Apocalipse: um guia para os jovens

julho 11, 2011

por Michael Spencer

Os jovens querem saber sobre o Apocalipse.

Uma das melhores coisas sobre trabalhar com jovens na igreja ou em uma escola cristã, como fiz por 28 anos, é responder perguntas sobre a bíblia. Há, entretanto, uma coisa que aprendi sobre as perguntas dos jovens a respeito da bíblia. A maioria delas são sobre o livro mais difícil, o livro do apocalipse. E essas questões são muito difíceis de responder.

Os mais jovens ficam curiosos a respeito do livro do Apocalipse por muitas razões. Se o leram, estão certamente curiosos a respeito do que foi lido. É um livro cheio de coisas misteriosas que não estão explicadas. O Apocalipse é também assunto de livros e filmes, como aquela série popular “Deixados para trás” e os filmes “The Omega Code”. Pregadores na TV e nas igrejas têm muito a dizer sobre o livro do Apocalipse, e muito do que dizem a respeito dos significados deste livro, parece certo. Naturalmente, os mais jovens ficam curiosos a respeito deste livro, quando ouvem falar que é um livro de previsões do futuro.

O livro do Apocalipse tem uma reputação diferente de qualquer outro livro da bíblia. É raro que eu tenha algum aluno que faça perguntas sobre o livro de Romanos ou o de Atos. Estes livros são considerados chatos, e se um estudante os lê a história e as ideias parecem ser todas de “muito tempo atrás”.  O Apocalipse, por outro lado, parece ser a respeito de um futuro imediato. Parece estar falando sobre “coisas que em breve acontecerão”. Qualquer pessoa normal fica curiosa a respeito do futuro, e o livro do Apocalipse parece atiçar a coceira da curiosidade.

O que nós sabemos sobre o livro do Apocalipse?

Talvez, a parte mais frustrante de tais questões é que, na maioria das vezes, é praticamente impossível explicar tudo que uma pessoa precisa saber sobre o livro do Apocalipse, com umas poucas frases. É um livro muito difícil! De fato, quando o Novo Testamento teve seus livros colocados todos juntos, muitos líderes cristãos sentiam que o livro não deveria estar na bíblia, porque seria muito confuso. Continua um livro confuso, mas certamente permaneceu na bíblia. Simplesmente temos que pagar o preço e estudar mais.

Há centenas de livros escritos sobre o livro do Apocalipse. A maior parte deles estão além da capacidade do jovem estudante mediano, de ler e entender. Parte do que estou escrevendo neste ensaio, é para encorajar esses jovens a querer aprender mais, e de forma perseverante, procurar e ler os livros mais fáceis, que possam ajudá-los a entender o livro do Apocalipse.

A dificuldade em entender o livro do Apocalipse não vem do que sabemos a respeito deste livro. A maioria dos estudiosos concorda na maioria das coisas básicas a respeito dele.

Foi escrito no final do primeiro século depois de Cristo, talvez em torno de 95 dC. O autor, João, e muitos cristãos acreditam que era o apóstolo João, um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus e o autor do evangelho segundo João. Há outros líderes cristãos acreditam que foi escrito por um João do primeiro século, mas o escritor do livro não nos conta muita coisa a respeito de si mesmo. Na verdade, ele deixa claro que é mais um “secretário” do que qualquer outra coisa, escrevendo o que viu e ouviu.

O livro foi escrito para sete igrejas que existiam no que era chamado de Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia. Estas igrejas eram todas diferentes umas das outras em tamanho, mas todas elas precisavam de encorajamento. Os capítulos dois e três do Apocalipse possuem mensagens específicas de Jesus para cada uma destas sete igrejas, e estes capítulos estão entre os mais fáceis de ler e entender.

Destas mensagens, sabemos que as igrejas que leram este livro pela primeira vez, estavam passando por tempos difíceis. Algumas estavam sendo perseguidas e tendo seus membros executados. Havia falsos mestres em outras igrejas. Algumas delas eram ricas e se tornaram frias em seu compromisso com Jesus. Outras eram igrejas pobres e sofredoras, e eram usualmente aconselhadas a permanecer fieis no sofrimento.

O livro do Apocalipse foi escrito durante a época do Império Romano. Os romanos dominavam a maior parte do mundo conhecido no primeiro século, e os imperadores romanos eram muito poderosos. Na verdade, muitos destes imperadores exigiam ser adorados como se fossem deuses. Em muitas cidades que queriam mostrar que eram grandes “fãs” do imperador, templos eram construídos e todo “bom cidadão” romano tinha que fazer uma oferta de incenso e afirmar “César é o Senhor” ou “O imperador é Deus”.

Esta “profissão de fidelidade” ao imperador não era problema para a maior parte das pessoas, mas para os primeiros cristãos, era uma escolha difícil.  Eles acreditavam que Jesus era Senhor e Deus, e seria errado ir a um templo e “adorar” o imperador romano.Muitos cristãos se recusavam a fazer isso, e como resultado, eram vítimas de perseguições de vários tipos. Na época em que o livro do Apocalipse foi escrito, o imperador romano era Domiciano, e ele era muito rigoroso a respeito da adoração nos seus templos. As cidades construíam templos para ele, tinham estátuas enormes para o povo adorar, e eram até mesmo empregados “pastores” para impor a adoração de Domiciano.

Esse tipo de situação é muito difícil para um cristão americano entender. Nós nunca vivemos sob o poder de um imperador ou império. Sempre governamos a nós mesmos e temos liberdade religiosa. Os cristãos algumas vezes são perseguidos ou proibidos de fazer algumas coisas, mas poucos cristãos americanos sabem o que é ser aprisionado ou morto por serem cristãos.

Mas imagine: Como era ser cristão na China comunista? Na ex-União Soviética? Em lugares como o Sudão ou em países islâmicos hostis, como a Arábia Saudita? Nesses lugares, era (e é) comum para milhares de cristãos sofrer e morrer porque não “adoram” os “deuses” destas nações, e sim, Jesus.

Estes cristão que estão sofrendo, provavelmente entendem o livro de Apocalipse muito melhor do que nós, porque eles entendem o que é sofrer, e ter que viver com a escolha de obedecer ou morrer.

O livro do Apocalipse é uma mensagem especial para os cristãos do primeiro século. É uma mensagem que afirma “Jesus é o Senhor!” O imperador Domiciano não é o Senhor! Deus está no controle de tudo que está acontecendo. O futuro será de acordo com os planos de Deus, e preencherá os propósitos dEle. Não importa quão ruins as coisas fiquem ao longo do caminho, os cristãos devem permanecer fieis, estar dispostos a sofrer, e esperar que Deus leve todas as coisas a termo no Seu Reino.

Entender que o livro do Apocalipse é uma mensagem para os cristãos do primeiro século, não significa que não serve para nós hoje. O Apocalipse é uma mensagem para todos os cristãos em todos os tempos. Sua mensagem e sua história pertencem a todas as gerações e a todos os cristãos.

Por que é tão difícil de entender?

Tudo isso não é realmente muito difícil de entender. Qualquer estudante mediano pode facilmente aprender essa informação e passar num teste!  O que não é fácil a respeito do livro do Apocalipse, é a forma pela qual é escrito, especialmente do capítulo três em diante. O livro se torna muito estranho. Vamos falar a respeito da forma com a qual o livro foi escrito, e porque foi escrito desse jeito.

O livro do Apocalipse usa muitos símbolos e imagens para contar sua história. É como assistir um filme muito, muito estranho. Há monstros, anjos, eventos estranhos, personagens misteriosos, muitos números e enigmas. Está tudo realmente acontecendo desse jeito?

Por exemplo, no capítulo 12, há realmente um dragão querendo devorar uma criança? Ele tem de verdade sete cabeças? O bebê é realmente levado para o céu? Será que a mulher teve mesmo que se esconder no deserto por mais de mil dias? O dragão realmente vomitou um rio, e a terra realmente se abriu e o engoliu?

Esta é a forma típica pela qual o Apocalipse fala conosco, e se você diz a si mesmo “Isso não pode ser real. Isso parece ser algum tipo de simbologia ou código”, então você acertou.  Isso não é como um videotape a respeito das notícias do dia. É muito mais parecido com uma pintura, cheia de personagens e cores e números e eventos que possuem significados ocultos, que fazem sentido para algumas pessoas, mas não para outras.

O apocalipse é escrito em algum tipo de “código”, como aqueles das charges políticas. Se você está lendo uma charge política, e vê um elefante pisando um jumento na estrada, você entende que não é isso que está “realmente” acontecendo. O elefante representa o partido republicano, e o jumento, os democratas. Se vemos “Tio Sam”, sabemos que se refere aos Estados Unidos, e um urso, se refere à Rússia.

No Apocalipse, o dragão, a besta, o falso profeta, o cordeiro, a grande prostituta e outros personagens, são fáceis de identificar se você sabe o que eles representam.

Os números funcionam da mesma maneira. Qualquer fã da NASCAR conhece o número “3”. Todo americano sabe o que representa “9-11″. Todo fã da NBA sabe que “23” é o número do Michael Jordan. Da mesma forma, o Apocalipse usa um código numérico para se comunicar com o leitor. O livro do Apocalipse usa também um código de cores com o mesmo objetivo.

Isso é uma resposta?

Seria perfeito se o Apocalipse nos fornecesse as chaves para todos esses códigos! Isso teria deixado as coisas bem mais fáceis. Mas não faz isso, ou pelo menos, não faz do jeito que queremos, com todos os códigos explicados no final de uma forma fácil de entender. Não, os códigos do Apocalipse têm que ser entendidos pelo entendimento de duas coisas.

Primeiro, o Apocalipse tem mais de 400 referências ao Antigo Testamento. Quanto melhor você conhecer o Antigo Testamento, melhor vai entender o Apocalipse. Por exemplo, o livro do Apocalipse fala frequentemente sobre “Babilônia” como um símbolo. Se você conhece o Antigo Testamento, sabe que Babilônia foi um império da antiguidade e um inimigo do povo de Deus, uma cidade onde os israelitas ficaram em cativeiro por 70 anos, e simboliza o poder do mal no mundo.

Outro exemplo é o templo. O Apocalipse usa com frequência a figura do templo como um símbolo. No Antigo Testamento, havia dois templos, e há muita informação sobre o que acontecia nos templos. Sacrifícios, sacerdotes, música, altares, incenso – tudo isso está descrito em diversos lugares diferentes no Antigo Testamento. Um dos livros do Antigo Testamento, Ezequiel, tem uma descrição detalhada de como seria um templo perfeito, do futuro. Então, quando o livro do Apocalipse fala sobre templo, temos muitas ideias sobre o que isso significa.

Num determinado momento, o livro do Apocalipse se refere a um certo falso mestre como “Jezebel”. Jezebel era uma rainha malvada que promoveu a adoração de falsos deuses e mandou matar profetas de Deus e outras pessoas. Sem citar nomes, o livro do Apocalipse diz que alguém se parece com Jezebel. É desta forma que o livro do Apocalipse usa referências do Antigo Testamento.

Usar referências do Antigo Testamento era uma forma de se comunicar apenas com as pessoas que conheciam a bíblia, mas esconder a mensagem de pessoas que não conheciam a bíblia tão bem… como os romanos, por exemplo.

A segunda maneira de entender os códigos do livro do Apocalipse é estudar outros livros parecidos, escritos na antiguidade, em situações semelhantes e usando linguagem semelhante. O problema aqui é que não há nada que se pareça exatamente com o livro do Apocalipse na Bíblia. Há um livro que se aproxima o suficiente e pode ser útil, e este, é o livro de Daniel.

Este estudo não vai falar sobre o livro de Daniel, mas posso contar para você como este livro é semelhante ao do Apocalipse. Ele também foi escrito quando o povo de Deus estava sofrendo. Ele também encoraja as pessoas a serem fieis e corajosas, como o próprio Daniel foi. Também usa muitas imagens e símbolos, em sonhos e visões, para comunicar a mensagem de que não importa o que aconteça na história, Deus está no controle. Ele usa muitos dos mesmos códigos, e algumas das mesmas criaturas.

Comparar Daniel com o Apocalipse pode ajudar muito. O que é útil também, é ler livros antigos que NÃO estão na Bíblia, mas usam “códigos” similares para comunicar suas mensagens. Aqui, é o ponto onde um estudante da bíblia deve confiar nos estudiosos que escreveram livros para nós. A maioria de nós não dispõe de tempo ou meios para aprender as línguas originais e para ir a bibliotecas e estudar. Mas podemos ler o que esses estudiosos têm descoberto e transmitido para nós.

Quando usamos estes dois códigos, o que encontramos? Encontramos que a maior parte do que está no livro do Apocalipse pode ser entendido com bem pouco trabalho. Não conheço ninguém que afirme que entende tudo o que diz no livro do Apocalipse, e muitos estudiosos discordam entre si. Mas uma parte substancial dos estudiosos que pesquisam sobre o livro do Apocalipse, concorda a respeito do que o livro do Apocalipse, basicamente, diz.

(De qualquer jeito, o código especial usado no livro do Apocalipse e em Daniel, é chamado de literatura “apocalíptica”. A palavra “apocalíptica é a expressão grega para “descoberto” ou “revelado” e é atualmente, a primeira palavra que aparece na primeira frase do livro do Apocalipse.

Por que tanta discordância?

Uma das coisas mais frustrantes a respeito da tentativa de falar sobre o livro do Apocalipse, é que não há outro livro que tenha gerado tantas opiniões e ideias diferentes, por pessoas diferentes – todas alegando estarem certas. Isso pode ser muito desencorajador para um jovem que quer entender o livro do Apocalipse.

Por exemplo, os populares livros “Deixados para trás”, venderam mais de 40 milhões de cópias. Eles trazem um ponto de vista a respeito da mensagem do livro do Apocalipse. Eu discordo desse ponto de vista em quase tudo, então realmente não gosto desses livros, e geralmente não recomendo aos meus alunos, que os leiam. Meus pontos de vista a respeito do livro do Apocalipse são mais parecidos com os pregadores de muito tempo atrás. Quem está certo?

Um estudante do livro do Apocalipse é levado a aceitar o fato de que precisa aprender várias formas diferentes de entender qualquer parte do livro, dependendo do que está lendo ou de quem está ensinando. Por exemplo, no capítulo sete, há 144 mil pessoas citadas. Eu penso que seja um símbolo. Outros professores pensam que é literal, um grupo de 144 mil pessoas, nem mais, nem menos. Sou influenciado pelo “código numérico” do mundo antigo, onde 12 era o número de tribos de Israel e qualquer variação que gire em torno desse número 12 faz total sentido,  Penso que é um símbolo para representar “todo o povo de Deus na Terra”. Outros professores dizem que são 144 mil judeus das 12 tribos de Israel.

Essas divergências são irritantes, eu sei! Mas são parte do que significa ser um estudante do livro de Apocalipse. A boa nova é que há apenas quatro ou cinco formas diferentes de olhar para o livro, e na maioria dos casos, apenas duas ou três opções para o significado de alguma coisa; então, se você começa a se tornar familiar com essas “versões”, o jogo não parece mais tão confuso.

Quais são as “Perguntas Frequentes” sobre o livro do Apocalipse?

1. O livro do Apocalipse é sobre o futuro?

Provavelmente o primeiro erro que a maioria das pessoas comete a respeito do Apocalipse é assumir que é todo sobre o futuro. A leitura do livro do Apocalipse mostra rapidamente que se trata de passado, presente e futuro. Certamente, muito do que está ali se refere ao fim dos tempos e eventos do final da história, mas não cometa o erro de pensar que tudo é a respeito apenas do futuro.

2. O livro do Apocalipse nos conta em detalhe sobre os eventos futuros?

Esta é uma daquelas discordâncias a respeito das quais avisei você! Muitas pessoas olham para  o Apocalipse como se fosse um tipo de “mapa” que prevê o futuro em detalhes. Se você pode ler o mapa, eles dizem, pode saber o que vai acontecer. Outros – como eu – acreditam que o Apocalipse apenas mostra-nos o futuro de uma forma muito, muito geral, que pode ser aplicada a qualquer cristão, em qualquer época, em qualquer lugar. Devo alertar você de que cada geração anterior de cristãos, tendeu a pensar que entendia os eventos no Apocalipse claramente, e todos estavam errados em muito do que disseram a respeito.

