Evolução e religião

Outubro 12, 2009

por Sergio Danilo Pena

A resistência de alguns grupos religiosos à evolução é um problema que me deixa simultaneamente perplexo e entristecido. Como racionalista de carteirinha e cientista militante, tenho dificuldade em entender essa situação. Como pode um indivíduo pensante desprezar evidências empíricas gritantes e concretas para adotar em seu lugar um pensamento anticientífico, com base apenas em revelações e escrituras milenares de origem obscura que alegam ser de autoria divina?

O que considero necessário não é a ciência da evolução se modificar com o objetivo de se tornar palatável para algumas crenças religiosas. O importante é que as religiões adaptem suas doutrinas para lidar com a realidade da evolução, assim como tiveram de se adaptar à teoria heliocêntrica do Sistema Solar 500 anos atrás.

É absolutamente incontestável o fato da evolução. Não se trata de uma simples teoria da evolução. Dados paleontológicos, geológicos e fisiológicos já forneceram ampla evidência da origem única da vida na Terra e de sua evolução progressiva para formar as milhões de espécies de animais e plantas que aqui habitam. Mas a genômica comparada foi a cereja no topo do sorvete, o elemento que nos deu a prova final da verdade incontestável da evolução.

Evolução comparada
Os dados gerados pelo Projeto Genoma em humanos e em outros organismos mostraram que a sequência de DNA do nosso genoma é 99% idêntica à do chimpanzé (!), além de ter em comum 65% com o camundongo (!!), 47% com a mosca de frutas Drosophila melanogaster (!!!), 20% com uma pequena mostarda chamada Arabidopsis thaliana (!!!!) e até 15% igual à da levedura Saccharomyces cerevisiae (!!!!!), que produz para nós o pão e a cerveja.

Esse alto grau de compartilhamento genômico mostra que toda a biosfera é, como nós, herdeira de um genoma primordial que deu origem ao primeiro ser vivo na Terra, a partir do qual todos os outros derivaram. Não somos o produto final e perfeito da criação, com direito divino de destruir nossos primos animais e plantas a nosso bel-prazer. Somos parte de uma rede de vida e, se esfacelarmos essa rede, destruiremos a nós próprios. A consciência do nosso parentesco genômico com os outros organismos terrestres, da origem única e da herança do DNA que une todos os seres vivos deve nos motivar para tratar o nosso planeta com renovado respeito.

Ademais, a similaridade genômica vai além do plano estrutural do DNA e se estende ao nível funcional. Por exemplo, há alguns anos um aluno do meu laboratório de pesquisa (Túlio M. Santos) desenvolveu sua tese de doutorado em torno de um gene chamado SmRho isolado do verme Schistosoma mansoni (o parasita causador da esquistossomose, doença que aflige centenas de milhões de pessoas em todo o Terceiro Mundo).

Para verificar se SmRho era funcionalmente o mesmo gene homólogo já anteriormente bem conhecido no Saccharomyces cerevisiae, usamos primeiramente técnicas de engenharia genética para deletá-los das leveduras – com isso, elas se tornaram incapazes de se dividir e de formar colônias (ver figura).

Então, transferimos para as leveduras doentes o gene SmRho do parasito. Eureca! As leveduras voltaram a crescer e a formar colônias quase normais. Em outras palavras, o gene Rho do verme funcionava perfeitamente na levedura, da qual estava separado evolucionariamente há centenas de milhões de anos.

Darwin e a religião
Como todos sabem, em 2009 comemoramos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação da Origem das espécies. De fato, nos últimos meses temos sido expostos pela imprensa a uma miríade de artigos sobre o grande cientista, a vasta maioria deles infelizmente contendo afirmações bombásticas e errôneas, escritas por pessoas que nunca leram Darwin e não entendem nada de genética evolucionária. Um dos pecados sensacionalistas mais comuns é afirmar que “Darwin matou Deus”. Besteira pura!

Para entendermos a relação de Darwin e da evolução com a religião, vamos fazer um desvio pela física, com uma história contada pelo astrofísico americano Neil de Grasse Tyson, do Museu Americano de História Natural de Nova Iorque em seu excelente artigo “O perímetro da ignorância” (The perimeter of ignorance), publicado em 2005 na revista Natural History.

