Entrevista com Karl Giberson – fé e evolução

Novembro 24, 2009

O subtítulo do seu livro é “como ser cristão e acreditar na evolução”. Mas não se “acredita” na evolução como se “acredita” em Deus, em anjos ou em Papai Noel…

Exato, e isso ressalta um aspecto muito importante desta controvérsia: que significado as pessoas pensam ver nas palavras que usamos? Muitas pessoas pensam que “evolução” significa “uma história ateísta sobre as origens”. Se perguntarmos a uma pessoa religiosa se ela acredita em evolução, muitos se sentirão levados a responder “claro que não!”

Mas há dois sentidos de “acreditar” que, para mim, são relevantes aqui. No sentido literal, quer dizer simplesmente “aceitar como verdadeiro”. Todos “acreditam” que dois mais dois são quatro. Esse sentido mais leve poderia se aplicar, penso eu, às pessoas que acreditam em Deus, mas para quem essa crença não tem consequências. Muitos deístas acreditam em Deus como acreditam nas leis da Física – há alguma coisa “lá fora” que existe, mas que efetivamente não significa nada de profundo para eles.

Mas há outro significado de “acreditar” que tem uma carga mais profunda. Minha crença em Deus tem implicações que minha crença na gravidade não tem. Mas eu acrescentaria que minha “crença” na evolução também me afeta em maneiras muito mais pessoais que a mera aceitação da teoria. Ela me leva a refletir sobre como eu me relaciono com os outros seres vivos, como eu me insiro na história natural do universo, como eu devo tratar os animais, o que eu deveria pensar sobre os primatas, e assim por diante. A evolução tem um poder transformador que muda a maneira como uma pessoa se relaciona com o mundo a seu redor – de formas que não se diferem muito da crença em Deus.

Uma pesquisa recente do Pew Forum apontou que 31% dos norte-americanos dizem que o homem e outros seres vivos foram criados exatamente como são, desde o início dos tempos; 32% dizem que eles evoluíram por processos naturais; e outros 22% falam em evolução “guiada por um ser supremo”. Isso é possível, ou o termo esconde visões como o Design Inteligente?

Uma “evolução guiada” é aceita por muitas pessoas, especialmente cristãos com conhecimento científico. Ela aparece sob nomes diversos, como “evolução teísta”, “criacionismo evolucionista”, ou “BioLogos”, o termo que usamos para nosso projeto (e que escolhemos para escapar da bagagem negativa que vem com o termo “evolução”).

Mas a ideia de que Deus guia a evolução é bem complexa. Para ela ser relevante, não podemos simplesmente pegar a versão secular da história e dizer “foi Deus quem fez”. É preciso fazer afirmações teologicamente sólidas sobre o que Deus fez ou está fazendo, e sobre como Ele está envolvido no processo.

Eu diria que nós, no BioLogos, defendemos uma versão limitada dessa “evolução guiada”. Nós acreditamos que ela é guiada no sentido de que o cenário como um todo está cumprindo as intenções do criador, mas, dentro dessa noção ampla, os detalhes incluem vários eventos aleatórios e contingentes.

Permita-me contar uma anedota para me fazer entender: quando ensino evolução a estudantes evangélicos no Eastern Nazarene College, eles normalmente se incomodam com a ideia de que Deus pode trabalhar de forma invisível através das leis naturais. Isso não se parece com o Deus bíblico que fala na sarça ardente, criou Eva tirando uma costela de Adão e fez chover fogo sobre Sodoma e Gomorra. Então eu pergunto aos alunos: “quantos de vocês creem que Deus os guiou até aqui?”, e muitos levantam as mãos. Em seguida pergunto “quantos de vocês foram guiados por meio de interrupções dramáticas e sobrenaturais do curso natural da vida?”, e ninguém levanta a mão.

A conclusão é óbvia: se Deus pode guiar pessoas através dos eventos corriqueiros do dia-a-dia, Ele pode guiar a história natural trabalhando por meio das leis da natureza. E aqui temos uma diferença fundamental em relação às alegações do Design Inteligente: não é necessário que Deus interrompa o curso natural das coisas para, de vez em quando, fazer diretamente parte do trabalho criativo. Em vez disso, temos um Deus que permeia todo o processo.

