Qual o significado real de amar nossos inimigos?

Dezembro 1, 2009

por C. Drew Smith

Talvez um dos mais preocupantes e ignorados mandamentos de Jesus é a ordem de amar nossos inimigos. Falado num mesmo contexto do reconhecimento de Jesus de que somos chamados a amar nosso próximo, isto é, aqueles que são fáceis de amar, Jesus afirma que amar nossos inimigos deve ter a mesma autoridade em nossas vidas para sermos seus discípulos fiéis.

Com efeito, no contexto de Mateus 5:43-44, Jesus inverte o comando original, “Ouviste o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás teu inimigo”, para contrastar com o que ele pregava como nova regra de Deus, “Mas eu digo que amem seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem.”

Estas palavras devem ter sido chocantes para os seus ouvintes originais, assim como são chocantes para qualquer de nós que as ouve hoje. Talvez eles tenham tentado explicar esse comando em separado, ou simplesmente ignorado tudo, assim como nós fazemos em meios intelectuais e práticos. Afinal de contas, esse talvez seja o mandamento mais difícil de praticar.

Mas temos que fazer a pergunta de forma mais prática, “Como vamos amar nossos inimigos?” Em outras palavras, como vamos expressar na prática, de forma realista, o amor transformador e redentor de Deus para aqueles que nos têm ofendido? Se Jesus ordenou aos seus discípulos  que amassem seus inimigos, então este amor precisa ser autenticado por meio de ações tangíveis. Mas por meio de que ações podemos expressar esse tipo de amor?

Há muitas boas ações que poderíamos ver como ações de amor, mas existem algumas mensagens fundamentais que estão no cerne da mensagem do evangelho, de que Deus ama o mundo. De fato, enquanto muitos atos de bondade podem ser discutidos, me parece que Jesus modelou para nós três ações e reações principais em relação àqueles que eram seus inimigos.

Primeiro, nós precisamos responder ao mal que é feito a nós por nossos inimigos, com ações não violentas. Quando Jesus foi preso no jardim, no auge do conflito entre ele e seus inimigos, respondeu sem violência e falou aos seus discípulos para fazerem o mesmo. Enquanto aqueles que o prenderam portavam espadas e varapaus, Jesus reagiu à sua agressão com tranquilidade. Então, uma reação a algo de mal feito a nós por nossos inimigos, que seja tanto expressão autêntica quanto transformadora do amor de Cristo, é sempre não-violenta.

Isso não nos impede de buscar justiça, mas nos diz para buscar a verdadeira justiça, que quebra o ciclo de ódio e violência. Além disso, a ordem de Jesus de darmos a outra face não é um comando para sermos fracos diante do mal praticado contra nós. Ao invés disso, por meio da expressão do nosso rosto, demonstramos uma força que sintetiza as ações de Cristo e abre a possibilidade para o amor autêntico, e paz duradoura entre nós e nossos inimigos.

Em segundo lugar, amando nossos inimigos devemos expressar um perdão incondicional aos erros que cometeram contra nós. O perdão de Deus a nós não é baseado em nossas próprias ações de confissão e arrependimento.  O perdão de Deus é incondicional e se estende àqueles que tenham cometido os mais graves pecados. Assim, se é para revelarmos o caráter de Deus aos outros, então devemos estender a eles o mesmo tipo de perdão que Deus, de forma tão graciosa, estendeu a nós.

Porém, o perdão não é simplesmente passar batido por um erro que foi cometido. Aqueles que cometem erros contra outros e contra a sociedade, devem ser levados à justiça. Há delitos e crimes que não podem ser desculpados. Entretanto, a justiça que buscamos não é uma condição para o perdão, nós somos chamados a oferecê-lo. Não somos chamados a perdoar depois que alguém cumpre a pena pelo seu erro. Somos chamados a perdoar independente da pena.

Em terceiro lugar, com a força que Cristo nos dá para amar nossos inimigos, nos movemos na direção de acolher e abraçar nossos inimigos. Podemos observar a experiência de Jesus com Judas, aquele que iria traí-lo, para ver essa atitude. Jesus permaneceu em comunhão na mesma mesa com Judas até o fim; um ato que serviu como expressão de hospitalidade e intimidade. Servindo como anfitrião, Jesus não só dividiu a refeição com Judas, como também lavou seus pés.

Esteja certo, estes são passos desafiantes para nós darmos. Mas amar nossos inimigos é parte do evangelho do discipulado. Se só temos voz para um insincero e distante amor pelos inimigos, numa tentativa de convencer a nós mesmos de que estamos bem com Deus, então falhamos em amar nossos inimigos e falhamos em viver o evangelho.

A fé no evangelho de Jesus Cristo não é um assentimento mental a uma lista de proposições sobre quem Jesus era. A fé autêntica só pode se expressar carregando a cruz e seguindo Jesus. Discipulado é um chamado para morrermos para nós mesmos, incluindo nossa necessidade de vingança contra nossos inimigos. Discipulado é um chamado para promulgar o amor redentor e transformador de Deus para todas as pessoas, por meio da não-violência, do perdão, e abraçando aqueles que vemos como inimigos.

What does it really mean to love our enemies? – C. Drew Smith


Babelismo

Novembro 18, 2009

por Elienai Cabral Junior via Bacia das Almas

NÃO DEMORA MUITO para que qualquer um descubra a pior das angústias humanas: nossa vida também é morte. Tudo o que amamos, planejamos e construímos é insustentável. Nossas melhores idéias duram tão pouco que a frustração é inevitável. Sonhamos com mundos novos, adrenalizamos a vida idealizando o futuro. Mas conhecemos com desencanto a fatídica fragilização de nossos ideais no desenrolar dos dias, na inclusão de outras pessoas, nas descobertas de novas necessidades e problemas, no adiamento de algumas soluções, nos empenhos inócuos, na convivência com muitas carências e tantos deslizes indesejados. Pouco a pouco, um projeto que nasce vigoroso e carregado de uma sensação de eternidade, por mais belo e consistente, enfraquece e perde gravidade.

Sei que a nostalgia é um sentimento também de auto-engano, pois tudo o que está longe, como o passado, parece melhor do que realmente é ou foi. Mas a nostalgia também é um índice dessa angústia pela insustentável finitude que nos constitui.

Sentir nostalgia pelo ponto de partida de qualquer empreendimento é evidência de enfraquecimento, de que não tem mais o mesmo poder de persuasão e encanto. Nostalgia é vertigem pela impotência ante o efêmero. Nossos mecanismos de renovação nada mais são que o sintoma de anemia da idéia inicial. No ambiente da igreja, nossos “anseios por avivamento” confirmam nossa fraqueza. Adélia Prado trata o assunto em sua poesia “Chorinho Doce”:

Eu já tive e perdi
Uma casa,
Um jardim, uma soleira,
O portal,
O jardim mais a casa,
O caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
Tudo de outro dono,
Tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas.
O coração amolecido como um figo na calda.

