Em nome de Deus – livro

Abaixo, o prefácio do livro “Em nome de Deus”, de David Yallop. Leitura recomendada.

O livro pode ser lido na íntegra, no seguinte link:

http://www.geocities.com/emnomededeus/prologo.htm

Em nome de Deus – David Yallop

Prólogo

O líder espiritual de quase um quinto da população mundial manipula um imenso poder. Mas qualquer observador desinformado de Albino Luciani, no início de seu pontificado como Papa João Paulo 1, acharia difícil acreditar que aquele homem realmente encarnava tanto poder. A timidez e humildade emanando daquele pequeno e quieto italiano de 65 anos levaram muitos a concluir que o seu papado não seria particularmente notável. Os bem-informados, no entanto, sabiam que não era bem assim: Albino Luciani iniciara uma revolução.

A 28 de setembro de 1978 ele era Papa há 33 dias. Em pouco mais de um mês, lançara-se por diversos cursos de ação que, se prosseguidos, teriam um efeito direto e dinâmico sobre todos nós. A maioria aplaudiria suas decisões, uns poucos ficariam assustados. O homem que fora rapidamente chamado de “O Papa Sorriso” tencionava remover os sorrisos de diversos rostos no dia seguinte.

Naquela noite, Albino sentou para comer na sala de jantar no terceiro andar do Palácio Apostólico, na Cidade do Vaticano. Tinha a companhia de seus dois secretários, Padre Diego Lorenzi, que trabalhara como ele em Veneza por mais de dois anos, quando Luciani, como cardeal, ali fora Patriarca, e Padre John Magee, que assumira o posto recentemente, depois da eleição papal. Enquanto as freiras que trabalhavam nos aposentos papais pairavam ansiosamente pelas proximidades, Albino Luciani comeu uma refeição frugal, de sopa, vitela, vagens frescas e um pouco de salada. Bebia ocasionalmente um gole de água e pensava nos acontecimentos do dia e nas decisões que tomara. Não queria a posição. Não procurara nem solicitara votos para ser o novo Papa. Agora, como Chefe de Estado, tinha de assumir as terríveis responsabilidades.

Enquanto as Irmãs Vincenza, Assunta, Clorinda e Gabrietta serviam silenciosamente os três homens, que assistiam ao noticiário pela televisão sobre os acontecimentos que preocupavam a Itália naquela noite, outros homens, em outros lugares, preocupavam-se profundamente com as atividades de Albino Luciani.

As luzes ainda se achavam acesas um andar abaixo dos aposentos papais, no Banco do Vaticano. Seu diretor, o Bispo Paul Marcinkus, estava absorvido por problemas mais prementes que o seu Jantar. Nascido em Chicago, Marcinkus aprendera tudo sobre a sobrevivência nas ruas de Cicero, em Illinois. Durante a sua meteórica ascensão à posição de “Banqueiro de Deus”, sobrevivera a muitos momentos de crise. Confrontava-se agora com a crise mais séria que já lhe surgira. Nos últimos 33 dias, seus colegas no banco haviam notado uma mudança intensa no homem que controlava os milhões do Vaticano. O extrovertido americano de 1,90m de altura, 100 quilos de peso, tornara-se soturno e introspectivo. Estava visivelmente emagrecendo e seu rosto adquirira uma palidez extrema. Sob muitos aspectos, a Cidade do Vaticano é uma aldeia… e é muito difícil se guardar segredos numa aldeia. Marcinkus tomara conhecimento dos rumores de que o novo Papa iniciara discretamente uma investigação pessoal do Banco do Vaticano e especificamente dos métodos usados pelo bispo americano em sua condução. Por muitas vezes, desde o advento do novo Papa, Marcinkus lamentara o negócio em 1972 com o Banca Cattolica del Veneto.

O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Jean Villot, era outro que ainda se achava em seu gabinete de trabalho naquela noite de setembro. Estudava a lista de nomeações, renúncias a serem pedidas e transferências, que o Papa lhe entregara uma hora antes. Villot aconselhara, argumentara e protestara, mas tudo em vão. Luciani se mostrara intransigente.

Era uma reformulação dramática, por quaisquer padrões. Lançaria a Igreja por novos rumos, que Villot e os outros na lista, prestes a ser substituídos, consideravam altamente perigosos. Quando aquelas mudanças fossem anunciadas, haveria a respeito milhões de palavras escritas e pronunciadas nos meios de comunicação do mundo inteiro, analisando, dissecando, profetizando, explicando. A verdadeira explicação, no entanto, não seria discutida, jamais seria oferecida ao conhecimento público. Havia um denominador comum, um fato que ligava todos os homens que estavam em vias de ser substituídos, Villot sabia disso. E o que era mais importante, o Papa também sabia. Fora um dos fatores que o levaram a agir, a necessidade de despojar aqueles homens de poder concreto e colocá-los em posições relativamente inofensivas. Era a Maçonaria.

