante pisando um jumento na estrada, você entende que não é isso que está “realmente” acontecendo. O elefante representa o partido republicano, e o jumento, os democratas. Se vemos “Tio Sam”, sabemos que se refere aos Estados Unidos, e um urso, se refere à Rússia.

No Apocalipse, o dragão, a besta, o falso profeta, o cordeiro, a grande prostituta e outros personagens, são fáceis de identificar se você sabe o que eles representam.

Os números funcionam da mesma maneira. Qualquer fã da NASCAR conhece o número “3″. Todo americano sabe o que representa “9-11″. Todo fã da NBA sabe que “23″ é o número do Michael Jordan. Da mesma forma, o Apocalipse usa um código numérico para se comunicar com o leitor. O livro do Apocalipse usa também um código de cores com o mesmo objetivo.

Isso é uma resposta?

Seria perfeito se o Apocalipse nos fornecesse as chaves para todos esses códigos! Isso teria deixado as coisas bem mais fáceis. Mas não faz isso, ou pelo menos, não faz do jeito que queremos, com todos os códigos explicados no final de uma forma fácil de entender. Não, os códigos do Apocalipse têm que ser entendidos pelo entendimento de duas coisas.

Primeiro, o Apocalipse tem mais de 400 referências ao Antigo Testamento. Quanto melhor você conhecer o Antigo Testamento, melhor vai entender o Apocalipse. Por exemplo, o livro do Apocalipse fala frequentemente sobre “Babilônia” como um símbolo. Se você conhece o Antigo Testamento, sabe que Babilônia foi um império da antiguidade e um inimigo do povo de Deus, uma cidade onde os israelitas ficaram em cativeiro por 70 anos, e simboliza o poder do mal no mundo.

Outro exemplo é o templo. O Apocalipse usa com frequência a figura do templo como um símbolo. No Antigo Testamento, havia dois templos, e há muita informação sobre o que acontecia nos templos. Sacrifícios, sacerdotes, música, altares, incenso – tudo isso está descrito em diversos lugares diferentes no Antigo Testamento. Um dos livros do Antigo Testamento, Ezequiel, tem uma descrição detalhada de como seria um templo perfeito, do futuro. Então, quando o livro do Apocalipse fala sobre templo, temos muitas ideias sobre o que isso significa.

Num determinado momento, o livro do Apocalipse se refere a um certo falso mestre como “Jezebel”. Jezebel era uma rainha malvada que promoveu a adoração de falsos deuses e mandou matar profetas de Deus e outras pessoas. Sem citar nomes, o livro do Apocalipse diz que alguém se parece com Jezebel. É desta forma que o livro do Apocalipse usa referências do Antigo Testamento.

Usar referências do Antigo Testamento era uma forma de se comunicar apenas com as pessoas que conheciam a bíblia, mas esconder a mensagem de pessoas que não conheciam a bíblia tão bem… como os romanos, por exemplo.

A segunda maneira de entender os códigos do livro do Apocalipse é estudar outros livros parecidos, escritos na antiguidade, em situações semelhantes e usando linguagem semelhante. O problema aqui é que não há nada que se pareça exatamente com o livro do Apocalipse na Bíblia. Há um livro que se aproxima o suficiente e pode ser útil, e este, é o livro de Daniel.

Este estudo não vai falar sobre o livro de Daniel, mas posso contar para você como este livro é semelhante ao do Apocalipse. Ele também foi escrito quando o povo de Deus estava sofrendo. Ele também encoraja as pessoas a serem fieis e corajosas, como o próprio Daniel foi. Também usa muitas imagens e símbolos, em sonhos e visões, para comunicar a mensagem de que não importa o que aconteça na história, Deus está no controle. Ele usa muitos dos mesmos códigos, e algumas das mesmas criaturas.

Comparar Daniel com o Apocalipse pode ajudar muito. O que é útil também, é ler livros antigos que NÃO estão na Bíblia, mas usam “códigos” similares para comunicar suas mensagens. Aqui, é o ponto onde um estudante da bíblia deve confiar nos estudiosos que escreveram livros para nós. A maioria de nós não dispõe de tempo ou meios para aprender as línguas originais e para ir a bibliotecas e estudar. Mas podemos ler o que esses estudiosos têm descoberto e transmitido para nós.

Quando usamos estes dois códigos, o que encontramos? Encontramos que a maior parte do que está no livro do Apocalipse pode ser entendido com bem pouco trabalho. Não conheço ninguém que afirme que entende tudo o que diz no livro do Apocalipse, e muitos estudiosos discordam entre si. Mas uma parte substancial dos estudiosos que pesquisam sobre o livro do Apocalipse, concorda a respeito do que o livro do Apocalipse, basicamente, diz.

(De qualquer jeito, o código especial usado no livro do Apocalipse e em Daniel, é chamado de literatura “apocalíptica”. A palavra “apocalíptica é a expressão grega para “descoberto” ou “revelado” e é atualmente, a primeira palavra que aparece na primeira frase do livro do Apocalipse.

Por que tanta discordância?

Uma das coisas mais frustrantes a respeito da tentativa de falar sobre o livro do Apocalipse, é que não há outro livro que tenha gerado tantas opiniões e ideias diferentes, por pessoas diferentes – todas alegando estarem certas. Isso pode ser muito desencorajador para um jovem que quer entender o livro do Apocalipse.

Por exemplo, os populares livros “Deixados para trás”, venderam mais de 40 milhões de cópias. Eles trazem um ponto de vista a respeito da mensagem do livro do Apocalipse. Eu discordo desse ponto de vista em quase tudo, então realmente não gosto desses livros, e geralmente não recomendo aos meus alunos, que os leiam. Meus pontos de vista a respeito do livro do Apocalipse são mais parecidos com os pregadores de muito tempo atrás. Quem está certo?

Um estudante do livro do Apocalipse é levado a aceitar o fato de que precisa aprender várias formas diferentes de entender qualquer parte do livro, dependendo do que está lendo ou de quem está ensinando. Por exemplo, no capítulo sete, há 144 mil pessoas citadas. Eu penso que seja um símbolo. Outros professores pensam que é literal, um grupo de 144 mil pessoas, nem mais, nem menos. Sou influenciado pelo “código numérico” do mundo antigo, onde 12 era o número de tribos de Israel e qualquer variação que gire em torno desse número 12 faz total sentido,  Penso que é um símbolo para representar “todo o povo de Deus na Terra”. Outros professores dizem que são 144 mil judeus das 12 tribos de Israel.