A lei da gravidade, desenvolvida pelo genial Isaac Newton (1643-1727), permite que seja calculada a força de atração entre dois corpos celestes. Assim, é possível traçar as órbitas dos planetas em torno do Sol. Entretanto, os planetas também exercem forças de atração entre si. Até Plutão, que desde 2006 nem é mais considerado um planeta, exerce gravidade sobre a Terra. Isso cria uma rede de atrações mútuas que modifica as órbitas dos planetas e é extremamente difícil de computar.

Pois bem: quando Newton tentou lidar com tudo isso em suas equações, chegou à conclusão de que o Sistema Solar era muito instável e que os planetas deveriam ter se precipitado sobre o Sol (o que obviamente não tinha acontecido). Ele então escreveu em 1687 nos Principia mathematica, sua obra mais importante: “Não é possível conceber que meras causas mecânicas possam gerar tantos movimentos regulares… Este maravilhoso sistema… só poderia operar sob o domínio de um Ser poderoso e inteligente”

As coisas ficaram assim por mais de um século até que, em 1825, Pierre-Simon de Laplace, na França, conseguir provar matematicamente a estabilidade do Sistema Solar em seu tratado em cinco volumes Mecânica celeste, que ofertou a Napoleão Bonaparte. Segundo a lenda, o imperador leu a obra (naquela época os líderes de países eram aparentemente cientificamente alfabetizados – bons tempos…) e perguntou a Laplace por que não havia nenhuma menção a Deus. A resposta de Laplace foi: “eu não tinha necessidade de tal hipótese”!

O mesmo se passou com Darwin. Em momento algum ele propôs que Deus não existia. Ele simplesmente não tinha necessidade daquela hipótese para explicar a origem dos seres vivos e a grande variedade de espécies no mundo natural. De fato, ele escreveu na Origem das espécies: “Existe um desenho aparente nos organismos vivos. Mas a seleção natural é suficiente para explicar isto. Não é necessária a hipótese da existência de um desenhista” (a propósito, o uso da palavra “desenhista” por Darwin remete-nos ao argumento de William Paley, que será apresentado mais à frente nesta coluna).

Evolução e religião
Assim, a evolução por seleção natural é perfeitamente compatível com a crença na existência de Deus.

Os evolucionistas estão preocupados em entender a geração da diversidade dos seres vivos na Terra e não têm qualquer desejo – ou tempo – para se intrometer em problemas espirituais. Parafraseando Galileu Galilei, podemos dizer que a preocupação de quem estuda a evolução é entender como as coisas andam na Terra e não entender como se ganha o céu…

Apenas algumas denominações protestantes fundamentalistas fazem uma interpretação literal estrita, criacionista, do livro do Gênesis na Bíblia que os leva a rejeitar em princípio a evolução biológica. Para eles a Terra (e todo o universo) tem menos de 10 mil anos (danem-se os dinossauros e toda a evidência fóssil) e Deus criou o homem diretamente!

No seu livro Os anais do velho testamento, publicado em 1650, o bispo inglês James Ussher calculou que Deus criou o universo na véspera do dia 23 de outubro de 4004 a.C. Até o final dos anos 1970 todas as Bíblias colocadas em quartos de hotel nos Estados Unidos pela Gideon Society continham essa estimativa, que também fez parte da arguição a que Clarence Darrow submeteu William Jennings Bryan no famoso julgamento de Scopes, no Tennessee, em 1926.

Esse julgamento foi importantíssimo na história do desenvolvimento do ensino de evolução em escolas públicas nos Estados Unidos. O excelente filme O vento será sua herança (1960), com Spencer Tracy, conta a estória do julgamento de forma ficcional.

Desenho inteligente (?)
Em 1987 a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu que a necessidade do ensino do criacionismo ao lado da evolução nas escolas públicas era incompatível com a separação de Estado e Igreja. Assim, os fundamentalistas americanos tiveram de mudar a sua estratégia contra o ensino da evolução, tirando a ênfase do aspecto religioso e adotando uma argumentação “científica”: o chamado “desenho inteligente”.