Mas não era a Maçonaria convencional que preocupava o Papa, embora a filiação a essa sociedade fosse considerada pela Igreja motivo para excomunhão automática. Sua preocupação maior era com a loja maçônica ilegal que se expandiria além das fronteiras da Itália em sua busca de dinheiro e poder, denominando-se P2. O fato de ter penetrado no Vaticano e estabelecido vínculos com padres, bispos e até mesmo cardeais fez da P2 um anátema para Albino Luciani.

Villot já começara a ficar profundamente preocupado com aquele novo papado antes mesmo daquela última bomba. Era um dos poucos que tinha conhecimento do diálogo ocorrendo entre o Papa e o Departamento de Estado, em Washington. Sabia que, a 23 de outubro, o Vaticano receberia uma delegação do Congresso americano. No dia seguinte, essa delegação teria uma audiência particular com o Papa. O assunto seria o controle da natalidade.

Villot estudara cuidadosamente o dossiê do Vaticano sobre Albino Luciani. Também lera o memorando secreto que Luciani, então Bispo de Vittorio Veneto, enviara a Paulo VI, antes da encíclica Humanae Vitae, que proibira aos católicos todas as formas artificiais de controle da natalidade. Suas próprias discussões com Luciani não deixavam margem a qualquer dúvida sobre a posição do novo Papa na questão. Villot também não tinha qualquer dúvida sobre o que Luciani tencionava fazer. Haveria uma mudança de posição que alguns classificariam de traição a Paulo VI, enquanto muitos aclamariam como a maior contribuição da Igreja ao século XX.

Em Buenos Aires, outro banqueiro estava pensando em João Paulo I naquele final de setembro. Nas semanas anteriores, discutira os assuntos propostos pelo novo Papa com seus protetores, Licio Gelli e Umberto Ortolani, dois homens que podiam incluir, entre suas muitas atividades, o completo controle sobre Roberto Calvi, Presidente do Banco Ambrosiano. Calvi já estava sobrecarregado de problemas, antes mesmo da eleição papal que colocou Albino Luciani no trono de São Pedro. O Banco da Itália investigava secretamente o banco de Calvi em Milão desde abril. Era uma investigação impelida por uma misteriosa campanha contra Calvi, que começara ao final de 1977. Os cartazes forneciam informações sobre algumas das atividades criminosas de Calvi e sugeriam outras tantas.

Calvi conhecia exatamente o progresso da investigação do Banco da Itália. Sua amizade Intima com Licio Gelli lhe garantia um relato diário. Estava igualmente a par da investigação papal no Banco do Vaticano. Como Marcinkus, sabia que era apenas uma questão de tempo antes que as duas investigações independentes compreendessem que sondar um daqueles impérios financeiros era sondar a ambos. Estava fazendo tudo, na extensão do seu poder considerável, para frustrar a investigação do Banco da Itália e proteger o seu império financeiro, do qual se achava no processo de roubar mais de um bilhão de dólares.

Uma análise cuidadosa da situação de Roberto Calvi em setembro de 1978 deixa absolutamente claro que, se o Papa Paulo VI fosse sucedido por um homem honesto, o banqueiro sofreria a ruína total, o colapso de seu império financeiro e certamente a prisão. E não havia a menor dúvida de que Albino Luciani era um homem assim.

Em Nova York, o banqueiro siciliano Michele Sindona também acompanhava ansiosamente as atividades do Papa João Paulo 1. Havia mais de três anos que Sindona lutava contra as tentativas do governo italiano de extraditá-lo. Queriam que ele fosse levado a Milão para enfrentar a acusação de desvio fraudulento de 225 milhões de dólares. Em maio daquele ano, parecia que Sindona finalmente perdera a longa batalha. Um juiz federal americano decidira que o pedido de extradição deveria ser atendido.

Sindona permanecera em liberdade, sob uma fiança de três milhões de dólares, enquanto seus advogados se preparavam para uma última cartada. Exigiram que o governo dos Estados Unidos provasse que havia motivos concretos para justificar a extradição. Sindona assegurava que as acusações levantadas contra ele pelo governo italiano eram obra de comunistas e outros políticos de extrema esquerda. Seus advogados também afirmavam que o promotor de Milão escondera provas da inocência de Sindona e que seu cliente quase que certamente seria assassinado ou recambiado à Itália. A audiência estava marcada para novembro.

Naquele verão, em Nova York, havia outras pessoas igualmente ativas por conta de Michele Sindona. Um membro da Máfia, Luigi Ronsisvaíle, um assassino profissional, ameaçava de morte a testemunha Nicola Biase, que anteriormente prestara depoimento contra Sindona no processo de extradição. A Máfia também expedira um contrato contra a vida de John Kenney, assistente de promotor federal, que atuava no processo. O preço que se oferecia pela morte do promotor era de 100 mil dólares.