Essas divergências são irritantes, eu sei! Mas são parte do que significa ser um estudante do livro de Apocalipse. A boa nova é que há apenas quatro ou cinco formas diferentes de olhar para o livro, e na maioria dos casos, apenas duas ou três opções para o significado de alguma coisa; então, se você começa a se tornar familiar com essas “versões”, o jogo não parece mais tão confuso.

Quais são as “Perguntas Frequentes” sobre o livro do Apocalipse?

1. O livro do Apocalipse é sobre o futuro?

Provavelmente o primeiro erro que a maioria das pessoas comete a respeito do Apocalipse é assumir que é todo sobre o futuro. A leitura do livro do Apocalipse mostra rapidamente que se trata de passado, presente e futuro. Certamente, muito do que está ali se refere ao fim dos tempos e eventos do final da história, mas não cometa o erro de pensar que tudo é a respeito apenas do futuro.

2. O livro do Apocalipse nos conta em detalhe sobre os eventos futuros?

Esta é uma daquelas discordâncias a respeito das quais avisei você! Muitas pessoas olham para  o Apocalipse como se fosse um tipo de “mapa” que prevê o futuro em detalhes. Se você pode ler o mapa, eles dizem, pode saber o que vai acontecer. Outros – como eu – acreditam que o Apocalipse apenas mostra-nos o futuro de uma forma muito, muito geral, que pode ser aplicada a qualquer cristão, em qualquer época, em qualquer lugar. Devo alertar você de que cada geração anterior de cristãos, tendeu a pensar que entendia os eventos no Apocalipse claramente, e todos estavam errados em muito do que disseram a respeito.

Portanto, seja humilde e ensinável. O livro do Apocalipse é como uma grande montanha. Escalar essa montanha, demanda tipos diferentes de conhecimento, para escapar dos perigos e armadilhas, mas uma vez que tenhamos trabalhado para pegar bons pontos de vista, o trabalho vale a pena.

3. Quem ou o quê é “a besta”?

Há dois tipos de “bestas” no Apocalipse. Uma é do mar, a outra, da terra. Estas bestas provavelmente representam o imperador romano e o “culto” de adoração ao imperador, especialmente os sacerdotes que forçavam os cristãos a adorar o imperador, ou morrer.

Alguns estudiosos do Apocalipse acreditam que essas bestas representam um futuro “anti-Cristo” que governará o mundo e será instrumento de Satanás no fim dos tempos. Outros, como eu, acreditam que qualquer um que alegue ser “deus” e demande que o adorem ou morram, é um “anti-Cristo”. Homens maus como Hitler, Stalin ou Mao, são os que me vem a mente como exemplos.

Uma das maiores perdas de tempo para os cristãos é tentar identificar a “besta” em alguém que esteja presente nos noticiários. Por dois mil anos, os cristãos têm adivinhado errado, alegando que o Papa, Hitler, Ronald Reagan e outros eram o anti-Cristo. Se haverá um anti-Cristo no fim dos tempos, ele será óbvio em suas ações, e Cristo o destruirá.

A mensagem do Apocalipse é a de que não temos nada a temer a respeito de ninguém, desde que confiemos em Jesus como Senhor e o obedeçamos.

4. A besta é um computador, a Internet, o código de barras, microchips ou cartões de crédito?

Outra forma bastante idiota de ler o Apocalipse é tentar e encontrar alguma coisa no livro que se encaixe com nossas tecnologias atuais, tais como computadores ou microchips. Qualquer tipo de tecnologia pode ser usado para o bem ou para o mal. Poderia dizer a você, que abandone qualquer interpretação de alguma coisa no livro do Apocalipse, que não faça sentido para o mundo do primeiro século. Computadores e códigos de barras podem fazer sentido para nós, mas não significam nada para os cristãos do primeiro século, e o livro do Apocalipse é muito mais deles do que nosso.

Hal Lindsey, uma vez interpretou os “gafanhotos monstros” que aparecem em Apocalipse 9, como helicópteros. Eu interpreto esses “monstros”, como demônios. Qual interpretação parece fazer mais sentido para todos os cristãos, e qual faz mais sentido apenas para as pessoas modernas? Penso que isso é importante, e nos impedirá de correr atrás de “coelhos estranhos” no livro do Apocalipse.

5. O Papa é o anti-Cristo?

Houve tempos, como na Reforma do século XVI na Europa, em que a igreja católica perseguiu e matou muitos cristãos não-católicos. Isso é mau e vergonhoso,  e a igreja católica tem admitido seus erros em usar de violência contra aqueles que discordavam dela.  Naquela época, entretanto, poderia parecer lógico dizer que o Papa era o anti-Cristo do Apocalipse. Hoje, o Papa, enquanto representante de outro ramo do cristianismo, é claramente um amigo dos cristãos de todo o mundo, e não é um candidato a “anti-Cristo”.

6. O que é a “marca da besta”?

Esta é uma das mais difíceis e obscuras partes do livro do Apocalipse. Ocorre sete vezes no livro, do capítulo 13 até o final. Cristãos modernos tendem a ver isso como algum tipo de sistema de identificação do futuro, que os cristãos deverão evitar, como aplicar um número na testa de alguém, ou um microchip no seu corpo. Ao exigir que os cristãos sejam identificados, isso permitiria que fossem controlados.

A “marca” atual sobre a qual se fala, é provavelmente uma tatuagem que era aplicada em qualquer um que participava da adoração do imperador romano. Esta tatuagem, marcaria você como um cidadão leal de Roma, e permitiria que tivesse trabalho ou negócios. Sem a tatuagem ou marca, sua lealdade ao imperador podia ser questionada. Se recusar a receber a marca, provavelmente significava que você era um cristão.

Obviamente, os cristãos ficariam preocupados com qualquer coisa que pudesse ser usada para marcá-los e facilitar a perseguição. Mas cartões de crédito, microchips com informações profissionais e de saúde, e a internet, não são coisas que os cristãos devem evitar por medo “da marca”.

De novo, podemos perguntar como os primeiros leitores deste livro viam essa “marca”, e então aplicar isso a todos os grupos de leitores.

7. O que é o “ferimento na cabeça” da besta?

De novo, uma parte muito, muito difícil do livro. Muitos estudiosos estão prontos para dizer “eu não sei” e eu estou com eles. É um quebra-cabeças.