Mas uma outra palavra também descreve o modo como nos debatemos existencialmente com a insustentabilidade de nossas construções: instituição. Institucionalização é o processo humano de perpetuação de valores tendo em vista a irresistível contigencialidade da vida. As pessoas mudam. Tudo o que nos cerca muda. O futuro é futuro porque somos temporais, mas também porque somos imprevisíveis. Se fôssemos imutáveis, seres de estabilidade absoluta, além de não sermos humanos nem livres, seríamos seres sem futuro, arremessados a um “eterno agora” entediante. Descortinando com coragem e angústia, o Pregador (Eclesiastes) admite:

 

“Considere o que Deus fez: Quem pode endireitar o que ele fez torto? Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra alguma coisa sobre o seu futuro.” (Ec 7.13-14)

 

“Porquanto há uma hora certa e também uma maneira certa de agir para cada situação. O sofrimento de um homem, no entanto, pesa muito sobre ele, visto que ninguém conhece o futuro. Quem lhe poderá dizer o que vai acontecer? Ninguém tem o poder de dominar o próprio espírito; tampouco tem poder sobre o dia da sua morte e de escapar dos efeitos da guerra; nem mesmo a maldade livra aqueles que a praticam.” (Ec 8.6-8)

Instituir é estabelecer valores acima de nossa inconstância. Instituir é programar o futuro antes que o que aprendemos a amar transforme-se em passado. A forma pactual de se prevenir da nossa instabilidade é normatizar o comportamento de todos. Na institucionalização, diminuímos e enfraquecemos a importância da subjetividade de pessoas livres e a influência das circunstâncias para solidificarmos organismos, materiais ou imateriais, representativos de nossos valores. Aprendemos a amar o Reino de Deus, mas inventamos igrejas para perpetuar nosso amor. Ficamos apaixonados pelo que podemos fazer em defesa de crianças pobres, mas criamos institutos para preservar nossa paixão. Amamos uma pessoa, sonhamos em formar uma família, mas instituímos um casamento para fazer durar nosso amor.

A imprevisibilidade do comportamento humano é característica de sua finitude. Nós, as coisas que amamos, os eventos que promovemos, todas as nossas construções são finitas. Nós e tudo o que parte de nós morrem. A partir deste fato, convivemos com a vertigem da irresistível contingência de viver. A instituição é um pacto entre mortais em busca de ultrapassar sepulturas. A instituição é a nossa impotente luta contra a morte.

Precisamos falar de morte. Ela é a presença dura de nossa finitude: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará”. (Gn 3.19) Há um pouco de morte em cada experiência de término ou de limite, em cada derrota, frustração, fadiga, desânimo, doença. No envelhecimento descobrimos um pouco da morte, em cada ruga, em cada nova impossibilidade, em cada memória empalidecida. Mas há as experiências-limite com a morte, aquelas que dela nos avisam com mais força. E aqui há um indicativo precioso, a experiência de rejuvenescimento que se segue a essas experiências-limite. Um acidente automobilístico, uma enfermidade avassaladora, a morte de alguém muito próximo, curiosamente, nos faz melhores. Quem experimenta um pouco da morte melhora, seus valores esquecidos são rememorados, seus afetos embrutecidos são ressensibilizados. Olha com mais cuidado para a vida. Enxerga com mais ternura a outra pessoa. Tolera mais. Apressa-se em superar mesquinharias. A vida é catalisada pela morte. A morte nos aflige, mas nos redime.

A morte carrega um princípio de redenção, portanto. No texto de Gênesis, Deus instaura o fim, estabelece o encerramento da existência humana, com o objetivo, imagino, de impedir que escolhas e ações humanas, se infinitas, tornassem-se prisões, destinos irrevogáveis. “Então disse o SENHOR Deus: ‘Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre’”. (Gn 3.22) Permitam-me os irmãos fundamentalistas, fazer uma leitura literal de Gênesis, mormente os seus primeiros 11 capítulos, é empobrecer a revelação de Deus, além de ingenuidade tola. O Deus da palavra criativa nunca abriu mão da poesia e do simbólico, talvez a única expressão que o revele com graciosidade. Estamos lendo um mito. Deus usou os mitos de uma civilização para impregnar-nos de valores e princípios sublimes. Dentro desse mito revelador, ou insinuante, da criação, arrisco-me a dizer que Deus introduziu a morte na existência humana para impedir-nos de perpetuar o mal. Somos finitos pela misericórdia de Deus. Morremos por socorro divino.

A instituição carrega uma contradição em seu interior. Através dela olhamos com realismo para nossos limites e instabilidades, protegemo-nos de nossa própria maldade. Cuidamos de nossos ideais com responsabilidade. Ampliamos o alcance de nossas conquistas. Isto, a princípio, é belo e bom. Mas, em oposição a este movimento, a instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos. Ao invés de abraços celebrativos, estatutos. Ao invés de ouvidos, o cumprimento cabal de regras. Ao invés da leveza dos sonhos, o peso das obrigações que se multiplicam sem fim. Ao invés de amarmos o ideal, amamos as posições de poder. Ao invés de lutarmos com paixão por um sonho, lutamos com maquiavelismo pelo reconhecimento da razão. Por medo da morte, substituímos a vida pela instituição. Vinicius de Morais percebeu o nossa (não) relação com a morte na poesia A Morte:

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

Toda institucionalização é também uma mistificação idolátrica. Damos tamanha importância às nossas instituições que elas terminam divinizadas. Substituímos, assim, os sonhos e anseios que nos moveram a criá-las por elas mesmas. Jesus faz esta denúncia quando responde às críticas dos religiosos por movimentar-se no sábado, curando ou permitindo que seus discípulos comessem: “E então lhes disse: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”. (Mc 2.27-28)

Se a instituição é o invento organizacional da pessoa humana que, ao reagir à sua finitude, acaba por desumanizar-se, institucionalizando a si mesma e às outras pessoas, a confusão, o desencontro, o desgaste, a crise e conseqüente deconstrução de nossas instituições não poderiam ser o invento redentivo de Deus? O Deus que criou a morte para livrar-nos da perpetuação do mal, também não teria garantido a repercussão da morte, gerando confusão e crise em nossas construções para livrar-nos da institucionalização da vida? Creio que sim.