Além disso, o DI não é exatamente um ponto de vista particular. O saco de gatos deles é tão grande que inclui gente muito diferente: intervencionistas que aceitam a evolução desde que Deus dê as caras de tempos em tempos de forma detectável; criacionistas da Terra jovem; criacionistas da Terra antiga; e até gente que não crê em Deus. O livro de DI mais recente (Signature in the cell, de Stephen Meyer) diz que Deus criou a primeira célula, e daí em diante a seleção natural se encarregou do resto. É um tipo de “deísmo biológico”. O DI não passa de um movimento político em que antievolucionistas concordaram em deixar de lado suas divergências para combater a evolução. O caráter político do DI está se tornando cada vez mais evidente, e há sinais de que o movimento esteja perdendo força.

Mas se o processo evolucionário é movido a competição, seleção natural e mutações genéticas aleatórias, a “atividade criativa de Deus” não tem um papel pequeno demais para um ser todo-poderoso?

No fim das contas, precisamos olhar para a ciência. Parece mesmo que Deus está intervindo de formas dramáticas ao longo da história natural? Nós não podemos colocar Deus numa caixa feita de acordo com nosso interesse e insistir que Suas ações se conformem à nossa ideia de como Deus deveria se comportar.

Eu perguntaria, a quem prefere uma “presença” maior de Deus na história, de que modo eles procuram por Deus no mundo. Essas pessoas buscam um Deus das lacunas, que aparece naquilo que a ciência não explica? Ou buscam por Deus na grandeza de um pôr-do-sol, na nobreza de um voluntário de sopão, ou no sorriso de uma criança? Sem saber, nós aderimos à teologia de um Dawkins quando insistimos que Deus deve funcionar como um engenheiro cujas ações devem ser claramente identificadas pela ciência.

Seu livro relata casos de ridicularização dos criacionistas na mídia, como em episódios dos Simpsons, mas o senhor acredita que essa estratégia não é muito adequada para levar as pessoas a aceitar a evolução. Como, então, levar o público a ver a compatibilidade entre evolução e fé religiosa?

A chave, para a maioria, é desenvolver uma compreensão da Bíblia que vá além do que aprenderam no catecismo ou na escola dominical. O catecismo conta histórias sobre o Gênesis que são adequadas para crianças, mas depois ninguém revisita essas histórias para ajudar os jovens adultos a criar uma visão madura do Gênesis. Descobrir que o livro sagrado tem várias indicações de que não se trata de história literal é uma experiência libertadora para os cristãos. Se nosso primeiro contato com a criação segundo o Gênesis ocorresse na vida adulta, não aceitaríamos tão rapidamente a literalidade das histórias de cobras falantes, jardins mágicos e Deus “descendo do céu” para conversar com Adão e Eva diariamente. Mesmo os nomes dos personagens principais são pistas. A palavra hebraica para Adão significa apenas “homem”, e Eva significa “vida”. Pense numa história em português, ou inglês, sobre um casal chamado Homem e Vida num jardim mágico. Será que não entenderíamos imediatamente que não se trata de registro histórico?

Também é importante – embora não tanto quanto a questão da Escritura – o fato de que existe uma montanha de evidências a favor da evolução. O mapeamento do genoma comprova sem sombra de dúvida que os humanos e outros primatas têm um ancestral comum. Apresentar essa evidência é muito importante para ajudar as pessoas a fazer essa transição.

O que funciona melhor para quem nega a evolução: mostrar a evidência favorável à evolução, apelando para a razão? Ou mostrar que a evolução não prejudica a crença em Deus, apelando para a religiosidade?

É fundamental proteger a religião dos supostos “ataques evolucionistas”. A maioria das pessoas está mais preocupada em estar de acordo com sua religião do que em estar cientificamente atualizadas. O problema no caso dos cristãos evangélicos, infelizmente, é que existem prateleiras sem fim de livros argumentando que a ciência comprova o criacionismo. Para a maioria das pessoas leigas no assunto, a batalha nem é entre ciência e religião, e sim entre “a ciência de que eu gosto” e “a ciência que ataca minha religião”.

No seu livro o senhor parece um tanto pessimista e desiludido sobre o rumo da discussão sobre a evolução, que deixou de ser uma busca pela verdade científica e se tornou uma guerra cultural, onde o que importa é desmoralizar o adversário. Nós realmente chegamos a um ponto sem volta?