A melhor sugestão se parece com essa. Os cristãos foram perseguidos até a morte, primeiro, pelo imperador Nero, em torno de 60 dC. Nero foi morto por um ferimento na cabeça. Quando o imperador Domiciano começou a perseguir os cristãos 30 anos depois, alguns cristãos se sentiram como se Nero tivesse voltado dos mortos. Pode estar se referindo a isso, mas, na realidade, ninguém sabe.

Seja muito cuidadoso e humilde com esta parte do livro de Apocalipse. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo!

8. Onde está o arrebatamento no livro do Apocalipse?

Muitos cristãos acreditam que Cristo vai retornar duas vezes. Uma vez em segredo, para pegar a igreja e tirá-la do mundo, antes de severa perseguição (o arrebatamento), e na segunda vez, para julgar todos no final dos tempos. Estou convencido de que a bíblia ensina que Jesus voltará apenas uma vez, e que os cristãos devem estar preparados para a perseguição, e não esperar um arrebatamento para fora do mundo, antes dos tempos realmente difíceis, começarem. Então, eu não encontro nenhum arrebatamento no livro do Apocalipse.

Aqueles que acreditam no arrebatamento, geralmente dizem que acontece no capítulo 4, quando João é levado ao céu. Há sérios problemas com este ponto de vista, mas este estudo não é sobre o arrebatamento!

9. Quanto tempo vai durar a tribulação?

Este é, novamente, um daqueles termos que é usado de diferentes formas por aqueles que leem e estudam o livro do Apocalipse. Muitos cristãos acreditam que a “tribulação”, é um período de sete anos quando o anti-Cristo vai governar a Terra, depois de os cristão terem sido arrebatados. Outros, como eu, acreditam que “tribulação” é uma palavra usada 40 vezes no Novo Testamento, e ela sempre se refere a algum tipo de sofrimento ou perseguição por ser cristão, e não apenas sete anos.

Acredito que o livro do Apocalipse deixa claro em 7:14 que toda a história é uma “grande tribulação” e que todos os cristãos podem viver nela, dependendo do tempo e lugar onde vivem. Muitos cristãos estão sendo perseguidos hoje ao redor do mundo. Outros cristãos acreditam, que é um período definido de tempo, de sete anos. Parece tolice para mim, dizer que os milhões de cristãos que sofrem no mundo hoje, não estão em “tribulação”, e que isso só virá em algum tempo futuro. Parece mais bizarro ainda, dizer que os cristãos americanos devem orar para escapar da sua própria luxúria, em vez de orar por fidelidade no sofrimento, se é isso que o futuro realmente traz.

10. O livro do Apocalipse não é assustador?

Tive muitos alunos que me falaram que o livro do Apocalipse deixava-os com medo. Alguns, me falaram que a tarefa de leitura do livro, o fez ter pesadelos!  Isso é muito ruim, porque o livro do Apocalipse era para ser encorajador e confortador. Ele termina com uma visão maravilhosa do céu, que tem dado conforto a milhões de cristãos ao longo dos anos.

Mas muitas das cenas no Apocalipse são assustadoras, e para pessoas jovens que já assistiram muitos filmes de terror, algumas destas cenas podem ser perturbadoras.  É especialmente assustador para crianças, ouvir que o mundo vai acabar, as pessoas más ficarão para trás, e coisas terríveis acontecerão aos cristãos. Algumas partes do Apocalipse, lidas sem todo o contexto do livro, podem dar a entender que Satanás e seus demônios estão fazendo tudo acontecer.

Lembre-se, que o livro do Apocalipse é sobre Deus acabando com todo mal, todo sofrimento, e trazendo todo o Seu povo para um lugar maravilhoso, num novo céu e uma nova terra.

A young person’s guide to the book of Revelation – Michael Spencer – Internet Monk

A imagem que ilustra a postagem, é uma gravura chamada “Os quatro cavaleiros do apocalipse“, de Albrecht Dürer, feita em 1498.


Jefté era um bom camarada?

junho 27, 2011

No livro de Juízes 11:29-40, temos a história do voto de Jefté:

Então o Espírito do SENHOR veio sobre Jefté, e atravessou ele por Gileade e Manassés, passando por Mizpá de Gileade, e de Mizpá de Gileade passou até aos filhos de Amom. E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. Assim Jefté passou aos filhos de Amom, a combater contra eles; e o SENHOR os deu na sua mão. E os feriu com grande mortandade, desde Aroer até chegar a Minite, vinte cidades, e até Abel-Queramim; assim foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel. Vindo, pois, Jefté a Mizpá, à sua casa, eis que a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças; e era ela a única filha; não tinha ele outro filho nem filha. E aconteceu que, quando a viu, rasgou as suas vestes, e disse: Ah! filha minha, muito me abateste, e estás entre os que me turbam! Porque eu abri a minha boca ao SENHOR, e não tornarei atrás. E ela lhe disse: Meu pai, tu deste a palavra ao SENHOR, faze de mim conforme o que prometeste; pois o SENHOR te vingou dos teus inimigos, os filhos de Amom. Disse mais a seu pai: Conceda-me isto: Deixa-me por dois meses que vá, e desça pelos montes, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras. E disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então foi ela com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos montes. E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu homem; e daí veio o costume de Israel, que as filhas de Israel iam de ano em ano lamentar, por quatro dias, a filha de Jefté, o gileadita.

Não vou falar o que penso a respeito deste sujeito chamado Jefté, ok? Nem a respeito dessa ideia que ele fazia de Deus. E sobre ser tão orgulhoso, a ponto de não voltar atrás nesse voto absurdo, quando viu que ia ter que matar a própria filha. Foi bocudo, e em vez de se arrepender de ter colocado a vida dos outros em jogo, como se fossem objetos de aposta ou barganha com Deus, entregou a própria e única filha em holocausto. Tem quem ache bonita a história, dele ter realmente mantido esse voto estúpido que fez, e entregue em holocausto o primeiro que saiu de sua casa, mesmo tendo sido sua filha única. Eu considero quem, lendo essa história hoje, século XXI, acha a história bonita e Jefté, um exemplo de homem cumpridor da sua palavra, um doente.