Portanto, seja humilde e ensinável. O livro do Apocalipse é como uma grande montanha. Escalar essa montanha, demanda tipos diferentes de conhecimento, para escapar dos perigos e armadilhas, mas uma vez que tenhamos trabalhado para pegar bons pontos de vista, o trabalho vale a pena.

3. Quem ou o quê é “a besta”?

Há dois tipos de “bestas” no Apocalipse. Uma é do mar, a outra, da terra. Estas bestas provavelmente representam o imperador romano e o “culto” de adoração ao imperador, especialmente os sacerdotes que forçavam os cristãos a adorar o imperador, ou morrer.

Alguns estudiosos do Apocalipse acreditam que essas bestas representam um futuro “anti-Cristo” que governará o mundo e será instrumento de Satanás no fim dos tempos. Outros, como eu, acreditam que qualquer um que alegue ser “deus” e demande que o adorem ou morram, é um “anti-Cristo”. Homens maus como Hitler, Stalin ou Mao, são os que me vem a mente como exemplos.

Uma das maiores perdas de tempo para os cristãos é tentar identificar a “besta” em alguém que esteja presente nos noticiários. Por dois mil anos, os cristãos têm adivinhado errado, alegando que o Papa, Hitler, Ronald Reagan e outros eram o anti-Cristo. Se haverá um anti-Cristo no fim dos tempos, ele será óbvio em suas ações, e Cristo o destruirá.

A mensagem do Apocalipse é a de que não temos nada a temer a respeito de ninguém, desde que confiemos em Jesus como Senhor e o obedeçamos.

4. A besta é um computador, a Internet, o código de barras, microchips ou cartões de crédito?

Outra forma bastante idiota de ler o Apocalipse é tentar e encontrar alguma coisa no livro que se encaixe com nossas tecnologias atuais, tais como computadores ou microchips. Qualquer tipo de tecnologia pode ser usado para o bem ou para o mal. Poderia dizer a você, que abandone qualquer interpretação de alguma coisa no livro do Apocalipse, que não faça sentido para o mundo do primeiro século. Computadores e códigos de barras podem fazer sentido para nós, mas não significam nada para os cristãos do primeiro século, e o livro do Apocalipse é muito mais deles do que nosso.

Hal Lindsey, uma vez interpretou os “gafanhotos monstros” que aparecem em Apocalipse 9, como helicópteros. Eu interpreto esses “monstros”, como demônios. Qual interpretação parece fazer mais sentido para todos os cristãos, e qual faz mais sentido apenas para as pessoas modernas? Penso que isso é importante, e nos impedirá de correr atrás de “coelhos estranhos” no livro do Apocalipse.

5. O Papa é o anti-Cristo?

Houve tempos, como na Reforma do século XVI na Europa, em que a igreja católica perseguiu e matou muitos cristãos não-católicos. Isso é mau e vergonhoso,  e a igreja católica tem admitido seus erros em usar de violência contra aqueles que discordavam dela.  Naquela época, entretanto, poderia parecer lógico dizer que o Papa era o anti-Cristo do Apocalipse. Hoje, o Papa, enquanto representante de outro ramo do cristianismo, é claramente um amigo dos cristãos de todo o mundo, e não é um candidato a “anti-Cristo”.

6. O que é a “marca da besta”?

Esta é uma das mais difíceis e obscuras partes do livro do Apocalipse. Ocorre sete vezes no livro, do capítulo 13 até o final. Cristãos modernos tendem a ver isso como algum tipo de sistema de identificação do futuro, que os cristãos deverão evitar, como aplicar um número na testa de alguém, ou um microchip no seu corpo. Ao exigir que os cristãos sejam identificados, isso permitiria que fossem controlados.

A “marca” atual sobre a qual se fala, é provavelmente uma tatuagem que era aplicada em qualquer um que participava da adoração do imperador romano. Esta tatuagem, marcaria você como um cidadão leal de Roma, e permitiria que tivesse trabalho ou negócios. Sem a tatuagem ou marca, sua lealdade ao imperador podia ser questionada. Se recusar a receber a marca, provavelmente significava que você era um cristão.

Obviamente, os cristãos ficariam preocupados com qualquer coisa que pudesse ser usada para marcá-los e facilitar a perseguição. Mas cartões de crédito, microchips com informações profissionais e de saúde, e a internet, não são coisas que os cristãos devem evitar por medo “da marca”.

De novo, podemos perguntar como os primeiros leitores deste livro viam essa “marca”, e então aplicar isso a todos os grupos de leitores.

7. O que é o “ferimento na cabeça” da besta?

De novo, uma parte muito, muito difícil do livro. Muitos estudiosos estão prontos para dizer “eu não sei” e eu estou com eles. É um quebra-cabeças.

A melhor sugestão se parece com essa. Os cristãos foram perseguidos até a morte, primeiro, pelo imperador Nero, em torno de 60 dC. Nero foi morto por um ferimento na cabeça. Quando o imperador Domiciano começou a perseguir os cristãos 30 anos depois, alguns cristãos se sentiram como se Nero tivesse voltado dos mortos. Pode estar se referindo a isso, mas, na realidade, ninguém sabe.

Seja muito cuidadoso e humilde com esta parte do livro de Apocalipse. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo!

8. Onde está o arrebatamento no livro do Apocalipse?

Muitos cristãos acreditam que Cristo vai retornar duas vezes. Uma vez em segredo, para pegar a igreja e tirá-la do mundo, antes de severa perseguição (o arrebatamento), e na segunda vez, para julgar todos no final dos tempos. Estou convencido de que a bíblia ensina que Jesus voltará apenas uma vez, e que os cristãos devem estar preparados para a perseguição, e não esperar um arrebatamento para fora do mundo, antes dos tempos realmente difíceis, começarem. Então, eu não encontro nenhum arrebatamento no livro do Apocalipse.

Aqueles que acreditam no arrebatamento, geralmente dizem que acontece no capítulo 4, quando João é levado ao céu. Há sérios problemas com este ponto de vista, mas este estudo não é sobre o arrebatamento!

9. Quanto tempo vai durar a tribulação?

Este é, novamente, um daqueles termos que é usado de diferentes formas por aqueles que leem e estudam o livro do Apocalipse. Muitos cristãos acreditam que a “tribulação”, é um período de sete anos quando o anti-Cristo vai governar a Terra, depois de os cristão terem sido arrebatados. Outros, como eu, acreditam que “tribulação” é uma palavra usada 40 vezes no Novo Testamento, e ela sempre se refere a algum tipo de sofrimento ou perseguição por ser cristão, e não apenas sete anos.

Acredito que o livro do Apocalipse deixa claro em 7:14 que toda a história é uma “grande tribulação” e que todos os cristãos podem viver nela, dependendo do tempo e lugar onde vivem. Muitos cristãos estão sendo perseguidos hoje ao redor do mundo. Outros cristãos acreditam, que é um período definido de tempo, de sete anos. Parece tolice para mim, dizer que os milhões de cristãos que sofrem no mundo hoje, não estão em “tribulação”, e que isso só virá em algum tempo futuro. Parece mais bizarro ainda, dizer que os cristãos americanos devem orar para escapar da sua própria luxúria, em vez de orar por fidelidade no sofrimento, se é isso que o futuro realmente traz.

10. O livro do Apocalipse não é assustador?

Tive muitos alunos que me falaram que o livro do Apocalipse deixava-os com medo. Alguns, me falaram que a tarefa de leitura do livro, o fez ter pesadelos!  Isso é muito ruim, porque o livro do Apocalipse era para ser encorajador e confortador. Ele termina com uma visão maravilhosa do céu, que tem dado conforto a milhões de cristãos ao longo dos anos.

Mas muitas das cenas no Apocalipse são assustadoras, e para pessoas jovens que já assistiram muitos filmes de terror, algumas destas cenas podem ser perturbadoras.  É especialmente assustador para crianças, ouvir que o mundo vai acabar, as pessoas más ficarão para trás, e coisas terríveis acontecerão aos cristãos. Algumas partes do Apocalipse, lidas sem todo o contexto do livro, podem dar a entender que Satanás e seus demônios estão fazendo tudo acontecer.

Lembre-se, que o livro do Apocalipse é sobre Deus acabando com todo mal, todo sofrimento, e trazendo todo o Seu povo para um lugar maravilhoso, num novo céu e uma nova terra.

A young person’s guide to the book of Revelation – Michael Spencer – Internet Monk

A imagem que ilustra a postagem, é uma gravura chamada “Os quatro cavaleiros do apocalipse“, de Albrecht Dürer, feita em 1498.


Jefté era um bom camarada?

junho 27, 2011

No livro de Juízes 11:29-40, temos a história do voto de Jefté:

Então o Espírito do SENHOR veio sobre Jefté, e atravessou ele por Gileade e Manassés, passando por Mizpá de Gileade, e de Mizpá de Gileade passou até aos filhos de Amom. E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto. Assim Jefté passou aos filhos de Amom, a combater contra eles; e o SENHOR os deu na sua mão. E os feriu com grande mortandade, desde Aroer até chegar a Minite, vinte cidades, e até Abel-Queramim; assim foram subjugados os filhos de Amom diante dos filhos de Israel. Vindo, pois, Jefté a Mizpá, à sua casa, eis que a sua filha lhe saiu ao encontro com adufes e com danças; e era ela a única filha; não tinha ele outro filho nem filha. E aconteceu que, quando a viu, rasgou as suas vestes, e disse: Ah! filha minha, muito me abateste, e estás entre os que me turbam! Porque eu abri a minha boca ao SENHOR, e não tornarei atrás. E ela lhe disse: Meu pai, tu deste a palavra ao SENHOR, faze de mim conforme o que prometeste; pois o SENHOR te vingou dos teus inimigos, os filhos de Amom. Disse mais a seu pai: Conceda-me isto: Deixa-me por dois meses que vá, e desça pelos montes, e chore a minha virgindade, eu e as minhas companheiras. E disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então foi ela com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos montes. E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu homem; e daí veio o costume de Israel, que as filhas de Israel iam de ano em ano lamentar, por quatro dias, a filha de Jefté, o gileadita.

Não vou falar o que penso a respeito deste sujeito chamado Jefté, ok? Nem a respeito dessa ideia que ele fazia de Deus. E sobre ser tão orgulhoso, a ponto de não voltar atrás nesse voto absurdo, quando viu que ia ter que matar a própria filha. Foi bocudo, e em vez de se arrepender de ter colocado a vida dos outros em jogo, como se fossem objetos de aposta ou barganha com Deus, entregou a própria e única filha em holocausto. Tem quem ache bonita a história, dele ter realmente mantido esse voto estúpido que fez, e entregue em holocausto o primeiro que saiu de sua casa, mesmo tendo sido sua filha única. Eu considero quem, lendo essa história hoje, século XXI, acha a história bonita e Jefté, um exemplo de homem cumpridor da sua palavra, um doente.

Eu já fico horrorizada imaginando como eram aqueles sacrifícios de animais feitos em nome de Deus, imagina uma pessoa, uma criança, sendo degolada, sangrada e esquartejada ritualmente, e depois tendo os pedaços do corpo, queimados num altar?

Tem pessoas que alegam que “holocausto” nesse caso, quer dizer outra coisa que não seja mesmo “holocausto”, ou seja “sacrifício queimado”. Querem fazer Jefté parecer mais bonito do que é, dourar a pílula, enquanto a bíblia não faz isso. Jefté era filho bastardo, de uma prostituta, e por isso foi segregado pelos seus irmãos. Foi habitar no meio dos pagãos, onde sacrificar seres humanos, era aceitável e normal, e deve ter aprendido com eles. Foi chamado de volta, porque os que antes o expulsaram, estavam em apuros. Antes de barganhar com Deus, já havia barganhado com as pessoas que o foram buscar de volta, exigindo ser feito chefe deles, caso vencesse. No mesmo capítulo, é possível perceber o sentido tribal pelo qual os hebreus entendiam Deus, já que o próprio Jefté afirma que, assim como Deus deu a Israel as terras que os israelitas conquistaram, Camos, deus dos amonitas, deu aos amonitas suas próprias terras. As disputas de terra entre eles na época, eram vistas também como disputas entre seus deuses. Perder na guerra, sinal de que Deus estava bravo com eles ou não estava com eles. Eles achavam que Deus só estava com eles, quando ganhavam as guerras, coisa que muitos evangélicos acham que é verdade até hoje. Em seguida, Jefté fez aquele voto infeliz, pensando supostamente, em Deus. Ele via Deus, da mesma forma que os pagãos com os quais vivia, entendiam. E muitos o consideram um exemplo de homem que cumpre a palavra, e tentam adicionar coisas que o texto não diz, para limpar a barra dele.

Podia parecer muito bonito ele não voltar atrás na sua palavra, mas se ele fez um voto que acabou contrariando as próprias leis onde holocaustos humanos eram proibidos, e eram inclusive considerados abomináveis, o voto não tinha validade alguma.

Não é irônico pensar que, de acordo com o pensamento evangélico, Deus já sabia quem sairia em primeiro lugar para encontrar Jefté, na volta da guerra? E não interfere em nada? A história não se parece muito mais, com uma demonstração do que pode acontecer com pessoas sem noção, que são dadas a fazer votos e barganhas supostamente com Deus, de forma insensata e, além da insensatez das promessas que fazem, ainda levam a insensatez até o fim?

Aliás, o livro de Juízes em resumo é: hebreus chafurdando na lama, e no sangue. O sinal que identificava, de acordo com os hebreus, alguém que estava tomado pelo Espírito do Senhor, era se encher de ódio e instinto assassino, se colocar como comandante de Israel na guerra, e matar muitos inimigos da forma mais sangrenta possível, inclusive em surtos psicóticos como os de Sansão. Nesse livro, tem até uma versão modificada da história de Sodoma e Gomorra, mas desta vez, envolvendo as tribos de Israel. Os benjaminitas fazendo o papel de vilões, sendo atacados pelas outras tribos, que matam quase todos os homens, e exterminam todas as mulheres, depois ficam com pena dos homens que sobraram, e não podendo voltar atrás no juramento de que não dariam suas filhas em casamento aos benjaminitas, dão um jeitinho digamos, pouco lícito, de conseguir mulheres para eles. Horrível.


Teologia Moral de Causa e Efeito

maio 19, 2011

por Caio Fábio

O Gênesis do ministério de Jesus é tomar as “talhas que os judeus usavam para as purificações” e enchê-las de vinho!

E mais: é inegável que Jesus estivesse também dizendo que Nele, Deus estava casando agora apenas com quem queria talhas religiosas com vinho novo, na pior das hipóteses; e, na melhor delas, o que se deveria fazer, era deixar de lado o vinho velho e seu odre roto e pingantemente misturado ao próprio vinho, pois, nesse estágio, já não se sabe mais o que é odre e nem tampouco o que é vinho! O que se deve fazer é começar outra vez a partir de contêineres que se deixem curtir no vinho novo, que de acordo com o apóstolo João, não é novo, mas aquele que desde o princípio tivemos!

Sim, para Ele, aquele odre-vinho-vinho-odre—o da religião das talhas de pedra usadas para as purificações—era já um vinagre, que servia apenas para ser bebido por aqueles que de tão acostumados que estão aos gostos ruins, já não sabem a diferença entre o gosto-gostoso e o gosto-viciado. É para o de-Lei-te de seus viciados consumidores que o vinho-odre-odre-vinho serve ainda como diversão, sendo que o juízo ao próximo é o espetáculo!

Os discípulos de Jesus, todavia, não devem perder tempo com essas questões, e, por isto, precisam partir resolutamente para buscar odres mais adequados à sempre auto-renovação desse Vinho Novo. Afinal, ninguém que tenha se viciado no vinagre dirá que o vinho novo é excelente.

Ora, a Teologia Moral de Causa e Efeito é a fábrica de Odres com Grife e também a marmoraria onde são esculpidas as talhas de pedra usadas para as purificações!

O problema é que em Jesus não dá para se fazer mais nenhum tipo de aproveitamento dessa Indústria Religiosa e de suas Grifes e Selos Autorizadas. E a razão é simples: ela está para o Evangelho de Jesus assim como um perverso e desumano traficante de cocaína e heroína está para o bom samaritano—digo: mal comparando, e, apenas, no plano das relatividades humanas, pois, espiritualmente, o meu exemplo é muito menos grave que o contraste espiritual que tento expressar![...]

