Como os hebreus que escreveram o livro do Gênesis entendiam a Terra e o Universo?
Segundo o historiador Francisco Chagas Vieira Lima Jr, a cosmologia descrita no Gênesis reflete a mitologia presente na época em todo o Oriente Próximo:
“O fato é que a Bíblia reflete esses mesmos pensamentos pré-científicos:
1) O Gênesis afirma que “no principio Deus criou os céus e a terra”. No entanto, não afirma que ele criou o mar. Sobre as águas, apenas diz que “o Espírito pairava sobre as faces das águas”.
Gênesis 1.6 pressupõe a existência de um “Universo Aquático”, afirmando que o “firmamento” (o céu) serviu de separação para as águas.
Isso é notório, porque textos judaicos como O Livro de Enoch, o Testamento dos Doze Patriarcas, etc., afirmavam que havia um “Oceano Celestial”, e que o Céu foi feito pra não deixá-lo inundar a terra. Foi daí que veio toda a água do Dilúvio, quando Deus “abriu as janelas do céu”.
Se para nós, o espaço sideral é um conjunto de poeira estelar e vácuo, para os antigos hebreus era um imenso oceano sem fim. Logo abaixo do firmamento, o sol e as estrelas “deslizavam”.
É dentro desse quadro que aparece a “porção seca”, a terra.
2) A Bíblia endossa a idéia de que “a terra está estendida sobre os mares”. Em Salmos 24,2 diz: “Fundou a terra sobre os mares, e sobre as correntes a estabeleceu”.
A palavra hebraica para “correntes” é “NAHAR”, que faz referência as correntes marinhas, ou rios.
A palavra terra usada aqui é TEBEL, que significa “mundo em sua totalidade”. Também é usada em 2Sm 2.8 no caso das pilastras que sustentam (e suspendem) a terra sobre (acima do) “nada”.
Salmos 136.6 diz a mesma coisa, quando afirma que: “Aquele que estendeu a terra sobre as águas”.
No entanto, de fato, sabemos que o planeta terra não está “estendido sobre os mares”, pois a terra não é uma “ilha flutuante” no formato de “disco” (como afirma Isaías 40.22: “Deus está assentado sobre o disco terrestre”).
Algumas traduções bíblicas da passagem de Isaías 40.22 trazem: “Redondeza da terra”, dando a entender que o faz alusão ao formato esférico da terra. No entanto, essa tradição está equivocada.
A palavra hebraica usada em Isaías 40.22 para “redondeza” é “HUG”. Esta é usada em Provérbios 8.27 se relacionando com “traçar”: “Quando ‘TRAÇAVA’ um circulo sobre a face do abismo”. Traçar um circulo sobre a face do abismo? O que isso significa?
Significa que, se alguém olhar 360° ao seu redor para o horizonte, terá a impressão de que a terra possui um formato de pizza. Os antigos hebreus pensavam que o oceano (“abismo”) era circular, e por isso usaram essa palavra.
“HUG” faz referência a delineamentos bidimensionais. É por isso que Isaias 40.22 usa essa palavra: “Deus está assentado sobre o ‘DISCO TERRESTRE’” (tradução correta).
Note em Provérbios 8.27 que se usa a palavra hebraica “HAQAQ” (traçar) antes de “HUG” (circulo). Traçamento de círculos só ocorrem em figuras bidimensionais.
O interessante é que todos os povos da antiguidade, principalmente logo depois da Era do Ferro, acreditavam que a terra tinha o formado de disco.
O texto de Jó 26.7 traz a seguinte passagem: “Ele estende o norte sobre o vazio, Suspende a terra sobre o nada”.
A palavra hebraica usada em Jó 26:7 é “Talah”. De acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, esta palavra significa “pendurar, enforcar”. Is. 22.24 a usa para “estaca”. Ester 7.9 a usa para “empalar”. Esta palavra também é usada em Dt 21.22 para “pendurar” o “maldito” no madeiro.
“Suspender”, no contexto da palavra hebraica talah, é o mesmo que “levantar”, “pendurar”, “elevar”, que implica “tirar do chão”, “elevar”, “segurar em cima”, “não deixar cair”.