Na verdade este argumento não tem nada de novo (nem científico), pois foi originalmente proposto pelo filósofo inglês William Paley (1743-1805). No seu livro Teologia natural, ele apresentou o seguinte argumento a favor da existência de Deus (tradução minha):

”[…] imagine que eu pise em uma pedra e que alguém me pergunte como ela foi parar naquele lugar; se eu responder que do meu ponto de vista ela sempre esteve naquele local, não seria possível demonstrar qualquer absurdo na minha resposta. Mas imaginem que eu encontre um relógio no chão e que me perguntem como ele foi parar lá. Eu não pensaria na mesma resposta. […] Deve ter havido, em algum tempo e lugar, um artífice ou artífices que fizeram o relógio [...], que entenderam seu uso e desenharam sua construção.”
A versão moderna do “desenho inteligente” argumenta que existem várias estruturas nos seres vivos que são irredutivelmente complexas, ou seja, compostas de elementos harmônicos e interativos que contribuem para o funcionamento do todo, de forma que a remoção de qualquer das partes faz com que ele cesse de funcionar.

Tais estruturas, eles argumentam, não poderiam evoluir naturalmente, pois a sua função só iria emergir quando o todo estivesse completo. Assim, como no caso do relógio de Paley, a existência desses órgãos implica na existência de um ser superior que os teria “desenhado”. Um dos exemplos favoritos é o do olho humano.

Não vou detalhar o conceito de exaptação, já mencionado nessa coluna anteriormente, ou argumentar que em princípio a evolução do olho humano é bem entendida, tendo seu início em agrupamento de células fotossensíveis que constituem olhos primitivos em organismos menos complexos.

Em vez disso, prefiro discutir um ponto ressaltado por Neil de Grasse Tyson, que é a enorme presunção, a incrível húbris de alguém afirmar que, “se eu não entendo como o olho humano foi formado pela evolução, isso quer dizer que ninguém mais, agora ou no futuro, será capaz de entender isto”.

A ciência não funciona dessa maneira. Sabemos que o nosso conhecimento científico atual é finito e circundado por um perímetro de ignorância. Quando, ao ponderar sobre um problema, esbarramos nesse perímetro, nós, cientistas, tentamos empurrá-lo, aumentá-lo, alargá-lo, e não simplesmente cruzar os braços e dizer que “eu não entendo aquilo, não sei como funciona, é complicado demais para qualquer humano entender, logo deve ser o produto de uma inteligência superior”.

Termino com um parágrafo de Tyson (minha tradução):

“A ciência é uma filosofia de descoberta. O desenho inteligente é uma filosofia de ignorância. Não é possível construir um programa de descoberta baseado na premissa que ninguém é inteligente o suficiente para encontrar a resposta a um problema. Tempos atrás, as pessoas apontavam o deus Netuno como a fonte das tempestades no mar. Hoje, sabemos quando e onde elas começam. Sabemos o que as alimenta. Sabemos o que pode mitigar seu poder destrutivo. E qualquer pessoa que já estudou o aquecimento global pode contar o que as faz se agravarem. As únicas pessoas que ainda chamam furacões de ’atos de Deus‘ são as que escrevem as apólices das companhias de seguro.”
Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais

Evolução para cristãos

Outubro 7, 2009

“Nada em biologia faz sentido, a não ser à luz da evolução.” Theodosius Dobzhansky

por Robert J. Schneider

Escolhi esse título para o ensaio sobre a evolução biológica, porque está claro para mim que a maioria dos cristãos conhece muito pouco sobre os detalhes científicos da evolução, inclusive a respeito da enorme quantidade de evidências existentes e que dão suporte à evolução ou à teoria dominante que explica como ela acontece, seleção natural. Isto é verdade tanto para cristãos que aceitam a evolução e apóiam que se ensine a mesma nas escolas públicas dos Estados Unidos, e para aqueles que rejeitam-na e se opõem a que seja ensinada. Parte do problema relacionado com essa ignorância generalizada reside na política de educação local, como ficou claro no primeiro ano que lecionei “Ciência e Fé” no Berea College. Depois de falar sobre a evolução, perguntei aos 20 alunos no seminário se eles haviam aprendido sobre a evolução em alguma das suas aulas do ensino médio. Um por um, a maioria dos estudantes que  estudaram em escolas públicas disseram que, “O professor pulou esse capítulo”. Depois da quinta resposta, eu disse: “Eu sei porque o professor pulou esse capítulo. Ele não queria receber telefonemas, altas horas da noite, com reclamações de pais irados, ou um pedido do diretor para evitar “assuntos polêmicos.”