Eu já fico horrorizada imaginando como eram aqueles sacrifícios de animais feitos em nome de Deus, imagina uma pessoa, uma criança, sendo degolada, sangrada e esquartejada ritualmente, e depois tendo os pedaços do corpo, queimados num altar?

Tem pessoas que alegam que “holocausto” nesse caso, quer dizer outra coisa que não seja mesmo “holocausto”, ou seja “sacrifício queimado”. Querem fazer Jefté parecer mais bonito do que é, dourar a pílula, enquanto a bíblia não faz isso. Jefté era filho bastardo, de uma prostituta, e por isso foi segregado pelos seus irmãos. Foi habitar no meio dos pagãos, onde sacrificar seres humanos, era aceitável e normal, e deve ter aprendido com eles. Foi chamado de volta, porque os que antes o expulsaram, estavam em apuros. Antes de barganhar com Deus, já havia barganhado com as pessoas que o foram buscar de volta, exigindo ser feito chefe deles, caso vencesse. No mesmo capítulo, é possível perceber o sentido tribal pelo qual os hebreus entendiam Deus, já que o próprio Jefté afirma que, assim como Deus deu a Israel as terras que os israelitas conquistaram, Camos, deus dos amonitas, deu aos amonitas suas próprias terras. As disputas de terra entre eles na época, eram vistas também como disputas entre seus deuses. Perder na guerra, sinal de que Deus estava bravo com eles ou não estava com eles. Eles achavam que Deus só estava com eles, quando ganhavam as guerras, coisa que muitos evangélicos acham que é verdade até hoje. Em seguida, Jefté fez aquele voto infeliz, pensando supostamente, em Deus. Ele via Deus, da mesma forma que os pagãos com os quais vivia, entendiam. E muitos o consideram um exemplo de homem que cumpre a palavra, e tentam adicionar coisas que o texto não diz, para limpar a barra dele.

Podia parecer muito bonito ele não voltar atrás na sua palavra, mas se ele fez um voto que acabou contrariando as próprias leis onde holocaustos humanos eram proibidos, e eram inclusive considerados abomináveis, o voto não tinha validade alguma.

Não é irônico pensar que, de acordo com o pensamento evangélico, Deus já sabia quem sairia em primeiro lugar para encontrar Jefté, na volta da guerra? E não interfere em nada? A história não se parece muito mais, com uma demonstração do que pode acontecer com pessoas sem noção, que são dadas a fazer votos e barganhas supostamente com Deus, de forma insensata e, além da insensatez das promessas que fazem, ainda levam a insensatez até o fim?

Aliás, o livro de Juízes em resumo é: hebreus chafurdando na lama, e no sangue. O sinal que identificava, de acordo com os hebreus, alguém que estava tomado pelo Espírito do Senhor, era se encher de ódio e instinto assassino, se colocar como comandante de Israel na guerra, e matar muitos inimigos da forma mais sangrenta possível, inclusive em surtos psicóticos como os de Sansão. Nesse livro, tem até uma versão modificada da história de Sodoma e Gomorra, mas desta vez, envolvendo as tribos de Israel. Os benjaminitas fazendo o papel de vilões, sendo atacados pelas outras tribos, que matam quase todos os homens, e exterminam todas as mulheres, depois ficam com pena dos homens que sobraram, e não podendo voltar atrás no juramento de que não dariam suas filhas em casamento aos benjaminitas, dão um jeitinho digamos, pouco lícito, de conseguir mulheres para eles. Horrível.


Teologia Moral de Causa e Efeito

maio 19, 2011

por Caio Fábio

O Gênesis do ministério de Jesus é tomar as “talhas que os judeus usavam para as purificações” e enchê-las de vinho!

E mais: é inegável que Jesus estivesse também dizendo que Nele, Deus estava casando agora apenas com quem queria talhas religiosas com vinho novo, na pior das hipóteses; e, na melhor delas, o que se deveria fazer, era deixar de lado o vinho velho e seu odre roto e pingantemente misturado ao próprio vinho, pois, nesse estágio, já não se sabe mais o que é odre e nem tampouco o que é vinho! O que se deve fazer é começar outra vez a partir de contêineres que se deixem curtir no vinho novo, que de acordo com o apóstolo João, não é novo, mas aquele que desde o princípio tivemos!

Sim, para Ele, aquele odre-vinho-vinho-odre—o da religião das talhas de pedra usadas para as purificações—era já um vinagre, que servia apenas para ser bebido por aqueles que de tão acostumados que estão aos gostos ruins, já não sabem a diferença entre o gosto-gostoso e o gosto-viciado. É para o de-Lei-te de seus viciados consumidores que o vinho-odre-odre-vinho serve ainda como diversão, sendo que o juízo ao próximo é o espetáculo!

Os discípulos de Jesus, todavia, não devem perder tempo com essas questões, e, por isto, precisam partir resolutamente para buscar odres mais adequados à sempre auto-renovação desse Vinho Novo. Afinal, ninguém que tenha se viciado no vinagre dirá que o vinho novo é excelente.

Ora, a Teologia Moral de Causa e Efeito é a fábrica de Odres com Grife e também a marmoraria onde são esculpidas as talhas de pedra usadas para as purificações!

O problema é que em Jesus não dá para se fazer mais nenhum tipo de aproveitamento dessa Indústria Religiosa e de suas Grifes e Selos Autorizadas. E a razão é simples: ela está para o Evangelho de Jesus assim como um perverso e desumano traficante de cocaína e heroína está para o bom samaritano—digo: mal comparando, e, apenas, no plano das relatividades humanas, pois, espiritualmente, o meu exemplo é muito menos grave que o contraste espiritual que tento expressar![...]

[...]Para Jesus os heróis da Graça eram os anti-heróis da religiosidade que o circundava e dos valores por ela ensinados.
Para a Teologia Moral de Causa e Efeito, TMCE— como daqui para frente chamaremos esse derivado natural da Teologia da Terra, filha religiosa do Sacrifício Competitivo de Caim —, o humilde de espírito era o lixo da espiritualidade; os que choravam eram vistos como culpados-infelizes; os mansos eram percebidos como desinteressados pelo zelo que disputava o espaço no chão da Terra; os que têm fome e sede de justiça eram interpretados como seres equivocados em suas ignorâncias radicais, pois, a única justiça que os mestres da TMCE conheciam era aquela que eles mesmos decidiam.