Logo, se a bíblia afirma que a terra está “suspensa” sobre o nada, é porque ela pode cair sobre esse nada. Todas as culturas tinham essa concepção de que a natureza do universo se consistia nos conceitos de cima e baixo. A terra está suspensa “acima do nada”, é o que o texto de Jó 26.7 quer dizer. Ela está elevada a altura.
Ou seja, segundo Jó 26.7, a terra está “pendurara sobre o Nada”. A visão mitológica do universo em Jó 26.7 se adequa com o termo usado “Norte”. Norte em hebraico nesse texto é “TSAPON”. De acordo com o Dicionário Internacional de teologia do Velho testamento: “Na mitologia cananéia o norte era considerado o lugar de reunião dos deuses, Os deuses reuniam-se no monte tsapân” (p. 1302). Desse modo, a palavra hebraica para “norte” no texto de Jó faz referência ao monte mítico Saponu. Desse modo, pode-se constatar que a cosmologia bíblia se adequa perfeitamente a cosmologia pagã, que fazia parte de seu contexto histórico.
Outros comentaristas colocam “tsapon” como uma estrela. Logo, o texto só faz sentido em um contexto mitológico. Pois que sentido há em “estender o Norte sobre o vazio?”.
Os antigos egípcios, mesopotâicos e hindus também acreditavam que a terra estava “suspensa” sobre o “nada”. Tanto egípcios como mesopotamicos acreditavam que “pilares” suspendiam a terra sobre o nada. Já os hindus afirmavam que a tartaruga que levava a terra nas costas nadava sobre o “nada”. A Bíblia cita esses “pilares” em 1Samuel 2.8: “porque do SENHOR são os alicerces da terra, e assentou sobre eles o mundo”.
A palavra terra é TEBEL, que significa “mundo em sua totalidade”. Também é usada em 1Sm 2.8 no caso das pilastras que sustentam (e suspendem) a terra sobre o nada.”
[...]Os estudiosos são unânimes em afirmar que o bloco de Gên l, l-2,4a, embora constitua a primeira página da Bíblia, foi redigido em época relativamente recente, ou seja, depois de muitas outras páginas bíblicas; e… redigido em estilo poético, não no estilo de um documento de ciências naturais.[...]
[...]Já numa primeira aproximação chamam nossa atenção o ritmo muito burilado e o estilo polido da peça. O conceito de Deus que aí transparece, é assaz elevado ou filosófico: o Criador não é descrito antropomorficamente, à guisa de «Oleiro» nem de «Jardineiro», nem de «Cirurgião», nem de «Arquiteto», nem de «Alfaiate», como na passagem seguinte (cf. Gên 2,7.8.21; 3.21). Ao contrário, o autor dá a ver que, unicamente pela expressão de sua vontade ou pela sua palavra, o Senhor Deus comunica existência a todos os seres. Ora tais características manifestam uma fase da mentalidade de Israel, humanamente falando, já bem amadurecida na escola do Senhor.[...]
[...]Toda a narrativa se dispõe dentro dos moldes de «sete dias», que parecem corresponder a sete estrofes de um poema.[...]
[...]O simbolismo dos números ou o emprego místico artificioso de certas cifras domina todo o texto do «hexaémeron».
Sabemos que, para os antigos, os números muitas vezes representavam não quantidades, mas qualidades; atribuídos a determinado sujeito, podiam indicar propriedades morais ou valores religiosos, não quantidades físicas nem valores matemáticos. Os números que gozavam de maior estimação, eram 3, 4, seus derivados 7 ( = 3 + 4), 12 ( = 3×4) e 10; cada um deles exprimia, do seu modo, a perfeição.
A distribuição de toda a narrativa em 6 + 1 dias (seis dias de trabalho e um de repouso) obedece a um proceder de estilo assaz usual nas antigas literaturas orientais. Significava que uma obra havia sido iniciada (6) e, por fim, consumada, rematada (+ 1); os escritores punham em relevo na série o número 7 ou a sétima unidade (símbolo da plenitude ou perfeição), para inculcar que a obra havia sido realmente levada a termo feliz, coisa que não sempre se dá nos empreendimentos humanos.[...]