Muitos dos estudantes do Berea College são expostos a visões negativas a respeito da evolução em suas igrejas. São ensinados que a evolução é contrária à Bíblia, que eles não podem crer em Deus e na evolução, que a evolução é uma filosofia ateísta, e, algumas vezes, que a evolução é uma invenção de Satanás. Qualquer informação que recebem sobre evolução em sermões ou na escola dominical, normalmente é fornecida por criacionistas de terra jovem, e não por cientistas evolucionistas, e, triste dizer isso, o que eles têm ensinado não é uma imagem real, mas uma caricatura. Este ponto de vista anti-evolução pode provocar fortes sentimentos em muitos estudantes quando o tópico aparece nas aulas e exercícios de leitura na faculdade.  Um estudante contou a um de meus colegas que, quando foi exposto à evolução em um curso anterior, ficou fisicamente doente.   Espero e tenho confiança de que esse tipo de reação seja raro, mas deixa clara a dificuldade que eu e outros professores temos ao tentar ajudar estudantes armados e blindados contra a evolução por  autoridades religiosas, a baixar suas defesas e ouvir outro ponto de vista -  para entender a evolução de uma forma diferente e positiva.

[...]Primeiro, eu preciso corrigir um sério equívoco sobre a evolução. “Evolução” é comumente apresentada como uma filosofia materialista tanto por opositores que são criacionistas de terra jovem quanto pelos que são adeptos do design inteligente, e também por aqueles no extremo oposto do espectro de opiniões, que afirmam que o mundo material é tudo que existe. Caso você leia trabalhos de anti-evolucionistas como o criacionista terra jovem Ken Ham, ou o defensor do design inteligente Phillip Johnson, ou de evolucionistas materialistas como o cientista Richard Dawkins e o filósofo Daniel Dennett, você vai descobrir que este grupo tão diferente de cristãos fundamentalistas e ateus fundamentalistas, concordam em uma coisa: se a evolução explica tudo sobre a realidade, e se você aceita isso, então você deve atirar a religião e a crença em Deus pela janela.  Aqueles de nós que aceitam a ciência evolucionista e acreditam que a criação de Deus é evolutiva, rejeitam este tragicamente errôneo ponto de vista. Vou abordar os argumentos desses porta-vozes em ensaios separados mais tarde, mas quero deixar registrado aqui que ambos os lados falham em distinguir entre uma teoria científica que empiricamente descreve o que encontra na natureza, e um sistema materialista de crenças. Os materialistas alegam que sua filosofia necessariamente provém da ciência, e que a evolução eliminou qualquer necessidade de um Deus. Os criacionistas, estranhamente, compram este falso argumento, e concordando que não se pode separar a ciência da filosofia, rejeitam ambos. Então os criacionistas terra jovem oferecem sua “ciência da criação” e os proponentes do design inteligente a sua “ciência teísta”. Em ensaios posteriores, vou demonstrar como ambos reprovam no teste de boa ciência.[...]

Ambos os lados tendem a fazer-se ouvir amplamente em explanações públicas, debates, livros, artigos, sites, e entrevistas em canais de televisão. Mas eles são extremos que excluem a opinião intermediária, que é esta:

evolução é ciência e não uma filosofia materialista; ela não faz explanações sobre qualquer coisa fora da natureza; ela não faz declarações nem a favor nem contra a existência de Deus, ou a noção de que vivemos em um universo criado.

O restante do artigo pode ser lido no link abaixo:

Evolution for Christians – Robert J. Schneider

600--deusedarwinNo restante do ensaio, o autor apresenta uma explanação sobre macro e micro-evolução, apresentando as evidências existentes que suportam ambas. Também fala sobre como as pessoas confundem o significado da palavra “teoria” em se tratando de ciência, como se uma “teoria” não passasse de invenção da cabeça de cientistas desocupados, e não algo que foi construído com base em fatos encontrados na natureza. Explica que a evolução é uma teoria científica embasada em um amplo espectro de dados observados na geologia, paleontologia, ecologia, biologia de populações, genética, biologia do desenvolvimento (e muitas outras áreas científicas). E nesse caso a evolução é aceita tanto como fato quanto como teoria científica, baseada numa enorme quantidade de evidências empíricas.