Já os misericordiosos eram os que tinham algo a esconder, daí se protegerem sendo bons com o próximo; os limpos de coração eram eles mesmos— os membros daquela confraria de amigos de Jó, é claro! afinal, não enxergavam seus próprios corações, pois só viam para fora de si mesmos, e, também, não esqueçamos: lavavam as mãos antes de comer!
Os pacificadores eram, em geral, considerados amigos de hereges; os perseguidos por causa da justiça, eram comum-mente aqueles acerca de quem eles patrocinavam o cartaz Wanted Dead or Alive! De preferência, bem dead !

E os injuriados e perseguidos figuravam, sobretudo, como foi no caso dos profetas, em sua lista de Most Wanted ! Esses, afinal, os Profetas, eram sempre a sua pior desGraça, eram os mais terríveis subversivos!

O seu “sal” não era para a Terra, era apenas uma produção egoísta e independente fadada a se petrificar em seus sa-Lei-ros inúteis. Afinal, não se viam no papel de dar gosto à vida, mas, ao contrário, o de roubar-lhe todo o sabor!

Luz do Mundo? Como? Eles não reconheciam nenhum outro mundo que não fosse o deles![...]

[...]“Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas”.  O “resumo” que Jesus faz de todo o seu ensino é horroroso para o coração honesto. Primeiro, porque ninguém, de fato, indo dos abismos da alma à prática cotidiana, consegue encarnar o tempo todo essa verdade.[...]

[...]Somente “os amigos de Jó” podem ler o Evangelho de Jesus e continuar pensando como os fariseus. A Ética do Amor—que é a única ética do Evangelho— nega todos os pressupostos da Teologia Moral de Causa e Efeito.

A Graça inverte os pólos da Ética, que, em Cristo, se vincula não à Moral, mas à obediência amorosa a Deus; e se expressa como resposta da consciência do amor à inconsciência do próximo, mesmo que seja o inimigo![...]

Só pesquei algumas coisas, pois o texto é imenso. Se quiser, leia o resto no link abaixo:

A moral não é a ética dos evangelhos – Caio Fábio


Uma teologia da evolução, e para a evolução

setembro 26, 2010

por Arthur Peacocke

Afirmo que, longe de a epopeia da evolução ser uma ameaça para a teologia cristã, é sim um estímulo para a teologia e também a base para uma compreensão mais abrangente e enriquecedora das inter-relações entre Deus, a humanidade e a natureza. Um argumento para a existência de Deus na “teologia-física” Anglo-Saxã (uma forma de teologia natural dos séculos XVIII e XIX), baseava-se em atribuir à uma ação direta de Deus o Designer, a existência dos intricados mecanismos biológicos.  Este argumento desabou, quando Darwin e seus sucessores, mostraram que esse design aparente pode evoluir por processos puramente naturais, baseados em processos cientificamente inteligíveis. O impacto inicial das ideias de Darwin na teologia é usualmente situado na lenda do debate entre o então bispo de Oxford com T. H. Huxley, no encontro da British Association for the Advancement of Science, num sábado, 30 de junho de 1860. Chamo de “lenda”, porque estudos históricos indicam que a história é uma construção posterior de Huxley e seus biógrafos, porque o impacto desse evento, atualmente muito citado, não foi tão grande na época. Não se encontra menção a ele em qualquer publicação entre 1860 e 1880. Depois disso, afirmações triunfalistas, a favor de Huxley e pela independência da profissão dos cientistas, começaram a aparecer em vários “Diários” e “Cartas”. Então, isso é realmente uma lenda, e hoje também um ícone do assim chamado conflito entre a religião e a ciência, biologia em particular, que todos nós herdamos. Mesmo no século XIX, muitos teólogos anglicanos, evangélicos e católicos, receberam positivamente a proposta da evolução. Entre os primeiros, podemos mencionar Charles Kingsley, o qual em seu “Water Babies”, afirmou que Deus faz “as coisas fazerem a si mesmas”; dos últimos, podemos citar Aubrey Moore, que em “Lux Mundi” (uma publicação de um grupo de anglicanos de Oxford), em 1889, escreveu: “O Darwinismo apareceu, e, sob o disfarce de um adversário, fez o trabalho de um amigo. Conferiu à filosofia e à religião, um benefício inestimável, por mostrar-nos que podemos escolher entre duas alternativas. Ou Deus é onipresente na natureza, ou está ausente dela”.    (23)

Deus e o Mundo

Imanência. Essa ênfase na imanência de Deus como criador, nos, com e dentro dos processos naturais do mundo desvendado pela ciência está certamente de acordo com tudo que as ciências têm revelado desde aqueles debates do século XIX. Um aspecto notável da explicação científica do mundo natura em geral, é o caráter contínuo da rede que foi construída ao longo do tempo: os processos aparecem em continuidade desde o início cósmico, no Big Bang, até o momento presente, e em nenhum ponto os cientistas modernos precisam invocar qualquer tipo de causa não natural para explicar suas observações e inferências sobre o passado. Os processos que ocorreram pode, como vimos, ser caracterizados como um surgimento, de novas formas de matéria, e uma organização hierárquica dessas formas por si mesmas, aparece no decorrer do tempo. Novos tipos de realidade que pode-se dizer terem emergido com o tempo.

A perspectiva científica do mundo, especialmente do mundo vivo, inexoravelmente nos imprime uma imagem dinâmica do mundo de entidades e estruturas envolvidas em mudanças contínuas e incessantes, e em processos que não cessam. Isso nos impele a re-introduzir em nosso entendimento da relação criativa de Deus com o mundo, um elemento dinâmico que está sempre implícita na concepção hebraica de um Deus vivo, dinâmico e em ação – mesmo que obscurecido pela tendência de pensar na criação como um evento passado.  Deus voltou a ser concebido como criando continuamente, dando existência continuamente ao que é novo; esse Deus é sempre o Criador; porque o mundo é uma creatio continua. A noção tradicional de Deus sustentando o mundo em sua ordem geral e sua estrutura, agora foi enriquecida por uma dimensão criativa e dinâmica – o modelo de Deus sustentando o mundo e dando existência contínua aos processos que possuem criatividade inata, atribuída por Deus. Deus está criando em todos os momentos da existência do mundo,  dentro e por meio da criatividade com a qual estão dotadas todas as coisas no mundo.