Temo que sim. Algumas semanas atrás eu estava em um impressionante museu no Kentucky, mantido pelo Answers in Genesis, o maior e mais eficiente promotor do criacionismo de Terra jovem em todo o mundo. Eles têm uma livraria enorme e, enquanto eu a explorava, era esmagado pelo gigantismo do esforço feito para atacar a evolução. Havia centenas de livros, DVDs, material didático para todas as séries (até pré-escola), canecas, camisetas com mensagens antievolução… Answers in Genesis é uma máquina de propaganda multimilionária, com o propósito de convencer cristãos de que eles não devem acreditar em evolução. Eles têm revistas, um site cheio de informações, workshops, um time de “cientistas”, livros sem fim e muito mais. Tudo isso ruiria se eles se convencessem de que a evolução é real. Por outro lado, eu não consigo imaginar como fundamentalistas científicos como Richard Dawkins e Daniel Dennett fariam as pazes com fundamentalistas religiosos como Ken Ham, o chefe de Answers in Genesis.

Bento XVI, quando era cardeal, pediu que houvesse um debate honesto sobre a legitimidade das afirmações metafísicas feitas em nome da teoria de Darwin. Na sua opinião, cientistas como Dawkins “sequestraram” Darwin como fizeram os eugenistas descritos em seu livro?

Certamente Dawkins e o Novo Ateísmo sequestraram Darwin, e nós deixamos que eles dessem o tom do debate em termos de explicação científica, e não de Metafísica. A ciência leva crédito pelo que pode explicar, e Deus leva crédito pelo resto. Se Deus não é necessário para explicar o que a ciência vai desvendando, Ele não é mais necessário para nada. Nós deixamos um “antiteólogo”, Dawkins, nos dizer o que a Teologia pode ou não fazer.

Apesar de descrever o criacionismo como um fenômeno norte-americano, o senhor alerta que ele está se tornando global. De fato, um dos criacionistas mais famosos do mundo hoje é um muçulmano turco, Harun Yahya. É possível frear a expansão do criacionismo?

Se o criacionismo, profundamente hostil à ciência, conseguiu fincar raízes nos Estados Unidos na mesma década em que pusemos o homem na Lua, é impossível impedir que ele finque raízes num país como a Turquia. O criacionismo tem uma vantagem injusta sobre a ciência: ele continua reciclando qualquer alegação que funcione, ainda que já tenha sido refutada. Isso é tão prevalente que até Answers in Genesis tem uma página em seu site com argumentos antievolução que já foram rebatidos, mas muitos criacionistas não estão nem aí e continuam usando esses mesmos argumentos.

No caso de Harun Yahya nós podemos receber socorro de outra direção. Ele tem sido acusado de ligação com o crime organizado. Se ele fosse para a cadeia, a causa da ciência na Turquia ganharia tanto quanto ganhou nos Estados Unidos quando Kent Hovind (um criacionista da Terra jovem acusado de diversos crimes de ordem fiscal) foi preso.

2009 é o ano de Darwin, pelo bicentenário de seu nascimento e pelos 150 anos de A origem das espécies. Com o ano quase no fim, qual sua avaliação dos esforços feitos para contra-atacar os argumentos criacionistas e promover a conciliação entre religião e evolução?

Esse foi um ano interessante. Por um lado, o Novo Ateísmo dominou a agenda, alinhando-se tanto contra o criacionismo quanto contra a religião em geral. A reação por parte de pensadores religiosos consolidou a polarização, que provavelmente responderá pela parte mais ruidosa do debate nos próximos anos.

Mas, entre esses dois extremos, vozes moderadas se levantaram. Intelectuais agnósticos ou não-religiosos contestaram a posição ateísta de que “a religião é má e deve sumir”. Michael Ruse, Chris Mooney, Eugene Scott e outros afirmam que alienar as pessoas religiosas em nome da ciência só pioraria as coisas para a própria ciência ao alimentar o antievolucionismo. E também – e nisso eu tenho um papel relevante – houve o surgimento da Fundação BioLogos, criada por Francis Collins para incentivar a conciliação entre evolução e cristianismo. Apesar de – ou talvez por causa de – ser uma ponte entre ciência e fé, temos sido criticados pelos dois extremos, enfurecendo todo mundo, de Ken Ham (do Answers in Genesis) e Bill Dembski (do Discovery Institute, promotor do DI) até Sam Harris e Jerry Coyne, dois líderes do Novo Ateísmo.

