Entre Globo e Record, qual a pior?

Agosto 14, 2009

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores, que satisfação estar de novo com vocês, aqui nesse ambiente desenfumaçado dos últimos dias.

Mas, como a realidade é algo que muda o tempo inteiro, enquanto bares e restaurantes se tornaram ambientes bem mais amigáveis aos seres humanos respiradores de oxigênio, o ambiente eletrônico da televisão anda tão esquentado que derreteu até o bombril da antena aqui de casa. Globo e Record se inspiraram no glorioso Senado Nacional e partiram pro chute na canela. Bom para todos nós. Quando os grandes e enormes brigam, parte do muito que eles sabem e a gente não, vem à tona.

Pra começo de conversa, devemos lembrar que essas duas redes de comunicações têm em comum apenas isso: serem duas redes de comunicação. No resto, Globo e Record são animais muito diferentes, mesmo que dotados de dentes grandes e mesmas intenções de predadores.

A Globo é como uma novela da Globo, que nos conta historinhas para boi dormir. Nenhuma novela da Globo quer mudar o mundo ou nos tornar pessoas melhores. Ela nos convida a comprar xampu, iogurte e automóvel, mais nada. Assim é a Globo.

Ela também é a expoente de uma era de grandes veículos que faziam e desfaziam o mundo em que vivíamos. A lógica de uma Globo é a de qualquer grande empresa ligada aos interesses do grande capital, e naturalmente as intenções desse povo nunca foram ajudar o mundo a ser um lugar mais legal, igualitário e modelado pela fraternidade socialista. A Globo é consequência do golpe militar, e não é exatamente surpreendente perceber que nasceu pra ser uma aliada natural e defensora de uma certa ordem. Mas ela também faz televisão de excelente qualidade, coisas do Guel Arraes, do Jorge Furtado, entre outras. Ela faz quando quer, só não quer mais porque parece que não precisa.

A Record é uma grande igreja do bispo Macedo com fachada de rede de comunicações. E a igreja do bispo Macedo não é moleza. Os tais templos dele têm cara de cartório e alma de cobrador de impostos. Entrou ali, pimba, você está achado por eles e perdido pra sempre. Eu lembro de ter escutado o bispo Macedo uma vez apenas, em um táxi de um convertido e salvo pela igreja do bispo.

Não sei se vocês já escutaram, mas é assustador o tal bispo. Assustador pelo tom da voz, de vampiro de filme do Polansky, assustador pela total falta de escrúpulos na hora de dizer a que veio e o que espera da gente. A igreja do bispo Macedo é que nem novela da Globo, só que sem a novela – débito ou crédito, estimado crente?

Uma rede de comunicações de uma igreja dessas faz o que, afinal das contas? Mesmo que ela faça jornalismo com bons profissionais, o que eles tiveram que fazer ontem e anteontem diante das câmeras foi dar a mensagem do chefe. E, diferentemente da Globo, o chefe da Record é o bispo!

Eu tenho saudades do SBT e da Tele Sena. Pelo menos ali ficava na cara que o que o Silvio Santos tinha era uma rede de televisão inteira devotada a vender Tele Sena. Assim, com as coisas claras e simplinhas, tudo, mas tudo mesmo fica mais fácil.

A Globo queria a nossa mente e o nosso corpo, hoje se satisfaz com uma parte razoável do nosso bolso, e ainda faz o Criança Esperança pra mostrar que é legal. A Globo é como a igreja Católica, que faz o que faz, mas com um jeito pra lá de respeitável.

A Record quer o que? Ela quer enfiar o exu caveira na gente e cobrar pra tirar, em suaves prestações mensais, pelos próximos 30 anos.

A Globo é conseqüência e representante de um modelo de sociedade que parece que se esgota. A Record é parte de um império tão sibilino quanto raso, se espalha por todo canto, mas, espero, não faz mais do que manchar o carpete.

A diferença, e talvez seja essa a causa da briga das duas, é que a Globo é uma empresa. Se ela precisa de dinheiro, tem que ir ali adiante, trabalhar, vender, faturar, pagar seus impostos, gerar lucro e então poder tocar no din din. A Record, não. Escasseou o caixa, aluga-se o Maracanã, faz-se uma celebração para Jesus Cristinho na versão do bispo, junta-se duzentos mil coitados, passa-se o saco, todo mundo contribui ou vai ver só, leva-se os sacos de dinheiro pros templos, pronto. Cash flow pra ninguém botar defeito, fora todo mundo com alguma decência no coração.

