Fico bastante triste ao ler textos escritos por alguns evangélicos, os quais deixam transparecer que se sentiriam felizes em ver instaurada uma teocracia crente no Brasil, em detrimento do Estado democrático e laico.
Isso é perceptível na forma como alguns se referem à sua religião como se fosse a única a ter direito de receber proteção e liberdade de culto e a única com direito à inspirar as leis do país. Qualquer oposição ou punição contra atos discriminatórios realizados por evangélicos, é vista como ataque e perseguição de um Estado anti-cristão governado por conspiradores ateístas ou satanistas. No meu ponto de vista, creio que os cristãos deviam ser os primeiros a se posicionar contra qualquer tipo de discriminação ou injustiça, mesmo que isso implique em ir contra seus pares religiosos, quando estes forem os culpados ou responsáveis. Ou será que temos que compactuar com atitudes preconceituosas e injustas cometidas por religiosos, só por compartilharmos da mesma fé? É certo existir essa parcialidade e corporativismo quando se tratam de nossos irmãos de fé? Eu não acho.
Outro exemplo é quando a justiça investiga líderes religiosos e logo alguns evangélicos começam a reclamar de perseguição, como se esses líderes estivessem acima da lei apenas por serem evangélicos. Justamente por serem líderes é que deviam dar exemplo de respeito à legislação (inclusive fiscal e tributária) do país. Se um líder religioso comete crimes, tem que pagar por eles como qualquer cidadão pagaria. E se fosse cristão de fato, se submeteria livremente à investigação e à punição pela lei do Estado caso comprovada a violação da lei, admitindo seus erros, e não incitando os membros de suas denominações a atacarem o Estado em represália, bradando aquela famosa frase, obviamente retirada do seu contexto original: “NÃO TOQUE NO UNGIDO DO SENHOR!”. Lembrem-se de que Jesus desprezou esse tipo de demonstração de poder político, que vemos muito no meio evangélico hoje. Fiéis transformados em massa de manobra política e também financeira, e tudo em “nome de Deus”.
Eu, como naturalmente democrata e humanista que sou, acharia o cúmulo do absurdo viver sob um governo onde houvesse uma religião de Estado, tipo o Irã. É inconcebível esse tipo de pensamento num país como o nosso, multi-cultural e multi-religioso. O governo deve existir para todos os cidadãos, e não só para determinadas castas que se consideram privilegiadas ou até mesmo “escolhidas” por Deus.
Vamos deixar de lado a filosofia dos porcos do “Animal Farm” de George Orwell, onde o que antes era igualdade entre todos os animais, se transformou em “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.”
Preze a sua liberdade de culto, pensamento e expressão, mas preze a liberdade de culto, pensamento e expressão dos outros também. Preze e defenda seus direitos civis, mas tenha o mesmo respeito pelos direitos civis dos outros, mesmo que não concordem com a sua opinião ou crenças. E não esqueça que onde existem direitos, existem também deveres, e que seus direitos terminam onde começam os direitos dos outros. Estamos num país relativamente livre, e devemos ser gratos por isso. Porque existem países onde há pena de morte para ateus, para cristãos, para homossexuais, onde pessoas são apedrejadas até a morte por motivos estúpidos, e já passamos pela vergonhosa época onde os negros precisavam construir igrejas só para eles, por não poderem entrar nas igrejas dos brancos. E hoje muitas igrejas tratam os homossexuais como os negros foram tratados no passado. Com certeza você não gostaria de viver em algum desses países que punem a divergência de opinião ou crença ou orientação sexual com a morte, certo? Principalmente se o candidato à pena de morte, for você.
Outro exemplo disso é a forma como algumas denominações pregam que seus membros têm “direito” à prosperidade, à riqueza, e tornar isso como sinal obrigatório para considerar alguém como “abençoado”. Como pode, um filho do Rei ser pobre, né? Você tem direito a ser rico, porque é filho de Deus, mesmo que isso implique em não se importar que outros passem necessidade. Mesmo que isso implique em utilizar meios nem sempre lícitos para atingir essa prosperidade. E buscar o Reino de Deus e sua justiça, quem se importa, né? Quem se importa se Jesus disse que a riqueza do cristão não é desse mundo, né? E quem se importa com o que disse Tiago em sua epístola, que a verdadeira religião é atender órfãos e viúvas em suas necessidades? Justiça social? Só se for para nós, os filhos do Rei. Para os “outros”, não. Afinal, se Deus é dono do ouro e da prata, e nós, filhos dEle, então temos que ser donos do ouro e da prata também. Mas onde é mesmo que estava o tesouro de Jesus?
Estranho esse cristianismo atual, onde em vez de justiça, prega-se a parcialidade (se a farinha é pouca, nosso pirão primeiro, como diz o ditado). Estranho esse cristianismo, onde se busca primeiro ficar milionário e próspero, e não o Reino. Estranho esse cristianismo, onde quem defende os marginalizados, fala sobre justiça social e denuncia os poderosos (inclusive os religiosos que se consideram pertencentes a uma casta especial acima dos demais), e não quer fazer acepção de pessoas, é apedrejado. Estranho esse cristianismo onde as pessoas procuram as igrejas pra buscar todo tipo de coisa, menos Deus.
Percebo com tristeza que falta a alguns evangélicos: integridade, autenticidade, amor pela justiça, amor pelo próximo, honestidade, inclusive intelectual. Mas falta principalmente, seguir Jesus. Seguir Jesus não tem muito a ver com desejar uma ditadura gospel e privar outras pessoas, que não compartilhem da mesma fé, de seus direitos civis, ou pregar uma “guerra santa” contra elas, não tem nada a ver com desejar poder político e financeiro para poder impor melhor nossas opiniões, não tem nada a ver com hipocrisia ou parcialidade quando se trata de julgar “irmãos de fé”.
Novembro 16, 2009 às 10:44 am |
A ironia é: os crentes protestaram e gritaram contra o acordo do Brasil com o Vaticano, alegando que “o Estado é laico”; mas quando esse mesmo Estado laico quer transformar a homofobia em crime, aí eles não lembram q o Estado é laico. Bando de hipócritas, eis o q são.