Entre as evidências empíricas, o autor enumera: registros fósseis de espécies já extintas que continuam sendo encontradas às centenas em diferentes estratos geológicos, e estudados sistematicamente por paleontologistas. Os registros fósseis ajudaram a preencher diversas lacunas que Darwin previu que seriam preenchidas no futuro, inclusive tendo sido encontrados diversos exemplos de formas intermediárias. Vários exemplos são citados.  Outras evidências citadas pelo autor situam-se na área da anatomia comparada, biogeografia (impacto do ambiente na diversificação das espécies) e biologia molecular comparada (sendo que os estudos sobre o DNA evidenciam que todos os seres vivos compartilham uma mesma estrutura – molécula do DNA – e as mesmas quatro bases; e a decodificação do código genético de diversas espécies também é um fortíssimo apoio para a evolução).

Em seguida o autor explica como a evolução ocorre, e sobre como os cientistas trabalham para reconstruir a história da evolução, por meio das relações evolutivas que já foram encontradas entre as espécies, e indica várias literaturas.

Se desejar maiores explicações, consulte seus livros de ciências do ensino médio (eles não são mentirosos como o seu pastor ou professor de escola dominical dizem que são), ou busque literaturas específicas. E se deseja continuar em algum dos extremos anti-evolucionistas (cristãos ou ateus), mesmo sabendo que existe a possibilidade de ter uma visão intermediária, que coloca ciência e fé juntas, cada qual no seu devido lugar, sem desmerecer nenhuma das duas, aí é questão de “fé” sua.

Eu, como todos os que costumam visitar o blog sabem, desde sempre já optei pela coluna do meio (ciência e fé somando uma à outra, e equilibrando forças para a construção do conhecimento).

Ouse evoluir… = )


Fé e crença

Junho 21, 2009

por Jacques Ellul

Toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião.

De um único verbo, crer, originam-se dois substantivos que representam ações radicalmente opostas: crença e fé. Porém quando quero usar uma forma verbal para expressar a minha fé tenho ainda de usar crer, a não ser que escolha uma fórmula ainda pior, ter fé.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas crêem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé é, em primeira instância, ouvir, como Barth tão freqüentemente nos faz lembrar. A crença fala e fala, atola-se em palavras, interpola os deuses, toma a iniciativa. A fé requer um posicionamento inteiramente oposto: a fé espera, permanece atenta, colhe sinais, sabe o que fazer das parábolas mais delicadas; ela ouve pacientemente o silêncio até que o silêncio seja preenchido pelo que ela toma sendo a inquestionável palavra de Deus, palavra da qual se apropria.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

Deus particulariza, singulariza a pessoa a quem ele diz “eu te chamo pelo teu nome” (Isaías 45.4). A fé separa cada pessoa das demais e faz única cada uma delas. Na Bíblia a palavra santo significa separado, à parte. Ser santo é ser separado de todos os outros, é ser único em razão da tarefa que não pode ser desempenhada por nenhuma outra pessoa, tarefa que se recebe pela fé.

Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, e têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir. Isso leva a um elevado grau de eficiência; o crente é uma pessoa que faz o que precisa ser feito, mas toda a sua atividade é, no fundo, vazia. Os crentes tem uma realidade própria tão pequena que só são capazes de viver e expressar essa realidade dentro de uma unidade convencionalmente estabelecida. São gente de ajuntamentos. Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, dependem da certeza de que esses outros realmente acreditam, e assim têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. Multiplicar o número de liturgias, compromissos e atividades dá aos crentes a completa satisfação; rodeados por isso tudo eles não tem necessidade de questionar a verdade ou realidade da sua própria crença: a atividade os mantém ocupados.