Talvez seja essa a causa da briga, como foi a causa da queda do Collor. Collor caiu, como talvez vocês saibam, porque uma vez no poder, com a tolerância do andar hiper de cima, começou a acumular dinheiro com uma voracidade alagoense e até então desconhecida. O andar de cima tremeu, Collor caiu.

Talvez o sistema esteja informando ao bispo que melhor ele moderar a taxa de acumulação de capital, ou o céu cai em cima dele. Talvez o bispo já se sinta poderoso o bastante para peitar a banca.

Eu apostaria a minha fortuna pessoal, estimada em dez reais e quarenta e dois centavos, em que é exatamente isso que está acontecendo. E o que está em jogo é limitar o poder do bispo, e por isso, e por motivos de alinhamento estratégico semelhantes aos que fizeram o Lula abraçar o Sarney, nessa, e nessa apenas e por agora, estou com a Globo. Já o estimado leitor, faça a sua escolha. Se o bispo ganha, e ele pode ganhar, logo, logo, não tem mais escolha.

Fonte: Entre a Globo e a Record, qual a pior? – Marcelo Carneiro da Cunha


Deus e o futebol

Julho 26, 2009

“Como pode no meio da crise alguém ter dinheiro? O dinheiro do mundo tem que estar em algum lugar. E Deus colocou esse dinheiro na mão de quem? Do Real Madri pra contratar o Kaká. Foi uma grande benção”.

Caroline Celico, esposa do jogador de futebol brasileiro, Kaká.

Agora me respondam: que Deus seria esse, que coloca tantos milhões nas mãos de um time de futebol que já é milionário, e deixa outras bilhões de pessoas morrerem de fome, por não terem condições de comprarem a própria comida?

É o deus dos milionários, só pode. Que “teologia” é essa? Teologia do capitalismo selvagem?

Vergonha!


Apóstolo ou Vidente?

Abril 8, 2009

Previsões para 2009 feitas por um “apóstolo”:

1. “Pessoas que perderam membros do corpo pelo câncer e por distintas doenças terminais, bem como acidentes, experimentarão a reconstrução desses órgãos e membros.” (que tipo de profecia é essa?)

2. “Recursos financeiros sobrenaturais transferidos para a igreja”: mesmo que isso crie situações complicadas com a Receita Federal (como assim, problemas com a receita federal? ter problemas com a receita federal é coisa que vem de DEUS, tem certeza?)

3. “Apóstolos de mercado” emergirão e serão reconhecidos na Igreja, trazendo estratégias para a transferência de riqueza. (O que será um apóstolo de mercado? um apóstolo capitalista? um apóstolo banqueiro? onde está essa categoria de apóstolo na Bíblia?)

4. Operação sobrenatural dos “anjos financeiros” trará vitórias sobre as dívidas. (anjos o quê? financeiros? faça-me o favor, né? estude a bíblia e me explique de onde tirou isso).

5. Cadeias de televisão seculares abrirão as portas para programas cristãos, mas também muitas delas quebrarão financeiramente e serão transferidas para a igreja: e tempos de crise, isso está longe de ser uma boa notícia. (transferidas para a igreja para a igreja usar isso pra passar mais péssimos programas, que só falam em prosperidade e ganhar mais dinheiro – qual a diferença entre “secular” e “evangélico” aqui, se a meta será a mesma: ganhar dinheiro?)

6. Dança profética que liberará sobre a Igreja o espírito da Noiva que clama: “Vem Senhor Jesus”. Os céus se abrirão a partir da dança profética e de uma nova paixão que se acenderá em nossos corações: neste caso, a dança deixa de ser uma mera manifestação artística para se tornar um ritual místico. (nem vou comentar).

7. O “ano do profeta”. O poder de ressurreição será liberado por meio da palavra profética. Um ano para que a Igreja entre na dimensão profética e libere o “DAVAR” (“palavra criativa”), a fim de que as coisas aconteçam. Um ano para profetizar as mudanças de Deus. Escolas e companhias proféticas serão levantadas com muito poder. (O que nós temos que fazer é tentar ser cristãos de verdade e buscar o Reino de Deus e a sua JUSTIÇA).

A que ponto chegamos. Será que já é o fundo do poço, ou vamos descobrir que o fundo do poço em que a igreja evangélica brasileira em geral se encontra hoje, tem subsolo?


Game?