[...]Para Jesus os heróis da Graça eram os anti-heróis da religiosidade que o circundava e dos valores por ela ensinados.
Para a Teologia Moral de Causa e Efeito, TMCE— como daqui para frente chamaremos esse derivado natural da Teologia da Terra, filha religiosa do Sacrifício Competitivo de Caim —, o humilde de espírito era o lixo da espiritualidade; os que choravam eram vistos como culpados-infelizes; os mansos eram percebidos como desinteressados pelo zelo que disputava o espaço no chão da Terra; os que têm fome e sede de justiça eram interpretados como seres equivocados em suas ignorâncias radicais, pois, a única justiça que os mestres da TMCE conheciam era aquela que eles mesmos decidiam.

Já os misericordiosos eram os que tinham algo a esconder, daí se protegerem sendo bons com o próximo; os limpos de coração eram eles mesmos— os membros daquela confraria de amigos de Jó, é claro! afinal, não enxergavam seus próprios corações, pois só viam para fora de si mesmos, e, também, não esqueçamos: lavavam as mãos antes de comer!
Os pacificadores eram, em geral, considerados amigos de hereges; os perseguidos por causa da justiça, eram comum-mente aqueles acerca de quem eles patrocinavam o cartaz Wanted Dead or Alive! De preferência, bem dead !

E os injuriados e perseguidos figuravam, sobretudo, como foi no caso dos profetas, em sua lista de Most Wanted ! Esses, afinal, os Profetas, eram sempre a sua pior desGraça, eram os mais terríveis subversivos!

O seu “sal” não era para a Terra, era apenas uma produção egoísta e independente fadada a se petrificar em seus sa-Lei-ros inúteis. Afinal, não se viam no papel de dar gosto à vida, mas, ao contrário, o de roubar-lhe todo o sabor!

Luz do Mundo? Como? Eles não reconheciam nenhum outro mundo que não fosse o deles![...]

[...]“Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas”.  O “resumo” que Jesus faz de todo o seu ensino é horroroso para o coração honesto. Primeiro, porque ninguém, de fato, indo dos abismos da alma à prática cotidiana, consegue encarnar o tempo todo essa verdade.[...]

[...]Somente “os amigos de Jó” podem ler o Evangelho de Jesus e continuar pensando como os fariseus. A Ética do Amor—que é a única ética do Evangelho— nega todos os pressupostos da Teologia Moral de Causa e Efeito.

A Graça inverte os pólos da Ética, que, em Cristo, se vincula não à Moral, mas à obediência amorosa a Deus; e se expressa como resposta da consciência do amor à inconsciência do próximo, mesmo que seja o inimigo![...]

Só pesquei algumas coisas, pois o texto é imenso. Se quiser, leia o resto no link abaixo:

A moral não é a ética dos evangelhos – Caio Fábio


Uma teologia da evolução, e para a evolução

setembro 26, 2010

por Arthur Peacocke

Afirmo que, longe de a epopeia da evolução ser uma ameaça para a teologia cristã, é sim um estímulo para a teologia e também a base para uma compreensão mais abrangente e enriquecedora das inter-relações entre Deus, a humanidade e a natureza. Um argumento para a existência de Deus na “teologia-física” Anglo-Saxã (uma forma de teologia natural dos séculos XVIII e XIX), baseava-se em atribuir à uma ação direta de Deus o Designer, a existência dos intricados mecanismos biológicos.  Este argumento desabou, quando Darwin e seus sucessores, mostraram que esse design aparente pode evoluir por processos puramente naturais, baseados em processos cientificamente inteligíveis. O impacto inicial das ideias de Darwin na teologia é usualmente situado na lenda do debate entre o então bispo de Oxford com T. H. Huxley, no encontro da British Association for the Advancement of Science, num sábado, 30 de junho de 1860. Chamo de “lenda”, porque estudos históricos indicam que a história é uma construção posterior de Huxley e seus biógrafos, porque o impacto desse evento, atualmente muito citado, não foi tão grande na época. Não se encontra menção a ele em qualquer publicação entre 1860 e 1880. Depois disso, afirmações triunfalistas, a favor de Huxley e pela independência da profissão dos cientistas, começaram a aparecer em vários “Diários” e “Cartas”. Então, isso é realmente uma lenda, e hoje também um ícone do assim chamado conflito entre a religião e a ciência, biologia em particular, que todos nós herdamos. Mesmo no século XIX, muitos teólogos anglicanos, evangélicos e católicos, receberam positivamente a proposta da evolução. Entre os primeiros, podemos mencionar Charles Kingsley, o qual em seu “Water Babies”, afirmou que Deus faz “as coisas fazerem a si mesmas”; dos últimos, podemos citar Aubrey Moore, que em “Lux Mundi” (uma publicação de um grupo de anglicanos de Oxford), em 1889, escreveu: “O Darwinismo apareceu, e, sob o disfarce de um adversário, fez o trabalho de um amigo. Conferiu à filosofia e à religião, um benefício inestimável, por mostrar-nos que podemos escolher entre duas alternativas. Ou Deus é onipresente na natureza, ou está ausente dela”.    (23)

Deus e o Mundo

Imanência. Essa ênfase na imanência de Deus como criador, nos, com e dentro dos processos naturais do mundo desvendado pela ciência está certamente de acordo com tudo que as ciências têm revelado desde aqueles debates do século XIX. Um aspecto notável da explicação científica do mundo natura em geral, é o caráter contínuo da rede que foi construída ao longo do tempo: os processos aparecem em continuidade desde o início cósmico, no Big Bang, até o momento presente, e em nenhum ponto os cientistas modernos precisam invocar qualquer tipo de causa não natural para explicar suas observações e inferências sobre o passado. Os processos que ocorreram pode, como vimos, ser caracterizados como um surgimento, de novas formas de matéria, e uma organização hierárquica dessas formas por si mesmas, aparece no decorrer do tempo. Novos tipos de realidade que pode-se dizer terem emergido com o tempo.

A perspectiva científica do mundo, especialmente do mundo vivo, inexoravelmente nos imprime uma imagem dinâmica do mundo de entidades e estruturas envolvidas em mudanças contínuas e incessantes, e em processos que não cessam. Isso nos impele a re-introduzir em nosso entendimento da relação criativa de Deus com o mundo, um elemento dinâmico que está sempre implícita na concepção hebraica de um Deus vivo, dinâmico e em ação – mesmo que obscurecido pela tendência de pensar na criação como um evento passado.  Deus voltou a ser concebido como criando continuamente, dando existência continuamente ao que é novo; esse Deus é sempre o Criador; porque o mundo é uma creatio continua. A noção tradicional de Deus sustentando o mundo em sua ordem geral e sua estrutura, agora foi enriquecida por uma dimensão criativa e dinâmica – o modelo de Deus sustentando o mundo e dando existência contínua aos processos que possuem criatividade inata, atribuída por Deus. Deus está criando em todos os momentos da existência do mundo,  dentro e por meio da criatividade com a qual estão dotadas todas as coisas no mundo.

Tudo isso reforça a necessidade de re-afirmar com mais força do que em qualquer outra época nas tradições cristãs (e judaicas e islâmicas), que num sentido muito forte Deus é o criador imanente, criando dentro e por meio dos processos da ordem natural. Os processos por si mesmos, como descritos pelas ciências biológicas, são Deus atuando como criador, Deus qua Creator. Os processos não são o próprio Deus, mas a ação de um Deus no papel de criador. Deus dá existência no tempo divinamente criado, aos processos que por si mesmos se movem para o novo: assim Deus está criando. Isso significa que não temos que olhar para qualquer suposta lacuna nos processos, ou nos mecanismos, sobre os quais supostamente Deus estaria atuando como criador no mundo vivo .

Panenteísmo. (24) O teísmo filosófico clássico manteve a distinção ontológica entre Deus e o mundo criativo, que é necessário para qualquer teísmo genuíno, por conceber os mesmos como sendo de substâncias diferentes, cada um com atributos particulares. Havia um espaço fora de Deus, no qual as substâncias criadas vieram a existir. Esta forma de falar se torna inadequada por tornar extremamente difícil explicar a forma pela qual Deus está presente no mundo em termos de substâncias, as quais por definição, não podem estar internamente presentes umas nas outras. Deus só pode intervir no mundo num modelo desse tipo. Esta inadequação do teísmo clássico é agravada pela perspectiva evolucionária, a qual, como temos visto, requer que os processos naturais no mundo precisem ser considerados como ação criativa de Deus.  Em outras palavras, o mundo está para Deus, assim como nossos corpos são para nós como agentes pessoais, com a ressalva de que a ontologia final de Deus como criador é distinta daquela do mundo (panenteísmo, e não panteísmo).  Além disso, esse modelo pessoal de subjetividade encarnada (com essa ressalva essencial), representa melhor do que estamos impelidos a pensar, a ação constante de Deus no mundo, como vindo do interior, tanto em suas regularidades naturais quanto em quaisquer padrões especiais ou eventos. Estes três fatores – a forte ênfase na imanência de Deus no mundo, a preocupação de que Deus seja no mínimo, pessoal (como na tradição bíblica),e a necessidade de evitar o uso da substância nesse contexto – levam a uma relação panenteísta entre Deus e o mundo.  Panenteísmo, é, de acordo com isso, “A crença de que o ser de Deus inclui e penetra o universo inteiro, então cada parte do universo existe nEle, mas (ao contrário do panteísmo), o ser de Deus é mais do que o universo, e não é limitado pelo universo”. (25)

Esse conceito tem fortes fundações filosóficas e é bíblico, como foi cuidadosamente argumentado por P. Clayton (26) – lembrando a  estada de Paulo em Atenas, quando ele disse, a respeito de Deus, que “nEle nós vivemos, nos movemos e somos.” (27)  Isso de fato está profundamente enraizado na tradição cristã oriental.

A Sabedoria (Sophia) e a Palavra (Logos) de Deus. Estudiosos bíblicos têm, em décadas recentes, têm  enfatizado a significância dos temas centrais da assim chamada literatura de Sabedoria (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico, e Sabedoria). Nesse conjunto de escrituras, a figura feminina da Sabedoria (Sophia), de acordo com J. G. Dunn, é uma forma conveniente de falar sobre Deus agindo na criação, revelação, e salvação; a Sabedoria nada mais é do que a personificação da atividade de Deus. (28) Essa Sabedoria dota alguns seres humanos com uma sabedoria pessoal que é enraizada em suas experiências concretas e em suas observações sistemáticas e ordinárias do mundo natural – o que podemos chamar de ciência.  Mas não está confinada a isso, e representa a destilação das maiores experiências humanas, éticas e sociais, e também as experiências cosmológicas, já que o conhecimento sobre os céus também figurou entre os conhecimentos dos sábios. A ordem natural é avaliada como um presente e fonte de maravilhamento, algo a ser celebrado. Todos os tipos de sabedoria, gravadas como um padrão no mundo natural e na mente dos sábios, são apenas uma imagem pálida da sabedoria divina – esta atividade distinta de Deus em relação ao mundo.

No Novo Testamento, Jesus veio a ser considerado como “aquele que encarnou o poder criativo de Deus e a sua sabedoria salvadora (particularmente em sua morte e ressurreição), que podemos identificar como ‘o poder de Deus e a Sabedoria de Deus.’ [1 Cor. 1:24].”(29)

Esta sabedoria é um atributo de Deus, personificada como feminina, e tem um significado especial para teólogos feministas (30), um dos quais argumentou, com base numa ampla seleção de fontes bíblicas, que o feminino em Deus se refere a todas as pessoas do Deus cristão triuno.  Então, a Sabedoria (Sophia), se torna a “face feminina de Deus, expressa em todas as pessoas da Trindade. “(31) No contexto presente, é pertinente que esse conceito importante de Sabedoria (Sophia), une intimamente a ação divina de criação, a experiência humana e os processos do mundo natural. Por conseguinte, constitui um recurso bíblico para imaginar o panenteísmo que temos defendido.

Assim também é com o conceito diretamente relacionado de Palavra (Logos) de Deus, o qual é definido como (32) existindo eternamente como um modo do ser de Deus, como ativo na criação, e como expressão própria do ser de Deus, e impresso nas costuras e tramas da ordem criada. Isso parece ser uma fusão do amplo conceito hebraico de “Palavra de Deus”, como a vontade de Deus na atividade criativa, em conjunto com o Logos divino do pensamento estóico.  Este último é o princípio da racionalidade manifesto tanto no cosmos como na razão humana (chamada de logos pelos estóicos). De novo, temos uma noção panenteísta que une, intimamente, três faces de uma atividade integrada e encadeada: o divino, o humano e o (não humano) natural. É, desnecessário dizer, significativo que para os cristãos, este logos “se fez carne” (33), na pessoa de Jesus Cristo.

Um universo sacramental. A epopeia da evolução, como tenho me referido a ela, relata em sua extensão e na sua continuidade, como, ao longo das eras, as potencialidades mentais e espirituais da matéria têm se atualizado, sobretudo no desenvolvimento do complexo “cérebro humano num corpo humano”. O campo flutuante quântico original, ou a sopa de quarks, ou seja o que for, produziu em doze ou mais bilhões de anos, um Mozart, um Shakespeare, um Buda, um Jesus de Nazaré – e você e eu!

Cada avanço nas ciências biológicas, cognitivas e psicológicas, mostra os seres humanos como unidades psicossomáticas – pessoas. A matéria manifestou qualidades pessoais, numa combinação única de capacidades físicas, mentais e espirituais. (Uso “espiritual” como indicando relativos a Deus de uma forma pessoal). Para o panenteísta, que vê Deus trabalhando dentro, com e por meio dos processos naturais, este único resultado dos processos evolucionários, corrobora o fato de que Deus usa cada processo como instrumento de Seus desígnios, e como um símbolo da natureza divina, que é um meio de chegar aos Seus desígnios.[...]

[...]A Humanidade e Jesus Cristo numa Perspectiva Evolucionária

Vimos que a humanidade é incompleta, inacabada, está  muito abaixo dos valores elevados da verdade, beleza e bondade que Deus, sua fonte final, teria que fazê-la atingir, para levá-la a uma relação harmoniosa com Ele. Ainda não estamos adaptados totalmente ao “ambiente” final e eterno de Deus.

Não foi muito tempo depois de Darwin ter publicado A origem das espécies, que alguns teólogos começaram a discernir o significado da afirmação cristã central e distintiva da Encarnação de Deus na pessoa de Jesus Cristo, como especialmente congruente com uma perspectiva evolucionária. Assim, mais uma vez em Lux Mundi, em 1891, encontramos J. R. Illingworth claramente afirmando: “… em linguagem científica, a Encarnação pode-se dizer ter introduzido uma nova espécie no mundo – o homem divino, transcendendo a humanidade passada, a humanidade transcendendo o resto da criação animal, e comunicando sua energia vital por processos espirituais, para as gerações seguintes…”(36).  A ressurreição de Jesus convenceu os discípulos, inclusive Paulo, que essa união com Deus é o tipo de vida que não pode ser quebrada pela morte, e é capaz de estar em Deus. Jesus manifestou o tipo de vida humana a qual, como se acredita, pode se tornar vida abundante com Deus, não só aqui e agora, mas eternamente, além da barreira da morte. Por isso o seu imperativo “Sigam-me” constitui um chamado para a transformação da humanidade num novo tipo de ser humano transformado.  O que aconteceu com Jesus, pode acontecer com todos.

Nessa perspectiva, Jesus Cristo, tem nos mostrado o que seria possível para a humanidade. A atualização dessa potencialidade pode ser considerada como a consumação dos desígnios de Deus, já manifesta de forma incompleta na humanidade em evolução.[...] Jesus Cristo é portanto considerado, dentro do contexto desse complexo de eventos do qual participou, como o paradigma revelado do que Deus planejou para a humanidade. Nessa perspectiva, ele representa a consumação desse processo evolutivo e criativo que Deus tem impulsionado dentro e por meio do mundo.[...]