É aqui que o capítulo 11 de Gênesis colabora com nossa reflexão. Acredito que a narrativa da Construção da Torre de Babel, em sua linguagem mítica, descreve a dinâmica da institucionalização e a reação divina a ela. A unidade fictícia descrita inicialmente é a ocasião para a orquestração de um plano: construir algo tão elevado que garantiria que seus nomes não seriam dispersos sobre a terra. Deus discerne o movimento maligno por trás da construção e promove confusão. Na confusão o projeto é esvaziado, a ficção é descoberta. No desencontro entre subjetividades, intensificado pela ampliação da liberdade e individualidade das pessoas, Deus livrou-os de perpetuarem o mal em sua instituição-construção. A pessoa humana instituiu, Deus babelizou. A pessoa humana organizou para perpetuar-se cruelmente, Deus confundiu para pulverizar graciosamente a perversidade.

Continue lendo aqui: Babelismo – Bacia das Almas


A bíblia não pode responder perguntas científicas

Novembro 15, 2009

por C. Drew Smith

Por mais de um século têm ocorrido debates sobre a habilidade da bíblia nos falar a respeito do mundo, particularmente sobre o mundo natural, e sobre como os seres que habitam esse mundo natural vieram a existir. Estes debates tem dado continuidade aos argumentos entre ciência e bíblia que começaram com a revolução científica no século XVII, quando Galileu desafiou a leitura literal da bíblia mostrando que o sol, e não a terra, estava no centro do universo, e que o universo funciona de acordo com leis matemáticas. Entretanto, em nossa cultura politicamente engajada, o conflito entre a bíblia e a ciência anda mais aquecido do que nunca.

A questão, pelo que vejo, parece ser mesmo sobre se a bíblia pode responder as perguntas da ciência, e se a ciência pode realmente provar a bíblia. Obviamente, o centro do conflito atual é o  debate entre a teoria científica da evolução e a crença religiosa da criação. O desafio da ciência à fé se tornou tão ameaçador que levou alguns a escolher uma leitura literal de Gênesis 1 e 2, na forma de uma pseudo-ciência conhecida como teoria do Design Inteligente;  mas praticamente esta teoria é apenas uma forma renovada de criacionismo. O problema com esse ponto de vista, está na nossa incompreensão dos primeiros capítulos do Gênesis como base para provar a idéia de que o mundo natural foi literalmente criado do nada em sete dias.

Admito, não sou um cientista, então não posso falar sobre teorias científicas com muita autoridade, e certamente não é este o objetivo desse artigo. Entretanto, como um investigador bíblico, historiador e teólogo, posso dizer o que penso ser o problema dos pontos de vista interpretativo e teológico.

Primeiro de tudo, devemos entender que as narrativas de Gênesis foram escritas por humanos antigos, os quais, sem acesso à ciência moderna, tentaram explicar seu mundo e as origens do mundo natural  de um ponto de vista religioso. Gênesis, então, é a história hebraica do início e origens do mundo e da humanidade, como eles entendiam de um ponto de vista teológico, porém não científico. Assim como outros povos da antiguidade, os Hebreus justificaram sua religião e sua visão de mundo por meio da sua história da criação, detalhada, sobre como o mundo surgiu por um ato de Deus.

No caso dos Hebreus, a narrativa de Gênesis foi uma tentativa de definir o Deus no qual acreditavam como o único Deus do universo, o qual é transcendente, e o qual, em sua infinita sabedoria e poder, criou o mundo físico, incluindo a humanidade, que foi representada de forma literária pelos personagens Adão e Eva. Assim, os primeiros capítulos do Gênesis são narrativas teológicas que expressam como os Hebreu viam o seu Deus como supremo, acima de outros deuses, um tema que continua a ser tratado em toda a bíblia hebraica. Mas as narrativas de Gênesis não são cálculos científicos ou explanações sobre fenômenos naturais, e não podem suportar esse tipo de interpretação literal. Fazer isso é perder o foco.

Será que esse ponto de vista dissipa qualquer noção de Deus? A resposta a essa pergunta é simplesmente não. Apesar de considerar a evolução como a resposta para as origens do mundo natural, não descartar a idéia de um ser divino, a ciência não pode nem provar nem refutar a existência de Deus. Por outro lado, nem a bíblia pode provar que Deus existe. A bíblia pode somente descrever como os antigos Judeus e Cristãos entendiam Deus. A crença em Deus vem somente através da fé.

A evolução é uma ameaça à autoridade da bíblia? A resposta é, de novo, não. A bíblia é literatura teológica, escrita por pessoas da antiguidade, que escreveram a partir da perspectiva de sua fé religiosa e de como eles entendiam o mundo, a humanidade e a divindade. A estória da criação em Gênesis é uma explanação teológica do mundo a partir de uma perspectiva monoteísta hebraica, e não uma explicação científica.

O que isso significa para pessoas de fé, vivendo em um mundo de conhecimento científico? Significa que não devemos abordar a bíblia como um documento científico; as escrituras não podem responder nossas perguntas científicas. Pelo contrário, devemos ver a bíblia como um texto religioso que molda nossa maneira de viver no mundo, e devemos interpretá-la teologicamente, investigando o que ela diz a respeito de Deus como realidade última, e como podemos viver sendo imagem de Deus em nosso mundo.

The Bible cannot answer scientific questions – Wilderness Preacher


Cristianismo e senso comum: a bíblia

Novembro 12, 2009

Bibliapor Gibson da Costa

“Tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho.” (Salmos 119:105)

O que é a Bíblia? Qual o seu uso apropriado? Qual sua autoridade para nós, e por quê? Como podemos abordá-la fielmente?

Para começar com algumas declarações com as quais todos concordariam: a Bíblia é uma coleção de dezenas de livros, escritos por muitos autores diferentes em um período de mais de mil anos. Esta coleção de livros passou por um longo, e muitas vezes complexo, processo de seleção (e em muitos casos, edição) antes que chegasse à sua forma presente. Ela contém uma variedade de materiais, incluindo algumas das tradições, histórias, costumes, leis, narrativas, ensinamentos, salmos, e profetas de um pequeno povo do Oriente Médio chamado de Hebreus ou Judeus. Também inclui alguns dos primeiros escritos dos seguidores de Jesus de Nazaré. Estes incluem narrativas de seu ministério e ensinos, reflexões a respeito de quem ele foi, e reflexões a respeito das crenças e práticas apropriadas para seus seguidores.

Esta coleção de escritos também serve como base para a religião cristã.