[...]O exame literário do texto de Gên l,l-2,4a acaba de evidenciar que o escritor não tinha em vista redigir um documento de índole científica para nos instruir sobre as fases pelas quais passou o mundo na sua formação. Não; o setor das ciências naturais ou a «Física» ficava fora das preocupações do autor; o que lhe interessava, era apresentar a «Metafísica» ou o aspecto transcendente, religioso, do mundo e do homem. Para realizar essa tarefa, é claro que o escritor tinha que aludir às criaturas, mencionando as principais categorias destas, a fim de as relacionar com Deus. Em sua maneira de aludir, teria podido servir-se (se o Espírito Santo o tivesse iluminado especialmente) da nomenclatura usual no século XX: haveria então falado da Via Látea e das galáxias esparsas pelos espaços cósmicos, haveria mencionado as eras geológicas que conhecemos, a energia nuclear, a estrutura da matéria com seus eletrônios. . . Contudo, o Senhor não quis revelar tais noções ao antigo escritor judeu, pois as ciências naturais não são propriamente o objeto visado pela Bíblia; para obter o seu fim, bastava que o autor usasse da linguagem de sua época antiga; foi o que de fato se deu. Donde se vê quão importante se torna tomarmos consciência das concepções e da nomenclatura de cosmologia dos antigos judeus, para entendermos devidamente o «hexaémeron».[...]
[...]Como se vê, foram em parte os pressupostos contingentes da cosmologia judaica que levaram o autor sagrado a apresentar a criação dentro do esquema de seis dias de trabalho e um de repouso. O escritor tinha necessariamente que recorrer a esses pressupostos, porque precisava de mencionar as diversas criaturas visíveis; não intencionava, porém, dar a autoridade de dogmas a tais informações cosmológicas. Sendo assim, está claro que hoje em dia, uma vez ultrapassadas as concepções de ciência dos judeus, ninguém se deve julgar obrigado (melhor ainda: ninguém se pode julgar habilitado) a ensinar em nome da S. Escritura que o mundo foi feito dentro da moldura de 3 + 3 dias.[...]
Leia o texto todo aqui: Bíblia: o mundo foi criado em 6 dias?
E agora, trechos de textos de Ricardo Gondim:
“[...]A linguagem mítica não pode traduzir-se em linguagem racional sem perder sua razão de ser. Como a poesia, ela contém significados
complexos demais para expressar-se de qualquer outra maneira. Ao tentar transformar-se em ciência, a teologia só conseguiu produzir uma caricatura do discurso racional, porque essas verdades não se prestam à demonstração científica.[...]“
[...]O texto acima é de Karen Armstrong – “Em Nome de Deus – O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo”. – Cia das Letras.[...]
[...]O mito não é definido pelo objeto da narrativa ou do relato, mas pelo modo como narra, ou pelo modo como profere as mensagens. Assim, quando a Bíblia narra o Gênesis, não intenciona mostrar que Deus criou o mundo em sete dias de vinte e quatro horas ou em eras. A narrativa mítica do Gênesis é muito mais profunda, pois revela o cuidado criacional de um Deus que estabelece um mundo com desígnio. Quando se procura instrumentalizar o texto das Escrituras para comprovação de verdades “científicas”, não se presta um serviço à Revelação, mas um desserviço.[...]
[...]O fundamentalismo surgiu como uma reação ao liberalismo teológico, principalmente o alemão. Acontece que o liberalismo estava errado em suas premissas. Ele se valia de pressupostos “científicos” para demonstrar que a Bíblia não era verdadeira. E o fundamentalismo quis mostrar o contrário, a Bíblia podia ser testada cientificamente sem perder sua credibilidade.[...]
[...]Esse problema metodológico levou a discussão para um plano menos importante. Provar ou não provar que Jonas existiu e foi engolido por um grande peixe é menos importante do que a mensagem contida na narrativa. E assim por diante.[...]
[...]O esforço de tentar reforçar ou contradizer explicações científicas usando o mito sagrado, que é o grande esforço do fundamentalismo, além de se mostrar inócuo, criou enormes conflitos no diálogo entre ciência e fé.[...]