[...]Na Terra, a epopeia da evolução é consumada pela Encarnação, numa pessoa humana, da auto-expressão cósmica de Deus, da Palavra de Deus – e na esperança que isso dá a todas as pessoas, de se unirem com a Fonte de todo Ser e Vir a ser, que é “o Amor que move os céus e as estrelas.”  Gostaria de lembrar que, no segundo século, Irineu disse, nos convidando a contemplar: “A Palavra de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que, com seu imenso amor, quer fazer de nós aquilo que Ele mesmo é.” (Adv. Haer., V praef.)

A Theology of and for evolution – Arthur Peacocke

Não posso dizer que concordo exatamente com tudo o que o autor afirmou, mas coloco o texto aqui, para que gere reflexão. Segundo o autor, o ideal de Deus para o ser humano é o que foi encarnado em Jesus. Porém, cada ser humano, mesmo tendo potencial de transcender a si próprio, e se tornar mais parecido com Jesus, tem a liberdade de decidir se deseja participar desse caminho evolutivo ou não. Envolve coisas como negar a si mesmo, carregar a cruz, amar os inimigos, dar a outra face e etc, coisas que exigem que a pessoa esteja, todo o tempo, tomando decisões conscientes, no sentido de agir conforme esse modelo, e sujeito a falhar nesse processo, muitas vezes. O ser humano por si mesmo, não tende a seguir esse modelo naturalmente. E Deus não coage ninguém. Deus não impõe sua presença nos mecanismos do universo e da vida, não deixa claras as formas pelas quais atua no universo, para que cada ser humano possa escolher se deseja ver o mundo de uma perspectiva que inclui Deus, ou não, e viver de acordo com a perspectiva escolhida.

E os discípulos de Jesus, aqueles que, conscientemente, escolhem tentar viver esse modelo “alternativo” de ser humano proposto por Deus, são facilmente reconhecíveis. Se Deus não deixa óbvia a sua presença nos mecanismos que regem o universo e a vida no nosso planeta, na vida dos discípulos, a presença dEle se torna inegável. Os discípulos são Suas cartas vivas.


Implicações teológicas de uma criação em evolução

julho 26, 2010

por Keith B. Miller

O debate criação-evolução solapou a energia vital da comunidade cristã. Em vez de construir o Reino de Deus, tem sido, ao meu ver, tanto destrutivo para a unidade do corpo de Cristo, quanto uma distração com relação à verdadeira missão desse corpo, ordenada por Deus. Essa missão é viver como portadores da imagem de Deus,  administrando Sua criação e proclamando Sua mensagem de reconciliação para o mundo.

No debate a respeito do entendimento adequado do relato de Gênesis, maior atenção tem sido dada aos méritos científicos dos vários cenários da criação. O que tem sido amplamente deixado de lado nesses debates, é uma consideração das implicações teológicas dessas várias interpretações, para nosso entendimento a respeito do caráter de Deus, o relacionamento de Deus com sua criação, e o nosso relacionamento com o restante da criação. Afinal, é a essas questões básicas que o relato de Gênesis é primeiramente, se não exclusivamente, se refere. Adicionalmente, muita da resistência à cosmologias evolucionárias entre cristãos evangélicos, é um conflito percebido com as doutrinas fundamentais da fé. Por essas razões, vou trabalhar diretamente com as implicações teológicas do que prefiro chamar o ponto de vista da criação contínua. O termo “criacionismo contínuo” tem sido usado, tanto por Wilcox e Moltmann, como um rótulo útil para uma visão totalmente teísta de uma criação que possui uma ininterrupta e longa história criativa. De acordo com esse ponto de vista, Deus está continuamente atuando na sua criação por meio dos processos que investigamos com nossas ciências.

Integridade da criação de Deus

Creio que é muito importante reconhecer o trabalho de Deus no meio natural, Sua criação, como uma fonte de verdade a respeito do Criador. A fé em um Deus racional e ordenador, cujos trabalhos de criação são ordenados e compreensíveis para as criaturas nas quais ele investiu sua própria imagem, é fundamental para a prática da ciência moderna.  Se o mundo natural não contém um registro confiável de sua história passada, em que bases pode ser estudado e com qual propósito? Ainda mais importante, o que esse mundo poderia nos comunicar a respeito do caráter do seu Criador?

A criação de Deus, como revelação às suas criaturas sobre quem Ele é, pode proporcional um registro acurado da atividade criativa de Deus: da forma como o universo realmente foi e é. Mudanças progressivas ao longo do tempo, tanto na cosmologia, geologia ou biologia, é a conclusão esmagadora da leitura do registro da criação. Colocado desta forma, qualquer cenário de “criação com idade” é insustentável.

Um registro verdadeiro e compreensivo da criação, afirma tanto o significado da história natural quanto o da história humana. O cristianismo é fundamentalmente uma religião histórica, e nosso entendimento sobre Deus é baseado em Sua interação histórica com Seu povo. A história humana flui para trás perfeitamente junto com a história natural, e qualquer um que coloca em dúvida a validade desta última (a história natural), ameaça também nossa confiança no Criador.  Como colocado por Menninga “… se aceitamos o conceito de “idade aparente”, ficamos sem nenhuma garantia sobre a realidade de qualquer outro registro histórico.” A integridade da criação confirma a confiabilidade do caráter de Deus. O Deus revelado na natureza é o mesmo que revelou a Si mesmo na Escritura e em carne humana – isto é, o Deus da história e o Deus da verdade.

Enormidade da criação de Deus

Nosso contínuo desenvolvimento do entendimento científico sobre a história cósmica, ao invés de ser visto como reduzir Deus a alguma distante e irrelevante “causa primeira”, deve produzir temor diante dos incalculáveis poder e sabedoria de Deus. O Deus ao qual oramos exerce seu poder criativo a uma distância tão grande, que a luz requer bilhões de anos para atravessar essa distância, e o Deus para o qual oramos, tem moldado e dirigido Sua criação por bilhões de anos. Quando Deus procurou comunicar Sua transcendência, poder e autoridade à Jó, instruiu-o a contemplar o universo criado. Quando contemplamos o universo hoje, não deveríamos, mais do que Jó, ser esmagados pela grandeza de Deus?

A imensidão do universo, tanto no espaço quanto no tempo, enfatiza, da forma mais marcante, o quanto a humanidade é pequena.  Em comparação ao universo físico que a ciência procura conhecer, somos absolutamente insignificantes. Apesar de ter vivido numa época em que o universo era percebido coo se fosse muito menor, Davi pôde dizer: “Quando considero o céu, o trabalho das suas mãso, a lua e as estrelas, os quais você colocou no lugar, o que é o homem para que esteja atento a ele, e o que é o filho do homem para que você cuide dele?” (Salmos 8:3-4). A vastidão incompreensível do universo, enquanto nos força a encarar nossa pequenez, enfatiza ao mesmo tempo a graça de Deus, em nos fazer à Sua imagem  e nos chamar a ter comunhão com Ele.  Além de todas as expectativas e possibilidades, Deus escolheu nos amar e se identificar conosco.[...]

[...]Nossa própria transformação à imagem de Cristo é um processo, até mesmo doloroso, e não algo que ocorre instantaneamente após nossa conversão. Ele mesmo nos comissionou, criaturas tão pecadoras, para ser agentes do seu trabalho de redenção.  A eficiência claramente não é uma prioridade na atividade redentora de Deus; porque deveríamos requerer que Sua atividade criativa fosse assim?[...]

[...]Morte e sofrimento não precisam ser entendidos como corrupções satânicas da ordem da criação. Ao contrário, ambos refletem a natureza de um Deus que sofreu e morreu pela vida das Suas criaturas.  Vida da morte – esse é o padrão bíblico e o padrão da criação. Há congruência aqui, e não um contraste irreconciliável. No mundo natura, a vida surge do material morto, a própria Terra é formada de materiais originados em cataclismas de estrelas. A imagem da ressurreição é vista em toda parte. Que um Deus que se fez carne e morreu pela vida das Suas criaturas, tenha planejado o mundo desta forma, me parece a mais perfeita das metáforas cósmicas.[...]

[...] Entender o significado do nosso domínio como criaturas feitas à imagem de Deus, tem que ser com base na Escritura. A igreja, entretanto, tem com frequência adotado o ponto de vista da dominação – ou seja, poder demonstrado e exploração egoísta. Temos muitas vezes tratado a criação como um inimigo que requer controle à força ou como uma fonte inesgotável de recursos para serem usados para o nosso prazer. O ponto de vista a respeito disso, em total contraste, é o do serviço sacrificial. O modelo do Antigo Testamento, do rei que socorre os oprimidos e tem compaixão pelos necessitados, fracos e aflitos. Como cristãos, nosso modelo deve ser aquele expressado por Cristo, em cuja imagem nós temos que nos basear. E Cristo exerceu sua autoridade divina como servo, em compaixão e humildade. Esta é a regra para o nosso domínio sobre as criaturas não humanas!

A aplicação da imitação de Cristo como nossa regra para exercer domínio sobre o resto da criação, é radical, porque se opõe ao egocentrismo e materialismo da nossa sociedade. Cristo nos chama a carregar nossa cruz, negar a nós mesmos e viver de forma sacrificial a serviço de outros. Em seu livro Imaging God, Douglas Hall pergunta, “O que os poderosos deste mundo fazem do domínio de um Senhor que chora, um pastor que dá sua vida pelas ovelhas, um rei montando num jumento que foi ridicularizado, julgado e executado pelos poderes da época?  E o que pode significar para nós imaginar o domínio de um rei desses na nossa vida com o restante da criação?” Esta pergunta clama por uma resposta por parte da igreja.

O reconhecimento da nossa posição como imagem de Deus pode fazer da igreja uma força poderosa para a gestão ambiental, mas a igreja tem permanecido em silêncio.[...]

Theological implicantions of an evolving creation – Keith B. Miller

Não traduzi o texto inteiro, quem quiser ler a íntegra, favor acessar o link logo acima.


A evolução do “criacionismo científico”

julho 21, 2010

The Evolution of “Bible-Science” : Young Earthers, Geocentrists, and Flat Earthers, Scientists Confront Creationism edited by Laurie R. Godfrey  (Norton, 1984)adapted from the chapter by Robert J. Schadewald in Scientists Confront Creationism, edited by Laurie R. Godfrey (Norton paperback, 1984)

Por dois mil anos, vários grupos de dogmáticos bíblicos tentaram forçar o universo a preencher suas interpretações da Escritura. Julgaram e rejeitaram as evidências e explicações cientificas de acordo com o padrão das suas próprias crenças religiosas. Por razões bíblicas, muitos rejeitaram (e ainda rejeitam) a esfericidade  da Terra, o sistema de Copérnico, e a evolução da vida numa Terra muito antiga (com aproximadamente 4,5 bilhões de anos de idade). Nos últimos dois séculos, os que acreditam na Terra plana, geocentristas e criacionistas de Terra jovem adotaram um rótulo para os seus dogmas: “ciência bíblica”. Este termo começou a ser utilizado na Inglaterra, no século XIX, por exemplo, pelo “Bible-Science Defence Association” (que defendia o fato de a Terra ser plana), e na América do século XIX, pela associação criacionista “Bible-Science Association.”

Os cientistas bíblicos travaram uma guerra contra a ciência. No início do século XIX, a maioria deles tinha se resignado a viver numa Terra esférica que orbita em torno do Sol. Então, foram confrontados com uma massa de evidências que convenceu a maioria dos geólogos de que a Terra era muito antiga e que suas diversas formas de vida surgiram (e muitas se tornaram extintas e desapareceram) no planeta de forma sequencial, durante um longo período de tempo. Em segundo lugar, os geólogos não encontraram qualquer evidência de um suposto dilúvio (o dilúvio universal de Noé). E finalmente, em 1859, Charles Darwin apresentou uma grande quantidade de evidências de que a vida na Terra evoluiu, e propôs uma teoria que explicava a proliferação da vida na Terra em termos de processos naturais. Tais ideias contradiziam diretamente uma interpretação literal dos pirmeiros capítulos de Gênesis. Os “cientista” bíblicos, alarmados, iniciaram um ataque contra a ciência convencional, que continua até hoje.

As origens da “Ciência bíblica”

The Genesis Flood by Whitcomb/Morris (1961)“Criacionismo científico” é a palavra mágica da ciência bíblica. Seu objetivo ambicioso é restabelecer Gênesis como a máxima autoridade em geologia, biologia e cosmologia. Pelo criacionismo científico representar a continuidade de uma longa tradição, é difícil saber quando ele começou. Alguns definem sua origem com a publicação de The Genesis Flood, pelo teólogo John C. Whitcomb, Jr. e o engenheiro Henry M. Morris em 1961. Este livro argumenta que o dilúvio dos tempos de Noé explicaria melhor as evidências geológicas do que a geologia convencional. Nesta e em obras subsequentes, os criacionistas ofereceram argumentos para mostrar que a Terra tem apenas seis mil anos e que todas as formas de vida foram criadas separadamente.

Logo após a publicação de The Genesis Flood, duas das maiores organizações criacionistas,  a Bible-Science Association e Creation Research Society, foram criadas. O terceiro maior grupo, o Institute for Creation Research (ICR), foi organizado em 1970 com Henry M. Morris como diretor. Individual e coletivamente, por meio de livros, panfletos, leituras públicas e debates, esses criacionistas passavam sua mensagem.

Em público, criacionistas modernos marcham sob a bandeira da própria ciência. Em livros e palestras dirigidas ao público cético, evitam falar em Deus e na Bíblia e incensam a ciência. Quando se dirigem a crentes fundamentalistas, contam uma história diferente. Insistem que a moderna geologia e a teoria da evolução são afrontas à Bíblia. No lugar de ambas, oferecem uma pseudociência complexa, chamada por eles de “criacionismo científico”, no qual a “geologia do dilúvio” é o dogma central. A geologia do dilúvio foi totalmente rejeitada pela geologia convencional. Como Whitcomb e Morris escreveram,

“Milhares de geólogos treinados, muitos deles sinceros e honestos em suas convicções sobre a correção das suas interpretações dos dados geológicos, apresentam um veredito unânime contra os dados bíblicos da criação e do dilúvio….”

Não obstante, eles insistem que essas opiniões profissionais devem ser desconsideradas, porque

“O crente instruído sabe que as evidências para a total inspiração divina da Bíblia contam mais do que as evidências para qualquer fato científico. Quando confrontado com o consistente testemunho bíblico de um dilúvio universal, o crente deve aceitar isso como verdade inquestionável.” (1961, p. 118)

Porque esses geólogos fundamentalistas rejeitam o que é “verdade inquestionável”? Henry Morris sugere que a resposta pode ser encontrada na Torre de Babel:

“Seu topo era um santuário, um grande templo, estampado com os signos zodiacais, representando o exército do Céu, Satã e seus principados e poderes, príncipes das trevas do mundo” (Efésios 6:12). Estes espíritos do mal talvez se encontraram com Nimrod e seus sacerdotes, para planejar uma estratégia de longo alcance contra Deus e Seus objetivos de redenção para o mundo pós-diluviano.  Isso incluía especialmente o desenvolvimento de uma cosmologia não teísta, por meio da qual fosse possível explicar a origem e desenvolvimento do universo e do homem sem dar mérito ao Deus verdadeiro e criador. A negação do poder e autoridade de Deus na criação é a base fundamental na rejeição de Sua autoridade em qualquer outro campo.

“As evidências sólidas para a sequência de eventos descritas, são tênues… se alguém acha que isso realmente aconteceu, no início da história pós-diluviana, então o próprio Satã é o criador do conceito de evolução.”(Morris 1975, p. 74-75)

“Sólida evidência ou não, o livro de Morris repetidamente acusa a evolução de ser satânica. Embora os céticos possam questionar a veracidade dessa história da revelação de Nimrod e Babel, é verdade que a ideia de um mundo em mudança, em desenvolvimento, vem desde a antiguidade. Mas só se tornou popular no Ocidente, poucos séculos atrás.

A Terra antiga, Catatrosfismo, Uniformitarismo

As raízes da geologia moderna se encontram em Nicolaus Steno, um padre dinamarquês que em 1669 publicou um tratado sobre fósseis que continha vários princípios da formação do estrato rochoso. Steno sustentava que os fósseis encontrados em rochas sedimentares eram resíduos de animais que morreram no dilúvio. Esta opinião prevaleceu entre os geólogos por 150 anos. Na Inglaterra, foi suportada por Thomas Burnet na obra A Sacred Theory of the Earth (1681), por John Woodward em An Essay Toward a Natural Theory of the Earth (1695), e por William Whiston, que sugeriu, em sua obra A New Theory of the Earth (1696), que o dilúvio foi causado por um cometa.