Tudo isso reforça a necessidade de re-afirmar com mais força do que em qualquer outra época nas tradições cristãs (e judaicas e islâmicas), que num sentido muito forte Deus é o criador imanente, criando dentro e por meio dos processos da ordem natural. Os processos por si mesmos, como descritos pelas ciências biológicas, são Deus atuando como criador, Deus qua Creator. Os processos não são o próprio Deus, mas a ação de um Deus no papel de criador. Deus dá existência no tempo divinamente criado, aos processos que por si mesmos se movem para o novo: assim Deus está criando. Isso significa que não temos que olhar para qualquer suposta lacuna nos processos, ou nos mecanismos, sobre os quais supostamente Deus estaria atuando como criador no mundo vivo .

Panenteísmo. (24) O teísmo filosófico clássico manteve a distinção ontológica entre Deus e o mundo criativo, que é necessário para qualquer teísmo genuíno, por conceber os mesmos como sendo de substâncias diferentes, cada um com atributos particulares. Havia um espaço fora de Deus, no qual as substâncias criadas vieram a existir. Esta forma de falar se torna inadequada por tornar extremamente difícil explicar a forma pela qual Deus está presente no mundo em termos de substâncias, as quais por definição, não podem estar internamente presentes umas nas outras. Deus só pode intervir no mundo num modelo desse tipo. Esta inadequação do teísmo clássico é agravada pela perspectiva evolucionária, a qual, como temos visto, requer que os processos naturais no mundo precisem ser considerados como ação criativa de Deus.  Em outras palavras, o mundo está para Deus, assim como nossos corpos são para nós como agentes pessoais, com a ressalva de que a ontologia final de Deus como criador é distinta daquela do mundo (panenteísmo, e não panteísmo).  Além disso, esse modelo pessoal de subjetividade encarnada (com essa ressalva essencial), representa melhor do que estamos impelidos a pensar, a ação constante de Deus no mundo, como vindo do interior, tanto em suas regularidades naturais quanto em quaisquer padrões especiais ou eventos. Estes três fatores – a forte ênfase na imanência de Deus no mundo, a preocupação de que Deus seja no mínimo, pessoal (como na tradição bíblica),e a necessidade de evitar o uso da substância nesse contexto – levam a uma relação panenteísta entre Deus e o mundo.  Panenteísmo, é, de acordo com isso, “A crença de que o ser de Deus inclui e penetra o universo inteiro, então cada parte do universo existe nEle, mas (ao contrário do panteísmo), o ser de Deus é mais do que o universo, e não é limitado pelo universo”. (25)

Esse conceito tem fortes fundações filosóficas e é bíblico, como foi cuidadosamente argumentado por P. Clayton (26) – lembrando a  estada de Paulo em Atenas, quando ele disse, a respeito de Deus, que “nEle nós vivemos, nos movemos e somos.” (27)  Isso de fato está profundamente enraizado na tradição cristã oriental.

A Sabedoria (Sophia) e a Palavra (Logos) de Deus. Estudiosos bíblicos têm, em décadas recentes, têm  enfatizado a significância dos temas centrais da assim chamada literatura de Sabedoria (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico, e Sabedoria). Nesse conjunto de escrituras, a figura feminina da Sabedoria (Sophia), de acordo com J. G. Dunn, é uma forma conveniente de falar sobre Deus agindo na criação, revelação, e salvação; a Sabedoria nada mais é do que a personificação da atividade de Deus. (28) Essa Sabedoria dota alguns seres humanos com uma sabedoria pessoal que é enraizada em suas experiências concretas e em suas observações sistemáticas e ordinárias do mundo natural – o que podemos chamar de ciência.  Mas não está confinada a isso, e representa a destilação das maiores experiências humanas, éticas e sociais, e também as experiências cosmológicas, já que o conhecimento sobre os céus também figurou entre os conhecimentos dos sábios. A ordem natural é avaliada como um presente e fonte de maravilhamento, algo a ser celebrado. Todos os tipos de sabedoria, gravadas como um padrão no mundo natural e na mente dos sábios, são apenas uma imagem pálida da sabedoria divina – esta atividade distinta de Deus em relação ao mundo.

No Novo Testamento, Jesus veio a ser considerado como “aquele que encarnou o poder criativo de Deus e a sua sabedoria salvadora (particularmente em sua morte e ressurreição), que podemos identificar como ‘o poder de Deus e a Sabedoria de Deus.’ [1 Cor. 1:24].”(29)

Esta sabedoria é um atributo de Deus, personificada como feminina, e tem um significado especial para teólogos feministas (30), um dos quais argumentou, com base numa ampla seleção de fontes bíblicas, que o feminino em Deus se refere a todas as pessoas do Deus cristão triuno.  Então, a Sabedoria (Sophia), se torna a “face feminina de Deus, expressa em todas as pessoas da Trindade. “(31) No contexto presente, é pertinente que esse conceito importante de Sabedoria (Sophia), une intimamente a ação divina de criação, a experiência humana e os processos do mundo natural. Por conseguinte, constitui um recurso bíblico para imaginar o panenteísmo que temos defendido.

Assim também é com o conceito diretamente relacionado de Palavra (Logos) de Deus, o qual é definido como (32) existindo eternamente como um modo do ser de Deus, como ativo na criação, e como expressão própria do ser de Deus, e impresso nas costuras e tramas da ordem criada. Isso parece ser uma fusão do amplo conceito hebraico de “Palavra de Deus”, como a vontade de Deus na atividade criativa, em conjunto com o Logos divino do pensamento estóico.  Este último é o princípio da racionalidade manifesto tanto no cosmos como na razão humana (chamada de logos pelos estóicos). De novo, temos uma noção panenteísta que une, intimamente, três faces de uma atividade integrada e encadeada: o divino, o humano e o (não humano) natural. É, desnecessário dizer, significativo que para os cristãos, este logos “se fez carne” (33), na pessoa de Jesus Cristo.

Um universo sacramental. A epopeia da evolução, como tenho me referido a ela, relata em sua extensão e na sua continuidade, como, ao longo das eras, as potencialidades mentais e espirituais da matéria têm se atualizado, sobretudo no desenvolvimento do complexo “cérebro humano num corpo humano”. O campo flutuante quântico original, ou a sopa de quarks, ou seja o que for, produziu em doze ou mais bilhões de anos, um Mozart, um Shakespeare, um Buda, um Jesus de Nazaré – e você e eu!