Fonte de Nossas Verdades Religiosas

Este é nosso ponto de partida: a Bíblia como fonte de nossas verdades religiosas. Isto não é o mesmo que dizer que seja a única fonte, mas os cristãos sempre reconheceram a autoridade da Bíblia para nossas crenças e práticas religiosas, mesmo que possamos nem sempre agir de acordo com ela. Buscamos na Bíblia discernimentos a respeito da natureza de Deus, da natureza de nossa relação com Deus e com o mundo e de uns com os outros, e do tipo de vida que seja apropriada para com estes. Procuramos nela valores e atitudes básicas. Estas são todas as preocupações próprias da religião.

Mas se buscamos na Bíblia verdades religiosas como essas, não significa que também busquemos nela respostas válidas no campo das ciências físicas, ou medicina, ou astronomia, ou geografia. Não buscamos nela respostas a respeito de reparos domésticos, ou tecnologia moderna, ou teoria econômica, ou das leis do Estado de Nova Iorque. E enquanto ela possa ser de ajuda a pessoas estudando história, ou arqueologia, ou sociologia, com respeito a um certo período em uma pequena região do Oriente Médio, ela é muito dificilmente o lugar onde procuraríamos um resumo do conhecimento atual nestas áreas.

Afirmamos que a Bíblia seja a fonte de nossas crenças religiosas. Não precisamos afirmar que ela tenha autoridade em todos os ramos do conhecimento humano.

Mas também a chamamos de a “Palavra de Deus”. O que isto significa? Não significa que a Bíblia deva ser perfeita? Não deve ela, então, estar livre de erros e ser infalível nos temas dos quais ela trata?

Ao chamar a Bíblia de Palavra de Deus, queremos dizer que Deus a escreveu com pena e tinta? Claro que não. Por “Palavra de Deus” nos referimos a verdades a respeito de Deus e de Deus que foram compreendidas e registradas pelos autores bíblicos.

Mas algumas pessoas querem dizer algo bem diferentes disto quando falam em “Palavra de Deus”. Há, na verdade, várias maneiras de delinear o que constitui a Palavra de Deus, e por que. Todas têm um lugar na tradição da Igreja, e todas podem apontar uma base na própria Escritura. Mas nem todas são adequadas para lidar com a diversidade mais ampla da Bíblia, e nem todas se encaixam com o nosso senso comum. Uma idéia tradicional que é muito popular hoje, e com a qual devemos lidar antes de prosseguirmos, é o literalismo ou inerrância bíblica.

Literalismo Bíblico (Inerrância)

O literalismo bíblico afirma que toda a Bíblia é a Palavra de Deus porque ela é divinamente inspirada. Cada escritor de cada livro na Bíblia foi divinamente inspirado e guiado no que ele escreveu, então todas as declarações a respeito de todo assunto em toda a Bíblia é literalmente verdade, sem erro.

Há quatro problemas sérios com o literalismo bíblico: (1) ele nega a centralidade de Cristo; (2) ele exige um conceito de inspiração divina que nega a humanidade do autor; (3) ele requer que acreditemos que a Bíblia não queira dizer o que diz; e (4) ele está em oposição à fé em Deus. Certamente os literalistas bíblicos não intencionam tudo isso. Mas é para aí que sua devoção mal-direcionada e seus esforços mal-orientados com segurança os leva.

1. Literalismo Bíblico versus A Centralidade de Cristo

O literalismo bíblico nega a centralidade de Jesus, o Cristo. Se somos cristãos, então certamente isso significa que a vida e os ensinos de Jesus, o Cristo, dêem-nos a compreensão mais verdadeira a respeito de Deus, e que esta compreensão seja o ponto de referência contra o qual medimos outras interpretações. Mas se tudo na Bíblia for verdade divinamente inspirada, então tudo é igualmente verdade. Declarações no Antigo Testamento a respeito de Deus ou sobre como tratarmos nosso próximo seriam tão verdadeiras e impositivas quanto aquelas nos Evangelhos.

Para tomar apenas um exemplo, devemos então estar dispostos a dizer que Deus realmente mandou Josué matar todos os homens, mulheres e crianças nas cidades de Jericó e Ai (Josué 6-8). É este o mesmo Deus pregado por Jesus, que nos deu o mandamento de amarmos nossos inimigos? Mesmo que se acredite que Deus falou com Josué, como poderia um cristão acreditar que Deus ordenaria uma carnificina indiscriminada? Não devemos dizer, pelo menos, que Josué ouviu erroneamente, que ele tenha tomado erroneamente o costume cultural de “guerra santa” como mandamento divino? Mas o literalista bíblico não pode fazer isso, e tem que insistir que as palavras de Josué e Elias, Eclesiastes e Jó, são tão verdadeiras quanto qualquer coisa que Jesus tenha dito, e portanto, presumivelmente tão importante quanto. Isso nega a centralidade de Cristo e remove a possibilidade de ele ser nosso ponto de referência.

Muitas pessoas lidam com este problema com a idéia de “revelação progressiva”. Esta é a crença de que nós temos na Bíblia uma revelação de Deus – por Deus – que se torna gradualmente mais completa. Assim, os livros mais antigos da Bíblia refletem a revelação menos completa e menos exata de Deus, com uma progressão para uma revelação muito mais completa nos grandes profetas, e culminando na revelação final e completa em Jesus Cristo.

Em geral, não parece haver um avanço na compreensão de Deus com o progredir da Bíblia. Mas isto não é uniforme; eu estaria mais propenso a tomar Provérbios ou Eclesiastes que Isaías. E mesmo que haja, de forma geral, uma compreensão melhorada a respeito de Deus, dizer que isto seja por causa de uma revelação divina progressiva e não por causa de nossa própria melhor compreensão com o passar dos anos é o mesmo que dizer que nossa ignorância prévia seja culpa de Deus por não nos revelar logo, parece muito pouco necessário por a culpa da ignorância humana na reserva divina, ou imaginar Deus racionando cuidadosamente crescentes doses de auto-revelação.

De qualquer maneira, “revelação progressiva” também significaria que compreensões mais antigas a respeito de Deus eram inadequadas até certo ponto. Isto nos deixa precisando de critérios pelos quais decidir o que no Antigo Testamento é realmente Palavra de Deus. Enquanto eu penso que isso seja apropriado e necessário, seria uma opção muito improvável para o literalista bíblico, para quem todas as partes da Bíblia são igualmente verdadeiras.

2. Literalismo Bíblico versus A Humanidade dos Autores

O Literalismo bíblico requer uma compreensão de inspiração divina que nega a humanidade dos autores e desafia o senso comum.