Nesse cenário a diversidade de crenças torna-se intolerável. A dúvida e as incertezas são radicalmente destrutivas para a crença, e em razão disso a crença não pode tolerá-las. A crença é inimiga da diversidade. A diversidade é sempre uma fonte de novos questionamentos e propicia um ambiente para a autocrítica. Diante da diversidade corremos o risco de nos depararmos outra vez com a dúvida. Para evitar esse inimigo a crença precisa ser e é de fato rapidamente transformada em senhas, ritos e ortodoxia.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida. A fé coloca à prova cada elemento da minha vida e do meu contexto social; não poupa nada nem ninguém. Ela é implacável em me levar a questionar todas as minhas convicções: cada uma das minhas moralidades, crenças e posições políticas. A fé me impede de atribuir significado definitivo a qualquer área da atividade humana. Ela me desprende e me livra do dinheiro, da família, do meu emprego e da minha capacidade intelectual. Ela é o caminho mais certo para me levar a admitir que a única coisa que sei é que nada sei. A fé não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação. Ela faz com que eu me depare com minha condição de incompleto, e desmascara minha incredulidade (naturalmente a fé é a arma mais certeira e letal contra as crenças em geral).

A crença é confortadora.

A crença é confortadora. A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Ao contrário, a fé continuamente nos coloca no fio da navalha. Embora saiba que Deus é Pai, ela nunca minimiza o seu poder. “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” (Marcos 4.41). Essa é uma pergunta da fé. Para a crença as coisas são simples: Deus é Todo-Poderoso. Com a crença nós normalizamos Deus, para que possamos nos sentir confortáveis diante do seu poder. Apenas a fé é capaz de apreciar a imensidão de Deus e a sua verdadeira natureza.

A dúvida, que constitui parte integral da fé, diz respeito a mim mesmo; não diz respeito à revelação de Deus ou ao seu amor nem à presença de Jesus Cristo. Trata-se da dúvida a respeito da efetividade, até mesmo da legitimidade, daquilo que faço e a respeito das forças a que me submeto na minha igreja e na sociedade. Além disso, a fé coloca a si mesma à prova. Se discirno o tumulto da fé dentro de mim, tenho de adotar como primeira regra não enganar a mim mesmo, não me deixando abandonar à crença indiscriminadamente. Passarei a ter de sujeitar minhas crenças a uma crítica rigorosa. Terei de dar ouvidos a todas as negações e ataques dirigidos a elas, de modo que possa compreender o quão é sólido o objeto da minha fé. A fé não apóia meias-verdades e meias-certezas. Ela me obriga a enfrentar o fato de que não sou nada, e ao fazer isso recebo todas as coisas de presente.

A crença está associada a coisas, a realidades e a comportamentos que são elevados ao status de valor definitivo, a ponto de serem merecedores de que se morra por eles. A crença veste realidades humanas finitas para que se apresentem como sendo realidades definitivas, absolutas e fundamentais. Através da crença tudo que pertence ao âmbito da Promessa, da Palavra de Deus e do Reino é transformado em efeito colateral, em palavras doces e piedosas, em meios de tornar a vida mais fácil e num processo de auto-justificação.

A fé trabalha de forma oposta. Ela reconhece o Definitivo em sua verdade incontestável, e assim atribui pouca importância a qualquer coisa que se apresente como substituto desse Definitivo. Não se trata de olhar para uma fonte externa de uma realidade definitiva; o Reino dos céus está agora entre e ou dentro de vocês. A partir de agora você é que constitui o reino. A fé é a exigência de que encarnemos o Reino de Deus agora, neste mundo e nesta época.

Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro.

Ninguém jamais progride da crença para a fé, muito embora a fé em muitos, com muita freqüência, degenere em crença. Você não pode chegar à fé por meio de qualquer religião ou crença antiga, através de alguma vaga exaltação espiritual ou de emoções estéticas. De um ponto de vista cristão, crer não é melhor do que não crer; ter uma religião não é melhor do que não ter. A crença é uma estrada que não leva à fé. Não é possível transformar uma convicção pessoal a respeito do valor de rituais num ato de postura solitária diante de Deus. A implicação disso é verdadeira: toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião. Elas induzem a escolhas espirituais que não substituem a fé, impedindo-nos de descobrir, de ouvir e aceitar a fé revelada em Jesus Cristo.