Se o Papa João Paulo I continuasse a investigar os negócios do Banco do Vaticano, então não adiantariam todos os contratos da Máfia para evitar que Sindona fosse extraditado de volta à Itália. A teia de corrupção no Banco do Vaticano, que incluía a legalização do dinheiro da Máfia por seu intermédio, ia muito além de Calvi, estendendo-se até Michele Sindona.

Em Chicago, outro Príncipe da Igreja Católica preocupava-se e irritava-se com os acontecimentos na Cidade do Vaticano. Era o Cardeal John Cody, chefe da arquidiocese mais rica do mundo. Cody reinava sobre dois e meio milhões de católicos e quase três mil sacerdotes, sobre 450 paróquias e uma receita anual que ele se recusava a revelar em sua totalidade a quem quer que fosse. Estava na verdade acima dos 250 milhões de dólares. O sigilo fiscal era um dos problemas que atormentavam Cody. Ele já dominava Chicago há 13 anos em 1978.

Durante esse período, os pedidos para sua substituição haviam alcançado proporções extraordinárias. Padres, freiras, trabalhadores leigos e pessoas de muitas profissões seculares solicitaram a Roma, aos milhares, o afastamento de um homem que consideravam um déspota.

O Papa Paulo se angustiara por anos com a perspectiva de remoção de Cody. Pelo menos em uma ocasião reuniu coragem suficiente e tomou a decisão, só para revogar a ordem no último momento. A personalidade complexa e torturada de Paulo era apenas parte do motivo para a vacilação. Paulo sabia que havia outras alegações contra Cody, secretas, com provas substanciais, que indicavam a necessidade urgente de substituir o Cardeal de Chicago.
Ao final de setembro, Cody recebeu um telefonema de Roma. A aldeia que era a Cidade do Vaticano deixara transpirar outra informação — e o Cardeal Cody sempre pagara muito bem por informações importantes, ao longo dos anos. O interlocutor avisou-o de que, onde o Papa Paulo se angustiara na indecisão, seu sucessor João Paulo agira. O Papa decidira que o Cardeal Cody seria substituído.

Mais de três desses homens pelo menos se ocultavam na sombra de outro, Licio GeIli. Chamavam-no “11 Burattinaio” — o titereiro. Os títeres eram muitos e se espalhavam por vários países. Controlava a P2 e, através dela, a Itália. Em Buenos Aires, a cidade onde discutira com Calvi o novo Papa, o titereiro organizou a triunfante volta do General Perón ao poder — um fato que Perón subseqúentemente reconheceu ao ajoelhar-se aos pés de Gelli. Se Marcinkus, Sindona ou Calvi estavam ameaçados pelos vários cursos de ação planejados por Albino Luciani, era de interesse para Licio Gelli que tais ameaças fossem removidas.

É mais do que evidente que, a 28 de setembro de 1978, todos esses homens, Cody, Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona e Gelli tinham muito a temer se o papado de João Paulo 1 continuasse. E igualmente evidente que todos eles teriam muito a ganhar, por diversas maneiras, se o Papa João Paulo 1 morresse subitamente.

Foi o que aconteceu, em algum momento entre o final da noite de 28 de setembro de 1978 e o início da madrugada de 29 de setembro de 1978, 33 dias depois de sua eleição, Albino Luciani morreu.

Hora da morte: desconhecida. Causa da morte: desconhecida.

Estou convencido de que os fatos totais e as circunstâncias completas descritas nas páginas subsequentes contêm a chave para a verdade sobre a morte de Albino Luciani. Estou igualmente convencido de que um desses seis homens já iniciara, no começo da noite de 28 de setembro de 1978, um curso de ação para resolver os problemas apresentados pelo pontificado de Albino Luciani. Um desses homens se encontrava por trás de uma conspiração que aplicou a Solução Italiana.

Albino Luciani fora eleito Papa a 26 de agosto de 1978. Pouco depois do Conclave, o cardeal inglês, Basil Hume disse: — A decisão foi inesperada. Mas depois que aconteceu, parecia total e inteiramente certa. O sentimento de que ele era justamente o que desejávamos foi tão generalizado que compreendemos que ele era, inegavelmente, o candidato de Deus.

Trinta e três dias depois o candidato de Deus morreu.

O que se segue é o resultado de três anos de investigações contínuas e intensivas sobre essa morte. Desenvolvi diversas regras para uma investigação dessa natureza. Regra Um: Começar pelo início. Verificar a natureza e personalidade do morto. Que tipo de homem era Albino Luciani?

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