Cada avanço nas ciências biológicas, cognitivas e psicológicas, mostra os seres humanos como unidades psicossomáticas – pessoas. A matéria manifestou qualidades pessoais, numa combinação única de capacidades físicas, mentais e espirituais. (Uso “espiritual” como indicando relativos a Deus de uma forma pessoal). Para o panenteísta, que vê Deus trabalhando dentro, com e por meio dos processos naturais, este único resultado dos processos evolucionários, corrobora o fato de que Deus usa cada processo como instrumento de Seus desígnios, e como um símbolo da natureza divina, que é um meio de chegar aos Seus desígnios.[...]

[...]A Humanidade e Jesus Cristo numa Perspectiva Evolucionária

Vimos que a humanidade é incompleta, inacabada, está  muito abaixo dos valores elevados da verdade, beleza e bondade que Deus, sua fonte final, teria que fazê-la atingir, para levá-la a uma relação harmoniosa com Ele. Ainda não estamos adaptados totalmente ao “ambiente” final e eterno de Deus.

Não foi muito tempo depois de Darwin ter publicado A origem das espécies, que alguns teólogos começaram a discernir o significado da afirmação cristã central e distintiva da Encarnação de Deus na pessoa de Jesus Cristo, como especialmente congruente com uma perspectiva evolucionária. Assim, mais uma vez em Lux Mundi, em 1891, encontramos J. R. Illingworth claramente afirmando: “… em linguagem científica, a Encarnação pode-se dizer ter introduzido uma nova espécie no mundo – o homem divino, transcendendo a humanidade passada, a humanidade transcendendo o resto da criação animal, e comunicando sua energia vital por processos espirituais, para as gerações seguintes…”(36).  A ressurreição de Jesus convenceu os discípulos, inclusive Paulo, que essa união com Deus é o tipo de vida que não pode ser quebrada pela morte, e é capaz de estar em Deus. Jesus manifestou o tipo de vida humana a qual, como se acredita, pode se tornar vida abundante com Deus, não só aqui e agora, mas eternamente, além da barreira da morte. Por isso o seu imperativo “Sigam-me” constitui um chamado para a transformação da humanidade num novo tipo de ser humano transformado.  O que aconteceu com Jesus, pode acontecer com todos.

Nessa perspectiva, Jesus Cristo, tem nos mostrado o que seria possível para a humanidade. A atualização dessa potencialidade pode ser considerada como a consumação dos desígnios de Deus, já manifesta de forma incompleta na humanidade em evolução.[...] Jesus Cristo é portanto considerado, dentro do contexto desse complexo de eventos do qual participou, como o paradigma revelado do que Deus planejou para a humanidade. Nessa perspectiva, ele representa a consumação desse processo evolutivo e criativo que Deus tem impulsionado dentro e por meio do mundo.[...]

[...]Na Terra, a epopeia da evolução é consumada pela Encarnação, numa pessoa humana, da auto-expressão cósmica de Deus, da Palavra de Deus – e na esperança que isso dá a todas as pessoas, de se unirem com a Fonte de todo Ser e Vir a ser, que é “o Amor que move os céus e as estrelas.”  Gostaria de lembrar que, no segundo século, Irineu disse, nos convidando a contemplar: “A Palavra de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que, com seu imenso amor, quer fazer de nós aquilo que Ele mesmo é.” (Adv. Haer., V praef.)

A Theology of and for evolution – Arthur Peacocke

Não posso dizer que concordo exatamente com tudo o que o autor afirmou, mas coloco o texto aqui, para que gere reflexão. Segundo o autor, o ideal de Deus para o ser humano é o que foi encarnado em Jesus. Porém, cada ser humano, mesmo tendo potencial de transcender a si próprio, e se tornar mais parecido com Jesus, tem a liberdade de decidir se deseja participar desse caminho evolutivo ou não. Envolve coisas como negar a si mesmo, carregar a cruz, amar os inimigos, dar a outra face e etc, coisas que exigem que a pessoa esteja, todo o tempo, tomando decisões conscientes, no sentido de agir conforme esse modelo, e sujeito a falhar nesse processo, muitas vezes. O ser humano por si mesmo, não tende a seguir esse modelo naturalmente. E Deus não coage ninguém. Deus não impõe sua presença nos mecanismos do universo e da vida, não deixa claras as formas pelas quais atua no universo, para que cada ser humano possa escolher se deseja ver o mundo de uma perspectiva que inclui Deus, ou não, e viver de acordo com a perspectiva escolhida.

E os discípulos de Jesus, aqueles que, conscientemente, escolhem tentar viver esse modelo “alternativo” de ser humano proposto por Deus, são facilmente reconhecíveis. Se Deus não deixa óbvia a sua presença nos mecanismos que regem o universo e a vida no nosso planeta, na vida dos discípulos, a presença dEle se torna inegável. Os discípulos são Suas cartas vivas.


Implicações teológicas de uma criação em evolução

julho 26, 2010

por Keith B. Miller

O debate criação-evolução solapou a energia vital da comunidade cristã. Em vez de construir o Reino de Deus, tem sido, ao meu ver, tanto destrutivo para a unidade do corpo de Cristo, quanto uma distração com relação à verdadeira missão desse corpo, ordenada por Deus. Essa missão é viver como portadores da imagem de Deus,  administrando Sua criação e proclamando Sua mensagem de reconciliação para o mundo.

No debate a respeito do entendimento adequado do relato de Gênesis, maior atenção tem sido dada aos méritos científicos dos vários cenários da criação. O que tem sido amplamente deixado de lado nesses debates, é uma consideração das implicações teológicas dessas várias interpretações, para nosso entendimento a respeito do caráter de Deus, o relacionamento de Deus com sua criação, e o nosso relacionamento com o restante da criação. Afinal, é a essas questões básicas que o relato de Gênesis é primeiramente, se não exclusivamente, se refere. Adicionalmente, muita da resistência à cosmologias evolucionárias entre cristãos evangélicos, é um conflito percebido com as doutrinas fundamentais da fé. Por essas razões, vou trabalhar diretamente com as implicações teológicas do que prefiro chamar o ponto de vista da criação contínua. O termo “criacionismo contínuo” tem sido usado, tanto por Wilcox e Moltmann, como um rótulo útil para uma visão totalmente teísta de uma criação que possui uma ininterrupta e longa história criativa. De acordo com esse ponto de vista, Deus está continuamente atuando na sua criação por meio dos processos que investigamos com nossas ciências.