A experiência do BioLogos tem sido estimulante. Somos a única voz dentro do cristianismo evangélico lutando pela harmonia entre ciência e fé – o que inclui, claro, a aceitação da evolução. Nós esperávamos ser um pequeno e solitário grupo que cresceria com o tempo, mas descobrimos que já existe um número considerável de cristãos, geralmente entre as camadas mais instruídas, que já compartilhavam da nossa posição, mas estavam marginalizados porque não havia quem os representasse em público. Nós estamos emergindo como o Flautista de Hamelin da Ciência, atraindo cristãos e conseguindo enorme apoio. Quase diariamente alguém nos manda um e-mail querendo saber como participar. Isso é encorajador e me faz pensar que talvez haja uma luz no fim deste longo túnel da anticiência.

Karl Giberson – entrevista – Tubo de Ensaio


História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal – Alexandre Herculano

Novembro 22, 2009

“Há aí a hipocrisia, que, depois de minar debaixo da terra durante anos, surge, enfim, à luz do sol e, balouçando o turíbulo, incensa todos os que abusam da força, declarando-os salvadores da religião, como se a religião precisasse de ser salva ou coubesse no poder humano destruí-la. Tudo isso tumultua e brada; tudo isso tripudia à porta do pretório e traduz o sussurrar das orgias que vão lá dentro em anúncios de paz e de prosperidade. O vulgacho espera de cima a realização dos seus ódios contra a classe média, a satisfação à sua inveja; os velhos interesses pensam numa indenização impossível; os hipócritas querem aproveitar o ensejo de granjear as multidões para o fanatismo e, com tal intuito, recorrem a um meio, infalível em todos os tempos, para se obter esse fim, o ínculcarem-lhes de preferência o que na superstição há de afirmações mais incríveis. — Os milagres absurdos renascem, multiplicam-se em frente dos recrutamentos: o convento e a casa professa já disputam ao quartel a geração nova. O cercilho e o bigode jogam o futuro sobre o tambor posto em cima da ara. O praguejar soldadesco cruza-se com a antifona do breviário. A água benta aspergida do hissope episcopal, vai diluir no chão o sangue coalhado dos espingardeamentos, e o sacerdote crê ter afogado o clamor daquele sangue que se imbebe na terra, porque entoou hossanas sacrílegos ao triunfar dos algozes, no momento em que as vítimas caíam mártires da sua fé na civilização e na liberdade.”

[...]O fanatismo tem a nobreza de todas as paixões ardentes: ergue os olhos para Deus, que calunia, mas a quem crê servir e honrar: é a tempestade do coração humano que passa grandiosa, como as da natureza, e que deixa após si um sulco de estragos. A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada. A civilização, nos seus progressos, enfraquece gradualmente o fanatismo, até o aniquilar. A hipocrisia vive com todos e com tudo e acomoda-se a qualquer grau de cultura social. Se mão robusta lhe rasga o manto da religiosidade de que se cobriu, rindo impiamente, e aponta aos que passam as suas pústulas asquerosas, brada contra a calúnia, chora e declara-se mártir, reservando no peito para os dias propícios vinganças que ultrapassem a ofensa e que, vindas dela, são sempre implacáveis.

Foi por isso que o Salvador assinalou a hipocrisia com o selo da sua tremenda maldição. Aquele para quem o futuro não tinha mistérios sabia que ela seria em todos os tempos a mais cruel inimiga do cristianismo e da humanidade.”[...]