As pessoas que escreveram os diferentes livros da Bíblia eram seres humanos. Eles tinham preconceitos, eles compartilhavam da maioria das opiniões de seu lugar e tempo particulares, e eles cometeram erros. Ainda assim, pedem-nos que acreditemos que quando eles escreveram a respeito da captura de Ai ou da vida de Jesus eles repentinamente deixaram de ser afetados por aqueles preconceitos e pressuposições. Como é que uma pessoa que é tão humana quanto você ou eu poderia repentinamente se tornar livre de erros, quando escrevendo um livro que seria mais tarde incluído na Bíblia? (Lembre-se que esses livros não foram reconhecidos como Escritura até uma data posterior.)

A única forma que isso poderia ocorrer seria se algum poder infalível tomasse esses escritores, suprimisse sua humanidade, e os usasse como instrumentos de escrita da mesma forma como você e eu usamos uma caneta. Não posso ver como essa idéia de usar as pessoas pode se encaixar com a visão cristã de Deus. Nem se encaixa com nosso senso comum.

Ademais, parte da grande atração da Bíblia está precisamente na diversidade humana que ela exibe. Alguém precisa apenas abordá-la com uma mente aberta para ver que seus autores não eram meros robôs, mas seres humanos com seus próprios discernimentos, virtudes, costumes, fé, e – como todas as pessoas – suas próprias concepções errôneas e enganos. O valor, sabedoria e charme da Bíblia está em ver seu povo e seus autores lutando com sua fé, da mesma forma como você e eu fazemos. Dizer que o que essas pessoas escreveram é perfeito como está é removê-los dessa luta que compartilhamos como humanos.

É possível, claro, entender inspiração divina de forma tal que não nos torne robôs. Mas tal compreensão não pode servir de base para a inerrância bíblica.

3. Literalismo Bíblico versus A Bíblia

O literalismo bíblico requer que acreditemos que a Bíblia não queira dizer o que ela diz. Essa não apenas não é uma abordagem fiel, mas também significa que o literalismo bíblico nega a verdade literal da Bíblia que ela pretende defender.

Vejamos um exemplo disso: A primeira de muitas contradições na Bíblia está logo no começo, nos dois primeiros capítulos de Gênesis. Gênesis 1 conta-nos que as pessoas foram criadas por Deus depois de todas as plantas e de todos os outros animais. Gênesis 2 conta-nos que Adão foi criado antes de todas as plantas e animais. O que fazemos com isso?

Pessoalmente, eu não estou nem um pouco perturbado com isso. O tempo e o lugar da origem da espécie humana não é uma questão religiosa. Não é uma questão para a qual eu busque resposta na Bíblia. É uma questão para a ciência, para ser respondida por paleo-antropólogos, se e quando eles forem capazes de ter informações suficientes.

O que fazemos com essa diferença nas duas narrativas da criação é, primeiro, reconhecê-la, e segundo, explicamos que as duas estão lá porque cada uma foi parte de uma das duas ou três tradições sacras unidas por um editor para formar o livro de Gênesis. Cada uma delas era tradição sacra; nenhuma podia ser descartada. Ademais, cada uma faz declarações religiosas importantes – e diferentes. Esses são os aspectos das narrativas que têm autoridade para nós. O capítulo 1 conta-nos a respeito da bondade da criação (o mundo nem deve ser evitado, nem adorado) e de nossa relação com Deus. O capítulo 2 conta-nos a respeito de nossa necessidade mútua, a respeito de nossa mordomia para com a Terra, e que o conhecimento do bem e do mal é o que nos separa de outros animais e o que nos torna humanos.

Então, as contradições quanto à ordem da criação em Gênesis 1 e 2 não afetam os pontos religiosos. Mas o literalista bíblico não pode admitir essa contradição. Ele ou ela tem de insistir que as duas declarações – a de que as pessoas foram criadas depois de todas as plantas e animais, e a de que foram criadas antes – sejam verdadeiras. Isso, claro, é manifestamente impossível.

O literalista bíblico está, entretanto, disposto a admitir que haja aparentes contradições na Bíblia. Em muitos casos a contradição é, de fato, apenas aparente, e um estudo mais atencioso do contexto e sentido mostrará que esse é o caso. Mas em muitos outros casos não é tão facilmente resolvida. Destemido, o literalista assume o desafio de mostrar que que opostos podem concordar. Isso é feito recorrendo-se ao argumento da “compreensão mais elevada”, que funciona como segue: “Se você pensa que essas duas passagens se contradizem, então você não as entende realmente. Em nossa compreensão humana limitada elas parecem se contradizer. Mas na verdadeira compreensão, uma “compreensão mais elevada” que a nossa, que nossas mentes limitadas podem nunca alcançar, não há contradições nas Escrituras”.

Eu prontamente admito que minha própria compreensão não é perfeita. Entretanto, minha compreensão limitada é suficiente para saber que “depois” é o oposto de “antes”. Dizer que “depois das plantas” não seja o oposto de “antes das plantas” é dizer que “antes” e “depois” não signifiquem “antes” e “depois”. Dizer que a narrativa da criação na qual os humanos foram criados por último não contradiga a narrativa na qual Adão é criado antes das plantas e dos animais, é dizer que a Bíblia não quer dizer o que diz. Isso, claro, é negar que ela seja literalmente verdadeira. Assim, para defenderem sua visão, os “literalistas” têm na verdade que negar a verdade literal da Bíblia!

Confrontados com inegáveis contradições se tomarmos as palavras da Bíblia em seu sentido normal, muitos defensores do literalismo bíblico escolhem defender a inerrância da Bíblia abandonando seu sentido literal. Essa é uma forma abstrata de inerrância que mantém que a Bíblia seja verdadeira, não que ela diga o que ela diz, e faz uso desenfreado do argumento da “compreensão mais elevada”. No caso de aparentes contradições e erros, nos é garantido que a verdadeira interpretação dessas passagens, a “compreensão mais elevada”, os eliminará.

Há vários problemas com isso. O primeiro, como já notamos, é que isso envolve negar o sentido literal dessas passagens. Se duas passagens aparentemente contraditórias são verdadeiras na compreensão mais elevada, isso significa que pelo menos uma delas não queira dizer o que diz, o que significa que seja verdade (na “compreensão mais elevada”) precisamente porque é falsa (no sentido literal).

O segundo problema é que em muitos casos temos que admitir que nossas mentes limitadas não podem descobrir a “compreensão mais elevada” que resolve as contradições. Isso significa que estamos defendendo a verdade da Bíblia ao custo de ala não fazer nenhum sentido. Mas se não sabemos o que ela queira dizer, por que importaria se é verdadeira? Você sabe o que “xbvlg” significa? Faz então algum sentido estar preocupado a respeito de sua verdade? E não é aí que estamos se “antes” não for o oposto de “depois”?