Integridade da criação de Deus

Creio que é muito importante reconhecer o trabalho de Deus no meio natural, Sua criação, como uma fonte de verdade a respeito do Criador. A fé em um Deus racional e ordenador, cujos trabalhos de criação são ordenados e compreensíveis para as criaturas nas quais ele investiu sua própria imagem, é fundamental para a prática da ciência moderna.  Se o mundo natural não contém um registro confiável de sua história passada, em que bases pode ser estudado e com qual propósito? Ainda mais importante, o que esse mundo poderia nos comunicar a respeito do caráter do seu Criador?

A criação de Deus, como revelação às suas criaturas sobre quem Ele é, pode proporcional um registro acurado da atividade criativa de Deus: da forma como o universo realmente foi e é. Mudanças progressivas ao longo do tempo, tanto na cosmologia, geologia ou biologia, é a conclusão esmagadora da leitura do registro da criação. Colocado desta forma, qualquer cenário de “criação com idade” é insustentável.

Um registro verdadeiro e compreensivo da criação, afirma tanto o significado da história natural quanto o da história humana. O cristianismo é fundamentalmente uma religião histórica, e nosso entendimento sobre Deus é baseado em Sua interação histórica com Seu povo. A história humana flui para trás perfeitamente junto com a história natural, e qualquer um que coloca em dúvida a validade desta última (a história natural), ameaça também nossa confiança no Criador.  Como colocado por Menninga “… se aceitamos o conceito de “idade aparente”, ficamos sem nenhuma garantia sobre a realidade de qualquer outro registro histórico.” A integridade da criação confirma a confiabilidade do caráter de Deus. O Deus revelado na natureza é o mesmo que revelou a Si mesmo na Escritura e em carne humana – isto é, o Deus da história e o Deus da verdade.

Enormidade da criação de Deus

Nosso contínuo desenvolvimento do entendimento científico sobre a história cósmica, ao invés de ser visto como reduzir Deus a alguma distante e irrelevante “causa primeira”, deve produzir temor diante dos incalculáveis poder e sabedoria de Deus. O Deus ao qual oramos exerce seu poder criativo a uma distância tão grande, que a luz requer bilhões de anos para atravessar essa distância, e o Deus para o qual oramos, tem moldado e dirigido Sua criação por bilhões de anos. Quando Deus procurou comunicar Sua transcendência, poder e autoridade à Jó, instruiu-o a contemplar o universo criado. Quando contemplamos o universo hoje, não deveríamos, mais do que Jó, ser esmagados pela grandeza de Deus?

A imensidão do universo, tanto no espaço quanto no tempo, enfatiza, da forma mais marcante, o quanto a humanidade é pequena.  Em comparação ao universo físico que a ciência procura conhecer, somos absolutamente insignificantes. Apesar de ter vivido numa época em que o universo era percebido coo se fosse muito menor, Davi pôde dizer: “Quando considero o céu, o trabalho das suas mãso, a lua e as estrelas, os quais você colocou no lugar, o que é o homem para que esteja atento a ele, e o que é o filho do homem para que você cuide dele?” (Salmos 8:3-4). A vastidão incompreensível do universo, enquanto nos força a encarar nossa pequenez, enfatiza ao mesmo tempo a graça de Deus, em nos fazer à Sua imagem  e nos chamar a ter comunhão com Ele.  Além de todas as expectativas e possibilidades, Deus escolheu nos amar e se identificar conosco.[...]

[...]Nossa própria transformação à imagem de Cristo é um processo, até mesmo doloroso, e não algo que ocorre instantaneamente após nossa conversão. Ele mesmo nos comissionou, criaturas tão pecadoras, para ser agentes do seu trabalho de redenção.  A eficiência claramente não é uma prioridade na atividade redentora de Deus; porque deveríamos requerer que Sua atividade criativa fosse assim?[...]

[...]Morte e sofrimento não precisam ser entendidos como corrupções satânicas da ordem da criação. Ao contrário, ambos refletem a natureza de um Deus que sofreu e morreu pela vida das Suas criaturas.  Vida da morte – esse é o padrão bíblico e o padrão da criação. Há congruência aqui, e não um contraste irreconciliável. No mundo natura, a vida surge do material morto, a própria Terra é formada de materiais originados em cataclismas de estrelas. A imagem da ressurreição é vista em toda parte. Que um Deus que se fez carne e morreu pela vida das Suas criaturas, tenha planejado o mundo desta forma, me parece a mais perfeita das metáforas cósmicas.[...]

[...] Entender o significado do nosso domínio como criaturas feitas à imagem de Deus, tem que ser com base na Escritura. A igreja, entretanto, tem com frequência adotado o ponto de vista da dominação – ou seja, poder demonstrado e exploração egoísta. Temos muitas vezes tratado a criação como um inimigo que requer controle à força ou como uma fonte inesgotável de recursos para serem usados para o nosso prazer. O ponto de vista a respeito disso, em total contraste, é o do serviço sacrificial. O modelo do Antigo Testamento, do rei que socorre os oprimidos e tem compaixão pelos necessitados, fracos e aflitos. Como cristãos, nosso modelo deve ser aquele expressado por Cristo, em cuja imagem nós temos que nos basear. E Cristo exerceu sua autoridade divina como servo, em compaixão e humildade. Esta é a regra para o nosso domínio sobre as criaturas não humanas!

A aplicação da imitação de Cristo como nossa regra para exercer domínio sobre o resto da criação, é radical, porque se opõe ao egocentrismo e materialismo da nossa sociedade. Cristo nos chama a carregar nossa cruz, negar a nós mesmos e viver de forma sacrificial a serviço de outros. Em seu livro Imaging God, Douglas Hall pergunta, “O que os poderosos deste mundo fazem do domínio de um Senhor que chora, um pastor que dá sua vida pelas ovelhas, um rei montando num jumento que foi ridicularizado, julgado e executado pelos poderes da época?  E o que pode significar para nós imaginar o domínio de um rei desses na nossa vida com o restante da criação?” Esta pergunta clama por uma resposta por parte da igreja.

O reconhecimento da nossa posição como imagem de Deus pode fazer da igreja uma força poderosa para a gestão ambiental, mas a igreja tem permanecido em silêncio.[...]

Theological implicantions of an evolving creation – Keith B. Miller

Não traduzi o texto inteiro, quem quiser ler a íntegra, favor acessar o link logo acima.


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