[...]Se é delatado, às vezes por testemunhas falsas, qualquer desses malaventurados, por cuja redenção Cristo morreu, os inquisidores arrastam-no a um calabouço, onde lhe não é lícito ver céu nem terra e, nem sequer, falar com os seus para que o socorram. Acusam-no testemunhas ocultas, e não lhe revelam nem o lugar nem o tempo em que praticou isso de que o acusam. O que pode é adivinhar e, se atina com o nome de alguma testemunha, tem a vantagem de não servir contra ele o depoimento dessa testemunha. Assim, mais útil seria ao desventurado ser feiticeiro do que cristão. Escolhem-lhe depois um advogado, que, freqüentemente, em vez de o defender, ajuda a levá-lo ao patíbulo. Se confessa ser cristão verdadeiro e nega com constância os cargos que dele dão, condenam-no às chamas e os seus bens são confiscados. Se confessa tais ou tais atos, mas dizendo que os praticou sem má tenção, tratam-no do mesmo modo, sob pretexto de que nega as intenções. Se acerta a confessar ingenuamente aquilo de que é culpado, reduzem-no à última indigência e encerram-no em cárcere perpétuo. Chamam a isto usar com o réu de misericórdia. O que chega a provar irrecusavelmente a sua inocência é, em todo o caso, multado em certa soma, para que se não diga que o tiveram retido sem motivo. Já se não fala em que os presos são constrangidos com todo o gênero de tormentos a confessar quaisquer delitos que se lhes atribuam. Morrem muitos nos cárceres, e ainda os que saem soltos ficam desonrados, eles e os seus, com o ferrete de perpétua infâmia. Em suma, os abusos dos inquisidores sãos tais, que facilmente poderá entender quem quer que tenha a menor idéia da índole do cristianismo, que eles são ministros de Satanás e não de
Cristo.”
[...]

Alexandre Herculano

História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal – Alexandre Herculano (livro online)


Ainda sobre a ameaça muçulmana

Novembro 21, 2009

Recentemente rolou um texto na internet onde um pastor supostamente enfrenta um líder muçulmano que supostamente estaria vindo para o Brasil, para supostamente participar de um encontro com outros líderes muçulmanos, para supostamente tratar da conversão da América do Sul ao Islamismo. A razão de usar a palavra “supostamente” tantas vezes, é porque não acredito no que foi relatado. Principalmente porque o tal pastor aparecia como o “herói” que enfrentou o “muçulmano do mal” no aeroporto… achei o texto excessivamente fantasioso e muito pouco verossímil. Hoje, lendo A Bacia das Almas, encontrei um texto do Paulo Brabo exatamente falando sobre esse assunto:

“Há muitos sentidos em que é desnecessário e antiético semear o pânico acenando com uma iminente islamização do Ocidente, e O mundo está mudando – aparentemente o título do vídeo de propaganda anti-islâmica que mencionei há pouco e que, informaram-me por email, é versão brasileira de uma produção norte-americana – é exemplo acabado dessa mentalidade a ser denunciada.

Em primeiro lugar há o mais escancarado, o fato de que o vídeo (e sua mentalidade) empunham a máscara da acusação e promovem o caminho fácil da demonização do outro. Para os produtores do vídeo, o mundo não apenas será muçulmano, mas será um mundo certamente pior precisamente por essa razão. Está pelo menos implícito que os muçulmanos são gente do mal; que o Islam é uma mancha que está ameaçando com sua imundície o seio imaculado e cristão do Ocidente.

Esta tonalidade de discurso é especialmente mesquinha e perigosa, porque semear o medo é um dos modos mais certeiros de se produzir alienação, estranhamento e intolerância – e, como bônus – controlar as massas.

Não há como deixar de lembrar que foi essa a estratégia usada pelos nazistas para alienar os judeus. Multidões sem fim de alemães sensatos foram calados por esse discurso, e as ferramentas utilizadas para manipulá-los foram precisamente as mesmas a que recorre esse novo vídeo cristão.

Não havia ainda o Youtube, mas na Alemanha nazista os cidadãos também recorriam a artefatos culturais arbitrários a fim de orientarem suas posições. Der Ewige Jude (”O judeu eterno”, 1940), um dos filmes mais odiosos de todos os tempos, demonizava os judeus com praticamente os mesmos argumentos com que O mundo está mudando demoniza os muçulmanos (veja as imagens comparativas que ilustram este artigo).

Der Ewige Jude alertava que, caso não fossem interrompidos imediatamente, os judeus dominariam o mundo; O mundo está mudando profetiza que, se não forem detidos por cristãos de coração puro, os muçulmanos engolirão a Terra.

O que está implícito na iconografia comum é a solução comum. Não se engane: para os produtores de O mundo está mudando os muçulmanos devem ser a qualquer custo detidos, marginalizados, neutralizados e eliminados – se não pelo bem opcional da conversão, quem sabe pelo mal necessário do campo de refugiados. O segundo ponto que precisa ser espetacularmente denunciado é a hipocrisia da coisa toda. A posição oficial do vídeo (bem como do discurso subjacente) é de que o que está em risco, aquilo que precisa ser em última instância defendido contra a ameaça muçulmana, é “nossa cultura”. Quem assiste pode até pensar que os produtores querem ver preservado “para nossas crianças” os valores morais e a herança artística/histórica da civilização ocidental.