Kierkegaard defende a idéia de que, para uma pessoa criada com toda a cultura do Natal, que teve todas as suas pequenas necessidades espirituais satisfeitas pela igreja, é mais difícil receber o choque da revelação, descobrir o Único, e entrar na noite escura da alma, do que para aquele que não fez outra coisa na vida a não ser buscar continuamente sem nunca chegar a uma resposta satisfatória. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro. Não existe caminho que leve de um pouquinho de religião (de qualquer tipo) a um pouquinho mais e finalmente à fé. A fé destrói toda a religião e tudo que entendemos como espiritual. Por outro lado, a passagem da fé para a crença é possível e uma ameaça constante. É o caminho do retrocesso ao qual a igreja e vida cristã estão sempre sujeitos. A fé está constantemente degenerando em múltiplas crenças. Nenhum termo expressa melhor essa mudança imperceptível do que “ter fé”. Quando nós tomamos posse da fé, quando alegamos sermos proprietários dela, naturalmente estamos pensando que podemos dispor dela do modo que desejarmos. A única coisa que temos o direito de dizer é “a fé me tem”. Todo o resto é mera crença.

Fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós. Sou intimado por uma Palavra que é eterna, universal e pessoal aqui e agora. Aceitar a intimação. Dispor-se a agir de forma responsável, entrando numa aventura ilógica, sem saber sua origem nem o seu fim. Assim é a fé.

A apologética tenta provar que o cristianismo responde às perguntas da humanidade, que ele é verdadeiro e superior às outras religiões. Fica evidente que isso limita nossa discussão ao nível religioso. Somos capazes de demonstrar que o cristianismo pode conduzir um debate razoável. Ocorre porém que esses debates entre intelectuais são totalmente estéreis; um jamais chega a convencer o outro. Nenhum apologeta chegou a trazer um incrédulo para a fé, mesmo os que sabiam que haviam vencido a retórica do adversário. A abordagem meramente lógica e intelectualista leva a um beco sem saída. O intelecto não é capaz de invocar ou demonstrar o caminho da fé.

Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.

A crença é um refúgio e um escape da realidade. Em nossa busca natural por proteção nos agarramos a ela como uma garantia ou uma apólice de seguros. Radicalmente oposta à crença é a fé. Fé é assumir riscos, deixar para trás segurança e tranqüilidade, desprezar garantias: é pisar, como o discípulo, para fora do barco no mar da Galiléia. Se vivemos pela fé, não há necessidade de implorar que ele nos salve do perigo. Torna-se suficiente saber que ele está ali, mesmo que o perigo se mostre mortal; o que quer que o amor de Deus queira fazer ou esteja fazendo em nós será feito, não importa o quê.

Porquê crer? Usando “crer” no sentido de “participar da fé”, não temos nenhum resposta. Acreditar porquê? Com vistas a quê? Para realizar o quê? Para conseguir o quê? São questões sem sentido. Cremos por razão nenhuma. Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita. Isso vai parecer chocante, especialmente para os protestantes, que falaram tanto de salvação pela fé, da fé como condição da salvação, que chegaram a dizer “você crê, por isso será salvo”. Mas temos de ficar voltando à fé e a sua gratuidade. Se Deus ama e salva a humanidade sem pedir preço algum, ele quer a contrapartida de ser crido e amado sem propósito algum; Deus quer ser crido e amado sem que seja por mero interesse pessoal, simplesmente por nada. Isso é escandaloso, e ainda assim tão fácil de compreender se considerarmos o amor. No momento em que um homem e uma mulher se amam por alguma razão concreta, qualquer que seja, dinheiro, prestígio, beleza ou posição, o amor deixa de ser. O amor é sem causa e sem interesses pessoais ; o amor é sem razão.

A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões.

A fé é uma constante ação recíproca; ela nunca fica estagnada ou se acomoda. Não se pode encarnar a fé de um modo estático e definitivo. A fé é um perene novo ponto crítico. A fé portanto é a contínua presença da tentação e uma visão cada vez mais clara da realidade. Ela implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana. A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. A fé é levada a prosseguir em criticar, julgar e radicalmente rejeitar todas as reivindicações religiosas humanas. Precisamos ser cautelosos nesse ponto. Não são pessoas que estão sendo julgadas ou criticadas aqui; a vontade de poder das pessoas e a expressão disso na forma de religião é que é criticada, julgada e rejeitada. Mas a crítica da religião feita pela fé pode estar enraizada apenas na sua crítica de si mesma.

A fé me leva a tomar parte de tudo, e ao mesmo tempo me mostra tudo sob uma luz que não é a razão, a experiência ou o senso comum. Não se trata de uma operação intelectual, é sim uma atitude existencial. A fé traz a luz a nova pessoa manifestada em amor e lucidez.