Algumas pistas para que o evangelicalismo brasileiro ouse pensar sua fé com novas categorias:
1. A Bíblia não pode ser lida cientificamente. É preciso aprender a
lê-la como narrativa simbólica da história, mítica e poética. O esforço de tornar os Livros Sagrados um só texto é irreal. Não se pode querer fazer Abraão concordar com Paulo, e nem o Qohélet – Eclesiastes – com Tiago. A Bíblia não é só um livro, mas vários e eles não são homogêneos entre si. Seus autores discordam em vários assuntos.
2. A Bíblia não é um livro que se propõe uma revelação codificada e
sistematizada de Deus. Ela mostra as percepções de pessoas, tribos,
povos e, principalmente, do povo judeu sobre o cuidado de Deus para com seu povo. Ela não revela como Deus construiu a história, mas como o homens o fizeram e como Deus não os abandonou quando agiram mal. Muitas vezes, a compreensão do povo sobre Deus se mostrará ambígua, porque os homens são contraditórios.
3. A essência do ser de Deus continua um mistério para a humanidade. O que se conhece é seu cuidado – pathos – divino. Portanto, toda especulação sobre o ser absoluto de Deus deve ser considerada apenas especulação. Os antropomorfismos, tais como paternidade, amizade, cuidado pastoral, se expressaram plenamente na encarnação. A mais alvissareira notícia do cristianismo não é que Jesus seja a imagem de Deus, mas que Deus é a imagem de Jesus.“
Soli Deo Gloria
© 2005 Ricardo Gondim
Agora, pense!
A Bíblia foi escrita por seres humanos falhos e limitados como nós, e não por semi-deuses ou homens que foram “possuídos” por Deus ao escrever. Não foi o próprio Deus quem pegou “lápis e papel” e escreveu a Bíblia com Suas próprias palavras. Se tivesse sido assim, nenhum ser humano na face da Terra a entenderia. A Bíblia é uma obra humana, que fala sobre Deus, e relacionamento de seres humanos com esse Deus e com outros seres humanos, palavra de Deus contextualizada para uma época e um povo. E que pode ser contextualizada para a nossa época sem perder em nada a sua essência. Mas isso demanda algo mais do que o simples ato de acreditar, é preciso um exercício mental, é preciso estudar, pensar, usar a imaginação. Exatamente o que Jesus queria que as pessoas fizessem quando ensinava por meio de parábolas, usando como personagens, pessoas que viviam no seu mundo: agricultores, pescadores, pastores, fariseus, pessoas comuns do povo, samaritanos etc. Ele ensinava usando histórias prontamente aplicáveis à vida daquelas pessoas, exemplos totalmente compreensíveis para elas, e atos comuns do cotidiano: plantar, colher, pastorear, pescar, fabricar vinho, recolher água, fazer pão etc, e deixava que elas pensassem por si mesmas. Ele nem de longe era uma pessoa que vivia fora da realidade da sua época, muito pelo contrário. A realidade era o substrato que ele usava para embasar seus ensinamentos.
Fé racional é diferente de ficar acomodado na zona de conforto da credulidade. E não, você não precisa acreditar em nada disso que escrevi. Pense, reflita, medite, busque, e tire suas próprias conclusões.
Precisamos tirar a Bíblia do lugar que devia estar sendo ocupado por Deus. O fato de ser uma obra humana, não a torna menos capaz de conter revelações de Deus, tanto que elas estão lá. Mas não podemos deixar de ver que ela possui trechos onde demonstra conivência com a escravidão, com a guerra de extermínio, a violência, o genocídio, o racismo, o apedrejamento (inclusive de crianças desobedientes). Aí eu pergunto: até nesses trechos, ela é palavra de Deus, sem erros, sem preconceitos humanos, sem contexto da época? Você realmente acredita que Deus determinou o genocídio de povos inteiros, e depois nos mandou Jesus para falar de amor, perdão, de amar e orar pelos inimigos, dar a outra face, ter compaixão, perdoar 70 x 7, pagar o mal com o bem? Ou acredita que Deus se importaria em mandar duas ursas despedaçarem um grupo de crianças, que tiveram a petulância de chamar um profeta de “careca”, só pra satisfazer o ego do profeta? Apenas para citar dois exemplos, podia ter citado muitos mais.
Pense…