O terceiro problema é que essa “compreensão mais elevada” dá às pessoas rédeas livres para reinterpretarem a Bíblia a fim de que ela signifique o que eles quiserem, contanto que possam argumentar que essa seja a verdadeira e “mais elevada” compreensão. Isso é precisamente usar a Bíblia para se encaixar às nossas próprias noções, retorcê-la para justificar nossas próprias idéias preconcebidas em vez de estarmos abertos à mensagem que ela traz. E é ainda uma outra forma de que essa defesa da “verdade” da Bíblia seja possível apenas sacrificando a integridade de seu sentido.

Muitas pessoas que se voltam para o literalismo/inerrância, reconhecem que esses problemas existem. Afinal, como se pode defender a Bíblia, insistindo que ela não diga o que diz? Algumas dessas pessoas evitam isso, postulando que a versão original de cada livro era divinamente inspirada e era literalmente verdadeira e inerrante. Quaisquer erros ou contradições se devem aos erros dos editores e escribas que transmitiram esse material.

Entretanto, cada versículo na Bíblia passou por muitos escribas, e em alguns casos editores, antes mesmo que nossas mais antigas cópias existentes fossem feitas. Portanto, é deixado para nós decidirmos sobre cada passagem em sua forma presente como se a inspiração divina não tivesse sido reivindicada. Isso nos faz perguntar por que alguém reivindicaria inspiração divina para uma versão original “imaculada” que eles admitem não existir mais.


4. Literalismo Bíblico versus Fé em Deus

Na análise final, o literalismo bíblico fica em oposição à fé em Deus e à adoração de Deus, pois substitui estas com a idolatria da Bíblia.

A verdadeira razão pela qual tantas pessoas insistem na infalibilidade divinamente inspirada da Bíblia é muito compreensível e muito humana: eles estão tentando preencher sua necessidade de segurança. Se você tem um livro perfeito em suas mãos ou ao lado de sua cama, isso certamente deve aliviar um pouco da ansiedade de lidar com este nosso mundo imperfeito e frequentemente confuso. Algumas pessoas adicionam a isso o conforto de ter todas as respostas logo ali naquele livro, o que faz-lhes evitar o desconforto agudo de terem de pensar sozinhas ou tomar suas próprias decisões morais. É muito mais seguro ter Deus em um livro perfeito do que ter de buscar Deus nas áreas sombrias e nas incertezas do mundo! Mas não é este nosso antigo desejo de possuir Deus, de capturar Deus em algum tipo de gaiola humana (ou estátua, ou livro) para garantir nossa segurança?

O literalista bíblico afirmará que ele ou ela confia em Deus mais do que eu. Na realidade o oposto é a verdade, pois eles estão dispostos a confiar em Deus apenas se esses milhões de palavras escritas num período de séculos de dois a três milênios atrás forem todas literalmente verdade, enquanto que minha fé em Deus não depende disso.

Seu argumento segue assim: “A Bíblia é a Palavra de Deus. Se Deus é confiável, então a Palavra de Deus deve estar livre de erros. A Bíblia, então, constitui o único guia perfeito em um mundo de incerteza e imperfeição. Por outro lado, se a Palavra de Deus não for confiável, não apenas não há guia certo neste mundo, mas também Deus não é confiável, e assim não é merecedor de nossa fé”.

Mas o que eles realmente estão dizendo é isso: “Declaro ser a Bíblia a Palavra de Deus, e com isso quero dizer que a Bíblia é literalmente verdadeira e sem erros. E se eu estiver errado, então não posso confiar em Deus”.

Claro, isto não faz nenhum sentido. Se fizermos uma afirmação particular a respeito da Bíblia, e estivermos errados, isto levanta dúvidas a respeito de nosso conhecimento, ou nossa confiabilidade neste campo. Nosso erro de forma alguma afeta a confiabilidade de Deus. Mas muito frequentemente insistimos em crer no que queremos a respeito de Deus, e tratamos qualquer ameaça a nosso sistema de crença como um desafio a Deus.

Na verdade, frequentemente precisamos ter nossas próprias crenças desafiadas precisamente para abrirmos nossas mentes e corações à real grandeza de Deus. Então, um desafio às nossas crenças pode ser um apoio a Deus, e não um ataque a Deus. Esta é uma possibilidade que devemos manter em mente se não quisermos nos tornar intolerantes, farisaicos, e fechados à possibilidade de crescimento em nossa compreensão.

Ainda assim, podemos com certeza compreender o anseio que motiva o literalista, o anseio por segurança e por um guia certo. Quem entre nós nunca sentiu esta profunda necessidade de algo eterno e imutável ao qual se segurar? Quem nunca desejou a resposta perfeita e indubitável?

Este anseio não é facilmente satisfeito, e perde seu verdadeiro objetivo se se baseia em qualquer coisa além de Deus. Se basear em qualquer outra coisa é falhar. Atribuir perfeição ou veracidade eterna a qualquer coisa neste universo finito, muito menos coisas feitas por humanos ou possuídas por humanos, é insensatez. Ademais, clamar este tipo de perfeição ou infalibilidade para algo é adorá-lo, é clamar divindade para ele. E adorar qualquer coisa além do único Deus é idolatria. Não importa quão grande seja nossa necessidade por este tipo de segurança, Deus é muito grande para ser possuído por nós.

Afirmar que a Bíblia seja perfeita e infalível é substituir Deus por ela, é se envolver em idolatria, e fechar-nos à verdadeira fé em Deus. Nosso chamado é buscar Deus, usando a Bíblia como um guia. Nosso chamado não é buscar a Bíblia ou adorar a Bíblia. Devemos buscar Deus nos mares abertos da vida diária, com todas as suas incertezas e confusão e áreas sombrias, confiantes de que a grandeza de Deus esteja presente em todas as situações da vida.


A Alternativa Fiel

Qual é a alternativa ao literalismo bíblico como uma maneira de abordar a Bíblia? Uma alternativa, claro, é ir para o extremo oposto e rejeitar o livro inteiro como indigno de nossa atenção. Para aqueles que preferem escolhas preto-e-brancas, é certamente mais fácil ou aceitar inquestionavelmente ou rejeitar a Bíblia completamente. Mas a área de abordagem razoável para pessoas pensativas e investigadoras está entre estes dois extremos.

Na verdade, a abordagem mais fiel à Bíblia é também nos atrelarmos ao nosso senso comum. É mais fiel, e mais honesto e mais provável de resultar em compreensão própria para aceitar a Bíblia pelo que ela é, em vez de reivindicar em favor dela aquilo que queremos.