Entretanto, a maior parte eram apenas especulações sobre a origem das espécies animais. Na metade dos anos 1700, Comte Buffon, o eminente naturalista francês, elaborou o conceito de evolução pela variação de espécies e publicou-o em sua obra monumental, Natural History. Buffon foi imediatamente atacado pelos teólogos da  Sorbonne University em Paris, que o forçaram a publicar a seguinte retratação:

“Declaro que não tive intenção de contradizer o texto da Escritura, no qual eu acredito mais firmemente do que em qualquer outro relatado à criação, tanto no que diz respeito ao tempo quanto aos fatos. Abandono tudo em minha obra que diga respeito à formação da Terra, e tudo que seja contrário à narrativa de Moisés.” (White 1955, p. 215)

As sementes da revolução geológica foram plantadas pelo geólofo escocês James Hutton em 1785, mas foi Charles Lyell quem as fez crescer. A obra de Lyell, Principles of Geology (1830) é considerada por muitos a fundação da geologia moderna. Nessa época, poucos geólogos sérios continuavam aceitando a ideia de um dilúvio universal. Entretanto, Cuvier, um naturalista francês que era o principal adversário de Lyell, sugeriu que a Terra tinha enfrentado “muitos” dilúvios catastróficos, e seus seguidores foram chamados catastrofistas. Cuvier contribuiu muito para destruir o conceito de um único dilúvio global, assim como Lyell, que rejeitou o catastrofismo. Embasado nas ideias de Hutton, Lyell argumentou que a maior parte das rochas terrestres foram formadas durante um longo período de tempo, por processos naturais, observáveis até os nossos dias. A geologia de Lyell foi chamada de uniformitarismo.

As rochas da crosta terrestre estão dispostas em camadas que são ou foram essencialmente horizontais. Claramente, essas camadas seguem uma sequência temporal, com rochas mais jovens sobre as mais antigas. Muitas dessas rochas são sedimentares, formadas de partículas que se assentaram pela ação da água, ou foram transportadas pelos ventos. Tais processos de formação de rochas ainda estão em curso, e sua velocidade, mesmo sendo variável, pode ser estimada. Cálculos baseados nessas estimativas, deixam óbvio que as rochas da superfície do nosso planeta levaram milhões de anos para se formar (hoje, dispomos de métodos muito mais confiáveis para estimar a idade das rochas). Além disso, os resíduos fossilizados de plantas e animais, encontrados nas rochas, mudam sistematicamente ao longo do tempo. Como isso aconteceu?

Em 1843, Robert Chambers, um autor sem formação científica, publicou anonimamente o seu Vestiges of the Natural History of Creation. Chambers tentou reconciliar a Bíblia com a geologia uniformitarista, e o mecanismo que sugeriu para explicar as várias formas de vida na Terra foi basicamente “evolução temperada pelo milagre” (White 1955, p. 65). O livro se tornou extremamente popular, mas os “cientistas bíblicos” o atacaram como “ateísta”. Outra tentativa mais limitada foi a de Hugh Miller e seu The Testimony of the Rocks (1857). Notando a ausência de evidências para um dilúvio universal, Miller sugeriu que o dilúvio foi um evento local, ocorrido somente naquela região do Oriente.

Foi nesse ambiente que Charles Darwin lançou sua teoria da evolução por seleção natural em 1859. Um homem decididamente pacífico, que sofreu de doenças crônicas, Darwin conhecia muito bem como os “cientistas bíblicos” haviam recebido livros muito menos revolucionários que o seu The Origin of Species. Ele desenvolveu sua teoria por 20 anos antes de publicar. Seus piores pressentimentos se justificaram; teólogos indignados lançaram-se sobre ele com fogo e enxofre.

Poucos homens foram tão ultrajados e ao mesmo tempo, receberam tão rápida aclamação na comunidade científica. Uma década depois, a maioria dos naturalistas havia aceitado a evolução. Fora da comunidade científica, isso estava longe de acontecer. Mesmo assim, na virada do século, muitos acadêmicos e teólogos liberais fizeram as pazes com Darwin e com a evolução (White 1955).

Entre os conservadores, foi diferente. Uma enxurrada de livros anti-evolução apareceram durante o século seguinte à publicação de The Origin of Species. O mais notável veio de um adventista do sétimo dia, George McCready Price, o qual, começando em 1913, escreveu cerca de 25 grandes obras anti-evolucionistas. Ironicamente, a evolução proposta por Darwin causou uma regressão entre os “cientistas bíblicos”.  Por volta de 1830, muitos conservadores estavam prontos para tolerar uma Terra antiga e uma teoria dos “dias-eras” da criação, no qual os dias em Gênesis representavam eras geológicas. Agora que o conceito de uma Terra antiga se juntou ao conceito de formas de vida se desenvolvendo ao longo do tempo, os “cientistas bíblicos” tentaram “puxar o tapete” de Darwin, jogando fora tanto a Terra antiga quanto a evolução.  Enquanto as evidências da evolução e da grande idade da Terra continuaram a se acumular, o conservadorismo evoluiu para uma estridente pseudociência.

Veja o artigo detalhado Radiometric Dating, a Christian Perspective do Dr. Roger Wiens

Os teóricos do dilúvio global

O dilúvio global é a grande ilusão dos criacionistas de Terra Jovem, um albatroz que os escribas hebreus penduraram em seus pescoços e que foi adaptado de um mito oriental pré-existente e incluído no Gênesis. O dilúvio é para os criacionistas a explicação para praticamente todo o registro fóssil encontrado na Terra. Na média, o estrato com registros fósseis ao longo dos continentes, tem profundidade de uma milha. Entre as dificuldades que impedem que o dilúvio seja considerado cientificamente, estão:

(1) a origem da água do dilúvio

(2) Explicação para a existência de diferentes tipos de fósseis ao longo do estrato de rochas

(3) A grande quantidade de fósseis

(4) Estruturas que obviamente se formaram em terra e estão agora soterradas no estrato rochoso.

Para mais detalhes ver o texto do TalkOrigins Problems with a Global Flood

Para explicar de onde veio a água do dilúvio, alguns criacionistas propuseram que antes do dilúvio a Terra era circundada por uma camada de água na forma de vapor. Esta ideia foi proposta em 1874 por Isaac Newton Vail,  um cientista bíblico Quaker. Vail sugeriu que os planetas evoluem de um estágio onde possuem anéis (como Saturno), para um estágio como de Júpiter e depois para finalmente chegar na condição da Terra. Criacionistas modernos lançaram fora a teoria da evolução de planetas de Vail, ficando apenas com a hipótese da camada de vapor de água. Mas jamais alguém mostrou como esse dossel contendo água para o dilúvio, podia ser estável ou como as criaturas da Terra poderiam sobreviver à incrível pressão atmosférica que isso causaria.

Os fósseis da Terra ocorrem em uma sequência ou ordem quase sem exceções (as poucas exceções são facilmente explicadas por perturbações geológicas, que podem ser detectadas sem referência aos fósseis).  Isto é, fósseis específicos são encontrados somente em rochas com determinadas idades. Trilobitas, por exemplo, uma antiga forma de animais marinhos, se tornou extinto há 300 milhões de anos atrás, por isso, seus fósseis só são encontrados em rochas bastante antigas. Outras formas de moluscos são mais modernas e somente aparecem em rochas mais jovens, localizadas mais acima da coluna geológica.

Morris explicou as águas pré-existentes do dilúvio usando o termo “arraste hidráulico” (Whitcomb and Morris 1961; Morris 1974b). Para objetos de forma e densidade similar, entretanto, o arraste hidráulico é proporcional à área transversal, enquanto que a força gravitacional é proporcional ao volume. Um criacionista racional, portanto, esperaria que os trilobitas se distribuíssem de acordo com seu tamanho, com os maiores abaixo dos menores. Este decididamente não é o caso, e admira-se que alguém como Morris, PhD em engenharia hidráulica, e tendo uma base na geologia, foi capaz de, seriamente, inventar essa explicação baseada no arraste hidráulico. De fato, se a maior parte dos fósseis do mundo foram soterrados por um único dilúvio global, como os criacionistas de Terra jovem acham, a mistura de formas de vida seria fenomenal, e nenhum padrão ordenado de distribuição de fósseis poderia ser encontrado!

Começando em 1961 com The Genesis Flood, numerosos livros criacionistas mencionam um corpo rochoso na África, a formação Karoo (algumas vezes chamada de Karroo), que contém fósseis de aproximadamente 800 bilhões de animais. Ironicamente, esta formação, sozinha, refuta toda a geologia do dilúvio. Os animais da formação Karoo variam entre o tamanho de um pequeno lagarto ao tamanho de uma vaca, sendo a média de todos eles, aproximadamente o tamanho de uma raposa (Sloan 1980). Os criacionistas alegam que eles morreram no dilúvio, ou seja, todos estavam vivos quando o dilúvio começou. Se 800 bilhões de animais pudessem ser ressuscitados, partindo de um cálculo simples, isso significa que havia 21 deles em cada acre de solo da Terra. Suponha que assumamos (de forma conservadora) que a formação Karoo contenha apenas um por cento dos fósseis de vertebrados da Terra. Então, quando o dilúvio começou, havia 2100 animais vivos em cada acre de solo, entre os mais minúsculos e gigantescos dinossauros!  Isso parece meio lotado, para dizer o mínimo. Inúmeros achados – dunas de areia – gotas de chuva – ninhos de dinossauros – pegadas de animais e etc – comumente encontrados na superfície rochosa da Terra, foram claramente formados na superfície. Entretanto, são encontrados em estratos de rocha que os criacionistas atribuem ao dilúvio e com muitas outras camadas cobrindo-os.

Certamente, as provas existentes contra a geologia do dilúvio são equivalentes àquelas que se opõem à teoria da Terra plana, quando ela floresceu no século XIX. Por isso, para entender a “ciência bíblica”, será de grande ajuda voltar ao passado e examinar suas raízes históricas.

História dos defensores da Terra plana

A primeira grande batalha envolvendo Cristianismo e ciência envolveu a forma da Terra. A esfericidade da Terra era bem conhecida na cultura helenística, na qual o Cristianismo se desenvolveu. Muito antes, Aristóteles forneceu três provas de que a Terra  tem uma forma de globo:  (1) navios que deixam os portos desaparecem no horizonte; (2) quando alguém viaja para o sul, estrelas que não são visíveis na Grécia aparecem no horizonte sul; e (3) durante um eclipse, a sombra da Terra sobre a Lua é visivelmente curvada. Desafortunadamente, este modelo esférico, entra em conflito com a forma pela qual a Terra é descrita na Bíblia.

Os antigos hebreus, como seus mais antigos e mais poderosos vizinhos, babilônios e egípcios, achavam que a Terra era plana. A cosmologia hebraica não estaria na Bíblia descrita como está hoje, se os hebreus não tivessem conhecimento do sistema babilônico, sobre o qual é embasado, como pode ser visto nas linhas do Antigo Testamento. A história da criação em Gênesis por si mesma sugere o tamanho e importância relativa da Terra e outros corpos celestes, ao especificar sua ordem de criação. A Terra teria sido criada no primeiro dia, e era “sem forma e vazia” (Gênesis 1:2). No segundo dia uma abóbada – o “firmamento” na tradução King James – foi criado para dividir as águas, uma parte acima e outra abaixo da abóbada (Gênesis 1:6-8). Não antes do quarto dia foram criados o Sol, Lua e estrelas, e estes foram colocados “na” abóbada, não “acima” dela (Gênesis 1:14-17). Os tamanhos desses corpos celestes não são especificados, mas deviam ser pequenos, para que Josué pudesse depois mandar o Sol parar “em Gibeon” e a Lua “no vale de Aijalon” (Josué 10:12).

A bíblia várias vezes fala dos “extremos” da Terra. Às vezes a palavra em hebraico é ephes, que significa “fim, limites extremos,  nada”. Em outras vezes, é qatsah ou qetsev, que significa, de novo, “final, extremidade.” Em Deuteronômio 13:7, usa-se a expressão “de uma extremidade da Terra à outra extremidade.” A mesma expressão, ou uma referência ao “final da Terra”, ocorre em Deuteronômio 28:49,64; 33:17; 1 Samuel 2:10; Salmos 19:4; 22:27; 46:9; 48:10; 59:13; 65:5; 67:7; 98:3; 135:7; Provérbios 17:24; 30:4; Jó 28:24; 37:3; Isaías 5:26; 24:16; 40:28; 41:5; 42:10; 45:22; 48:20; 49:6; 52:10; 62:11; Jeremias 10:13; 16:19; 25:33; Miquéias 5:4. Não apenas a Bíblia indica que a Terra é plana e tem extremos, mas também ensina que tem cantos. Isaías 11:12 diz que Deus vai “reunir os dispersos de Judá dos quatro cantos da Terra.” Esequiel 7:2 diz que “o fim está próximo nos quatros cantos da Terra.” Veja também Apocalipse 7:1; 20:8, etc.

Outras passagens completam a imagem. Deus “se assenta sobre a abóbada da Terra, cujos habitantes são como gafanhotos” (Isaías 40:21-22; 45:12; 48:13). Ele também caminha de um lado para o outro sobre a abóbada celeste” (Jó 22:12-14), sendo que esta abóbada é “dura como um espelho de metal” (Jó 37:18 cf 9:8). O teto do céu tem “janelas” que Deus pode abrir para deixar as águas que estão acima da abóbada caírem na superfície da Terra na forma de chuva. A bíblia fala claramente sobre “janelas” do céu (Gênesis 7:10; 8:2; 2 Reis 7:2, 19; Isaías 24:18; Jeremias 51:15; Malaquias 3:10); as “portas” do céu estão “fechadas” (1 Reis 8:35; 2 Crônicas 6:26; 7:13; Salmos 78:2; Apocalipse 4:1; 11:6; 19:11); o céu tem “portões” (Gênesis 28:17; Levítico 26:19) e  escadas (Amós 9:6). Um estudo dessas passagens indicarão que chuva e alimento vinham dessas janelas do céu, etc. (Obviamente isso é provavelmente linguagem simbólica ou “fenomenológica”, como a maioria dos especialistas bíblicos e exegetas concluem, e esse tipo de linguagem não deve ser interpretado literalmente).

A topografia da Terra não é especificada, mas Daniel fala de “uma árvore de grande altura que fica no centro da Terra, e que alcança o céu com seu topo e é visível desde os confins da Terra” ou “até o final da Terra” (Daniel 4:10-11). Tal visibilidade não seria possível numa Terra esférica, mas apenas se a Terra fosse plana.