É hipocrisia, porque trata-se de um vídeo de propaganda: o que quer promover é a religião/religiosidade cristã (em sua modalidade evangélica) contra todos os competidores. É ainda hipocrisia em dose dupla, porque o que acaba defendendo não é nem mesmo o cristianismo formal, mas o modo de vida capitalista ocidental, que se vê constantemente ameaçado por manifestações mais temperadas e menos egoístas de islamismo.

O curioso é que, pessoalmente, a única coisa que realmente lamento no avanço muçulmano em terreno europeu é precisamente aquilo que o vídeo afirma (hipocritamente) lamentar: a eventual perda de uma imponderável parcela da herança cultural do ocidente. Se é doloroso para mim pensar em igrejas milenares que se tornarão mesquitas, é por causa do peso de “milenares”, e não por causa do peso de “igrejas”.

Porém como em todos os casos, os cristãos devem abraçar irrestritamente a humildade, e lembrar que muitas dessas igrejas milenares – como descobri nesta passagem pelo norte da Itália – foram elas mesmas construídas sobre (e, em alguns casos, em) templos romanos que estavam ali muito antes delas.

Para resumir: não vejo como uma eventual Europa “muçulmana” poderá representar ameaça maior para a herança do cristianismo do que, digamos, os Estados Unidos – país bélico e consumista (não há diferença) que se considera em grande parte o epítome de “cristão”. Se sobreviveu a essa mácula e a essa representação, sobreviverá a qualquer coisa.

O legítimo movimento cristão, que é livre e gratuito e que edifícios fechados não podem conter, não tem por definição como ser ameaçado de fora. A única coisa que pode maculá-lo, é claro, somos nós, que dizemos Senhor, Senhor mas não fazemos o que ele diz.

Fora nossa própria hipocrisia, nada há que temer.

Finalmente, resta lembrar que ser cristão requer a vida do cidadão que se sujeita a esse projeto. Como exemplificado por Jesus e entendido por São Paulo e todos os mártires e São Francisco e Tolstoi e Gandhi e Martin Luther King e Madre Teresa,  a única coisa que um cristão pode efetivamente fazer em defesa da sua fé é precisamente não lutar por ela. Lutar pelo cristianismo é baixar a cabeça e morrer. Se essa rendição for voluntária, como aparentemente está sendo, haverá talvez maior mérito para os que ousarem entregar o espírito.”

Ainda sobre a ameaça muçulmana – Paulo Brabo

Bom, acho que não preciso acrescentar mais nada. Melhor, vou acrescentar mais isso: deixem as religiões dos outros em paz, parem de demonizar as outras religiões, parem de generalizar e imputar a todos os muçulmanos o que é característica da minoria (assim como vocês não gostam quando outras pessoas generalizam a respeito de evangélicos; como por exemplo, quando dizem que todos os pastores só estão interessados em dinheiro e que todo crente é burro). Parem de tentar causar medo nas pessoas, cuidem antes de moralizar suas próprias igrejas, coisas que vocês não têm conseguido, e parem de comprar todas as brigas que os EUA mandam vocês comprarem.


The Quest for the historical Israel – Israel Finkelstein & Amihai Mazar

Novembro 21, 2009

Três décadas de diálogo, discussão e debate entre as disciplinas inter-relacionadas com a arqueologia Sírio-palestina, história antiga de Israel e a bíblia hebraica, sobre a relevância dos dados constantes na bíblia para a reconstrução histórica do antigo Israel, criaram a necessidade de uma articulação equilibrada dos problemas e suas potenciais soluções. Este livro reúne pela primeira vez sob uma única obra,  This book brings together for the first time and under one cover, um paradigma emergente e corrente, articulado por duas figuras importantes nos campos de arqueologia e história de Israel. Apesar de Finkesltein e Mazar possuírem pontos de vista diferentes sobre a história antiga de Israel, eles concordam que as informações culturais, as tradições bíblicas e as antigas fontes escritas do Oriente Próximo são todos significantes para a busca histórica sobre Israel. Os resultados da pesquisa de ambos foram organizadas em uma síntese acessível e paralela da reconstrução histórica do antigo Israel, que facilita a comparação e o contraste entre as interpretações. Os ensaios históricos aqui apresentados são baseados em palestras dadas em outubro de 2005, no Sixth Biennial Colloquium of the International Institute for Secular Humanistic Judaism em Detroit, Michigan.