Abril 6, 2009

Lendo as notícias pelo Google Reader, me deparei com essa, de O Estado de São Paulo:

Game premia estupro e pedofilia – Carlos Alberto Di Franco

“Tudo começa numa estação do metrô, onde o jogador encontra uma mulher e começa a molestá-la. Os estupros ocorrem primeiro no trem e depois num parque da cidade. Se o criminoso conseguir fotografar a vítima nua e chorando, ele tem acesso às duas filhas da vítima, também as violenta e, depois, obriga todas a abortarem.

Se o leitor imagina que estou relatando mais um caso escabroso de crime sexual, errou. Trata-se de uma reportagem, dura e dramaticamente verdadeira, sobre o mercado informal de entretenimento. Renato Machado, repórter do Estado, radiografou o conteúdo e a comercialização de games vendidos livremente na internet e nas ruas de São Paulo.

A reportagem do jornal encontrou o jogo japonês para computador, Rapelay, nos catálogos de pelo menos cinco vendedores ambulantes que trabalham na região das Ruas Santa Ifigênia e Timbiras, no centro de São Paulo. O Rapelay foi produzido em 2006 pela empresa japonesa Ilusion e no fim do ano passado chegou a outros países. Os jogos podem facilmente ser baixados pela internet, em sites de compartilhamento.

Além de ter como foco a violência sexual, o jogo também choca ao mostrar casos de pedofilia, pois uma das vítimas usa um uniforme de estudante colegial e a outra tem 10 anos de idade, segundo resenhas publicadas sobre o jogo. O estupro contra a segunda é feito num quarto com ursos de pelúcia. Após elas engravidarem, o criminoso tem de convencê-las a abortar, ou será jogado por elas nos trilhos do trem.

O Ministério Público Federal (MPF) tomou conhecimento da existência do jogo por meio de um oportuno alerta da juíza da 16ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo Kenarik Bouijkian Felippe. Como faz parte do Grupo de Estudos de Aborto, ela recebeu um e-mail com o conteúdo do Rapelay e repassou para o MPF.

O caso está sendo investigado pelo Grupo de Repressão a Crimes Cibernéticos do MPF. De acordo com o procurador da República Sérgio Suiama, uma das dificuldades para abrir uma investigação criminal é que a legislação brasileira não tipifica o abuso sexual simulado de crianças, adolescentes e adultos. “É um absurdo um jogo em que o objetivo seja um estupro, mas infelizmente não há preceitos legais para analisarmos o caso. Ele faz parte de uma grande discussão jurídica sobre até onde vai a liberdade de expressão e onde começa o crime”, diz.

Conversei com o procurador. O que ele percebe, com razão, é a dificuldade de reprimir um jogo produzido em outro país e que aqui só é comercializado clandestinamente. Combater a pirataria é importante, mas, como todos sabemos, não é nada fácil. Ademais, sublinha Sérgio Suiama, o monitoramento dos sites de compartilhamento é extremamente complicado. Esbarramos na dramática carência de normas internacionais que sejam de fato capazes de enfrentar os excessos do mundo virtual.

As empresas de comunicação e entretenimento, os legisladores, a sociedade e a família têm papel fundamental na luta contra ações criminosas e marcadamente antissociais. Cabe-nos a responsabilidade de falar claro. A liberdade de expressão termina onde começam o crime e o desrespeito aos valores éticos fundamentais. Produzir e comercializar um jogo que premia estupro e pedofilia é crime de primeira grandeza. A impunidade é uma arma devastadora da estabilidade social. É preciso encontrar mecanismos legais eficientes na repressão desses delitos.

Nós, jornalistas, formadores de opinião e empresários da comunicação, precisamos assumir firmemente a bandeira da cidadania. As empresas de comunicação éticas e sérias produzem entretenimento de qualidade e não podem ser confundidas com falanges criminosas do mundo virtual. Por isso devemos defender editorialmente as fronteiras que separam a liberdade de expressão do simulacro da liberdade. A falsa liberdade desemboca facilmente no crime hediondo. Matérias como as do repórter Renato Machado estão na melhor linha do jornalismo de qualidade.

Atualmente, graças ao impacto da internet, qualquer criança pode ter acesso a conteúdos corrosivos. Não é preciso ser psicólogo para que se possam prever as distorções afetivas, psíquicas e emocionais dessa perversa exposição virtual. Psiquiatras ouvidos pela jornalista Adriana Carranca, também repórter do Estado, foram enfáticos: os efeitos da exposição à violência são devastadores. A coordenadora da Psiquiatria do Hospital Albert Einstein, Ana Luiza Simões Camargo, explica que os jogos provocam uma certa permissividade em relação a situações de violência. “Aquilo que é horroroso se torna banal e até divertido”, adverte a especialista.