Hoje em dia a fé dos cristãos na igreja se desencaminhou. A sua obsessão com o conteúdo da sua fé (teólogos discutindo termos técnicos) ao invés da paixão pelo movimento e pela vida da fé, acabou desencadeando a nossa crise mundial. Mas o imutável permanece imutável. O Último, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro não mudou. A fé é nossa responsabilidade de fazer com que o Transcendente, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro Ser, torne-se uma realidade ativa dia após dia em nosso contexto, hoje onde quer que estivermos. A fé só move montanhas quando fala ao onipotente criador – quando me sujeito a ouvir a palavra da fé.

Extraído de Fé Viva: Crença e Dúvida num Mundo Perigoso. San Francisco: Harper and Row, Publishers, 1983.

Tradução: Paulo Roberto Purim
Revisão: L. Ivan Volcov

Postado originalmente em: A Bacia das Almas – Onde as idéias não descansam, de Paulo Brabo

Link para o texto original: Fé e Crença

Um texto muito bom para ser citado apenas pela metade…


Kierkegaard: cristianismo e solidão

Junho 21, 2009

Por Frederico Schwerin Secco*

Para Kierkegaard, pensador dinamarquês do século XIX, a questão principal da existência era como tornar-se um verdadeiro cristão numa época em que o Cristianismo havia sofrido todo tipo de descaracterização e vulgarização. Para ele, num mundo em que já nascemos cristãos, a pergunta pela verdade do Cristianismo deve ser recolocada com a máxima urgência e seriedade com vistas a recuperar a verdade da mensagem de Cristo. A resposta a essa questão tão premente, entretanto, não poderia ser efetuada pelo estudo sistemático das questões religiosas. Kierkegaard postulava a necessidade de uma educação pelo sofrimento; a resposta à questão do tornar-se cristão deveria ser encontrada na própria tentativa de viver o Cristianismo a partir das exigências reveladas, ao invés de entendê-lo pela via fácil e cômoda da convivência paroquiana.

Daí a preocupação de Kierkegaard em toda a sua obra: o aprendizado do sentido da vida não se faz em conjunto, não se percorre em grupos; o caminho é realizado solitariamente. Encontramos, nesse momento, a categoria que iluminará e norteará todo o percurso do pensamento do autor dinamarquês, uma vez que explicitará os requisitos necessários para uma reflexão criteriosa e uma busca daquilo que ele considera como a tarefa de uma existência autêntica: “O Indivíduo: eis a categoria pela qual devem passar, sob o ponto de vista religioso, a época, a história, a humanidade”.

Tornar-se o Indivíduo será a exigência primordial daquele que se dispõe a enfrentar os desafios colocados pela vida em sua radicalidade. Nesse sentido, Indivíduo não é o que cada homem já é enquanto estrutura humana singular dada, mas uma noção que indica a intenção ou a disposição que cada homem possui, de lutar pela procura do sentido da sua existência singular. Essa disposição caracteriza-se por ser uma tomada de decisão em que o ser humano se afasta do geral para tornar-se aquele que caminha sozinho. À medida que esse movimento de buscar o sentido da existência dá-se como movimento de procura do sentido da própria existência, é importante ressaltar que, para Kierkegaard, essa estrutura de construção de sentido não se realiza individualísticamente ou por meio de um subjetivismo egoísta. Pois o homem não se afasta dos outros homens por um movimento de negação destes. A estrutura de busca de sentido e de realização do Indivíduo perante Deus exige uma concentração somente possibilitada pela solidão.

“Não são grandes aqueles barcos que se equipam e que se consegue, com muito custo, lançar às profundezas, não, trata-se de barcos muito pequenos, canoas destinadas a uma única pessoa; aproveita-se o instante, desenrolam-se as velas, sozinho, com a rapidez infinita dos pensamentos inquietos, passa-se ao longo do mar infinito, sozinhos sob o céu infinito. Esta vida é perigosa, mas estamos familiarizados com a idéia de perdê-la; pois o verdadeiro gozo consiste justamente em desaparecer no infinito, de modo que tudo o que restar disso será apenas a felicidade desse desaparecimento.” Kierkegaard.

* Frederico Schwerin Secco é doutor em Filosofia pela UFRJ e professor da UENF.

Fonte: Kierkegaard: cristianismo e solidão