The Quest for the Historical Israel: Debating Archaeology and the History of Early Israel – Israel Finkestein & Amihai Mazar


Religião e ciência coexistem na teoria evolucionista

Novembro 21, 2009

por Zhengzheng Pan

O estereótipo cristão tem por muito tempo, como uma de suas palavras-chave, o ser anti-ciência (teoria evolucionista em particular) ou estúpido. É óbvio porque a batalha entre religião e ciência retratada na cultura pop e na crença comum parece plausível; a história dos seis dias de Gênesis contra a teoria física dos 14 bilhões de anos, levanta uma bandeira vermelha imediatamente. E enquanto os cientistas têm seus experimentos replicáveis, métodos mensuráveis e resultados observáveis, teólogos passam longe desse tipo de fatos científicos e evidências. Entretanto, há muitos fatos sólidos e testáveis sobre ciência e religião/Cristianismo, que você pode não saber.

Francis Collins, diretor do National Institute of Health, é um médico e geneticista prestigiado. Ele é mais conhecido pela liderança do Projeto Genoma Humano e descobertas sobre doenças genéticas.  Descrito pela Endocrine Society como “um dos cientistas mais talentosos da atualidade”, Francis Collins é também cristão, um cristão por opção e um cristão que leva sua fé a sério. Na verdade, ele é um cristão que fornece evidências para a teoria evolucionista.

Não vou dar um palpite aleatório ou escolher alguns números no Google para mostrar quantos cristãos não vêem Darwin como inimigo, porque não foi essa a razão pela qual escrevi esse artigo. Francis Collins disse em uma entrevista: “eu atualmente não creio que haja qualquer oposição entre o que acredito como cristão e o que sei e tenho aprendido como cientista.” Mas muitos não são assim. Um premiado professor de Química que é também um cristão sincero, disse num encontro que ele se sentia como se estivsesse vivendo uma “vida dupla”. É por isso que estou escrevendo esse artigo. Eu jamais neguei a existência de barreiras entre religião e ciência, nem quero ver isso como se fosse um campo de batalha.

Alguns temem que a ciência seja ofensiva a Deus. A bíblia diz “ame a Deus com toda a sua mente.” Se fomos abençoados com um cerébro que pode pensar, racionalizar, questionar e explorar, é um dom dado por Deus. Por que não usar? Um artesão não vai achar ofensivo usar seu talento manual para fabricar uma prateleira. Então por que é ofensivo usar a mente para conduzir pesquisa científica? Somos gente, e não fantoches – isso não é demais?Além disso, ciência não é somente equações matemáticas, tubos, DNA e coisas como essas. Quando um artesão fabrica uma prateleira, há ciência nisso. Experimentamos a ciência de tantas maneiras que podemos nem sempre estar cientes disso.

As primeiras universidades no Leste Europeu foram abertas sob a direção da igreja católica. Nicolau Copérnico, Sir Francis Bacon e Johannes Kleper foram alguns dos cientistas pioneiros que desenvolveram a base da moderna astronomia, filosofia e do método científico em geral. Eles eram todos cristãos. Galileu Galilei, amplamente conhecido por seu conflito com a igreja católica, defendeu a bíblia  enquanto ensinava suas aparentemente contraditórias conclusões. Atualmente na Europa, Estados Unidos e em todo o mundo, há muitas universidades administradas por várias igrejas e os pesquisadores dessas universidades estão continuamente contribuindo com a comunidade científica. Há vários brilhantes cientistas ateus na comunidade também. O ponto é que o relacionamento entre ciência e religião, cristã ou não, não tem que ser, ou pode não ser como a maioria percebe.

Voltando à questão da odiava evolução contra o criacionismo: quando escrevo um software um faço um bolo, sigo passos para realizar isso. Os segmentos de códigos são reunidos e realizam o grande projeto que eu pretendia quando comecei. A farinha e os ovos formam uma massa que em seguida se transforma num bolo. Este é o processo que escolhi seguir para fazer o bolo. Então, se Deus decidiu usar o processo evolucionário como o mecanismo para alcançar o que pretendia, quem vai dizer “Não”?

Religion and science coexist in evolutionary theory – Zhengzheng Pan