Mas a família é insubstituível. A demissão do exercício da paternidade traz consequências que ultrapassam, de longe, o âmbito familiar. A ausência de limites sempre acaba mal. Frequentemente, com o apoio das próprias mães, inúmeras crianças estão sendo condenadas prematuramente a uma vida “adulta” e sórdida. Privadas da infância, elas estão se comportando, vestindo, consumindo e falando como adultos. A inocência infantil está sendo impiedosamente banida. Por isso, a multiplicação dos casos de pedofilia e abuso sexual não deve surpreender ninguém. Trata-se, na verdade, das consequências da escalada da erotização infantil e da impunidade do criminoso e lucrativo mercado da pornografia.

A falta de limites e a ausência da família estão no cerne do problema. Se os filhos não são educados para o exercício da liberdade, equilibrada e responsável, pouco se pode fazer. É preciso chegar junto. Acompanhar, orientar, limitar. É preciso saber dizer não. O Brasil precisa, com urgência, resgatar os valores e as instituições básicas da sociedade. “

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br

Não, simplesmente não consigo imaginar uma pessoa normal (mentalmente saudável e equilibrada), se “divertindo” com um jogo que simula estupros e abuso sexual contra crianças. Deve ser um game para treinar futuros estupradores e pedófilos, não é?

No futuro, iremos colher os frutos amargos dessa banalização da violência em todas as suas formas. Já estamos colhendo, na verdade..


Pais e filhas

Março 29, 2009

Um homem de 59 anos foi preso na Colômbia no sábado acusado de abusar sexualmente de uma de suas filhas desde que ela tinha nove anos de idade.

Os estupros teriam engravidado a menina 14 vezes, sendo que 11 das crianças nasceram e sobreviveram.

O caso foi revelado após a filha, hoje com cerca de 30 anos, ter fugido do vilarejo de La Cabaña onde vivia com o pai e irmãos, alegando ter sido mantida prisioneira pelo pai.

A história é mais uma que lembra o caso do austríaco Josef Fritzl, de 73 anos, condenado há duas semanas à prisão perpétua pela acusação de manter uma filha prisioneira e violentá-la por 24 anos, gerando sete filhos com ela.

Na sexta-feira, a polícia italiana também anunciou a prisão de um homem de 64 anos, acusado de violentar a própria filha por 25 anos e ainda encorajar o filho a fazer o mesmo.

Arcedio Alvarez, do vilarejo de La Cabaña, na província central de Tolima, negou as acusações de estupro e incesto, alegando que sua filha é adotada e que por isso não havia cometido nenhum crime.

“Nós concordamos em manter um relacionamento romântico, porque nós realmente nos amávamos. Mas ela não é minha própria filha”, afirmou ele à Justiça. “

Fonte: Colombiano é preso acusado de engravidar a filha 14 vezes

O que está acontecendo com esses pais? Houve uma época em que os pais dariam a vida pelos seus filhos, e não pensariam duas vezes antes de fazer isso. Hoje, vemos pais que usam suas filhas como objeto sexual. É claro que esse tipo de coisa não ocorre apenas nos dias atuais; deve haver muito mais casos ainda do que se imagina, porque muitas filhas não têm coragem de denunciar seus próprios pais, apesar deles não terem agido como pais de verdade.  O egoísmo humano chega ao ponto de fazer com que esses pais não pensem duas vezes, antes de satisfazer seus desejos doentios, mesmo que para isso, precisem fazer sexo com suas próprias filhas. E pior, por anos e anos a fio, e não apenas uma única ocasião de abuso. Não entra na  minha cabeça que um pai consiga olhar para uma filha, gerada por ele, criada por ele, e pensar em ter relações sexuais com ela, a menos que seja uma pessoa doente, que precisa de tratamento psiquiátrico, além da punição penal.

O que esses pais entendem por “amor paternal”? Até que ponto chega o egocentrismo humano? Até que ponto chega essa busca de satisfação individual a qualquer custo?

O ser humano, quando sem bases, sem valores, sem ética, sem amor, mas acima de tudo, quando não tem capacidade de amar de forma saudável,  inclusive  os membros da sua própria família (vendo-os apenas como meios para alcançar determinados fins), pode se tornar um animal muito perigoso. O limite que  separa humanidade e animalidade é muito tênue. E depois de ultrapassado, o destino é o abismo.