O que então é a Bíblia? Uma resposta do senso comum seria que é uma coleção de livros escritos por pessoas que, como nós, eram pessoas de seu tempo, e que como nós eram capazes de compreensões errôneas e enganos além de grandes discernimentos. E eles estavam, como nós, lutando com o sentido de sua fé e com sua compreensão de Deus em meio a triunfos e derrotas, alegria e desespero, estabilidade e caos. Descobrimos que nossa própria fé é informada e inspirada por suas lutas e fidelidade. E já que uma de nossas intenções em abordar os ricos e diversos recursos desse livro é entendê-lo melhor, então desejaremos saber como esses escritos surgiram, e o que os autores originalmente queriam dizer, e como foram afetados pelas crenças e eventos de seus tempos. Para fazer isto, receberemos todas as ferramentas que estão disponíveis para nós para iluminar a Bíblia: estudos de arqueologia, história e costumes antigos, e outras religiões do Oriente Médio, assim como os vários tipos de “criticismos” bíblicos que podem nos informar sobre o passado, desenvolvimento, e sentido do próprio texto.

Isto ainda deixa a questão de autoridade bíblica sem resposta. Para os cristãos, a resposta a isto depende do papel e autoridade que atribuímos a Jesus de Nazaré. Na realidade, a questão básica não é a respeito da autoridade da Bíblia mas a respeito da autoridade de Jesus Cristo.

Então, a tarefa é desenvolver uma interpretação da centralidade de Jesus que esteja de acordo com nosso senso comum. Antes de fazermos isso, devemos primeiro considerar como Deus age ou não, e o que isso significa para os milagres e outras formas de intervenção divina. Então examinaremos as formulações tradicionais da centralidade de Jesus que estão enraizadas em um senso comum diferente. Somente então, tentaremos uma reconstrução apropriada tanto de nossa fé como de nossa razão que nos dará uma forma de explicar a centralidade de Jesus.

Neste ponto, nos voltamos à questão de um Deus que “estala os dedos” – Deus intervém no mundo em ocasiões específicas?

Cristianismo e senso comum (2) -Gibson da Costa


Evolução e religião

Outubro 12, 2009

por Sergio Danilo Pena

A resistência de alguns grupos religiosos à evolução é um problema que me deixa simultaneamente perplexo e entristecido. Como racionalista de carteirinha e cientista militante, tenho dificuldade em entender essa situação. Como pode um indivíduo pensante desprezar evidências empíricas gritantes e concretas para adotar em seu lugar um pensamento anticientífico, com base apenas em revelações e escrituras milenares de origem obscura que alegam ser de autoria divina?

O que considero necessário não é a ciência da evolução se modificar com o objetivo de se tornar palatável para algumas crenças religiosas. O importante é que as religiões adaptem suas doutrinas para lidar com a realidade da evolução, assim como tiveram de se adaptar à teoria heliocêntrica do Sistema Solar 500 anos atrás.

É absolutamente incontestável o fato da evolução. Não se trata de uma simples teoria da evolução. Dados paleontológicos, geológicos e fisiológicos já forneceram ampla evidência da origem única da vida na Terra e de sua evolução progressiva para formar as milhões de espécies de animais e plantas que aqui habitam. Mas a genômica comparada foi a cereja no topo do sorvete, o elemento que nos deu a prova final da verdade incontestável da evolução.

Evolução comparada
Os dados gerados pelo Projeto Genoma em humanos e em outros organismos mostraram que a sequência de DNA do nosso genoma é 99% idêntica à do chimpanzé (!), além de ter em comum 65% com o camundongo (!!), 47% com a mosca de frutas Drosophila melanogaster (!!!), 20% com uma pequena mostarda chamada Arabidopsis thaliana (!!!!) e até 15% igual à da levedura Saccharomyces cerevisiae (!!!!!), que produz para nós o pão e a cerveja.

Esse alto grau de compartilhamento genômico mostra que toda a biosfera é, como nós, herdeira de um genoma primordial que deu origem ao primeiro ser vivo na Terra, a partir do qual todos os outros derivaram. Não somos o produto final e perfeito da criação, com direito divino de destruir nossos primos animais e plantas a nosso bel-prazer. Somos parte de uma rede de vida e, se esfacelarmos essa rede, destruiremos a nós próprios. A consciência do nosso parentesco genômico com os outros organismos terrestres, da origem única e da herança do DNA que une todos os seres vivos deve nos motivar para tratar o nosso planeta com renovado respeito.

Ademais, a similaridade genômica vai além do plano estrutural do DNA e se estende ao nível funcional. Por exemplo, há alguns anos um aluno do meu laboratório de pesquisa (Túlio M. Santos) desenvolveu sua tese de doutorado em torno de um gene chamado SmRho isolado do verme Schistosoma mansoni (o parasita causador da esquistossomose, doença que aflige centenas de milhões de pessoas em todo o Terceiro Mundo).

Para verificar se SmRho era funcionalmente o mesmo gene homólogo já anteriormente bem conhecido no Saccharomyces cerevisiae, usamos primeiramente técnicas de engenharia genética para deletá-los das leveduras – com isso, elas se tornaram incapazes de se dividir e de formar colônias (ver figura).

Então, transferimos para as leveduras doentes o gene SmRho do parasito. Eureca! As leveduras voltaram a crescer e a formar colônias quase normais. Em outras palavras, o gene Rho do verme funcionava perfeitamente na levedura, da qual estava separado evolucionariamente há centenas de milhões de anos.

Darwin e a religião
Como todos sabem, em 2009 comemoramos 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação da Origem das espécies. De fato, nos últimos meses temos sido expostos pela imprensa a uma miríade de artigos sobre o grande cientista, a vasta maioria deles infelizmente contendo afirmações bombásticas e errôneas, escritas por pessoas que nunca leram Darwin e não entendem nada de genética evolucionária. Um dos pecados sensacionalistas mais comuns é afirmar que “Darwin matou Deus”. Besteira pura!

Para entendermos a relação de Darwin e da evolução com a religião, vamos fazer um desvio pela física, com uma história contada pelo astrofísico americano Neil de Grasse Tyson, do Museu Americano de História Natural de Nova Iorque em seu excelente artigo “O perímetro da ignorância” (The perimeter of ignorance), publicado em 2005 na revista Natural History.

A lei da gravidade, desenvolvida pelo genial Isaac Newton (1643-1727), permite que seja calculada a força de atração entre dois corpos celestes. Assim, é possível traçar as órbitas dos planetas em torno do Sol. Entretanto, os planetas também exercem forças de atração entre si. Até Plutão, que desde 2006 nem é mais considerado um planeta, exerce gravidade sobre a Terra. Isso cria uma rede de atrações mútuas que modifica as órbitas dos planetas e é extremamente difícil de computar.

