Fanatismos

“O fanatismo assume diversos rostos. Arrisco, porém, a afirmar que o pior de todos será o fanatismo de tipo religioso.
É claro que o fanatismo político tem regado a História com o sangue de muitos inocentes, que o fanatismo desportivo (clubístico-futebolístico) tem alimentado ódios e contendas permanentes, e que o fanatismo aplicado a outras dimensões humanas como o racismo e a xenofobia tem semeado a destruição um pouco por todo o lado.
Mas a verdade é que o fanatismo religioso é o que representa um escândalo maior, já que é alimentado em nome de Deus, um Deus que devia traduzir-se em manifestações de compaixão, misericórdia, amor e caridade, em consonância com a revelação do carácter divino.
O fanatismo (de fanum, templo) representa, antes de mais, uma rigidez de pensamento e uma fixidez de conceitos, um facciosismo, uma obstinação, mas acima de tudo configura medo.
O medo do fanático é o medo da mudança, o medo de vir a descobrir ter sido enganado, o medo de ter que alterar os seus esquemas conceptuais e a sua cosmovisão, o medo de reconhecer que passou parte da vida a percorrer os caminhos do erro e a divulgá-lo aos outros. Quanto mais rígida é uma pessoa mais dolorosa é a mudança e mais difícil a sua reconversão.
Uma boa forma de evitar os fanatismos é ser capaz de, a cada momento, vestir a pele do Outro, esforçar-se por entender o seu ponto de vista, penetrar o seu mundo, tentar perceber como ele chegou ali.
O fanatismo é cego. Cego para a razão, para o bom senso e a razoabilidade. O fanatismo age sem compaixão. Para o fanático, as ideias são mais importantes do que as pessoas, e os objectivos mais elevados do que os meios para os alcançar.
O fanatismo é um extremismo, um fundamentalismo, uma forma de estar permanentemente tensa e crispada. Responde a palavras e frases-chave com uma reacção pavloviana, automática e não-pensante.
O fanático não é feliz, não pode ser feliz. Apenas finge sê-lo, por conveniência. Este mundo está infestado de fanáticos, da política à religião, passando pelo futebol.
E pensar que todas estas áreas da actividade humana foram concebidas na óptica da libertação do corpo, da mente e da alma…”

Fonte: A Ovelha Perdida

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