Aqui o Frei Stanley Jaki, O.S.B., um físico húngaro importante e teólogo beneditino, fala sobre a Terra plana e fixa da Bíblia:

“Quando perguntado sobre seu meio físico ou o mundo físico em geral, o israelita típico poderia dar uma resposta que seria irritante para uma mentalidade moderna. É irritante, no mínimo, ouvir que a Terra é como um disco chato, o céu, uma pesada abóbada invertida, e que os dois formam uma gigantesca estrutura em forma de tenda. Claro, outros habitantes da região teriam respostas similares…. Com certeza, o mesmo ocorreria com um egípcio típico da antiguidade, ou um babilônio… A dureza do céu, mas especialmente a imobilidade da Terra, tende a parecer um fato físico divinamente ordenado, pois de acordo com a Bíblia, um simples homem, Josué, pode ser autorizado por Deus a parar o Sol e a Lua e, aparentemente, por um dia inteiro…  Obviamente, para olhares modernos acostumados com naves espaciais viajando além das “linhas do mundo” segundo a cosmologia quadridimensional de Einstein, nada pode ser mais ofensivo que o mundo físico descrito na Bíblia, que seria pouco mais do que uma tenda glorificada. Nesta tenda, a bíblia assinala que o céu seria sua cobertura, e o solo, o seu piso, embora não de forma consistente. Em Gênesis 1 o céu é um firmamento, isso é, uma abóbada dura de metal, ao passo que em Salmos 104  e Isaías 45:24, parece mais com uma tela que pode ser esticada….Aqui reside um dos aspectos incomuns e não científicos do mundo como é descrito na Bíblia… Muito antes do advento da ciência moderna, e também antes do heliocentrismo, o contraste entre este mundo bíblico em forma de tenda, e o mundo do geocentrismo Aristotélico-Ptolomaico, é enorme.” (Stanley Jaki, Bible and Science, pages 19-25)

Um texto bíblico que supostamente sugere que a Terra é esférica, segundo alguns “cientistas bíblicos” criacionistas, é Isaías 40:22

Ele é o que está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar;

Uma análise de hebraico feita por Robert J. Schneider, num artigo para uma organização cristã, a American Scientific Affiliation (www.asa3.org) –

“A linha crítica em hebraico (de Isaías 40:22) lê-se (transliterada e omitindo as vogais): hyshb ‘l hwg h’rtz, o que foi traduzido por meu colega, Dr. Robert Suder como: ‘aquele que habita no círculo/horizonte da terra.”  Uma pesquisa no léxico hebraico e em livros teológicos nos fornece muita informação sobre a palavra chave hwg (chûgh)…. Todos, exceto um dos contextos (onde essa palavra hebraica aparece), são cosmológicos, e de fato, quatro dos cinco usos dessa palavra ocorrem em hinos sobre a criação. Isaías 40:22 descreve Deus como estando sentado/habitando sobre “o círculo da Terra”, que foi desenhado por Deus com um compasso, como em Jó 26:10 e Provérbios 8:27 sugerem, onde os versículos descrevem o ato de inscrever um círculo que fixa o limite entre a Terra e o abismo…   Juntando essas duas formas de uso, penso que é difícil alguém atribuir a essa palavra em Isaías 40:22 o sentido de “esférica”… se os tradutores )da LXX) estavam familiarizados com o conceito de uma terra esférica ensinado no Museu de Alexandria. na época o centro científico da Grécia, não dão nenhuma dica a respeito disso, na tradução que fizeram dessa palavra…”

“….um círculo não é uma esfera na Escritura assim como não é na geometria. A preponderância das evidências filológicas e as traduções dos estudiosos da antiguidade e especialistas modernos, testemunham de que Isaías 40:22 não se refere a uma Terra esférica. Simplesmente não existe embasamento para Eastman, Sarfati e Morris (criacionistas de Terra jovem proeminentes) para declarar, em contrário ao bom senso e em violação do domínio semântico, que chûgh literalmente significa esfericidade.” (Robert J. Schneider, essay for the [Christian] American Scientific Affiliation, September 2001)

Leia Does the Bible Teach a Spherical Earth? por Robert J. Schneider

Estas passagens, além da mais explícita seção astronômica do não-canônico Livro de Enoch (1 Enoch capítulos 33-34, Charles, 1913), levam os cristãos mais literalistas a rejeitar a ideia de uma Terra esférica como uma heresia. Portanto, essa teoria da Terra plana está associada ao Cristianismo desde o início. Alguns dos assim chamados “pais da igreja” acreditavam nisso, como Lactâncio, Tertuliano, Clemente de Alexandria (White 1955, p. 92). Gradualmente, eles desenvolveram um sistema de Terra plana “científico” para se opor à astronomia de Ptolomeu, que começava a se popularizar.

Jeffrey Burton Russell, historiador e autor de Inventing the Flat Earth, esclarece esses pontos:

“É preciso primeiro, reiterar que com extraordinárias poucas exceções, nenhuma pessoa instruída ao longo da história civilização ocidental a partir do terceiro século antes de Cristo em diante, acreditava que a Terra era plana. Uma Terra esférica apareceu pela primeira vez no sexto século antes de Cristo, com Pitágoras, o qual foi seguido por Aristóteles, Euclides e Aristarco, entre outros, que também observaram que a Terra era esférica. Embora houvesse poucos dissidentes – Leukippos e Demokritos por exemplo – na época de Erastosthenes (século 3 antes de Cristo), seguido por Crates (século 2 antes de Cristo), Strabo (século 3 antes de Cristo), e Ptolomeu (primeiro século antes de Cristo), a forma esférica da Terra era aceita  por todos os gregos e romanos educados. Essa situação não mudou com o advento do cristianismo. Poucos – talvez dois ou no máximo cinco – dos pais da igreja negavam que a Terra fosse esférica, se baseando em passagens como Salmos 104:2-3 como indicações geográficas e não metafóricas. Por outro lado, dezenas de milhares de teólogos cristãos, poetas, artistas e cientistas,  consideraram a Terra como esférica nos primeiros séculos, nos tempos medievais e também nos tempos da igreja moderna. Nenhuma pessoa educada acreditava no contrário.” (Russell, essay for the [Christian] American Scientific Affiliation, August 1997)

Veja The Myth of the Flat Earth por Jeffrey Burton Russell

A obra Almagest, de Cladius Ptolomeu, escrita aproximadamente em 140 depois de Cristo, foi o ápice de mais de seis séculos da astronomia grega. Não foi antes de 550 depois de Cristo, que Cosmas Indicopleustes publicou sua teoria alternativa da Terra plana, no seu livro Christian Topography. Cosmas, um monge egípcio, ofereceu muitos dos mesmos argumentos usados por outros que defendem que a Terra é plana atualmente, mas chegou a uma conclusão diferente sobre a forma da Terra.  Pinçando citações das Escrituras e de obras dos pais da igreja, Cosmas tentou mostrar que a Terra é um retângulo plano com dimensões norte-sul e leste-oeste. O nascer e o pôr do Sol, segundo ele, eram causados por uma montanha muito alta que ficava localizada no extremo norte (Cosmas 550 AD).

Cosmas lutou uma batalha já perdida, e a antiga ideia da Terra plana rapidamente perdeu terreno. O sistema ptolomaico de astronomia, baseado numa Terra esférica, trabalhava razoavelmente bem. Por volta do século XII, a ideia de uma Terra plana estava totalmente morta no Ocidente.

Embora a bíblia não especifique a forma plana da Terra, repetidamente afirma que a Terra não se move:

Trema diante dele toda a terra; o mundo se acha firmado, de modo que se não pode abalar.– 1 Crônicas 16:30

Reina o SENHOR. Revestiu-se de majestade; de poder se revestiu o SENHOR e se cingiu. Firmou o mundo, que não vacila. — Salmos 93:1

Dizei entre as nações: O Senhor reina; ele firmou o mundo, de modo que não pode ser abalado. Ele julgará os povos com retidão.– Salmos 96:10

Lançou os fundamentos da terra; ela não vacilará em tempo algum.– Salmos 104:5

(ver também Salmos 8:4; 19:4-7; 104:19; 119:90; Eclesiastes 1:5; 2 Reis 20:9-11; 2 Crônicas 32:24; Isaías 38:7-8; 45:18; Josué 10:12-14; Juízes 5:31; Jó 9:7; Habacuque 3:11; Tiago 1:11-12; e os deuterocanônicos Eclesiástico 43:1-10; 46:3-4; Sabedoria 7:18-19)

A Geocentricity Primer by BouwEstes mesmos clérigos que acharam fácil ignorar seus conceitos de Terra plana e adotar o sistema geocêntrico porém esférico de Ptolomeu foram fortemente abalados por Copérnico e Galileu. A reação da igreja católica a Galileu é bem conhecida. É menos conhecida a reação dos reformadores protestantes – Lutero, Calvino, Wesley – que também rejeitaram o sistema de Copérnico por causa da Bíblia (White 1955, p. 125ff). Poucos cientistas bíblicos protestantes têm lutado contra o sistema heliocêntrico desde então.

Ver Geocentrism: Flogging a Pink Unicorn por Alec MacAndrew

Defensores modernos da Terra plana

O movimento moderno em defesa da Terra plana, começou na Inglaterra em 1849, com a publicação de um panfleto de dezesseis páginas, chamado Zetetic Astronomy: A Description of Several Experiments which Prove that the Surface of the Sea is a Perfect Plane and that the Earth is Not a Globe! por “Parallax.” Nos 35 anos seguintes, Parallax – seu nome verdadeiro era Samuel Birley Rowbotham — atravessou a Inglaterra, atacando o sistema esférico em palestras públicas. Seu sistema, completamente original, conhecido por seus aderentes como “zetetic astronomy,” é melhor descrito na segunda edição, com 430 páginas, do seu livro Earth Not a Globe, publicado em 1873 also usando o pseudônimo de Parallax (1873a).

A essência da astronomia zetética é a seguinte: o mundo conhecido é um vasto plano circular, com o pólo norte no centro e 150 pés de uma parede de gelo no limite sul. O equador é um círculo cortado ao meio. O sol, lua e planetas giram em torno da Terra na região do Equador numa altitude de 600 milhas. O movimento de “nascer” e “se por” é uma ilusão de ótica causada pela refração atmosférica e a lei zetética de perspectiva. A última lei também explica porque os navios desaparecem no horizonte quando entram em mar alto.  A lua tem luz própria, e é ocasionalmente eclipsada quando um corpo invisível e escuro passa diante dela. Todo o universo conhecido é literalmente coberto pelo “firmamento” (abóbada) que é descrito na Bíblia.

Rowbotham (Parallax) e seus seguidores encontraram terreno fértil e o movimento da Terra plana “pegou” por volta de 1860, logo depois que  The Origin of Species de Charles Darwin, foi publicado. Clérigos conservadores que acreditavam que todos os geólogos estavam errados, não tiveram problemas em acreditar que o mesmo acontecia com todos os astrônomos. Como a maioria dos mais sinceros cientistas bíblicos da época, os da Terra plana fizeram da “astronomia zetética” a bola da vez na Inglaterra Vitoriana. Antes do final do século XIX, o movimento se espalhou para a América e para o resto do mundo de língua inglesa. Poucos acadêmicos profissionais aderiram, os que aderiam eram exceções.  Alexander McInnes da Glasgow University era um defensor veemente da Terra plana, assim como Arthur V. White da University of Toronto. A maioria dos defensores dessa teoria de Terra plana que podiam mostrar “credenciais”, eram clérigos ou engenheiros.

Na América, a Terra plana tornou-se doutrina central  da Wilbur Glenn Voliva‘s Igreja Católica Apostólica em Zion, Illinois. Durante os anos 1920 e 1930, milhares de residentes de Zion eram pelo menos nominalmente, crentes na Terra plana. Em algumas famílias, três gerações aprenderam a doutrina da Terra plana nas escolas paroquiais de Zion. Em todas as estações de rádio, Voliva esbravejou contra os “trigêmeos do diabo”, “evolução, crítica bíblica e astronomia moderna.” A popularidade desse surto de “Terra-planismo” declinou na América, depois da morte de Voliva em 1942, mas o movimento ainda vive e bem, e tem sede em Lancaster, Califórnia.

Liberal, Moderado, Conservador: Terra jovem, geocentristas, Terra plana

Embora o “Terra-planismo” fosse tão bem suportado biblicamente e cientificamente quanto o criacionismo, os criacionistas não querem se ver associados com os Terra-planistas. Num debate público com Duane T. Gish, diretor associado do Institute for Creation Research, o paleontologista Michael Voorhies sugeriu que o Creation Research Society é parecido com o Flat Earth Society. De acordo com um relato sobre o debate, publicado em uma “newsletter” do ICR de maio de 1979, Acts and Facts, Gish respondeu “nem um único membro da Creation Research Society era membro da Flat Earth Society e que a tentativa de associar as duas associações não era nada mais do que um borrão.” Gish citou uma réplica na edição de setembro de 1979 da The Flat Earth News por um leitor que escreveu uma carta indignada (identificado apenas como G.J.D.), que tinha lido a matéria de Acts and Facts. G.J.D. contestou a alegação de Gish de que não havia membros da Flat Earth Society entre os membros da Creation Research Society, concluindo, “Ele não sabe do que está falando, pois eu mesmo sou membro de ambas, e estou escrevendo a ele para mostrar a ele que está errado.” Ironicamente, Gish pode ter criado um caso. Para protestar pelo ataque desferido contra os “terra-planistas”, G.J.D. deixou de ser membro do Creation Research Society.

Earth/Moon as seen from Mars, 5/8/2003Picture to the right: The Mars Orbiter Camera (MOC) aboard NASA’s Mars Global Surveyor (MGS) spacecraft currently orbiting the red planet photographed Earth, the moon and Jupiter, as seen in the evening sky of Mars, at 9 am EDT, May 8, 2003. This is the first image of Earth ever taken from another planet that actually shows our home as a planetary disk. Because Earth and the Moon are closer to the Sun than Mars, they exhibit phases, just as the Moon, Venus, and Mercury do when viewed from Earth. The MOC Earth/Moon image has been specially processed to allow both Earth (with an apparent magnitude of -2.5) and the much darker Moon (with an apparent magnitude of +0.9) to be visible together. The bright area at the top of the image of Earth is cloud cover over central and eastern North America. Below that, a darker area includes Central America and the Gulf of Mexico. The bright feature near the center-right of the crescent Earth consists of clouds over northern South America.

Havendo ou não “terra-planistas” entre os membros da Creation Research Society, o criacionismo de Terra Jovem estava associado de perto com o movimento da Terra plana.  De fato, criacionismo Terra Jovem, Geocentrismo e Terra-planismo eram respectivamente os setores liberais, moderados e conservadores da árvore da “ciência bíblica”. A intensa hostilidade expressa pelos criacionistas científicos contra os “terra-planistas” não se estendia aos geocentristas modernos, que eram respeitados entre os criacionistas. Embora a bíblia esteja, de Gênesis ao Apocalipse, referindo-se a uma Terra plana, os geocentristas combinaram forças com os criacionistas “liberais” para atirar os “terra-planistas” ao obscurecimento.

Apesar da sua guerra mortífera, os “cientistas bíblicos” estão de acordo em bom número de assuntos. Eles concordam que a bíblia é útil como texto científico, concordam sobre a fraqueza de meras “teorias”, sobre a duplicidade dos cientistas e sobre o fracasso da ciência convencional.  O termo “ciência bíblica” é interpretado no seu sentido mais literal. Para participar do Creation Research Society, todos precisam assinar uma profissão de fé que diz:

“A Bíblia é palavra escrita de Deus, e porque nós acreditamos que ela seja inspirada totalmente, todas as suas afirmações são historicamente e cientificamente verdadeiras em todos os originais. Para o estudante da natureza, isso significa que a narrativa da criação em Gênesis é uma apresentação factual de simples verdades históricas.”

Henry M. Morris coloca isso de forma mais forte:

“A questão, é que a Bíblia é ao mesmo tempo verdade verbalmente e literalmente inspirada.  Sempre que ela lida com questões científicas ou históricas, significa que é exatamente o que ela diz e que é completamente acurada. Quando figuras de linguagem são usadas, seu significado é evidente no contexto, como em qualquer outro livro. Não existe nenhuma falácia científica na Bíblia como um todo. Ciência é “conhecimento”, e a bíblia é um livro de conhecimento verdadeiro e factual, em qualquer assunto sobre o qual trate. A bíblia é um livro científico! (1974a, p. 229)

Samuel Birley Rowbotham, fundador do movimento moderno da Terra plana, concorda totalmente com Morris:

“Dizer que a Escritura não pretendiam ensinar ciência de forma exata, é, em resumo, declarar que Deus comissionou seus profetas a ensinar coisas que são totalmente falsas.” (Parallax 1873a, p. 357)

Sentimentos semelhantes são expressos pelo “terra-planista” David Wardlaw Scott, que escreveu,

“Ela [Bíblia] nunca contradiz os fatos, e, para o verdadeiro estudante cristão, ensina ciência mais real do que todas as escolas e colégios do mundo.” (1901, p. 284)

Em outra parte, Scott diz em seu livro,

“Pode ser que essas páginas satisfaçam a necessidade de muitos, que não tenham sido totalmente enganados por fantasias improváveis, que ficarão felizes em saber que a narrativa bíblica da criação, é acima de tudo, a única que se sustenta, e que a Astronomia Moderna, assim como sua parente teoria da evolução, nada mais são do que zombarias, ilusões, e laços.”(1901, p. iii)

Enquanto as teorias são a espinha dorsal da ciência convencional, a frase de Scott “fantasias improváveis” parece resumir o que os cientistas bíblicos pensam sobre a ciência convencional. Eles não querem nada além dos “fatos”. Como, certa vez, Gish contou para sua audiência,

“Ainda não encontrei um fato científico que contradiga a bíblia, a palavra de Deus. Agora eu e você estamos ambos conscientes de muitas teorias científicas que contrariam a bíblia. Quando separarmos aquelas que são meramente opiniões ou teorias ou ideias do que é fato, não haverá mais nenhuma contradição.” (1978)

Outros criacionistas expressaram a mesma opinião. Em seu prefácio para o livro didático criacionista Biology: A Search for Order in Complexity, John N. Moore afirma que “verdadeira ciência” requer que os dados sejam apresentados como eles são” e que um ponto de vista filosófico sobre as origens” não pode ser ciência. (Moore & Slusher 1974).

Qualquer Terra-planista concordaria. Com efeito, em suas palestras e escritos, Samuel Birley Rowbotham repetidamente enfatiza a importância de se respeitar os “fatos”.  Ele chama o seu sistema de “astronomia zetética” (do verbo grego vetetikos, que significa buscar ou inquirir) porque ele se baseia somente em fatos e não em meras teorias como as de  Copérnico e Newton. Rowbotham devotou o primeiro capítulo inteiro da sua “obra magna” a elogiar os fatos em detrimento das teorias, concluindo,

“Deixe a prática de teorizar ser abandonada como opressiva aos poderes da razão, fatal ao total desenvolvimento da verdade, e, em todos os sentidos, inimiga do sólido progresso do que chamamos filosofia.” (Parallax 1873a, p. 8)

O fato é que esses cientistas bíblicos suspeitavam da duplicidade dos cientistas teóricos. Criacionistas científicos raramente expressavam suas suspeitas em “português claro”, mas eles fortemente afirmavam que muito da ciência moderna – a datação radiométrica por exemplo – era uma fraude. Um geocentrista proeminente, também astrônomo e cientista computacional, James N. Hanson, é mais sincero. Numa palestra pública, ele disse sobre os astrônomos não-geocêntricos, “Eles mentem muito” (Hanson 1979). Charles K. Johnson, presidente da Flat Earth Society, é absolutamente veemente sobre a desonestidade dos cientistas. Nas páginas do he Flat Earth News, ele regularmente chama os cientistas de “mentirosos” e “amigos dementes dopados” e ainda afirma que o programa espacial é um “jogo”.

Além de concordarem nas interpretações científicas, muitos cientistas bíblicos compartilhavam certas ideias teológicas. Tais como:

(1) a evolução (e/ou a teoria esférica) não pode ser reconciliada com a Bíblia;

(2) a evolução (e/ou a teoria esférica) nega o Deus pessoal e leva à degradação moral;

(3) foi por essas razões que Satã inventou a evolução (e/ou a teoria esférica).

Muitos cristãos aceitam a evolução como um método que Deus usou na criação, um conceito chamado “evolução teísta”. Duane Gish explicitamente rejeita essa ideia.

“Nem por um momento eu creio que a teoria da evolução possa ser reconciliada com a bíblia. Evolução teísta é um desastre tanto biblicamente quanto cientificamente. É má ciência e má teologia.” E “Você realmente não pode acreditar na Bíblia e na teoria da evolução ao mesmo tempo.” (Gish 1978)

Rowbotham disse o mesmo a respeito da teoria esférica: “Esses filósofos Newtonianos que ainda sustentam que a Escritura Sagrada é palavra de Deus, estão num dilema terrível. Como podem dois sistemas tão diretamente opostos ser reconciliados?” (Parallax 1873a, p. 357) John Hampden colocou isso de forma mais clara: “Ninguém pode acreditar numa única doutrina ou dogma que seja da astronomia moderna, e aceitar as Escrituras como revelação divina” (citado by Rectangle 1899). Assim como os Terra-planistas, Hampden também aceitava a doutrina da criação em seis dias literais, e levava essa opinião às últimas consequências, escrevendo “Se pode provar… que dias não se referem a dias, então os infiéis estão totalmente justificados em rir com escárnio de qualquer outra frase ou qualquer outra afirmação, desde o primeiro até o último versículo da Bíblia.” (Rectangle 1899).

Os cientistas bíblicos tipicamente sentem que a ciência ortodoxa ameaça a doutrina de um Deus pessoal. Como Duane Gish coloca, “se eles (cientistas convencionais) acreditam que Deus existe, Ele está lá fora em algum lugar, e não tem participação alguma na origem do universo” (1978). Henry Morris diz o mesmo de forma diferente: “A grande maioria das pessoas, principalmente os intelectuais, preferem uma teoria evolucionista das origens, porque isso, consciente ou inconscientemente, relega o Criador a um papel secundário, indefinido ou ilusório no universo, e nas vidas dos homens que estão em rebelião moral contra Ele.” (Morris 1963, p. 92-93). Albert Smith, o então editor de Earth — Not a Globe — Review, expressou a mesma insegurança dos modernos criacionistas:

“Na hipótese astronômica, o mundo é como um órfão sem cuidado, ou um andarilho desolado: Deus é removido para longe o suficiente para não ter mais nenhuma utilidade; e a idéia da Eternidade é tão vaga, que em tal lugar, se é que existe mesmo, pode ser em qualquer lugar ou lugar nenhum.”  (citado por Rectangle 1899, p. 161)

Quem poderia ser…. SATÃ?

Desde o começo, Henry M. Morris foi citado afirmando que Satã revelou a evolução a Nimrod na Torre de Babel. Em outra parte, ele repetidamente argumenta que os evolucionistas são guiados pela mão de Satã, cujo conceito de evolução é tão antigo quanto Babel.

“Por trás de ambos os grupos de evolucionistas (teístas e ateístas) qualquer um pode discernir a influência da velha serpente chamada Diabo, Satã, que engana todo mundo (Apocalipse 12:9) Como vimos, pode ter sido o próprio engano da evolução que levou Satã a se rebelar contra Deus, e foi essencialmente com a mesma mentira que ele enganou Eva, e com a qual ele continua a enganar o mundo inteiro.”(Morris, 1963, p. 93)

As palavras de Morris soam familiares aos Terra-planistas. “Eu acredito que a real fonte da Astronomia Moderna foi SATANÁS”, escreveu o Terra-planista David Wardlaw Scott (1901, p. 287). “Desde a primeira tentação de Eva no Jardim do Éden, até hoje, seu grande objetivo é lançar descrédito sobre a Verdade de Deus.” John Hampden concordou, chamando a teoria esférica de “aquele instrumento satânico que fala sobre um globo em movimento, que desafia a Escritura, a razão e os fatos.” (1886, p. 60).

Em sua apaixonada batalha contra Satã, os criacionistas adotaram exatamente as mesmas táticas que os Terra-planistas britânicos tinham usado um século antes. Estas eram essencialmente táticas políticas, voltadas diretamente para as igrejas. Ativistas locais vendem livros e panfletos e escrevem “cartas ao editor”. Um grupo de docentes qualificados cruzavam o país falando em igrejas, organizações religiosas, ou em qualquer lugar onde obtivessem uma sala e uma multidão.  Em ambos, literatura e as palestras, a mensagem é a mesma: os cientistas estão tentando destruir a religião. Como a inglesa Universal Zetetic Society, o Institute for Creation Research atua com edição, preparação de aulas, e usando meios de comunicação para todas essas atividades.

No início dos anos 1970, os membros do Institute for Creation Research começaram a debater evolucionismo sempre que era possível. Nesses debates, os criacionistas usavam textos do Terra-planista John Hampden, quem disse certa vez a um crítico,

“Não fomos nós que aparecemos ao público oferecendo um tipo de novidade atraente e apelando por patrocínio. Nada desse tipo. Você e o público estão na defensiva. Nós somos seus acusadores. A novidade foi introduzida por vocês, e vocês é que têm que justificar suas interferências com o que estava perfeito antes.” (1886, p. 64)

Os criacionistas esperam seus oponentes defenderem a evolução, para então atirar pedras neles, e com frequência os adversários entram no jogo. O infeliz evolucionista, diante de um debatedor criacionista experiente, parece muitas vezes um homem desarmado tentando invadir uma fortaleza.  Muitos dos Terra-planistas eram bons debatedores. George Bernard Shaw descreveu um fórum público no qual um terra-planista enfrentou um esférico e resistiu à sua oposição (Gardner 1957). Rowbotham era como um tigre no palco, raramente era superado. Os bons cidadãos de Leeds, Inglaterra, correram para fora, sendo incapazes de dar uma resposta mais efetiva aos seus argumentos pela Terra plana (Parallax 1873b). Em In Brockport, New York, em março de 1887,  dois cavalheiros cientistas defenderam a esfericidade da Terra contra a forma plana defendida por M.C. Flanders, por três noites consecutivas.  Quando o “grande debate” terminou, cinco jurados escolheram o vencedor num veredito unânime. Seu relatório, publicado no Brockport Democrat, declarou claramente e enfaticamente sua opinião de que a balança de evidências pendeu para o lado do Terra-planista (Hampden 1887).

Desafios a dinheiro eram outra forma que os cientistas bíblicos usavam contra seus oponentes. No final do século, Koresh (Cyrus Reed Teed), um cientista bíblico de  Chicago, ofereceu um prêmio de 5 mil dólares a quem refutasse sua teoria de que a Terra era oca e que nós vivemos dentro dela. Ninguém venceu. Nos anos 1920 e 1930, Wilbur Glenn Voliva ofereceu um prêmio de 5 mil dólares a quem provasse para ele que a Terra não era plana. Ninguém conseguiu. Na época em que esse artigo foi escrito (1982), o engenheiro criacionista R.G. Elmendorf ofereceu 5 mil dólares a quem provasse a ele que a evolução é possível (1976). Como Elmendorf é também um tipo de geocentrista, ele ofeceu mil dólares a quem provasse que a Terra se movia (1980).

Conclusão

Em muitos aspectos, os criacionistas de Terra jovem diferem da maioria dos “cientistas bíblicos” do passado. Suas doutrinas possuem um apelo emocional que o Terra-planismo e o geocentrimo não tinham. Mais importante, os criacionistas possuem poder político significante, o qual eles estão sempre ansiosos por usar. Enquanto esse artigo era escrito, Louisiana elaborou uma lei que obriga que as doutrinas “científicas” dos criacionistas sejam ensinadas nas escolas públicas, junto com a teoria da evolução. (Em 22 de novembro de 1982, essa lei da Louisiana foi derrubada porque a legislação do estado não tem autoridade para determinar o currículo escolar). Agitação significante tem ocorrido em outros estados (dos EUA).

Algumas doutrinas dos “cientistas bíblicos” evoluíram, mas em outros aspectos eles continuam presos num círculo vicioso, e muitos querem dar às suas doutrinas bíblicas, força de lei.

Referências

Charles, R.H. 1913. The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament, vol 2, Oxford: Clarendon Press.

Cosmas Indicopleustes, c. 550 AD Topographia Christiana. Trans by J.W. McCrindle, London: Hakluty Society (1897).

Elmendorf, R.G. 1976. $5,000 reward and a challenge to evolution. (Flyer dated 1 Sept 1976).

_____ 1980. $1,000 reward for scientific proof-positive that the earth moves. (Flyer dated 10 March 1980).

Gardner, Martin. 1957. Fads and Fallacies in the Name of Science. NY: Dover.

Gish, Duane T. 1978. Tape of a lecture to the Lutheran Evangelistic Conference in Minneapolis, 23 Jan 1978.

Hampden, John. 1886. The Earth: Scripturally, rationally, and practically described. A geographical, philosophical, and educational review, nautical guide, and general student’s manual, #8. 11 December.

_____ 1887. ibid, #17, 1 November.

Hanson, James N. 1979. Tape of geocentric lecture delivered in Texas.

Moore, John N. and Slusher, Harold S. 1974. Biology: a search for order in complexity. Rev ed, Grand Rapids: Zondervan.

Morris, Henry M. 1963. The Twilight of Evolution. Grand Rapids: Baker Books.

_____ 1974a. Many Infallible Proofs. San Diego: Creation-Life Pub.

_____ 1974b. Scientific Creationism. San Diego: Creation-Life Pub.

_____ 1975. The Troubled Waters of Evolution. San Diego: Creation-Life Pub.

Parallax (Samuel Birley Rowbotham). 1949. Zetetic Astronomy: a description of several experiments which prove that the surface of the sea is a perfect plane and that the earth is not a globe! Birm, England: W. Cornish.

_____ 1873a. Earth Not a Globe. London: John B. Day.

_____ 1873b. The Zetetic. vol 2, no 2, p. 39.

Rectangle (Thomas Winship). 1899. Zetetic Cosmogony; or conclusive evidence that the world is not a rotating, revolving globe, but a stationary plane circle, 2nd ed. Durban, South Africa: T.L. Cullingworth.

Scott, David Wardlaw. 1901. Terra Firma: The Earth not a Planet. London: Simpkin, Marshall, and Co.

Sloan, Robert. 1980. Personal communication.

Whitcomb, John C. and Morris, Henry M. 1961. The Genesis Flood. NJ: Presbyterian and Reformed Pub.

White, Andrew D. 1955. A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom, vol 1. NY: George Braziller (orig 1900).

O texto acima, em tradução livre efetuada por mim, encontra-se em sua fonte original, em inglês, no link seguinte:

The evolution of “Bible-Science – Young Earthers, Geocentrists & Flat Earthers

Depois do trabalho que tive para traduzir esse texto imenso (e pedindo antecipadamente perdão por algum erro na tradução que possa ter cometido, já que não sou nenhuma profissional), vale fazer algumas considerações:

1. Até entendo a reação excessivamente defensiva e muitas vezes agressiva desses homens, embora não concorde com o fundamentalismo dogmático deles, que chegou ao ponto de ressuscitar uma teoria que não era levada mais a sério desde antes de Cristo, e que hoje igualmente não é mais levada a sério (pelo simples motivo de que está totalmente errada), como a da Terra plana, na intenção de defender o que acreditavam ser “verdade”. Porém, nem sempre o fato de se ter uma convicção tão forte a respeito de uma coisa, e muita eloquência para defender essa convicção, significa que estejamos certos. Muitas vezes nos aferramos ainda mais a essas convicções, justamente por sabermos que estamos errados, mas não sabemos como reordenar as ideias, de forma a encaixar conhecimentos novos. No caso, o que parece, é que a fé de tais pessoas dependia dessas convicções, para continuar existindo. Caso elas realmente se convencessem de que estavam erradas, abandonariam o cristianismo, ele deixaria de fazer sentido para elas. Sinal evidente de que depositaram sua fé em coisas erradas, em qualquer outra coisa, menos em Deus.

2. Tanto criacionistas de Terra jovem, quanto Geocentristas e quanto Terra-planistas, todos estão errados. Os fatos científicos todos depõem contra eles e derrubam todos ao mesmo tempo. E mesmo assim, ainda hoje vemos alguns que são capazes de defender tais posições (hoje mais comumente o criacionismo de Terra Jovem), com eloquência. São capazes de encher páginas e páginas de livros e quem é leigo, pode realmente se iludir e pensar que está lendo algo realmente científico. Só que, de novo, a eloquência com a qual se é capaz de defender uma convicção qualquer, nem sempre significa que se esteja com razão. E acaba chegando a um ponto, onde simplesmente essa eloquência se transforma em puro fanatismo, teimosia, pavor diante de novos conhecimentos, recusa em ter que repensar por si mesmo, o que já foi incutido na sua mente e pensado por outros antes de você.

3. Apesar de tudo que esses homens disseram a respeito da teoria da evolução e o Cristianismo serem incompatíveis (uma posição extremamente defensiva que assumiram, na tentativa de impedir as pessoas, e provavelmente eles mesmos, de perder a fé, uma tentativa sincera, porém equivocada e sem necessidade), isso não só não é verdade, como o número de cristãos que aceitam a evolução, só aumenta. E continuam cristãos, até melhores do que antes, porque se livraram do jugo de ter que negar a realidade. Penso que é uma grande bobagem continuar negando a evolução dessa forma teimosa, obrigando as pessoas a escolher entre coisas que não são excludentes.

4. A ciência, ao contrário das acusações que muitos fundamentalistas costumam fazer, na tentativa de vender e alimentar uma guerra que não faz nenhum sentido, nunca teve intenção alguma de dizer qualquer coisa a respeito de Deus. Ela, por definição, só trabalha com dados do mundo material, e apenas por isso não tem sentido algum incluir Deus no meio de explicações científicas. Eu, como pessoa individual, ser pensante, sou livre para, de posse do conhecimento acerca da realidade material, fornecido pela ciência, continuar optando por ser teísta. E usando para isso razões que não são aceitas pela ciência, como experiências vividas, razões subjetivas. O que eu não posso, é querer que, depois de ter adicionado crenças pessoais minhas, na explicação da realidade fornecida pela ciência, querer que esse conjunto (conhecimento científico + minhas adições pessoais) seja também considerado ciência pura. Não é. E outra coisa importante: não posso simplesmente distorcer a realidade ou negá-la, para que se encaixe no meu teísmo; mas posso sem problema nenhum, adaptar meu teísmo a esse conhecimento. Porque por mais que tenhamos milhares de páginas de teologia já escritas, nosso conhecimento acerca de Deus SEMPRE será limitado e incompleto. Muita discussão inútil entre religiosos e cientistas teria sido evitada, muito desperdício de energia brigando contra o conhecimento científico não teria acontecido, se houvesse mais humildade por parte daqueles que se arrogam teólogos e doutores em divindade. Acham que já sabem como Deus funciona, totalmente, e sem precisar olhar para a ciência para refinar as ideias.

5. O fato de existirem alguns radicais ateístas no meio científico, que fazem tanto barulho quanto os radicais teístas, não significa que aceitação do conhecimento científico implica em aceitar também o ateísmo de alguns cientistas.

6. Quando ouço um cristão falar, que um dia a ciência vai voltar a ser feita como era nos tempos de Newton, ou seja, dando espaço para Deus, fico bastante chateada. Tais pessoas ainda não entenderam no que consiste a ciência. Ela não vai voltar a ser como era nos tempos de Newton, porque graças a Deus, ela é neutra, não postula sobre Deus, nem usa metafísica ou filosofias para explicar a realidade. Se baseia apenas nos fatos materiais observáveis. Ela precisa ser assim, do contrário jamais se chegaria a conhecimento real algum, porque convicções pessoais, filosofias, ideologias e religiões, fariam com que houvesse várias ” versões” diferentes de ciência, cada uma de acordo com determinados grupos ideológicos, filosóficos ou religiosos. Seria um enorme retrocesso.

7. Teologia também precisa evoluir. Como qualquer outro conhecimento, teologia é construção humana, e particularmente muito suscetível a erros gigantescos, porque quem está apto a dizer que sabe tudo a respeito de Deus? Ainda mais se essa teologia foi construída sem que houvesse o conhecimento que temos hoje. Se todo o resto que construímos como seres humanos, apresenta essa dinâmica de mudança de acordo com o avanço no conhecimento, a teologia deve fazer o mesmo caminho.

8. Uma das grandes contribuições que o conhecimento científico verdadeiro pode nos dar, é o de nos obrigar a refinar nossa fé. Tirar dela as superstições, o medo irracional, nos tornar livres de castas sacerdotais que mantêm pessoas sob seu jugo, por força do medo dos “cientistas ateus que querem destruir a religião” (eles não precisam ajudar os religiosos nessa tarefa, porque os religiosos são os primeiros que mais contribuem para acabar com a essência da própria religião), e da ignorância. E também, nos obriga a buscar um relacionamento pessoal com Deus, único e individual (coisa que não se faz simplesmente “indo à frente” no final de um culto, e sim, é uma longa caminhada), e embasar a fé apenas nisso, e não em coisas que sejam externas, mutáveis, que estejam expostas a erros humanos, manipulações, interpretações e etc. Não baseie a sua fé em doutrinas, dogmas, teologias, livros, apologias, pessoas, prédios, objetos, baseie em Deus. Deus acima de todas as coisas, inclusive acima da bíblia, porque Deus nunca mandou ninguém adorar a bíblia a ponto de fazer guerra contra outras pessoas, e matar outras pessoas por causa dela, ou a ponto de se tornar escravo dela. Ela é importante mas NÃO É o mais importante, DEUS É. Jesus viu o mesmo acontecer em sua época, pessoas que se tornaram escravas do que estava escrito, mas esqueceram de viver o que era principal: amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmos.

A primeira apologia que o cristão devia oferecer ao mundo para ser analisada, destrinchada, provada, é a sua própria vida e conduta como imitador de Jesus. Você pode ser eloquente e usar muitas palavras difíceis e bonitas, e escrever enciclopédias gigantescas, lotadas de argumentos em suposta defesa da fé; mas se sua vida não condiz com o que você afirma, toda a sua apologia será em vão. E se ela condiz com a fé que você diz professar, você não precisa tanto do discurso, da eloquência, da retórica, da oratória. Porque a sua vida, é um fato que qualquer um pode observar, e fatos falam muito mais alto do que qualquer discurso.


Atualização da guerra criação x evolução

abril 16, 2010

por Chaplain Mike

Estive muito ocupado com coisas mais importantes, como trabalho, família, e compartilhando o sofrimento de amigos, para voltar a tratar desse assunto; mas, pessoal, temos que conversar.

Poucas semanas atrás, postei um vídeo (que não está mais disponível), produzido pelo BioLogos, com o Dr Bruce Waltke, um dos maiores especialistas em Antigo Testamento do mundo. Nesse vídeo, Waltke encorajou a igreja a permanecer engajada na discussão quando se tratar de ciência e particularmente quando o assunto for evolução.

Abaixo, está o comentário no blog do BioLogos, sobre o vídeo do Dr Waltke:

Neste vídeo, Bruce Waltke discute sobre o perigo que a igreja correr quando não está engajada no mundo ao seu redor, principalmente com relação à evolução, a qual muitos evangélicos ainda rejeitam.

Waltke alerta, “se os dados são esmagadores em favor da evolução, negar essa realidade fará de nós uma seita… um grupo qualquer que se recusa a interagir com o mundo. E com razão, porque não estamos usando nossos dons nem confiando na Providência Divina, que nos trouxe até esse ponto em nossa consciência.”

Estamos num momento único da história, onde  “tudo está se juntando”, diz Waltke, e o diálogo – como esse iniciado pelo BioLogos – são desdobramentos positivos.  “Vejo isso como parte do crescimento da igreja”, ele diz. “Estamos muito mais maduros para esse diálogo do que estávamos antes. É assim que chegaremos à unidade da fé – lutando com essas questões.”

Waltke sublinha que negar a realidade científica seria negar a verdade de Deus no mundo. Para nós, como cristãos, isso poderia servir para nossa morte espiritual, porque não estaríamos amando a Deus com toda a nossa mente.  Pode ser nossa morte espiritual em testemunhar ao mundo, porque não teríamos crédito algum.

Enquanto os cristãos podem ainda discordar entre si sobre algumas questões, Waltke enfatiza que estejamos interagindo de forma séria – e confiar em Deus como verdade. Testar essas coisas, mas se apegando ao que é bom, traria maior entendimento e unidade entre os cristãos.

Se não fizermos isso, adverte Waltke, vamos morrer. Se nos recusamos a nos engajar nesse grande diálogo cultural/científico, poderemos ficar à margem, o que seria uma grande tragédia para a igreja.

Aplaudo o Dr Waltke por suas sensíveis e corajosas palavras. A igreja não pode enterrar sua cabeça na areia. Não podemos simplesmente tampar os ouvidos e ficar choramingando, “Mentira! Mentira!” sempre que o conceito de evolução é discutido.

Se determinados grupos de cristãos duvidam que as evidências levam às mais universalmente aceitas conclusões da comunidade científica, sugiro que encorajemos os cristãos a seguir carreiras científicas, para ganhar credibilidade, praticando pesquisas honestas e responsáveis, fazer o trabalho duro de elaborar modelos alternativos, e defendê-los publicamente.

Infelizmente, não é isso que “criacionistas” fazem.

  • Criacionistas não usam o método científico para debater ciência, mas se limitam a julgamentos a priori. Começam pelas suas conclusões inteiramente formadas – baseadas na sua interpretação particular de Gênesis 1-11 – e então trabalham no sentido inverso, rejeitando qualquer evidência que contrarie suas conclusões.
  • Criacionistas olham as descobertas científicas que contradigam algum pequeno aspecto do modelo evolucionário, de forma superficial, e então declaram que todo o modelo deve ser falso.
  • Criacionistas usam o argumento do espantalho, dizendo que porque alguns ateístas radicais são evolucionistas, aceitar a teoria da evolução é a mesma coisa que aceitar as explicações naturalistas do universo e da vida.
  • Criacionistas usam táticas infames, culpando o modelo da evolução biológica como a raiz de todos os males em nossa cultura “secular”, desde o aborto, passando pela pornografia até a rebelião dos jovens e a destruição da família, e também passando pela união homossexual à eutanásia, chegando até as políticas de saúde pública do Presidente Obama.
  • Criacionistas são marketeiros. Eles não constroem museus para mostrar suas descobertas científicas ao mundo, atualizando suas coleções quando novas evidências são encontradas. Constroem centros de apologética do criacionismo. E não ciência. Apenas suas próprias e limitadas interpretações da Bíblia e viagens imaginárias sobre como teria sido o “no princípio.”
  • Criacionistas ignoram a complexa história da interpretação, quando se trata de crítica aos textos bíblicos como os primeiros capítulos do Gênesis. Para eles, existia apenas uma interpretação aceitável da narrativa da criação ao longo dos séculos, até que os geologistas começaram a sugerir que a Terra é muito mais antiga do que se pensava, levando à “teologia liberal” e a todos os males sociais resultantes.
  • Criacionistas ignoram a história dos seus próprios pontos de vista. Falham em entender, por exemplo, que a teoria de um dilúvio global que mudou a estrutura física da Terra, tem sua origem em “visões” da adventista Ellen G. White.
  • Criacionistas politizaram o assunto de uma forma que é praticamente impossível em muitos lugares, ter uma conversa civilizada e profunda sobre isso. Fizeram disso um jogo zerado. Não há espaço para debate. Se você não concorda conosco, você está contra nós.

O criacionismo se transformou na plataforma principal da guerra cultural dos cristãos conservadores. Como resultado, o assunto passou a ser mais do que um debate entre estudiosos da Bíblia que discordam em suas interpretações de Gênesis. Tornou-se uma “prova de fogo” para muitos, identificando quem é e quem não é um cristão verdadeiro.

Então, infelizmente, apesar do fato de que o ponto de vista de Bruce Waltke sobre o assunto tenha sido publicado em seus escritos por anos, o vídeo divulgado pelo BioLogos, foi provocativo demais na cultura do medo, que marca o ambiente do cristianismo na América.

Primeiro o Dr Waltke pediu que o vídeo fosse retirado da Internet.

Em seguida, emitiu um comunicado de esclarecimento dizendo que remover o vídeo foi decisão própria, tomada pelo desejo de não ferir a igreja causando desentendimento. Entretanto, está bem documentado que houve pressão para que ele fizesse isso, por parte dos líderes do seminário onde ele ensinava, Reformed Theological Seminary.

Pouco tempo depois, o Dr Waltke deixou o Reformed Theological Seminary.

Para seu crédito, no meio de tudo, Waltke assumiu toda a responsabilidade por suas palavras, e não culpou o seminário, desejando-lhes somente o bem.  Aqui está a carta que demonstra o espírito gracioso do Dr Waltke. Depois, ele se transferiu para o Knox Theological Seminary.

Em um artigo intitulado “The Video that Ended a Career,” no Inside Higher Ed, Scott Jaschik comenta:

Waltke é um nome tão influente na teologia evangélica que o incidente causou constrangimento considerável. Por um lado, sua defesa pública do ponto de vista de que aceitar a evolução e ser um homem de fé não são posições incompatíveis foi significante para aqueles que, como o BioLogos Foundation, defendem esse ponto de vista. As credenciais acadêmicas de Waltke na Teologia Cristã são muito fortes para ser dispensadas facilmente.

Mas o fato de que esse seminário dispensou-o é visto como um sinal de como é difícil para os estudiosos de algumas instituições, levantar assuntos que envolvam ciência e que não sejam 100 por cento consistentes om uma interpretação literal da Bíblia.

Obviamente, uma voz proeminente do criacionismo, Ken Ham do Answers in Genesis e do Creation Museum, fez seu comentário a respeito da situação. Na sua opinião, Waltke, o BioLogos e também o RTS (porque permitem certa liberalidade em sua interpretação de Gênesis) estão “comprometidos” com a religião pagã da nossa era, que mina a autoridade da Palavra de Deus.

Décadas à frente, quando a igreja evangélica na América acabar como aconteceu na Europa (especialmente na Inglaterra onde a cultura está agora quase morta espiritualmente), ela vai acordar para o que aconteceu. Porque os líderes da igreja desta era comprometeram a Palavra de Deus com a religião pagã (evolução e milhões de anos), minaram a autoridade da Palavra de Deus. Esperamos que a igreja olhe para trás, aos líderes da igreja comprometida (que devem responder por contribuir para que tantos jovens deixem a igreja e porque a estrutura da igreja está tão enfraquecida), e perceba que precisa ser intransigente com a interpretação da Palavra de Deus em Gênesis…

A evolução e a Terra de milhões de anos são realmente a religião pagã tentando explicar a vida sem Deus… Precisamos orar para que esses líderes se arrependam e retornem para a Palavra de Deus…

É claro, isso é um evidente absurdo.

O Reformed Theologica Seminary é parte de uma tradição reformada, que estuda teólogos dos primórdios, como Agostinho, que não acreditava num entendimento literal de Gênesis, mais de 1500 anos atrás.  Quando o assunto “evolução” começou a ser incluído pela igreja nos idos de 1800, importantes teólogos reformados evangélicos como Strong, Shedd e Warfield, não viram nenhum problema numa posição evolucionista teísta. Quem é Ken Ham?

Além disso, seria realmente difícil encontrar um estudioso mais cuidadoso, profundo e devotado à Palavra de Deus do que Bruce Waltke. Que um marketeiro como Ken Ham, que não é nem especialista bíblico nem cientista, tenha o desplante de chamar o Dr Waltke ao arrependimento, em assuntos de interpretação bíblica, é risível. O mesmo com relação à sua condenação aos estudiosos e cientistas do BioLogos.

Então, é assim que vai ser, igreja?

Não estou dizendo “Vamos ficar juntos” ou “vamos todos concordar” com uma determinada posição. Estou dizendo, vamos amar a Deus com toda a nossa inteligência, pessoal! Vamos aprender a conversar entre nós mesmos.  Vamos aprender a escolher batalhas que valham a pena, e lutar nessas batalhas com as armas dadas por Deus: humildade, amor, serviço. Vamos aprender a ser discípulos de Jesus no mundo real.

  • Primeiro, se você pensa que a ciência é um assunto importante para os cristãos e quer saber mais sobre esses assuntos, procure se instruir, faça um curso científico. Leia de forma ampla e profunda, seja humilde e paciente. Assuma a posição de aprendiz antes de começar a jorrar suas “convicções”. Aprenda a reconhecer investigações superficiais e tendenciosas, e se recuse a se deixar levar pela propaganda de qualquer dos lados. Mantenha suas posições com uma mente aberta até que esteja convencido, e mesmo assim, comprometa-se em ser um aprendiz o resto da sua vida. A descoberta científica está continuamente se reavaliando e mudando. Não deixa de crescer.
  • Segundo, com todos os recursos disponíveis atualmente, não há desculpa para ninguém ser ignorante sobre a Bíblia, sobre como estudá-la, a história sobre sua interpretação, e as várias formas pelas quais suas passagens podem ser entendidas. Não se deixe levar caso alguém diga que existe apenas uma forma de interpretar fielmente uma passagem como Gênesis 1. Pense e estude por si mesmo, e ouça as vozes daqueles que lutam com o assunto a mais tempo que você. Se é importante para você “tomar uma posição” sobre um assunto, é importante que se dedique a estudar seriamente tudo a respeito desse assunto. Isso significa ler e ouvir opiniões com as quais você pode não concordar. Implica em ser capaz de falar com outras pessoas, sem ficar na defensiva e lhes chamar por nomes feios e palavrões.

Estou farto dessa vertente de guerra cultural do Cristianismo. Vamos crescer.

Update on the Creation Wars – Chaplan Mike – Internet Monk


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