Pois bem: quando Newton tentou lidar com tudo isso em suas equações, chegou à conclusão de que o Sistema Solar era muito instável e que os planetas deveriam ter se precipitado sobre o Sol (o que obviamente não tinha acontecido). Ele então escreveu em 1687 nos Principia mathematica, sua obra mais importante: “Não é possível conceber que meras causas mecânicas possam gerar tantos movimentos regulares… Este maravilhoso sistema… só poderia operar sob o domínio de um Ser poderoso e inteligente”

As coisas ficaram assim por mais de um século até que, em 1825, Pierre-Simon de Laplace, na França, conseguir provar matematicamente a estabilidade do Sistema Solar em seu tratado em cinco volumes Mecânica celeste, que ofertou a Napoleão Bonaparte. Segundo a lenda, o imperador leu a obra (naquela época os líderes de países eram aparentemente cientificamente alfabetizados – bons tempos…) e perguntou a Laplace por que não havia nenhuma menção a Deus. A resposta de Laplace foi: “eu não tinha necessidade de tal hipótese”!

O mesmo se passou com Darwin. Em momento algum ele propôs que Deus não existia. Ele simplesmente não tinha necessidade daquela hipótese para explicar a origem dos seres vivos e a grande variedade de espécies no mundo natural. De fato, ele escreveu na Origem das espécies: “Existe um desenho aparente nos organismos vivos. Mas a seleção natural é suficiente para explicar isto. Não é necessária a hipótese da existência de um desenhista” (a propósito, o uso da palavra “desenhista” por Darwin remete-nos ao argumento de William Paley, que será apresentado mais à frente nesta coluna).

Evolução e religião
Assim, a evolução por seleção natural é perfeitamente compatível com a crença na existência de Deus.

Os evolucionistas estão preocupados em entender a geração da diversidade dos seres vivos na Terra e não têm qualquer desejo – ou tempo – para se intrometer em problemas espirituais. Parafraseando Galileu Galilei, podemos dizer que a preocupação de quem estuda a evolução é entender como as coisas andam na Terra e não entender como se ganha o céu…

Apenas algumas denominações protestantes fundamentalistas fazem uma interpretação literal estrita, criacionista, do livro do Gênesis na Bíblia que os leva a rejeitar em princípio a evolução biológica. Para eles a Terra (e todo o universo) tem menos de 10 mil anos (danem-se os dinossauros e toda a evidência fóssil) e Deus criou o homem diretamente!

No seu livro Os anais do velho testamento, publicado em 1650, o bispo inglês James Ussher calculou que Deus criou o universo na véspera do dia 23 de outubro de 4004 a.C. Até o final dos anos 1970 todas as Bíblias colocadas em quartos de hotel nos Estados Unidos pela Gideon Society continham essa estimativa, que também fez parte da arguição a que Clarence Darrow submeteu William Jennings Bryan no famoso julgamento de Scopes, no Tennessee, em 1926.

Esse julgamento foi importantíssimo na história do desenvolvimento do ensino de evolução em escolas públicas nos Estados Unidos. O excelente filme O vento será sua herança (1960), com Spencer Tracy, conta a estória do julgamento de forma ficcional.

Desenho inteligente (?)
Em 1987 a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu que a necessidade do ensino do criacionismo ao lado da evolução nas escolas públicas era incompatível com a separação de Estado e Igreja. Assim, os fundamentalistas americanos tiveram de mudar a sua estratégia contra o ensino da evolução, tirando a ênfase do aspecto religioso e adotando uma argumentação “científica”: o chamado “desenho inteligente”.

Na verdade este argumento não tem nada de novo (nem científico), pois foi originalmente proposto pelo filósofo inglês William Paley (1743-1805). No seu livro Teologia natural, ele apresentou o seguinte argumento a favor da existência de Deus (tradução minha):

”[…] imagine que eu pise em uma pedra e que alguém me pergunte como ela foi parar naquele lugar; se eu responder que do meu ponto de vista ela sempre esteve naquele local, não seria possível demonstrar qualquer absurdo na minha resposta. Mas imaginem que eu encontre um relógio no chão e que me perguntem como ele foi parar lá. Eu não pensaria na mesma resposta. […] Deve ter havido, em algum tempo e lugar, um artífice ou artífices que fizeram o relógio [...], que entenderam seu uso e desenharam sua construção.”
A versão moderna do “desenho inteligente” argumenta que existem várias estruturas nos seres vivos que são irredutivelmente complexas, ou seja, compostas de elementos harmônicos e interativos que contribuem para o funcionamento do todo, de forma que a remoção de qualquer das partes faz com que ele cesse de funcionar.

Tais estruturas, eles argumentam, não poderiam evoluir naturalmente, pois a sua função só iria emergir quando o todo estivesse completo. Assim, como no caso do relógio de Paley, a existência desses órgãos implica na existência de um ser superior que os teria “desenhado”. Um dos exemplos favoritos é o do olho humano.

Não vou detalhar o conceito de exaptação, já mencionado nessa coluna anteriormente, ou argumentar que em princípio a evolução do olho humano é bem entendida, tendo seu início em agrupamento de células fotossensíveis que constituem olhos primitivos em organismos menos complexos.

Em vez disso, prefiro discutir um ponto ressaltado por Neil de Grasse Tyson, que é a enorme presunção, a incrível húbris de alguém afirmar que, “se eu não entendo como o olho humano foi formado pela evolução, isso quer dizer que ninguém mais, agora ou no futuro, será capaz de entender isto”.

A ciência não funciona dessa maneira. Sabemos que o nosso conhecimento científico atual é finito e circundado por um perímetro de ignorância. Quando, ao ponderar sobre um problema, esbarramos nesse perímetro, nós, cientistas, tentamos empurrá-lo, aumentá-lo, alargá-lo, e não simplesmente cruzar os braços e dizer que “eu não entendo aquilo, não sei como funciona, é complicado demais para qualquer humano entender, logo deve ser o produto de uma inteligência superior”.

Termino com um parágrafo de Tyson (minha tradução):

“A ciência é uma filosofia de descoberta. O desenho inteligente é uma filosofia de ignorância. Não é possível construir um programa de descoberta baseado na premissa que ninguém é inteligente o suficiente para encontrar a resposta a um problema. Tempos atrás, as pessoas apontavam o deus Netuno como a fonte das tempestades no mar. Hoje, sabemos quando e onde elas começam. Sabemos o que as alimenta. Sabemos o que pode mitigar seu poder destrutivo. E qualquer pessoa que já estudou o aquecimento global pode contar o que as faz se agravarem. As únicas pessoas que ainda chamam furacões de ’atos de Deus‘ são as que escrevem as apólices das companhias de seguro.”
Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais